Acabei de ler os dois livros de Horácio Quiroga que me enviou a mecenas Ana Flor. Ana é muito mais que uma mecenas: ela é minha velha amiga e professora do coração.
Horácio Quiroga
Horácio Quiroga (1878-1937) era uruguaio, mas logo se mudou para a Argentina, onde viveu. Sua vida foi marcada pelos suicídios do padrasto, da primeira esposa, dos três filhos e, por fim, dele mesmo. Ele era, por um lado, um escritor tipicamente urbano da virada do século. Por outro lado, em visita à região de Missiones, ele se apaixonou pela selva e foi morar lá de malas e cuias. Muitos de seus contos retratam uma natureza selvagem e invencível.
A Galinha Degolada
A primeira metade de A Galinha Degolada é composta por contos curtos, intensos e aterrorizantes - à la Poe. Não me impressionaram muito. Nada que não tenha sido feito milhares de vezes.
O resto do livro é formado por Heroísmos, curtas biografias exemplares de grandes personagens da história universal. Também aqui nada de sensacional, mas as histórias de Scott, Pasteur e Fulton, entre outros, me agradaram mais.
Uma Estação de Amor
A verdadeira jóia é a noveleta Uma Estação de Amor, que dá nome ao segundo livro.
Dois jovens se conhecem em um balneário. O pai do menino, homem rico, impede o relacionamento, por achar que a mãe da menina estava interessada apenas no dinheiro da família. Anos depois, se reencontram: ele está casado, a moça continua solteira. Alcovitada pela mãe, que se revela exatamente a interesseira que o pai previra, ela se convida para a estância dele. Homem e mulher, finalmente, transam. A mãe, muito doente, morre logo depois. Com sua esposa prestes a voltar de viagem, o rapaz dá uma quantia generosa de dinheiro para a moça e ela vai embora.
Uma história linda, sutil, ambígua e dolorosa. Parece Turgenev nos seus melhores momentos, como em Primeiro Amor e Torrentes de Primavera. Um tema, aliás, que bate perfeitamente com o do romance que estou gestando, sobre a influência do dinheiro.
A cena final é terrivelmente brusca. Nada havia sido mencionado sobre uma eventual partida de Lídia, a moça, e sua mãe da estância. Mas reparem a passagem rápida da morte da mãe para a saída de Lídia, como se uma coisa decorresse da outra:
"Morreu à uma hora da manhã. À tarde, depois do enterro, Nébel esperou que Lídia terminasse de vestir-se, enquanto os empregados punham as malas no carro.
- Toma - disse-lhe, quando ela chegou ao seu lado.
Era um cheque de dez mil pesos.
Lídia estremeceu e seus olhos vermelhos se fixaram em cheio nos de Nébel. Mas ele sustentou o olhar.
- Toma logo - Repetiu surpreso.
Lídia pegou o papel e abaixou-se para apanhar sua malinha. Nébel então inclinou-se para ela:
- Me perdoa - disse -, não me julga pior do que já sou.
Na estação, ficaram um momento diante do estribo do vagão, sem falar. Quando o sino tocou, Lídia estendeu-lhe a mão, que Nébel reteve em silêncio. E logo, sem soltá-la, abraçou-a e a beijou demoradamente na boca.
O trem partiu. Nébel, imóvel, ficou olhando, mas Lídia não veio à janela."
Quando Nébel se inclina para Lídia, a frase: "Me perdoa, não me julga pior do que já sou" poderia ter sido dita por qualquer um dos dois.
Belíssimo.
Uma Visão Marxista
Uma Estação de Amor é uma linda história. Mas o melhor mesmo é o posfácio, escrito por Pablo Rocca.
Não existe história tão boa que não possa ser arruinada por uma crítica rasteiramente ideológica.
Pra começar, adoro expressões academesas como rito libertador do carnaval burguês, cosmópolis, quadro ético e topos democratizador:
"Nébel e Lídia entram em contato e se distanciam em movimento: primeiro, durante o rito libertador do carnaval burguês e "civilizado", mas onde ainda se pode transgredir algum limite da cidade provinciana. Por isso, entram e saem de Concórdia. Por isso voltam a ter contato, através da mãe, num bonde de Buenos Aires, quando já passado certo tempo - e na cosmópolis a máquina moderna é entendida como topos democratizador. (...) Os adultos, com suas imposições e valores, corrompem a pureza dos jovens e desenham o quadro ético que aplica ferrolhos à liberdade, acabando por induzir condutas que os jovens repetirão - com variantes, mas sempre com culpas - ao chegarem também à condição de adultos." (itálicos do autor, negritos meus)
Não é lindo?
