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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Ruminações sobre Angústia, Beleza & Microfama

Eu não sei lidar com angústia. Talvez por isso eu implique tanto com a Escola Urbana. Como eu escrevi em uma resenha, subitamente parece que esse é o único tema da literatura. Gone are jealousy, rage, guilt, sorrow, todas aquelas grandes emoções que construíram nossas consciência cultural. E, no lugar delas, só sobrou angústia, tédio, ennui, restlessness.

Nossos romances atuais são povoados de pessoas cheias de dúvidas existenciais, que não entendem mais quem são ou seu papel no universo, para quem o mundo é um amontoado sem sentido de vidas desconexas vividas por pessoas medíocres. A literatura não é mais grandiosa porque as pessoas, aparentemente, são todas pequenas: autores, personagens e leitores alike. Como amar o Homem com H maiúsculo se nada faz sentido?

Minha primeira esposa viveu um momento de angústia. Um longo momento que se estendeu por vários meses e culminou no fim do nosso casamento. Ela abandonou seu emprego e seu mestrado, abandonou a mim e a si mesma. Ficou à deriva. Leu diversos livros da Escola Urbana e via neles qualidades que não consigo ver, talvez por compartilhar daquela angústia profunda que imobiliza seus autores e personagens.

Eu tentei ajudar. Tentei de tudo. Tentei shock her back into action. Tentei dar apoio e suporte, esporros e estímulos. O momento era crucial, isso era claro. Ela não estava conseguindo mais lidar com a própria vida, não sabia mais quem era, nem o que fazer, nem pra onde ir. Abandonou a si mesma, como não me abandonaria também? Era inevitável.

Mas não consegui. Agora, penso em mais esse fracasso e considero que talvez eu simplesmente não consiga lidar com esse tipo de angústia. I just can't relate to it.

Lembro, na infância, que os amigos se distinguiam claramente em dois tipos. Havia aqueles que eram amigos pro que desse e viesse, que estariam do seu lado no matter what happened. E havia aqueles que eram amigos sociais: eram as melhores pessoas do mundo para sair, se divertir, curtir a vida, mas que você não os procurasse quando estivesse mal. Não por serem pessoas ruins ou egoístas: eles simplesmente não conseguiam lidar com dor e sofrimento. They weren't built for it. Eram daqueles que lhe ajudariam em tudo mas jamais iriam ao hospital visitá-lo: imaginá-los em um hospital, tamanha vitalidade em um local de morte e doença, seria como juntar matéria e anti-matéria. Um amigo que os conhecesse não exigiria jamais isso deles. Were they shallow? Maybe. Now, I'm really not sure.

Penso na minha total incapacidade de ajudar minha primeira esposa quando ela entrou na espiral descendente da angústia e me pergunto: será que sou assim? Será que me tornei one of those shallow people?

 Encontros e Desencontros BILL MURRAY   SCARLETT JOHANSSONO momento em que me senti realmente apartado de minha ex-mulher, um daqueles momentos pequenos que só parecem cheios de significado olhando em hindsight, foi quando assistimos Lost in Translation (Encontros e Desencontros), de Sophia Copolla, com Bill Murray.

É a história de um ator americano decadente que está no Japão para gravar um anúncio idiota de bebidas em troca de um shitload of money. Ele não conhece ninguém lá, não tem tesão pelo trabalho, está adrift. E encontra uma moça, também americana, também adrift, que está no Japão acompanhando um marido fotógrafo: enquanto ele vai tirar uma fotos no interior no país, ela fica largada em um quarto de hotel em Tóquio. Ambos, a moça e o ator, acabam se encontrando e se irmanando em sua angústia, naquele longing por sabe-lá o quê - que nem eles sabem o que é.

Eu achei o filme chato e sem-sentido. Não consegui ter empatia alguma com aquela situação, tão distante que ela estava da minha experiência - mas não estava não. A primeira-esposa adorou, saiu do cinema extasiada: dizia que aquela era a vida dele, era assim que se sentia.

