Inoculado com Auto Confiança
O New York Times publicou no sábado, e O Globo reproduziu na segunda, um artigo de David Brooks sobre as semelhanças entre Bush e Kerry, especialmente o fato de ambos serem representantes da mais alta elite da Nova Inglaterra.
Meu trecho preferido:
"The anthropologist Lionel Tiger points out that in many primate communities, the offspring of high-status females are immediately accorded membership in the troop's elite. Tiger points out that politics is a visceral business. It's a tremendous advantage to have been instilled with the habit of self-assertion since infancy. If you can project a physiological comfort with power, others around you will begin to accept your sense of self-worth. There aren't too many normal people waking up in normal suburban split-levels assuming they should rule the world. But God bless the upper class. They've lost their legitimacy, but they haven't lost their self-confidence."
"O antropólogo Lionel Tiger revela que em muitas comunidades primatas, os filhotes de fêmeas que gozam certos privilégios no grupo são imediatamente aceitos como membros no grupo de elite. Tiger sublinha que a política é um negócio visceral. É uma enorme vantagem ter sido inoculado com o hábito da autoconfiança desde a infância. Se se pode projetar um conforto físico com o poder, os outros que estão ao seu redor começarão a aceitar seu senso de auto-avaliação. Não existem muitas pessoas normais despertando em bairros normais assumindo que eles deveriam governar o mundo. Mas Deus abençoa a elite. Eles perderam a sua legitimidade, mas eles não perderam a sua autoconfiança."
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Clash of Titans - Publicado no sábado, 6 de março de 2004, no New York Times
Duelo de Titãs - Reproduzido em O Globo, de 8 de março de 2004
Viver Fora da Realidade
Morreu, falido aos 88 anos, Jorginho Guinle. Uma de suas melhores frases era: "Planejei gastar para viver até os 80. Já estou com 87 e me ferrei."
Jorginho Guinle estava certíssimo. Daqui nada se leva. Se ele tivesse somente mais 40 mil dólares, valia mais a pena tê-los gasto na véspera comprando um carro pra dar uma volta pela Atlântica do que morrer e deixar os 40 mil pros herdeiros.
Aliás, Jorginho é o maior exemplo de que herdeiro é mesmo uma raça de inútil.
Sei como ele se sentia. Também venho de família rica. Na minha infância, tínhamos Porshes e BMWs, viajávamos vários meses por ano para a Europa (de primeira classe, claro) e, só na minha casa, eram mais de 10 empregados. Depois, foram-se todos os anéis e sobraram só os dedos. Os dedos, as fotos, as baixelas de prata, as amizades, a cultura adquirida, o elan, o aplomb, a fleuma, a finesse, etc. Enfim.
Dizem que foda adiada é foda perdida. Pois dinheiro poupado também. Um dia a gente morre e aqueles dez reais que sejam que ficaram no banco teriam comprado mais um Kir à beira da piscina.
A lição mais importante que ex-milionários como Jorginho Guinle nos ensinam é que estar pobre é bem diferente de ser pobre.
Quem já andou de limusine, se hospedou nos melhores hotéis e comeu das melhores comidas tem uma noção da sua própria importância que as porradas da vida simplesmente não apagam. Quem já foi milionário nunca terá aquela humildade natural e pragmática de quem sempre foi pobre.
Quem já foi rico de verdade pode até estar pobre, sem dinheiro algum, almoçando de favor na casa dos amigos e remendando roupa, mas nunca será pobre.
O Amigo Milionário
Eu tinha um amigo milionário. Assim como Jorginho, também era herdeiro, nunca trabalhou e morreu sem um tostão. Morava na cobertura do meu prédio, onde ele, por falta do que fazer, era síndico.
O cara detestava dirigir e não queria ter carro, pra não se estressar com documentação, seguro, consertos, etc. Ele contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a disposição dele, 24 horas por dia, na portaria do seu prédio. Pronto. Se a empresa de táxi fosse deixar sempre o mesmo carro ali embaixo, ou fazer rodízio, se fossem ser dois turnos de 12 horas ou quatro turnos de 6 horas, ele não queria saber. Se um carro quebrasse, que mandassem outro. Ele só sabia que tinha dinheiro que não acabava mais e que não queria se aporrinhar.
A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?
Realidade é que nem cu, cada um tem o seu. O mendigo que passa fome nas ruas de Recife está tão fora da realidade do meu amigo quanto meu amigo está fora da realidade do mendigo.
