Uma leitora escreveu, e postou em seu blog, uma resenha muito original e inspirada do meu romance. Essa resenha foi o ponto de partida para uma reflexão que me fez concluir o seguinte:
Hoje em dia, as pessoas já não sabem ler literatura.
Entre julho de 2002 e outubro, foram feitos cerca de 9000 downloads do meu romance, Mulher de um Homem Só. O romance é curto, aparentemente fácil e lida com um tema comum: relacionamentos, ciúme, amizade homem/mulher. Pode ser lido, digerido e diligentemente esquecido em menos de uma hora.
Alguns poucos desses leitores têm o carinho de me escrever pra contar sua opinião. Eu agradeço cada um desses contatos. Aprendo muito com meus leitores.
Aprendi, entre outras coisas, que não se sabe mais ler literatura.
Quem São Meus Leitores
Parto do princípio que alguém que visita sites e blogs de literatura é alguém de bom nível sócio-cultural (pois tem internet e se interessa por um assunto de elite). Já alguém que encontra o site de um autor totalmente desconhecido e chega ao extremo de fazer o download de seu romance é alguém que eu presumo ter um interesse acima do normal em literatura. Por fim, alguém que faz tudo isso, lê o romance (imagino que muitos dos downloads feitos não devem jamais ser lidos) e ainda escreve pro autor é, com certeza, não só excessivamente pilhado por literatura, como também gostou muito do romance e é uma alma boa.
Em suma, essa é a amostragem de leitores a qual eu tenho acesso: pessoas inteligentes, cultas e de bom nível sócio-cultural, de alma boa e com um fortíssimo interesse em literatura. Portanto, quando eu constato que boa parte dessa população não sabe ler literatura, isso quer dizer que ninguém mais sabe ler literatura.
Por favor, não estou desmerecendo meus leitores. Existem vários modos de leitura. Eu, quando leio manuais técnicos da minha área de atuação, não faço o mesmo tipo de leitura que dedico a um poema do Whitman. Meu romance, superficialmente simples e comercial, de certo modo convida o leitor a lê-lo superficialmente também.
O Que É Literatura
Literatura é escrita pelo autor em parceria com o leitor.
O Assassinato no Expresso Oriente, por exemplo, foi escrito unicamente por Agatha Christie, sem a participação de nenhum leitor. Você pode reler o livro quantas vezes quiser e ele vai sempre dizer a mesma coisa, o discurso da Dame não muda, o enredo é sempre igual.
Experimente ler O Processo uma vez a cada dez anos: a cada leitura, você estará segurando um livro diferente.
Kafka escreveu meio livro. A outra metade é nossa. A metade dele não muda nunca, a nossa muda o tempo todo. É a nossa experiência de vida que modifica O Processo a cada leitura.
G. K. Chesterton: There is a great deal of difference between an eager man who wants to read a book and the tired man who wants a book to read.
Quem vai ler O Assassinato no Expresso Oriente não quer um exercício mental estimulante: quer um livro previsível (inclusive previsível em sua imprevisibilidade), escrito dentro de uma fórmulinha quase dogmática. Já quem lê Dom Casmurro chega com gosto e ânimo, desejoso de impor sua marca ao livro.
Ou, pelo menos, deveria.
Arte Não se Aprecia
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback.
O homem cansado do Chesterton faria melhor lendo Simenon, Harry Potter – ou mesmo os romances do Padre Brown, do próprio Chesterton. Não há vergonha nenhuma nisso. Eu já li esses todos.
Mas um homem cansado não deve chegar nem perto de Grande Sertão: Veredas. Grande Sertão: Veredas exige mens sana, corpore sano. Grande Sertão: Veredas dá trabalho. E, mais importante, vale a pena. Daqui a 10 mil anos, quando o português for uma língua morta, as pessoas ainda vão querer aprender nosso idioma só pra poder ler a saga de Diadorim no original. E vão ficar quebrando a cabeça pra saber como se pronuncia “nonada”.
Sabe ler literatura quem entende que arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.
Você aprecia o som das ondas batendo, você aprecia a arquitetura do Teatro Municipal, você aprecia o cheiro de alho sendo refogado.
Mas você interage com Ulysses, do Joyce, com Guernica, de Picasso, com a Opus 50, de Tchaikovski. Pode ser qualquer tipo de interação. A maior parte das pessoas interage com Ulysses atirando-o longe. Eu confesso que fiz o mesmo. É um grande livro, mas ilegível.
Ainda assim, muitas pessoas leram meu romance como quem lê Sabrina. Em parte, a culpa é minha, em parte, não é.
