A guerra é o momento decisivo no qual os povos revelam quem realmente são.
Para compreender o Brasil e o caráter do nosso povo, nada melhor do que estudar nossos conflitos, nossas batalhas decisivas.
Afinal, o que poderia ser mais revelador do que os motivos que levam um povo à guerra, ou o modo como ele guerreia?
Por isso, dentro de História, me especializei em História Militar, com foco no nosso período e área mais guerreiras: século XIX no Prata. Naturalmente, a Guerra do Paraguai, maior conflito armado do continente, se impôs como assunto. Só sobre essa Guerra, eu devo ter aqui em casa (na verdade, hoje, na casa da minha mãe) uns 150 livros, dos quais já li quase todos.
Não há assunto específico sobre o qual eu entenda tanto, ou esteja mais apto a debater, do que a Guerra do Paraguai.
Mas como é chato, viu?
Basta mencionar a guerra e já me soterram com lugares-comuns que não tenho mais saco pra responder.
E não vou, aliás.
Me lembro um americano que entrou na minha casa, viu aquele estante gigantesca e perguntou: "Are you so proud of this war?" ou seja, "Você tem tanto orgulho assim dessa guerra?"
Tenho tanto orgulho da Guerra do Paraguai quanto Carlos Chagas do barbeiro, mas esse exemplo ele não entendeu.
* * *
Os grandes momentos históricos são reveladores, entre outras coisas, porque eles não acabam nunca. A Guerra do Paraguai nunca deixou de ser travada. A História da História da Guerra do Paraguai também é interessantíssima.
Em linhas gerais, logo após a guerra, cada país abraçou seu herói. Aqui, endeusamos e panteamos Duque de Caxias, Osório e Tamandaré. No Paraguai, quase todo governo populista ou mesmo conservador se considerava herdeiro do espírito indomável de López.
Depois do golpe de 1º de abril, esse clima de ufanismo histórico ficou cada vez mais difícil de engolir. A esquerda, acuada por todos os lados, decidiu reagir. Nas décadas de 60 e 70, começaram a surgir livros questionando essa versão oficial. Leon Pomer, na Argentina, e Júlio José Chiavenato faziam denúncias graves. Reduzindo em miúdos, diziam que:
O Brasil tinha sido nada mais do que um fantoche nas mãos da Inglaterra, que usou o nosso país para destruir o Paraguai, verdadeiro modelo de desenvolvimento econômico e potencial competidor dos ingleses.
Essa tese tem um enorme valor. Apesar de ser totalmente imbecil, ela serviu para chacoalhar o campo e estimular novas pesquisas revisionistas. Sem ela, talvez ainda estivéssemos reverenciando Caxias como o Filho de Deus.
Nas últimas duas décadas, uma verdadeira legião de historiadores, de todas as correntes ideológicas, buscou comprovar as alegações de Pomer e Chiavenatto. Inclusive eu.
Por exemplo, citam um carta de Caxias ao Imperador na qual ele relata jogar cadáveres com cólera nos rios para infectar os paraguaios. Impossível? Claro que não. Caxias poderia ter feito isso? Claro que sim. Mas onde está essa carta? Quem viu? Chiavenato diz que ela está em um museu de Buenos Aires. Eu fui no tal museu. Nunca ninguém ouviu falar da tal carta, mas já estão de saco cheio de gente indo lá perguntar.
Entendam: História não é literatura. Qualquer um pode dizer que o transsexualismo de Diadorim é, na verdade, um reflexo da homossexualidade enrustida de Guimarães Rosa. O papel (e a cabecinha das pessoas) agüenta qualquer coisa.
Mas, se você quer dizer que Caxias jogava cadáveres infectados por cólera no rio, é bom ter alguma evidência comprobatória.
Todo historiador sonha em revelar uma conspiração. Não consigo imaginar ninguém, de qualquer ideologia, que encontrasse uma carta comprovando crimes de guerra, ou uma ata do parlamento inglês comprovando uma conspiração para destruir o Paraguai, e não aproveitasse essa chance de ouro pra fazer uma puta tese de doutorado e conseguir uma livre-docência.
Conheço pessoas que vasculharam de alto a baixo os anais do Parlamento Britânico, onde até mesmo as conversas mais secretas e mais nocivas à Monarquia são reveladas depois de um século. Se tivesse de fato havido uma conspiração inglesa para destruir o Paraguai, isso estaria lá. Pelo contrário, nas duas vezes, em 100 anos, em que o Paraguai foi mencionado na casa, quase todo mundo perguntou: paraoquê? paraonde?
Se as alegações alucinadas de Pomer, Chiavenato e de sua turma fossem corroboradas por qualquer evidência que seja, ela já teria surgido. Não foi o caso.
Hoje, essa teoria, ainda mais à luz da nova pesquisa surgida em resposta à ela, caiu no ridículo. E não é uma questão ideológica. Até na minha faculdade, o IFCS, onde elogiar privatização era crime punido na fogueira, ninguém mais leva Pomer e Chiavenatto a sério.
Infelizmente, há um problema: os professores de história, que faziam faculdade nos anos 60 e 70, continuam ensinando essas besteiras aos nossos jovens.
Falo de Guerra do Paraguai e já vem alguém me dizer que nós, capachos da Inglaterra, destruímos a única nação do século XIX que oferecia uma alternativa ao modelo econômico colonialista imperialista vigente. Ufa!
E eu pergunto: quantos livros você leu, quantos arquivos você estudou pra fazer afirmações tão bombásticas? E ele conta que a tia Stanililda, que usava sandálias de couro cru e não comia no McDonald's, contou isso tudo pra ele na quinta série, e ele nunca mais esqueceu.
É como se descobrissem amanhã o décimo-planeta do sistema solar e eu continuasse a vida inteiro dizendo que são nove, pois foi o que me ensinaram na quinta série, em 1985.
Ai ai.
* * *
Para quem quer se informar, recomendo Guerra Maldita, de Francisco Doratioto. Um livro recente, ponderado, que reúne toda a mais moderna pesquisa sobre o tema.
Originalmente postado no blog em Junho 10, 2004
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