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  Alex Castro
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Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus morava em uma favela, era negra, catadora de papel e mantinha um diário. Descoberta por um repórter, que editou e publicou seus diários no começo da década de 60, ela virou uma celebridade. O livro foi traduzido em diversas línguas (minhas duas edições dizem que foi o maior best-seller brasileiro de todos os tempos) e ela viajou o mundo. Carolina, entretanto, tinha a língua afiada, desagradou a esquerda e a direita, acabou sendo esquecida e morreu na pobreza.Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus

Segundo alguns artigos que li sobre ela, Carolina de Jesus até hoje é um figura incômoda para a elite brasileira, revela sem disfarces nossos preconceitos e injustiça social e, por isso, foi relegada ao segundo plano das letras nacionais. Pode bem ser. Eu sou da elite (acho que sou o único brasileiro que admite que é da elite), me incomodei com o livro e nunca teria ouvido falar dela se não fosse leitura obrigatória pra uma de minhas aulas.

Mas foi um tipo bem específico de incômodo, moldado pela forma da minha leitura.

Como sou de elite (nem que apenas por estar cursando pós-graduação) mas sou pobre de marré-de-si, não quis pagar $25 nesse livro e decidi ler o da biblioteca. Meus outros colegas pobres já tinham surrupiado todas as cópias em português e fiquei entre ler em italiano ou espanhol. Escolhi essa última.

O livro é incômodo porque é chato e repetitivo. Alguns fatos são chocantes, como os donos de restaurantes envenenando seus restos de comida para os mendigos não comerem, mas há muito poucas novidades em questão de pobreza pra alguém que cresceu no Rio de Janeiro da década de 90.

Depois, curioso, pedi pra dar uma olhada nas cópias em português dos meus colegas. Foi quando fiquei incomodado. Comparem com cuidado:
1 de julio. Me estoy dando cuenta que si este diario se publicara va a ofender a mucha gente. (...) Cuando pasé cerca de la fábrica vi varios tomates. Me iba a llevar algunos cuando vi al gerente. No me aproximé porque a él no le gusta que la gente se los lleve. Cuando descargan los camiones los tomates caen al suelo, y cuando los camiones salen los aplastan. Pero la humanidad es así. Prefere que las cosas se arruinen antes de dejar que sus semejantes las aprovechen.
Vejam agora a versão original. Leiam com atenção e tentem reparar qual é a grande diferença:
1 de julho. Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente. (...) Quando passei perto da fabrica vi varios tomates. Ia pegar quando vi o gerente. Não aproximei porque ele não gosta que pega. Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmaga-os. Mas a humanidade é assim. Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar.
Perceberam?

Para o leitor brasileiro do livro, o português capenga da autora é um dado. Para mim, que li primeiro em espanhol, com os erros corrigidos pela tradutora, foi um choque.

A edição da Ática avisa com certo orgulho:
Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática, mas que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo.
Imediatamente, pensei no Alexandre Soares Silva falando da Matemática Naïf:
Noto que agora já não se diz Arte Primitiva, nem Arte Naif; agora é Outsider Art. Ah, certo. Será que existe Outsider Math? O molequinho fazendo conta errada, o caboclo na sua casinha, tirando bicho-do-pé com canivete e cavando equações erradas de segudo grau num pedaço de madeira. "É a matemática do nosso povo, tudo erradinho, que bonito!" O matemático de Cambridge parando na beira da estrada pra ver o vendedor de pamonha que faz Outsider Math.
Lembrei também dos índios americanos que os descobridores europeus levavam para mostrar aos reis da Europa. Em todas as narrativas históricas do século XVI, o padrão se repete perversamente: o chevalier Auguste de Quelque-Chose levou três índios e duas índias para fazer uma festa americana para o Rei de França; em menos de duas semanas, todos já tinham morrido, de fome, frio, doença ou banzo.

Via de regra, não faz bem pra saúde virar mascote da elite.

* * *

Eu é que devo ser um bicho estranho mesmo. Aparentemente, todos vêem essa fidelidade aos erros da autora como respeito. Será que sou só eu que vejo como desrespeito?

Fico imaginando o Guga, o Agassi e o Sampras me convidando pra jogar dupla. E a cada tropeção, a cada ace, a cada bola fora, eles ficariam dizendo: olha só, que bonitinho, ele não consegue chegar na bola, ahhh, que fofo, é uma denúncia ao sedentarismo dos gordinhos que já não conseguem mais correr direito.Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus

Sim, o meu pouco preparo físico é uma denúncia à crescente obesidade da nossa sociedade, assim como o português capenga de Carolina é uma denúncia à injustiça e desigualdade de nosso país, blá blá. Mas resta o fato de que me colocar na quadra ao lado do Sampras ou colocar Carolina na estante ao lado de Machado de Assis, especialmente mantendo os erros gramaticais, nada mais é do que um modo simpático de nos humilhar para divertimento alheio.

Quando minha editora, na Tribuna da Imprensa, encontra um erro de português em minha coluna, ela corrige. É um ato de amor e de respeito. Ela não quer que eu passe por ignorante.

Manter os erros de Carolina é um meio garantir que ela seja vista somente como mais um literary freak. Nesse jogo entre pessoas limpinhas e cheirosas, Carolina só entra mesmo como atração principal. O jornalista que editou o livro é o mestre de cerimônias do circo, nós somos a platéia e Carolina, coitada, é a mulher-barbada.

A graça de Quarto de Despejo parece ser justamente fazer seus leitores bem alimentados sorrirem condescentes e pensarem: olha só, que bonitinho, a preta ignorante quase consegue escrever direito...

* * *

Por fim, o livro teve um momento tristemente cômico:
O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no proximo, e nas crianças.
Carolina morreu três anos antes da fundação do PT.

Postada no blog em Outubro de 2005

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O Dever do Escritor 
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O Dever do Colunista 
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Heróis e Vilões 
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Duas Leis das Artes Dramáticas 
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Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
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Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.