Uma obra de arte é um trabalho de colaboração entre artista e platéia. O artista não deve impor uma reação, mas convidar. A razão pela qual muita gente atira Ulysses longe é porque ele força um nível de interatividade, para muitos, insuportável. Arte de vanguarda é para poucos.

A verdadeira arte pede um pouco de esforço do leitor para se revelar. A Metamorfose pode ser só uma história de um cara que vira inseto. Quando a li pela primeira vez, eu era criança, e foi realmente só isso que eu achei. Muita gente por aí deve ler a novela de cabo a rabo, só ver a história do cara que vira inseto e ainda achar o livro ótimo. Mal sabem que só “leram” 20% do livro. Não importa: foi bom o suficiente, passou o tempo e agora podem bater a mão no peito e dizer que leram Kafka.
Eu poderia ter forçado uma interação maior mas, por outro lado, também gosto de ter escrito um livro que pode ser lido superficialmente por quem quer – ou por quem só sabe ler assim.
Dom Casmurro e a Arte da Leitura
Não há nada de intrinsecamente errado no tipo de leitura pedida pelo O Assassinato no Expresso Oriente e nada impede que alguém leia Dom Casmurro do mesmo jeito. A pessoa não vai aproveitar tudo do livro, mas vai se divertir, vai descansar sua cabeça e vai passar horas agradáveis.
Só que Dom Casmurro é muito mais que isso.
Fico especialmente espantado de ver esse fenômeno entre os leitores brasileiros. Estudei em uma Escola Americana. Nosso currículo incluía o estudo de grandes autores, como Shakespeare, Wilde, Sófocles, Joyce, Camus, Emily Brontë, Hawthorne, etc. Tudo gente de primeira categoria, mas nenhum desses autores ensina a grande lição que Dom Casmurro ensina (ou pensei que ensinava) a todos seus leitores: nunca, nunca confie no narrador.
Se o pecado de Ulysses é forçar uma interação intensa demais, o gênio de Dom Casmurro é também forçar uma interação, mas sutil e insidiosa.
D om Casmurro é uma aula de literatura na primeira pessoa. Não consigo imaginar alguém lendo Dom Casmurro tão distraidamente que não perceba que a questão do adultério de Capitu nunca é bem resolvida. Mesmo o leitor mais superficial fecha o livro e, de repente, bate o estranhamento: peraí, ele nunca diz se ela traiu mesmo ele. Será que ela traiu? E, nessa simples pergunta, ele coloca em questão, mesmo sem saber, cada palavra que Bentinho falou.
Então, pensei eu, ingenuamente, o entusiasta brasileiro de literatura, por seu contato quase que obrigatório com o nosso clássico nacional por excelência, está mais preparado do que qualquer outro para lidar com a ambigüidade inerente a um romance na primeira pessoa.
Ledo engano.
Como os Leitores me Lêem
As pessoas me escrevem e não capto nenhuma indicação de que leram criticamente a narração de Carla. Gostaram muito do livro, mas aceitaram tudo o que ela disse assim como aceitam, digamos, o Evangelho de Mateus.
Eu encaro isso como um fato da vida. Não faço discursos didáticos, agradeço o contato, a vida continua. As poucas vezes em que falo alguma coisa são quando meus leitores me vêm com perguntas específicas. Por que você nunca menciona isso ou aquilo? Você esqueceu de dizer blá blá blá. Etc.
Não tem jeito: ou eu ignoro a pergunta ou sou obrigado a dar uma aula.
Explico: eu, Alexandre, não tenho nada a ver com isso. Não fui eu quem não disse nada. O romance é na primeira pessoa. O que você tem que se perguntar é: se isso é tão óbvio, é tão lógico, é tão gritante, por que Carla nunca menciona o assunto?
Jorge Luis Borges: Omitir siempre una palabra, recurrir a metáforas ineptas y a perífrasis evidentes, es quizá el modo más enfático de indicarla.
Nunca lhes ocorrera a idéia de questionar a narradora. Como tinham acesso a mim, me questionaram. Se não tivessem, teria ficado por isso mesmo.
É por isso, só por isso, que eu digo que as pessoas não sabem mais ler literatura.
Literatura É Passatempo de Elite
Não que isso seja algum problema. A literatura não tem monopólio da leitura. As pessoas lêem por várias razões, e uma delas (a mais comum) é justamente pra descansar, para pegar no sono, pra não pensar – um modo de leitura totalmente não condizente com Kafka, Joyce, Machado de Assis, Borges. Mas quem sou eu pra querer legislar como meu livro é lido? Que seja lido já é bom demais.