Eu fico pensando se eu seria mais feliz se fosse uma dessas pessoas que foge de ambigüidades, define tudo e vê o mundo em preto em branco de acordo com dogmas ideológicos. Sei não, uma vida assim deve ter seus atrativos, nunca faltam voluntários para as fileiras do obscurantismo.
Esse Alienado do Quiroga
A seguir, Rocca cita um conto semelhante do também uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994), com uma diferença: o protagonista de
"Onetti ataca sem piedade o status da moral burguesa. Quiroga, embora ensaie um gesto de ataque, termina por situar-se ambiguamente ante as raízes dessa moral, pois, uma vez consumado o ato sexual entre entre os adultos Lídia e Nébel, o narrador olha através dos olhos do homem, que se sente 'inerte ao lado daquela mulher que conhecera o amor antes que ele tornasse a aparecer [...]. Nébel guardara essa lembrança sem mancha - pureza imaculada de seus dezoito anos - e agora ela jazia ali, enlameada até a raiz, numa cama de empregada.' Além disso, ao despedir-se, Nébel dá a Lídia a imensa quantia de dez mil pesos, que ela aceita não sem estremecer. A mulher - tal como a concebe Quiroga - não é mais que um objeto passivo ou um ser degredado pelo dinheiro, isto é, pelo símbolo do capitalismo que se impunha sem contemplação na época da composição desse texto: o homem podia governá-la enquanto manejava o dinheiro." (itálicos do autor, negritos meus)
Não entendo por que essas pessoas estudam literatura. Se só o que buscam é ideologia, por que não vão sorvê-la na fonte, em livros de política, economia ou sociologia? Por que não deixam a literatura para artistas e apreciadores das artes?
Reparem como ele critica justamente o elemento que dá grandeza à novela de Quiroga: o autor não se posiciona. Não há ideologia, não há preto no branco.
Rocca cobra do autor um ataque explícito, manifesto e inequívoco contra a tal "moral burguesa", contra os tais "símbolos do capitalismo" que ele deve tanto odiar. Vai ver Quiroga os odiava também. Não sabemos.
Magistralmente, grande artista que era, Quiroga manteve sua ideologia nas trevas: deu um passinho atrás e deixou seus personagens viverem seu drama humano sem interferências.
Ou seja, ao invés de fazer um libelo contra a opressão capitalista, esse alienado do Quiroga escreveu uma bela, triste e ambígua história de amor. Chega! A América Latina não vai pra frente por causa de autores burgueses entreguistas como esse! Melhor reler As Veias Abertas da América Latina e pronto.
Entretanto, muito a contragosto dos que gostariam de matar a literatura em nome da ideologia, Quiroga é um grande autor justamente pela riqueza temática de histórias como Uma Estação do Amor.
Leia meu artigo O Dever do Escritor, sobre a difícil relação entre literatura e ideologia.
Um Blog Mais Literário
Não sei se repararam, mas estou me obrigando a ler e comentar, imediatamente, os livros que me presenteiam. Resultado: esse blog está ficando mais literário, como deveria ser. Obrigado de novo, a todos os mecenas.
Uma Moedinha para o Saxofonista do Metrô
Sou como a Mãe Dinalda. Não cobro nada. Estou aqui nesse blog por livre e espontânea vontade. Por prazer. Minha retribuição fica a cargo da sua consciência.
Se meus textos não lhe tocam, beleza. Se o dinheiro vai fazer falta no leite das crianças, nem pense nisso.
Mas, se o que escrevo significa algo para você e se dispõe dos meios, por favor, considere doar um, dois, oito (pra que pensar baixo?) livros para um pobre escritor falido que não recebe um tostão pelo que escreve.
Pense no seguinte. Eu demorei horas para escrever aquele texto do qual você tanto gostou. Se eu tivesse gasto esse tempo em alguma atividade produtiva, eu hoje provavelmente estaria melhor alimentado e mais bem vestido.
Mas você nunca teria visto o mundo com novos olhos.
Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino
Postada no blog em Maio 30 e 31, 2004
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