Por que ninguém acusa o mendigo de estar fora da realidade? De que modo a experiência de catar restos de comida em latas de lixo e dormir ao relento é mais real do que ir ao coquetel de um pintor famoso e depois pegar o concorde pra Paris? Pior, claro. Mais lamentável, com certeza. Mas "mais real"? Por quê?
Será que existe uma escala de realidade e ninguém me avisou? Qual é a medida? Sacos de pitombas? A realidade do meu amigo atingiu 3 graus na escala saco de pitombas; a do mendigo do Recife, 8 graus. Logo, a realidade do mendigo é mais real que a do meu amigo. É isso?
Qual das duas realidades ganha? Existe uma que é certa? Por que ninguém nunca fala que alguém está dentro da realidade? Isso quer dizer alguma coisa?
Um conselho: se alguém, algum dia, acusá-lo de viver fora da realidade, em geral é porque você está se divertindo demais. Mande-os todos à merda e continue a fazer o que estava fazendo.
As realidades são muitas, todas igualmente válidas. Cada um vive a realidade que pode. Meu amigo tinha lá seus muitos defeitos, mas estava vivendo a realidade dele, a realidade em que nasceu, uma realidade que é tão válida quanto qualquer outra. Dizer que ele vivia fora da realidade é dizer que a vida dele não era válida.
Mas era pra ele fazer o quê? Doar tudo pra caridade e entrar pra um mosteiro? Ou então qual é o problema? É que ele está gastando muito? Era pra ele gastar quanto? Quem é que determina esse limite? Se ele gastar até vinte mil por mês (do próprio dinheiro, claro), então ele vive NA realidade, se gastar mais que isso, ele vive fora da realidade? Como funciona essa regra? Será que tem uma escala também (sacos de pitombas? narjaras-turetas?) e esqueceram de me avisar?
Juro que não entendo.
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Prisão Realidade
Auto-Confiança
Quando eu estava montando minha empresa, decidi fazer um MBA intensivo por conta própria. Fui para a Barnes & Noble da 5ª com 50 e fiquei lá por sete horas. Folheei todos os livros das seções de business, marketing, internet, etc. Li as orelhas, quarta capas, introduções e conclusões. Eliminei a grande maioria. Saí de lá com 300 dólares em livros. Um dos melhores investimentos que já fiz.
Dois livros me marcaram especialmente: Motivational Management, de Thad Green, e 1001 Ways to Reward Employees, de Bob Nelson. Eles me ensinaram uma lição que muitos de vocês vão achar bobinha, ou óbvia, mas que eu precisava aprender.
Sou uma pessoa ativa, energética, dominadora. Gosto de responsabilidades e desafios. Tenho espírito de liderança demais pro meu próprio bem. Na escola e na vida, todos meus amigos e companheiros sempre foram, também, pessoas fortes. Literalmente, eu fui educado para pensar que o mundo era meu, que não havia nada que eu não pudesse atingir. Meio que como Kerry e Bush, no artigo do New York Times citado abaixo.
Em um dos episódios de Star Trek, o Capitão Kirk reconta as Guerras Eugênicas do século XXI. A ciência havia criado homens geneticamente perfeitos, inteligentes, fortes, resistentes. O problema é que eles se sabiam perfeitos e tinham ambições à altura. Prontamente, começaram a guerrear um contra o outro pelo controle do mundo.
Em geral, quem tem o dom, tem a ambição correspondente. O perna-de-pau do XV de Limeira sabe que nunca será Pelé.
Administradores, gerentes, empresários, gente que se dispõe a embarcar na aventura empresarial, em geral têm ambição, determinação e espírito de liderança acima da média. E, por isso mesmo, para essas pessoas é às vezes difícil lidar com quem não é assim. E nem todo mundo é assim.
O autor de Motivational Management conta a história de uma funcionária insegura e incompetente. Ao conversar com ela para tentar resolver o problema, ele acabou descobrindo que ela havia sido humilhada pelos pais a vida inteira. Sempre que tentava fazer alguma coisa, atingir algum objetivo, suas ambições eram achapadas: você não vai conseguir, você é uma idiota, você nunca faz nada direito, sua burra! Até aquela época, ela com 61 anos e a mãe com mais de 80, sendo sustentada por ela!, a mãe ainda dizia regularmente que a filha não prestava pra nada. Com o passar dos anos, acreditou.
