Antes, leia Em Defesa da Língua Portuguesa
A leitora Ana Cinderela comentou:
"Primeiro vc disse q língua é martelo;não temos q nos orgulhar do martelo nem da língua; depois vc disse q língua é cultura; então cultura é martelo? não temos q nos orgulhar da nossa cultura também? (...) outra perguntinha, assim, só pra eu entender direito; se patriotismo é uma prisão das mais imbecilizantes, pq a maior potência do mundo tem um povo tão patriota, ufanista e xenófobo? ou não são assim as pessoas dos EUA? (sem falar do povo da França, Inglaterra, Itália etc); e como disse o João Paulo, não vale dizer q é contra a coerência; desculpe a sua amiguinha "imbecil", Ale, mas eu sou patriota, sim; fazer o q? ninguém é perfeito, né?"
Minha única bandeira é a liberdade. Defendo o direito de todos poderem dizer e fazer o que quiserem (desde que não prejudiquem outros, claro) e isso inclui o direito de chamar seu festival de Brasília Music Festival ou de usar delivery ao invés de entrega.
Os americanos têm uma pá de qualidades, mas são sim o povo mais patriota e ufanista (não xenófobo) do mundo. A questão é: isso é bom? A Ana parecer achar que sim. Já eu acho que todo aquele culto à bandeira, todo aquele modo de falar da pátria como se ela fosse uma religião, muito ridículo e perturbador.
Quando eu digo que o patriotismo é embotante, imbecilizante e patético, é justamente nos americanos que estou pensando. Eles são o exemplo vivo dos perigos do patriotismo, para que todo o mundo olhe e diga: não sei por onde vou, sei que por aí não vou.
É assim que queremos ser? Esse é o padrão que meus leitores patriotas acham que devemos seguir? É assim que uma nação democrática deve se comportar? Quer dizer que vocês odeiam e temem os americanos imperialistas, mas acham que o certo é ser como eles?
Desculpem, mas sou o oposto: cresci e fui educado entre os americanos, e tenho muita admiração por eles. Entretanto, defendo um outro caminho.
Sim, sendo babacamente patriotas, eles se tornaram potência. E isso é bom? Qual o benefício de ser potência? Para o americano médio, nenhum, a não ser fazer dele alvo preferencial de bombas em todo o mundo. O cidadão americano, ao longo do século vinte, foi arrastado para mais guerras do que qualquer outro no mundo. Dominam a Terra, mas para o americano que perdeu o pai no Vietnã, um avô na Coréia e um bisavô na Primeira Guerra Mundial, isso não é lá muito consolo.
É muito bom morar em um país rico, justo, democrático, mas em uma potência? Muito melhor ser sueco, canadense, australiano, suiço. Pelo menos esses, como qualquer país, só são arrastados para as guerras que lhe dizem respeito diretamente. E tem um governo que funciona, escolas, hospitais, etc.
Meu grito, então, é para que nos afastemos o máximo possível do exemplo negativo que os Estados Unidos representam. Já vimos o que um patriotismo doentio fez por eles. Queremos o mesmo para o Brasil? É por esse caminho que queremos seguir?
De modo que, Ana, ainda não entendi: qual foi a incoerência que você viu?
Orgulho de Ser Destro
Na Prisão Patriotismo, falei um pouco dessa manifestação mais babaca do patriotismo que é o orgulho pelos feitos dos outros. Por exemplo: “ganhamos” a Copa, “somos” penta, etc. E eu pergunto: nós quem, cara-pálida? Você estava em campo? Fez algum gol? Estava no banco, pelo menos?
Durante a discussão de língua e tradução, muita gente veio bradar seu orgulho em ser brasileiro.
Mas eu não tenho orgulho de ser destro. Não tenho orgulho de ter 1,79m de altura. Não tenho orgulho de ter olhos e cabelos castanhos. Não tenho orgulho, muito pelo contrário, dos meus quase 100 kg.
Por que cargas d'água teria orgulho de ser brasileiro?
Ser brasileiro, assim como ser destro, não é nenhum mérito meu, não é nada que eu fiz, foi uma circunstância fortuita e totalmente fora do meu controle.
Faz tanto sentido ter orgulho de ser destro quanto de ser brasileiro.
Eu devo mesmo entender tudo errado.
Enquanto vejo as pessoas tendo orgulho de ser católicas, vascaínas, cariocas, brasileiras, mangueirenses, circunstâncias fortuitas ou independentes de mérito pessoal, aquelas pessoas que têm um justificado orgulho das coisas que realmente fizeram, dos seus feitos individuais, são rotuladas de arrogantes, vaidosas, insuportáveis.
Outro dia, mais um escritor famoso veio dizer, em entrevista, que Gilberto Freyre era intragável de tão vaidoso. Tudo bem, Freyre era reacionário e tinha várias atitudes políticas indefensáveis, como apoiar toda e qualquer ditadura que visse pela frente, mas o homem foi um dos maiores gênios que o Brasil produziu. Casa Grande & Senzala é, na minha modesta opinião, a maior contribuição brasileira à cultura mundial, uma idéia límpida, bem defendida e insightful, que coloca Freyre no panteão dos grandes pensadores da humanidade. Ele tinha todo o direito de ser vaidoso, de ter orgulho do que fez.
Dizem que Washington Olivetto também é assim. Não conheço o Olivetto. Mas, se for, é porque tem todo o embasamento empírico para tanto: o homem é um dos profissionais mais premiados e reconhecidos da sua área em todo o mundo.