A literatura, por definição, é um jogo para poucos iniciados, um passatempo de elite. Não é todo mundo que sabe as regras ou tem disposição de jogar. O número de leitores de verdade é pequeno e sempre foi pequeno.
Dizer que as pessoas hoje lêem menos é uma grande balela. As pessoas hoje lêem mais do que jamais leram na história do mundo. Pessoas que há cem anos nem saberiam ler hoje lêem o jornal todos os dias. Ou então pessoas que há cem anos liam folhetins açucarados no jornal hoje podem ver novelas mexicanas e não precisam mais ler. Perdeu-se alguma coisa?
O que me parece que nunca muda é o número de pessoas que sabem ler literatura: quem hoje lê Houellenbecq, há um século leria Flaubert, há dois mil anos conversaria com Sócrates na ágora. São poucos e sempre serão poucos.
Captando a Mensagem
Meu fiel e querido leitor Harry me fez uma pergunta bastante pertinente: “E dos leitores do blog, que acha do que eles dizem? Estamos captando a mensagem?”
Não há mensagem a ser captada. Não há modo certo nem errado de ler. Ninguém é "burro" por fazer uma leitura não-literária do meu romance. Não só o texto se presta admiravelmente bem a uma leitura não-literária, como também há vários tipos válidos de leitura e uma leitura literária é só um deles.
Eu fiz uma observação quantitativa: mesmo entre as pessoas que amam a literatura, muito poucas lêem literariamente. Ponto.
Ler meu livro não-literariamente não faz ninguém cair no meu conceito – embora ler literariamente faça subir, eu confesso.
Confesso também outra coisa, e se isso for elitismo, então sou elitista e besta: alguém cairia e muito no meu conceito se perguntasse ao Joaquim Maria se a Capitu traiu mesmo Bentinho. Eu iria considerar essa pessoa uma simplória que não entendeu absolutamente nada do livro. Melhor que vá assistir novela e pergunte ao Manoel Carlos, sei lá, por que ele matou a Fernanda.
As Regras do Jogo
De vez em quando, entretanto, me aparece um leitor que sabe ler literatura, que sabe jogar o jogo, que entende as regras.
Uma moça de São Paulo, com o sugestivo nick de Diva Artisan, leu o meu romance e postou em seu blog uma interpretação muito interessante. Reparem bem: não quero dizer que concordo com nem uma palavra que ela escreveu. Aliás, minha concordância ou discordância não quer dizer absolutamente nada, é irrelevante e, por isso mesmo, não vou gastar saliva.
Não é que a Diva “acertou o que eu queria dizer”: o que é digno de nota é que ela sabe ler literatura. Não se deixou enganar pela superfície e mergulhou fundo no romance. Viu coisas novas. Fez novas associações. Encontrou motivos ocultos. Uma leitura como a dela me convence (não que meu enorme ego precise de afago) que realmente escrevi uma obra rica e multifacetada.
A análise de Diva é tão boa e fechadinha que chega a ser perigosa. Não a reproduzo, ou mesmo cito aqui, por esse motivo. Se for lida antes do romance, ela quase que o torna obsoleto. Seria quase impossível ler o romance depois e não entendê-lo com base nessa interpretação. Seria quase impossível ao leitor formular sua própria interpretação.
Uma resenha como a dela é a razão de ser da crítica literária: utilizar um instrumental teórico/acadêmico para potencializar obras literárias, fazer novas associações, buscar novos sentidos, em suma, acrescentar à obra. Em geral, infelizmente, a crítica literária empobrece e limita a literatura, desconstruindo e compartimentalizando o que deveria ser entendido em sua unicidade.
Quem já leu meu romance e quer conhecer uma versão radicalmente nova e original dos fatos, clique aqui e divirta-se.
Se você não leu e está pensando em ler, ficou curioso com esse papo todo, então leia o romance primeiro, a resenha da Diva depois. O romance é curtinho, a versão pra imprimir tem 21 páginas, vale a pena esperar.
Se você ficou curioso, mas não o suficiente pra fazer o download e ler o livro, então não está perdendo nada mesmo, clica aqui, lê a resenha e, quem sabe, vai ver até fica curioso e lê o livro depois.
Quem avisa amigo é: quem ler o romance depois de ler a genial resenha da Diva não vai estar lendo o romance do Alexandre e do (coloque aqui o seu nome): vai estar lendo o romance do Alexandre e da Diva.
Mas não tenha medo. A análise dela é tão boa que talvez seja até uma boa troca.
Leia agora o que os meus leitores tiveram a dizer sobre toda essa longa polêmica
Postado no blog entre Agosto 19 e 22, 2003
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