Meu coração afundou um pouco. Eu percebi que meu único papel naquela história era do marido fotógrafo, que aparece somente nos primeiros minutos, ativo, doing his job, e totalmente oblivious to the fact that he had already lost his wife.

Por mais que eu tentasse, eu não conseguia relate nem com o filme nem com a angústia dela. O fosso que começava a nos separar ficou assustadoramente concreto.

Eu até fico deprimido, mas não fico angustiado, não sei nem se vocês entendem a diferença. Se eu quero alguma coisa e não consigo, eu encaro a derrota nos olhos e caio de cara no chão, mas depois durmo dezoito horas, mastigo minha raiva e me levanto, pronto pra outra.

Eu sempre sei quem eu sou, o que quero e pra onde estou indo. Nunca tenho dúvidas existenciais. Não consigo ficar perdido. Estou sempre indo, resolutamente, em alguma direção. Se for a direção errada, eu dou meia volta até a encruzilhada e pego outra direção, porque também nunca tive medo de admitir estar errado. Mas não sei ficar parado na encruzilhada debatendo minha existência, feeling sorry for myself.

Essa semana foi ruim. O trabalho duas vezes devolvido - e no qual eu deveria estar trabalhando nesse minuto - me estressou bastante e, pior, também estressou minha relação com minha sócia e melhor amiga, que está fazendo o trabalho junto comigo.

Depois veio a outra situação, que não dá pra contar em detalhes, na qual uma moça com quem eu estava começando a me envolver decidiu se afastar de mim por motivos válidos e pelos quais não posso censurá-la.

E, no meio de tudo isso, ainda me indispus com a primeira-esposa que, all in all, ainda é das pessoas mais próximas a mim.

Então, fui passar o dia em São Paulo. Tive uma reunião, moderadamente promissora, e depois me encontrei com uma amiga querida da internet, de longos papos ao longo de vários meses, com quem eu queria me encontrar.

Acho que ela nunca vai saber o que aquelas horas que passaram juntos significaram pra mim. Foi tudo tão simples. Ela me pegou e me deixou na rodoviária, me mostrou longamente sua cidade querida, comemos uma pizza, conversamos. Uma pessoa doce, inteligente, compreensiva, culta, simpática e linda - linda como poucas mulheres já foram lindas.

Um interlúdio para falar sobre a beleza.

Eu confesso que sempre fico sem graça ao elogiar a beleza de uma mulher. Sinto como se beleza fosse um atributo superficial, como se lhe elogiar a beleza fosse desdenhar suas outras qualidades, talvez mais profundas e importantes.

Dizem que nossa cultura sobrevaloriza a beleza, mas não é verdade. Nossa cultura deseja a beleza mas a desdenha. Nossa cultura trata mulheres e homens bonitos como seres superficiais e idiotas. Nossa sociedade quer a beleza para mostrar em festas ou em capas de revistas mas, when all is said and done, despreza os belos - e considera inteligência, cultura, honestidade, etc, como os verdadeiros tesouros a possuir.

Mas a beleza também é. Assim como uma pessoa realmente inteligente enriquece a vida dos que estão à sua volta, assim como uma pessoa realmente vivaz alegra e anima a vida dos que estão à sua volta, uma pessoa realmente bela também adiciona beleza às nossas vidas, ela emite luz própria nos dias mais escuros, ela dá ao mundo mais do que tira.

Talvez eu esteja falando pras paredes. A maioria das pessoas que conheço não consegue entender essa minha definição de beleza. Para elas, a beleza humana é eminentemente sexual. São pessoas que jamais entenderiam um escultor 100% heterossexual esculpindo um homem nu e celebrando a beleza do corpo masculino.

Minha ida à São Paulo foi um oásis no meio de uma semana desagradável. Não teria sido o oásis que foi se minha amiga fosse só belíssima, naturalmente - a maioria das pessoas belas que conheço é simplesmente intragável. Minha amiga foi simpática e calorosa, me recebeu com um carinho do qual eu jamais me imaginaria merecedor.

