Meu pai e minha mãe eram divorciados mas moravam juntos. Minha casa era composta de quatro suítes, habitadas por quatro adultos (ou, pelo menos, assim eu e minha irmã nos pensávamos e éramos tratados) sexualmente ativos. Nós tínhamos uma cama de casal em nosso quarto, a chave da porta, privacidade total, um carro só nosso, e não tínhamos hora pra voltar, desde que informássemos onde estávamos. Ainda por cima, éramos razoavelmente ricos: juro que acho que tive a melhor adolescência possível.
Hoje, me olho no espelho e vejo um homem centrado e bem resolvido, emocional e intelectualmente. Meus pais que não me ouçam, pois iriam ficar insuportáveis, mas cada vez eu os considero mais sábios.
Depois de tragédias como essa, então, mais ainda.
A mãe da Liana disse que ela era uma adolescente madura e obediente. O primeiro não que ouviu da mãe foi quando pediu para ir acampar com Felipe. A primeira vez que desobedeceu à mãe foi quando fugiu para ir acampar com ele.
O pai da Liana está dando entrevistas pedindo para os adolescentes ouvirem os pais, que os pais sabem do que estão falando:
"Queria colocar para os adolescentes que ouçam os pais. A questão é o adolescente parar para ouvir o pai, para que eles não olhem para a gente como quem não sabe o que fala. Gostaria que os adolescentes repensassem o que estão fazendo, que tenham mais responsabilidade, não pensem que o mundo é só alegria, que é o raciocínio de qualquer adolescente."
Discordo do pai da Liana. Os pais, em geral, não sabem do que estão falando não. Pelo contrário, é incrível ver como os pais esquecem rapidamente como é ser adolescente.
Concordo que os pais têm mais experiência de vida. Concordo que os pais, ao contrário dos adolescentes, sabem que vão morrer e que o mundo não é essa maravilha toda.
Mas, como todo conhecimento, essa sabedoria não vale nada se não for corretamente aplicada. Se os pais conseguissem adquirir essa valiosa experiência toda SEM esquecer como é ser adolescente, aí sim eles seriam capazes de ajudar seus filhos.
Não sabemos porque os pais de Liana proibiram a viagem.
Pode ser porque ela era rica e ele pobre? Pode. Conheço famílias ricas que fazem isso. Pode ser porque ele era gói e ela era judia? Pode. Conheço famílias judias que fazem isso.
Vamos dar a eles o benefício da dúvida e teorizar que o motivo foi que, afinal, uma menina de 16 é muito nova pra ir acampar sozinha com um cara de 19, ainda mais os dois estando apaixonados. A chance de um pau sem querer escorregar pra dentro de uma boceta era gigantesca. Pior, um pau não circuncisado. Oy!
Mas o que há de tão errado nisso afinal? A adolescência é pra isso mesmo. Melhor ensinar à filha a importância de tomar pílula ou usar camisinha do que tentar impedi-la de transar. Até ensiná-la a não namorar pobre seria mais eficiente do que tentar impedi-la de dar pra um pobre.
Preconceitos são facilmente transmissíveis, proibições, facilmente burladas.
Talvez nada adiantasse. Provavelmente, se a mãe tivesse dito, sim, filha, pode ir, Liana e Felipe ainda assim teriam estado no mesmo lugar errado na hora errada.
Mas alguns pais parecem saber do que estão falando. Se não fosse cruel demais, pediria pra minha mãe dar uma ligada pro pai da Liana e explicar pra ela como se lida com um adolescente. Escrevo isso e cada vez mais tenho vontade de passar na casa da minha mãe amanhã e dar um beijo nela.
Ela sempre dizia: se forem transar, transem aqui, que é seguro.
Meus pais sabiam de algumas coisas.
Sabiam que eram pais de dois adolescentes inteligentes, engenhosos e independentes. Sabiam que adolescente, quando quer transar, arranja um jeito. A única coisa que impede um adolescente de transar é sua educação, sua moral, sua própria cabeça. Proibições, restrições, moralismos, servem apenas para fazer o adolescente ser obrigado a transar em lugares sinistros e arriscados.
Uma vez, quando eu ainda namorava a Clarice, mesmo tendo quarto, cama de casal e privacidade, fomos para o Mirante do Leblon e ficamos nos agarrando lá em cima. Foi uma delícia. Poucas semanas depois, um colega de escola meu estava no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, mais ou menos na mesma hora. Foi morto por um trombadinha por motivo nenhum. Segundo semestre de 1993, pra quem tiver idade pra se lembrar.
Aos meus pais, eu só agradeço. Se não salvaram minha vida, pelo menos tornaram minha adolescência mais agradável e fizeram de mim o homem que sou hoje.
Nem todo pai não sabe das coisas.
Postada no blog em Novembro 14, 2003
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