O leitor Fábio Maciel, tradutor profissional, acabou de ler Os Dilemas da Tradução e me mandou o seguinte email, com algumas considerações interessantes:
"Só queria mesmo (...) trazer à tona uma dimensão que, a meu ver, foi esquecida tanto por você como pelos "contestadores", algo que ninguém parou pra pensar e que, no entanto, já vem sendo discutido entre os teóricos da tradução há algum tempo: Será que o original de uma obra (literária, cinematográfica...) é mesmo passível de ser apreendido em sua totalidade, mesmo por um leitor que seja falante nativo da língua, more no país onde ela é falada, conheça a sua cultura etc. e tal? Você realmente acredita que uma obra "chega" em duas pessoas (cultas ou incultas, intelectuais ou não) do mesmo jeito? A pureza e a genialidade do original existem mesmo com essa força toda, ou tudo isso não seria um resquício da tradição romântica de louvar o "gênio" criador do artista ("o fulano é único, inigualável!")? O que dizer sobre o conceito de "obra aberta"? Você, por acaso, sabia que o final do Ulysses de Joyce foi alterado pelo próprio autor após ele ter lido a tradução para o francês? Você mesmo, quando lê o Cervantes em espanhol, acredita que está lendo a mesma obra que um leitor contemporâneo de Cervantes lia? E quando vê um filme em inglês, sem legendas ou dublagem, acredita mesmo que está "captando" toda a "essência" da obra que o diretor tinha em mente transmitir? Existe mesmo esse original perfeito, intocável e imutável?"
Fábio, eu a princípio não tinha falado desse tema, pois achei que era meio que auto-evidente. Agora, vejo que não é. Pelo menos, não tanto quanto eu imaginava.
O Final de Ulysses
Antes de tudo, por favor verifique essa história do final de Ulysses.
Meu exemplar, esse mesmo aí ao lado, é uma fac-símile da primeiríssima edição de 1922 (Coleção World's Classics, da Oxford Univ. Press, 1993). Segundo o Joyssólogo que preparou essa edição crítica, Jeri Johnson, a primeira edição é a que contém menos erros e é a que deve ser usada em futuras reedições.
Não conheço Joyce o suficiente para julgar se isso é verdade, mas sei que a Oxford não utilizaria uma fac-símile da primeira edição se Joyce tivesse, posteriormente, modificado o final do livro.
Além disso, procurei por esse assunto na Internet e não encontrei nada. Dê uma checada.
Os Múltiplos Significados
Naturalmente, qualquer boa obra pode ser entendida de múltiplas maneiras. Infelizmente, quando a obra é traduzida, muitas dessas múltiplas maneiras simplesmente desaparecem.
Há textos que, no original, são ambíguos, se prestam à múltiplas interpretações. Mas, quando vamos traduzi-los, vemos que é impossível manter essa ambiguidade. Teremos que escolher um sentido ou outro, não dá pra manter todos.
Já é ruim quando o tradutor percebe o problema e é forçado a fazer uma escolha consciente. Mas e quando não percebe?
Vi isso muito. Como o tradutor não vê a ambiguidade, ele traduz o trecho literalmente e mata a riqueza de interpretações.
Confesso que uma ambiguidade que o tradutor não pega é capaz de ser uma ambiguidade que muitos leitores do original também não pegariam. Mas pelo menos teriam uma chance. Agora, quem ler a versão traduzida, nem mesmo isso terá.
Concordo com você que uma obra pode ser apreendida de múltiplas maneiras. Nenhum leitor lê do mesmo jeito.
Por isso mesmo, é fundamental ler no original.
O tradutor, enquanto intermediário, é um funil: ele limita essas múltiplas maneiras. Se antes o livro poderia ser entendido de 300 maneiras diferentes, agora são só 30. A presença do intermediário empobrece a riqueza de interpretações.
Não estou dizendo que isso é culpa dos tradutores, mas sim decorrência das diferenças mesmo entre as línguas.
A Pureza do Original
Agora você me pegou, Fábio. Você diz:
"A pureza e a genialidade do original existem mesmo com essa força toda, ou tudo isso não seria um resquício da tradição romântica de louvar o "gênio" criador do artista ("o fulano é único, inigualável!")?"
Ora bolas, quando eu invisto suados R$60 para comprar Ulysses, do James Joyce, traduzido em português, é porque quero ter contato com James Joyce, quero saber quem é e o que escreveu esse gênio de quem tanto ouvi falar.
Isso não quer dizer que quero ter contato com as idéias, interpretações e interferências do Pedro de Souza, que fez até o 4º ano do IBEU, morou seis meses em Londres e hoje traduz romances pra Nova Fronteira.
Eu paguei pelo Joyce e quero o Joyce. Porque eu não sei falar inglês, a mediação do Pedro de Souza entre eu e o Joyce é inevitável, mas que ele tenha a humildade de interferir o mínimo possível.
Pra quem não fala a língua, o contato com a pureza do original nunca será possível, mas deve ser tentado sim. Pelo menos isso.
Senão, você está dizendo que o Pedro de Souza vale a mesma coisa que o Joyce. Que se você comprar um livro do João Ubaldo, abrir e vier um livro de um escritor novato, ah, tudo bem, não ligo mesmo pra essa tradição romântica de louvor ao gênio criador do artista. Tanto faz. Leio o Ferrez.
O Medo
Confesso que fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" nos livros que traduzem.
Será que você traduz alguma das línguas que não sei ler?
Se possível, faça uma lista dos tradutores que concordam com essa teoria, vou guardar na carteira, pra ficar de sobreaviso.
Nunca se sabe.
Postada no blog entre Março 22 e 23, 2004
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