Ou seja, as pessoas se orgulham de uma goleada da seleção, da qual não participaram em absolutamente nada, mas rotulam de vaidoso e arrogante um homem que tem orgulho de sua própria obra.
O Olivetto, pelo menos, tem orgulho dos gols que ele mesmo marcou.
Das Coisas Naturais
O leitor João escreveu:
"Não é só o homem de hoje que é tribal. O homem é tribal desde sempre e só agora está a começar a deixar de o ser. Basta pensar que há dez anos atrás era impossível teres leitoras de todo o mundo a mandarem-te fotos dos seus pezinhos. Na prática, as tribos existem, e sempre hão-de existir, porque ninguém consegue dar conta de tudo. Preocupas-te tanto com os problemas dos brasileiros como com os dos moçambicanos, mas a verdade é que podes fazer mais pelos brasileiros, e quanto aos moçambicanos, podes nem sequer saber com que é que te estás a preocupar. Nós tratamos dos que nos estão próximos porque nos é fisicamente impossível tratar de todos. E nós defendemos os nossos porque é deles que dependemos, e não dos outros. E isto foi repetido tantas vezes na história da humanidade que agora já nasce com o homem. E por isso digo que a minha casa é melhor que a da vizinha, que a minha terra é maior que a outra, que o meu país é melhor que o vosso, etc. É por isso que acho que o patriotismo não pode ser tão duramente condenado, porque é algo tão natural como falar e andar.
Outra coisa que queria deixar aqui é o termo de comparação. As coisas não comparadas são sempre relativas. A comparação dá sempre um ar mais concreto à coisa. Dizer que algo é "bom" é muito abstracto, dir-se-ia mesmo que falta lá a escala de 1 a 10, mas se dissermos que é "melhor que", então já se tem uma boa aproximação do valor da escala. Se eu disser que gosto da minha namorada, ou mesmo pelo facto de ela ser minha namorada, está implícito que eu a prefiro a muitas outras que conheço. Se eu disser que gosto de viver no meu país, está implícito que não me sentiria tão bem noutro país qualquer. Mas se disser que amo a humanidade, isso quer dizer o quê? Que gosto menos dos marcianos? Repara: se amas a humanidade, ama-la muito ou pouco? Amas mais a humanidade ou a tua mulher? Amas mais a humanidade ou a ti próprio? No fundo, no fundo, qual é a diferença entre dizer que se ama tudo e dizer que não se ama nada?"
João, você tem razão, o patriotismo é natural como o falar e andar, assim como é natural eu querer já sair possuindo qualquer mulher que me dê tesão, ou eu ter medo ou nojo de gente que tem a pele toda escura (ou seja, que são diferentes de mim), como o grito que dei quando vi o meu primeiro negro, ainda criança de colo. Também é natural morrermos aos 30 anos de idade e comermos carne crua com os dedos. Literalmente TODA a belíssima aventura humana é a história de como superamos o que nos era natural em nome do que era certo e justo.
Suas outras perguntas são melhores ainda. Concordo que amar todos é não amar nenhum. Mas melhor não amar nenhum do que privilegiar alguns sem nenhum motivo lógico ou aparente.
Acho que a única viagem que vale a pena empreender é para dentro.
Sejamos nós os cristovãos colombos de nós mesmos, os pedro álvares cabrais de nossa psique.
O Ressentimento É uma Prisão
Todos os nossos instintos animais nos ensinam a proteger os nossos (nossa família, nossa tribo) e a temer tudo o que nos é estranho.
Quando eu vi uma pessoa negra pela primeira vez, ainda criança de colo, eu gritei, apavorado. Nada mais natural do que uma criança branca, que nasceu e cresceu entre brancos, ainda puro instinto, tenha medo de um ser todo preto. Inaceitável seria que eu ainda estivesse assim 30 anos depois.
A maioria dos meus leitores (ou assim espero) consideraria preconceito e arrogância se julgar superior aos angolanos somente porque eles vivem em um país mais fraco, mais pobre e sem destaque algum no cenário mundial.
Mas esses mesmos leitores vivem acorrentados em uma prisão de ódio, ressentimento e inveja contra os americanos.
Desprezar o mais fraco por ser mais fraco é a mesma prisão que odiar o mais forte por ser mais forte.
Naturalmente, não estou falando só de patriotismo. A maioria de nós vive acorrentado em uma prisão de ódios, ressentimentos, invejas e desprezos pelas pessoas que nos cercam.
Havia um certo rapaz barbudo que muita gente considera santo. Eu não, mas às vezes acho que dou mais valor ao que ele dizia do que muita gente que come seu corpo e bebe seu sangue.
Devemos perdoar quem nos ofendeu não pra ser bonzinhos, ou para ir pro céu, mas para nos libertar da ofensa. A ofensa não perdoada é cancerígena. Ela fica purgando dentro de nós, até se tornar fatal. A injúria passada, o xingamento engolido acaba nos definindo: nós nos tornamos o insulto recebido.
O objetivo do perdão não é premiar o perdoado, mas libertar o perdoador.
Dêem a César o que é de César e não olhem pra trás. Ofereçam a outra face e não se fala mais nisso. Estejam acima das pequenas coisas da vida.
Sejam grandes!
Postada no blog entre Outubro 07 e 09, 2003
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