E, além de tudo isso, uma das pessoas mais puramente belas que já vi pessoalmente - e olha que moro no Rio; mulher bonita, aqui, a gente espanta com pau. Daquelas mulheres que você olha e entende, num estalo, o progresso inabalável da evolução. Ou não, pois um criacionista diria: você acha realmente que mutações aleatórias algum dia gerariam tamanha perfeição?!

Brasileiríssima, poderia ser a estrela de uma campanha pró-miscigenação. Eis o resultado de 500 anos de miscigenação, e mandaríamos sua foto aos defensores da pureza racial, desafiando-os a desencavarem uma ariana mais perfeita. Não iriam conseguir.

E, apesar disso, em todas as conversas que tivemos, eu não mencionei nenhum dos problemas acima, não por discrição, desse mal eu não sofro, nem por segredo, pois ela também sabe tudo da minha vida, mas porque eu estava lá para fugir um pouco dos meus problemas e a última coisa que eu queria era falar sobre eles, colocá-los na mesa, entre a sobremesa e o café.

Hoje, back home, estou deprimido e brocoxô, mais solitário do que nunca, pensando no trabalho recusado, na minha sócia e amiga, na minha ex-esposa, na outra amiga que eu estava começando a conhecer e não conhecerei mais, na amiga de São Paulo que foi um interlúdio tão maravilhoso e tão fugaz. Até meu pai, que me chama pra almoçar todo domingo, hoje não ligou.

Antes de retomar o trabalho, fui terminar The Hours, que estava pelas últimas páginas, e chorei, chorei. Depois, abri Leaves of Grass e fui reler Song of Myself.

As Horas, de Michael CunninghamWalt Whitman talvez seja meu melhor amigo. Sei que ele não me conhece, sei que ele morreu há mais de cem anos, sei que apoiou as políticas mais imperialistas de sua época, mas é difícil não imaginar que escreveu Song of Myself diretamente pra mim, e pra mais ninguém, e que todos os outros que leram leram de enxeridos que eram.
Folhas de Relva WALT WHITMAN

Ler o velho Walt me energiza. É como se eu enfiasse o dedo na tomasse e sentisse meu corpo se energizando às ondas - I sing the body electric, Walt. I do too.

Ler o velho Walt também me ajuda a entender melhor o que significo para inúmeras pessoas que não conheço. Quando alguém me escreve dizendo que abri seus olhos, que mudei suas vidas, que lhes ensinei um novo caminho, eu quase rio pra mim mesmo. Eu me pergunto o que essas pessoas tanto viram em mim. Eu concluo que só me dão tanto valor porque não devem ter conhecido as pessoas certas. Leiam Miller, Whitman e Thoreau, eu recomendo, e vão perceber o quão pequeno eu sou.

Mas aí eu me dou conta que o melhor amigo que temos é o que está ao nosso lado quando mais precisamos. Assim como eu li Whitman, Thoreau, Emerson, Miller no momento em que mais precisei, assim como eles fizeram coisas por mim que nenhum outro poderia ter feito, estou começando a ficar mais confortável com o fato de que eu e meus textos também podemos ter chegado na vida de muitas pessoas naquele momento exato em que mais precisavam de nós, dizendo as coisas exatas que elas precisavam ouvir, durante aquelas encruzilhadas da vida em que algumas palavras são tudo o que precisamos para seguir along the less travelled road.

Tropico de Câncer HENRY MILLERPerguntaram uma vez a Paul McCartney o que ele achava de dar autógrafos. Ele disse que era ocasionalmente chato mas que, desde pequeno, ele sempre quis ser músico e ele sabia que, das duas uma: ou seria um músico famoso e teria que dar autógrafos o tempo todo, ou seria um músico medíocre e ninguém quereria o seu autógrafo. Some things come with the territory.Tropico de Capricórnio HENRY MILLER

Então, eu, que estou no business of writing, eu, que, goste ou não, estou no business of changing other people's lives, tenho que começar a me acostumar com isso. Ou meus textos farão sucesso, serão publicados e republicados, serão lidos e ressoarão nas consciências dos leitores, e eu me tornarei o melhor amigo de muita gente que não conheço, ou serão virtualmente ignorados e aí nada. Vou ser feliz escrevendo pra mil e poucos leitores nesse blog.