O comentário seguinte do autor poderia ser meu:
"Porque cresci em uma família de pessoas fortes e confiantes, que moldaram minha auto-confiança, eu sempre achei que todo mundo tinha crescido num ambiente assim e também tinham a auto-confiança para enfrentar praticamente qualquer coisa."
Tão óbvio e tão complexo.
Se não por humanidade ao menos por produtividade, cabe ao patrão suprir essa deficiência de auto-confiança que muitos empregados têm. Cabe ao patrão sentar ao lado do empregado e convencê-lo que sim, ele pode fazer o serviço, ele tem capacidade e você confia nele para fazê-lo.
Naturalmente, não só do chefe, mas do pai, do amigo, do professor.
Os homens perfeitos da ciência eugênica do pretenso século XXI só eram perfeitos pois foram feitos assim. E nós também temos o poder de fazer a mesma coisas pelas pessoas que estão ao nosso alcance.
* * *
Antes de acabar, eu queria dizer que odiei esse artigo, fiquei parecendo um Paulo Coelho da vida, dando lições de moral e aconselhando todos a se amarem e se ajudarem, blá blá blá. Quase não publico. Os ricos não são, de modo algum, melhores do que os pobres, a não ser por já serem inoculados de auto-confiança, o que faz, obviamente, toda a diferença do mundo.
* * *
A Te, que comenta sempre aqui no blog, foi minha funcionária nessa época. A maior prova de que sou um bom chefe é que ela é gata, nós éramos solteiros, e eu nunca dei em cima dela. Só depois, claro.
Perguntem pra ela que tipo de chefe eu fui, mas perguntem em privado, por favor, para que eu ainda possa me agarrar a algumas ilusões na minha vida.
O Banheiro do Sofitel
Minha mulher vem de família pobre (quase disse humilde, mas odeio eufemismos) e ainda tem alguns pudores de pobre. Eu venho bravamente tentando extirpá-los. Não é fácil, até que porque, hoje, somos de fato pobríssimos. O que eu tento ensiná-la é que não termos dinheiro nem pra pagar os 10 reais da conta de gás não é motivo para nos comportarmos como se fôssemos pobres.
Não somos pobres, estamos pobres.
Outro dia, andando pela praia de Copacabana, ela queria muito ir ao banheiro. Mulheres sempre querem ir ao banheiro. Parece que suas bexigas são do tamanho de uma noz. Sugeri usar o banheiro do Sofitel Rio Palace onde eu, em outras épocas, já me hospedara na suíte presidencial pra ver os fogos de ano-novo.
Nada disso. Bateram os pudores de pobre. Ela teve vergonha, receios, palpitações. Preferia ir em um daqueles postos imundos da praia ou em algum dos ainda mais imundos restaurantes da Atlântica.
Para alguém que nunca entrou em um hotel de altíssimo luxo, o Sofitel realmente parece imponente e ameaçador. Para quem conhece os melhores hotéis do mundo, o Sofitel é apenas um cinco estrelas local que, se estivesse no primeiro mundo, talvez não chegasse nem a quatro.
As pessoas têm uma idéia estranha de que se entrarem nos melhores ambientes, hotéis e restaurantes de luxo, vão ser chamadas atenção, seguranças engravatados e de óculos escuros vão perguntar o que estão fazendo por lá, quem pensam que são para entrar no Sofitel Rio Palace? Fora daqui, intruso!
Nada, nada mesmo, pode ser mais distante da verdade.
Consumidores Humildes
Você entra na C&A, ou vai comer no La Mole, ou tenta fazer um crediário nas Casas Bahia, e há uma série de restrições que você tem que obedecer. Os funcionários não fazem muita questão de lhe agradar - especialmente se isso entrar em conflito com as draconianas regras do estabelecimento. A fila é só aqui, não aceitamos esse método de pagamento, os pratos não podem ser modificados, reclamações e trocas só na matriz. Arre!
Realmente, já fui muito interpelado pela segurança e chamado atenção, mas só nesses estabelecimentos comerciais para pessoas de baixa renda (leia-se lugar de pobre) que tenho que freqüentar hoje em dia. Minha mulher diz que não sei me comportar, e é verdade: não sei me comportar como gado.
Parece que esses lugares foram desenvolvidos especialmente levando em conta a baixa auto-estima dos seus clientes, como se a loja estivesse fazendo um grande favor de deixar essa gentinha humilde gastar seu dinheiro ali. Como a minha auto-confiança é tão inflacionada que nem todos os golpes da vida conseguiriam me deixar humilde desse jeito, meu comportamento realmente destoa do esperado. Os seguranças fazem mesmo bem em me pedir para me retirar, pra eu não dar idéia aos outros clientes bem-comportados.
