O Caminho Mais Fácil
Qual é o caminho mais fácil?
A Ana Cinderela, que já está virando minha interlocutora favorita, também escreveu:
"teu livro vai se limitar aos carentes de informação q se sentem identificados por teu discurso fácil, de não precisar se envolver com nada, de ser cidadão do mundo."
Cada um define fácil como quer. A sabedoria popular diz até que as putas têm vida fácil, o que acho que é uma interpretação bem estranha do que seja uma vida fácil.
Quem quer ser patriota, tem toda a estrutura do Estado Nacional a seu favor, aulas de Moral e Cívica, brasão da república, desfile de sete de setembro.
Quem quer viver uma relação monogâmica, tem todo o apoio da moral conservadora, encontros de casais em cristo, colunas de relacionamento em jornais, livros de auto-ajuda, conselhos da vovó.
Quem é religioso tem igrejas, templos, sacerdotes, pais-de-santos, e muitos livros grossos que regulam nos mínimos detalhes o que é certo e errado, moral e imoral.
Quem abre um novo caminho não tem esses luxos.
Um ateu não tem quem lhe diga o que é certo e errado, moral e imoral: ele precisa escrever, todo dia, com sua consciência e através dos seus atos, o seu próprio livro sagrado.
Quando tenho problemas no meu casamento, não posso usufruir da sabedoria acumulada dos meus avós. Não existe livro de auto-ajuda pra mim. A Bíblia não colabora. Não tenho nem amigos com quem conversar. Pior, quando converso, eles dizem: viu, é por isso que essa merda não dá certo!
Além de todas as dificuldades do caminho menos trilhado, todos ainda querem lhe puxar de volta para a estrada principal.
Cada passo tem que ser dado como se o mundo tivesse sido criado ontem. Cada rodinha tem que ser reinventada do zero.
Todas as forças culturais, políticas e sociais nos impulsionam à monogamia, ao tribalismo, à pequenez, nos impedem de pensar a humanidade como um todo, una, indivisível.
Minha estrada pode até estar errada, meu discurso pode ser totalmente equivocado, mas é muito mais fácil ceder a todas essas pressões do que seguir por um caminho alternativo, mais universal e humanista.
E Se Todo Mundo Fizesse Como Você?!
As bobagens que a Ana Cinderela falou não param de render frutos. Eis aqui uma das piores:
"falta um pouco de pragmatismo, praticidade, realidade no seu discurso; acontece q se todos pensassem assim, o mundo não girava etc etc"
Essa pergunta/questionamento/desafio - E se todo mundo pensasse como você?! e suas variações - é uma das objeções mais idiotas que se pode fazer contra qualquer argumento ou idéia.
É como se eu estivesse projetando um prédio, calculando todas as variáveis possíveis, força do vento, erosão do solo, etc, e um intrometido viesse dizer: e se caisse um cometa no prédio?
Porra, diria o engenheiro, a possibilidade de isso acontecer é tão pequena que não precisa ser calculada, ou mesmo levada em conta.
Eu digo mais: a possibilidade de um cometa cair em um prédio é infinitamente maior do que a de todas as pessoas adotarem o meu estilo de vida. Até que porque a primeira é improvável, mas a segunda é impossível.
Naturalmente, isso não é algo que eu precise levar em conta quando exponho minha filosofia. Ainda mais importante, não é nem mesmo desejável.
Se eu pudesse, num estalar de dedos, fazer todo o mundo adotar minhas idéias, eu arrancaria os dedos fora, pra me impedir de estalá-los sem querer. Não só o mundo ficaria muito sem graça, como eu perderia minha originalidade. Além disso, eu adoraria contar a história de como perdi os dedos.
Não me preocupo de todos seguirem minhas idéias, mas me preocupo, e muito, com as pessoas que seguem minhas idéias e se dão mal.
O Aventureiro no Penhasco
Às vezes eu me sinto como um daqueles aventureiros que atravessou um penhasco se equilibrando numa corda e agora fica lá do outro lado só gritando, vem gente, vem que é fácil, e se admirando de ver as pessoas tentando segui-lo e caindo.
Recebo muitas histórias de casais que tentaram viver um casamento aberto por minha causa e não conseguiram. Alguns terminaram relações de muitos anos por causa disso. Há os que passam a me odiar, há os que ainda me procuram para mais conselhos. Em ambos os casos, fui o instigador e sou parcialmente responsável.
O sucesso desse blog me pegou desprevenido. Nos tempos da Mad, o máximo que acontecia era um fã da Xuxa achar que peguei pesado demais na sátira. Hoje, relacionamentos acabam porque pessoas levam fé no que eu falo e tentam colocar minha filosofia em prática.
Não há um dia que o poder das minhas palavras não seja me esfregado dolorosamente na cara.
Estou trilhando um caminho perigoso. Pior, é um caminho pessoal, de desbravamento interior, de auto-ciência.
Eu não quero ser seguido. Eu não devo ser seguido. Talvez eu nem mesmo possa ser seguido.
Talvez o meu caminho seja só meu.
Postada no blog entre Outubro 21 e 22, 2003
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