Eu já disse antes que sou péssimo pra aceitar elogios. Sempre tenho aquela desconfiança que o elogiador deve ser meio ignorante - afinal, como pode elogiar um imbecil como eu?!

Mas ler Walt e deixar que ele me ajude também significa fazer as pazes com as pessoas que me admiram e incorporam minhas palavras às suas vidas.

Eu continuo achando que não sou tudo o que pensam de mim (assim como o Walt, no fundo, era um imperialista reacionário) mas sou imensamente grato por ele ter estado lá pra mim quando mais precisei, e também fico feliz de ter podido ajudar tanta gente quando mais precisaram. Desobediência Civil - HENRY DAVID THOREAU

Ensaios RALPH WALDO EMERSONTalvez até, naquele exato momento em que precisaram, eu tenha realmente sido tudo o que pensam de mim. E, na verdade, era só mesmo naquele momento que precisaram que eu fosse isso tudo. No resto do tempo, eu posso ser eu mesmo, gordo, irascível, egoísta, insensível - there's no one watching, thank god.

Chega desse texto grande, pessoal demais e sem objetivo definitivo, que serpenteou aqui e acolá, e no qual abusei de expressões em inglês. Eu penso misturando inglês e português e grande parte do meu trabalho de revisão e correção é simplesmente retraduzir pro português as palavras e expressões que me ocorreram primeiro em inglês.

Mas não vou fazer isso. Estava precisando escrever esse texto. Me fez um bem enorme. Se eu relê-lo, ele não vai ao ar. Sei que vocês, seus abutres por fofocas, adoram quando fico mais pessoal. Então, lambam os beiços.

Eu vou fazer um café e reescrever meu relatório pela terceira vez.

 

Sobre Meu Casamento:

Alexandre Cruz Almeida Agora É Alex Castro

Eu Sou Livre!

Ataques de Entendimento

Meu Casamento em Datas

Ruminações sobre Angústia, Beleza e Microfama

Postada no blog em Fevereiro de 2005

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Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

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Ruminações sobre Angústia, Beleza & Microfama    
O momento em que me senti realmente apartado de minha ex-mulher, um daqueles momentos pequenos que só parecem cheios de significado olhando em hindsight, foi quando assistimos Encontros e Desencontros, de Sophia Copolla, com Bill Murray.

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Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

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Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.

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E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz.

Trago Pessoa Amada em Três Dias 
Para cada pessoa que manda trazer seu amado existe (teoricamente) um amado relutante que queria apenas prosseguir com a sua vida.

Mas Que Calor, Hein?    
Aguardo ansioso o dia em que o meteorologista vai dizer: "Gente, excelentes notícias: amanhã, tempo bom em toda cidade. Isso mesmo que vocês ouviram, tempo bom: nuvens esparsas, leve brisa, queda de 10 graus na temperatura e ainda aquela chuvinha refrescante no fim da tarde."

Sou Janela, Não Pedra    
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas.

Quem Tem Medo do Alexandre?     
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho. Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.

Meu Primeiro Dinheiro 
O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.

O Ônus de Lembrar 
Eu sempre me esqueço de trazer as coisas que deveria, eu sempre faço essa proposta de transferir o ônus de lembrar para a parte interessada e sempre me deparo com a mesma reação: ah não, esse ônus eu não quero, quero só o livro, você que se lembre.

O Aventureiro no Penhasco   
Às vezes eu me sinto como um daqueles aventureiros que atravessou um penhasco se equilibrando numa corda e agora fica lá do outro lado só gritando, vem gente, vem que é fácil, e se admirando de ver as pessoas tentando segui-lo e caindo. Eu não devo ser seguido. Talvez eu nem mesmo possa ser seguido. Talvez o meu caminho seja só meu.

Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.