Por outro lado, mal consigo imaginar o que alguém teria que fazer no Enotria, ou na Daslu, pra ser chamado atenção. Dependendo do cliente, acho que ele pode até bater no garçom e nada acontece. O maitre faz um sinal lá detrás pro garçom aguentar firme e não revidar, dá um gorjetão depois e fica tudo por isso mesmo.
A Fleuma do Motorista
Quando eu tinha onze anos, minha família estava com uma limusine alugada em Los Angeles. Foram todos bater perna na Rodeo Drive mas, como eu não tinha saco pra isso, mandaram a limusine dar voltas na cidade comigo. Passei pro banco da frente, para poder conversar com o motorista e aprender sobre a região.
De repente, me bateu uma vontade de vomitar e eu não consegui me fazer entender, nem pra ele encostar o carro, muito menos pra ele baixar a janela. Enquanto eu estava virado pra ele, tentando me comunicar, saiu o jato de vômito.
O homem, amarelo da cabeça aos pés, nem piscou. Encostou o carro do lado de uma lata de lixo, saiu, deu a volta, abriu a porta pra mim, me levou até a lixeira e me passou um lenço limpo. Enquanto eu acabava de vomitar, só então ele puxou outro lenço branco do bolso e começou a se limpar metodicamente, começando pelo rosto. Escorria vômito pela sua sobrancelha.
Ele não piscou, não suspirou, não reclamou, não fez tsc tsc. Nada. Sua fleuma era inabalável. Esperou eu acabar, me passou um outro lenço, abriu a porta pra mim, entrei, ele deu a volta no carro, entrou, e fomos encontrar meus pais. Ele explicou o acontecido com muita educação e disse que já tinha mandado vir um carro limpo. Em poucos minutos, o carro novo, com motorista também limpo, chegou e o meu herói vomitado sumiu da minha vida para sempre.
O Banheiro É Só para Clientes
A La Mole e a C&A podem até vender comida e roupas, mas o que o Enotria e o Sofitel vendem é o "experience", é a satisfação do momento. Você paga o preço de um Sofitel para que nada dê errado, para não ser incomodado, para que todos os detalhes estejam absolutamente impecáveis, para saber que tem alguém cuidando de literalmente tudo para você.
Quando você pede pra usar o banheiro do Mab's, um daqueles restaurantes típicos da praia de Copacabana, o garçom pergunta rudemente: "Você é cliente?!". Ele faz isso porque sabe que, se você for cliente, você vai apontar pra sua mesa, dizer "Sou, estou sentado ali, ó", e pronto. E, se não for, vai botar o rabo entre as pernas e ir embora.
Se você atravessar a rua e fizer a mesma brincadeira no Meridien, ninguém vai falar nada. Podem ir lá testar. Por quê?
Antes de tudo, a equipe do hotel nunca tem certeza absoluta de quem é hóspede e quem não é. Ou de quem não é hóspede, mas é convidado do hóspede. Eles sabem que se lhe perguntarem "Você está hospedado aqui?" e você estiver, eles podem até ser despedidos. Imagine a repercussão! O hóspede vai voltar pra sua terra e comentar com seus ricos e influentes amigos que, no Meridien no Rio, ele não podia nem usar o banheiro do saguão sem ser interpelado e ter que se identificar. Que pobreza, hein? Vamos ficar no Copa, então?
Melhor deixar dezenas de penetras usarem o banheiro do que se arriscar a estragar a satisfação de um único hóspede.
Mais ainda, mesmo que tenham certeza que você não é hóspede, se você estiver simplesmente usando o banheiro, sentado no saguão ou mesmo nas cadeiras da piscina e não estiver incomodando ninguém, ou tirando lugar de um hóspede, a gerência vai deixar passar.
Pra começar, se você está lá com essa fleuma toda (e fleuma é a palavra), é porque você não é *deus me livre* pobre, pois pobres têm medo de entrar em lugares como esse. Se não é pobre, então é cliente em potencial, melhor deixar correr.
Por fim, mesmo que você seja quem for, um bom profissional do turismo sabe que quando se aborda uma pessoa para que ela se retire, bem, tudo pode acontecer. Ela pode dar um escândalo, ela pode nem mesmo falar a sua língua, ela pode ficar violenta. Pior, pode ser que os seguranças precisem vir ajudar. Cruz credo, pode ser até que tenham que chamar a polícia!
A equipe do hotel pode até te observar de longe, mas se você não incomodar ninguém, eles provavelmente não vão querer arriscar o escândalo de te incomodar.
Pode até ser que você pegue um concierge mais brigão que queira te colocar pra fora, mas as chances de isso acontecer são pequenas. Essas pessoas até existem, mas duram pouco nesse tipo de emprego.
Sem Medo de Escândalo
O melhor da história é que, mesmo que eles peçam pra você se retirar, quem disse que você precisa sair?
Ser auto-confiante demais faz você ficar abusado. Eu, com certeza, estou sempre testando os meus limites e de todo mundo a minha volta.
Eu falei que os funcionários de estabelecimentos de luxo evitam interpelar as pessoas por medo do escândalo. Mas não só elas: a grande maioria das pessoas está sempre tentando evitar o escandânlo e fugir do confronto. Portanto, se você não perde a calma, mas deixa claro que vai fazer um escândalo, as chances são grandes de você conseguir tudo o que quiser.
Outro dia, eu estava em uma das salas de computador da universidade. Na frente, um professor dava aula de contabilidade enquanto eu, no fundo, acessava à internet. Daqui a pouco, veio o professor perguntar se eu estava matriculado naquela disciplina. Eu respondi que não e ele, educamente, pediu para eu me retirar pois aquela sala era só para alunos daquela matéria. Um pedido perfeitamente razoável. Posso imaginar poucas pessoas que não atenderiam.
Mas a sala estava vazia. Havia cerca de trinta lugares e só uns dez ocupados, os alunos amontoados em volta dele na frente e eu sozinho atrás. Além disso, eu sabia que todas as outras salas de computador estavam fechadas. Entrei lá porquee era a única.
Ele pediu educamente pra eu eu sair e eu disse, educadamente: "Não."
Todo mundo devia tentar isso pelo menos uma vez na vida. Eu tento quase sempre, ainda vou levar um tiro. Mesmo as pessoas que têm menos autoridade esperam sempre ser obedecidas em suas ordens disfarçadas de pedido. Dizer um simples não, e observar a reação, é um prazer raro.
Como assim não?, ele disse. E começou a falar que aquela sala era só pra alunos, que havia uma placa na porta dizendo isso e etc. Eu interrompi delicadamente e dei para ele as seguintes opções.
Eu estou aqui usando a Internet sem incomodar ninguém, seus alunos não estão nem me vendo, tem lugar sobrando na sala. Se você deixar eu ficar aqui sozinho, não vou te atrapalhar em nada. Aliás, essa conversa já demorou muito, daqui a pouco eles vão começar a viajar e vão perder a concentração. Agora, se quiser me fazer sair, eu vou dar um escândalo, não vou sair por bem, vou dizer que sou um aluno pagante e não admito isso, o segurança vai ter que vir me arrastar, eu vou dizer pra ele que se ele encostar em mim, eu vou contar pro meu avô, o Juiz, que vai tirar até as calças dessa universidade. Enfim, eu vou até acabar saindo, imagino, mas sua aula vai por água abaixo. E como essa é uma universidade mercenária, eu nem mesmo vou ser expulso ou penalizado, pois eles querem meu dinheiro mais do que qualquer coisa.
Ele bufou, suspirou, rolou os olhos. Esticou o braço até o meu pulso, pensou seriamente em me agarrar fisicamente, depois desistiu, deu de costas e continuou a aula.
Não é à toa que minha mulher tem vergonha de sair comigo, mas a gente sempre consegue o que quer.
Temor Reverencial
Até entendo o temor reverencial que as pessoas mais humildes têm por esses templos do dinheiro que eles, afinal de contas, nunca freqüentaram.
O irônico é que pessoas acostumadas a ser roteineiramente interpeladas e chamadas atenção por policiais, garçons, vendedores, etc, tenham receio de entrar, por medo de ser chamadas atenção, nos poucos lugares em que ninguém chama a atenção de ninguém.
Final da história: entramos no Sofitel, eu dei bom-dia ao pessoal da recepção como se morasse ali há 20 anos, fiquei no saguão lendo um jornal enquanto esperava, ela saiu, bons-dias para todos e ponto final.
Vida de Ex-Rico:
A Imortalidade dos Ricos
Gente
que Sabe Seu Lugar
A Auto-Confiança dos Ricos
Reminiscências de Ex-Rico
Os Carros do Meu Pai
As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes
Postada no blog entre Março 09 e 12, 2004
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