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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Será A Minha Vida Mais Interessante Que A De Vocês?

Sexta-feira, ao anoitecer. Minha irmã e meu cunhado estavam me ajudando a fazer minha mudança pra casa nova. Na verdade, mudança é exagero. Minha mudança consistia em uma mala e algumas coisas emprestadas da casa dela, mas levar isso a pé dá um certo trabalho.

Eu agora moro na Arch Street, uma das melhores aqui de Berkeley, tranquila rua de casas, ao lado do campus e com vista pra baía.

Entretanto, não pudemos entrar na rua. Havia algum tipo de comoção, uma multidão nas calçadas, todo mundo de quipá, tocando instrumentos e carregando aqueles candelabros de seis velas, quatro pessoas de barbas longas caminhando debaixo uma tenda, fotógrafos por todos os lados, policiais de carro e de bicicleta. Claramente, algum mega evento judaico, ainda mais julgando pela hora ? estávamos no começo do Shabat.

Beth El 05 Beth El 03

Meu cunhado e minha irmã não viram nada disso. Ficaram irritados de que não conseguiam entrar na rua e deram a volta pelo outro quarteirão. Quando chegamos na minha casa, pelo outro lado, eu quis sair pra perguntar pro povo o que estava acontecendo, mas eles nem quiseram saber. Pararam em frente à minha casa e começaram a descarregar minhas coisas.

Eu não resisti e perguntei. Era simples e inusitado: a sinagoga Beth El, instalada desde 1945 na esquina da Arch Street, quase em frente ao meu novo lar, tinha cedido seu prédio para um seminário cristão e agora estava mudando para um novo endereço, uma verdadeira procissão judaica, os membros da sinagoga levando, a pé, todos os seus objetos religiosos para o novo prédio, e ainda cantando e fazendo música pelo caminho.

Poucas horas depois, enquanto íamos ao Aeroporto de Oakland buscar o Oliver (outra história sui-generis), meu cunhado comentou que não era a toa que eu tinha um blog famoso, pois as coisas mais incríveis aconteciam comigo o tempo todo. Eu não podia nem me mudar pra minha nova casa que já havia, na mesma hora, uma sinagoga cedendo seu prédio pra um seminário cristão e fazendo uma procissão até o novo endereço, um fato com certeza inusitado. Só com você mesmo, Alexandre!

* * *

Estou acostumado a esse tipo de reação. Meu pai sempre diz que nada, na minha vida, é feito do modo normal - mas, como ele considera fazer as coisas do modo normal uma qualidade, o comentário é uma crítica.

Quando escrevi o périplo paulista, em maio, muita gente veio me dizer que minha vida era uma grande aventura. Não é não. Eu tenho uns três dias interessantes por ano, a única diferença é que eu escrevo sobre eles.

Eu não acredito que minha vida seja mais inusitada que a dos outros. Mas acredito que os outros não estão abertos para o inusitado.

* * *

Meu cunhado, que estava dirigindo o carro que não pôde entrar na rua bloqueada pela procissão judaica, disse que esse tipo de coisa só acontecia mesmo comigo. Mas não é verdade. Aconteceu tanto com ele quanto comigo. A história é tão dele quanto minha.

A diferença é que, no primeiro momento, ao ser impedido de ir aonde queria ir, ele só viu o seu próprio incômodo e chegou até a ficar um pouco irritado. Não parou pra admirar o evento interessantíssimo que estava acontecendo, nem pra se perguntar o que era.

No segundo momento, ao chegarmos na minha casa, nem ele nem minha irmã tiveram vontade de descobrir. Não seria difícil: bastava cutucar umas das trocentas pessoas andando pela calçada e perguntar: hey, what is going on? Foi o que eu fiz. Mas eles ou não tinham curiosidade suficiente ou a pouca curiosidade que tinham não valia o trabalho.

Beth El 02 Beth El 01

Não fosse eu ter perguntando, descoberto do que se tratava e tirado fotos (portanto, fazendo dessa história MINHA história), jamais teríamos sabido porque havia tanta gente de quipá andando pela rua ao mesmo tempo.

Meu cunhado e minha irmã só perceberam a procissão judaica porque ela estava impedindo seu caminho e, mesmo assim, não se perguntaram o que era. Se a procissão estivesse ordeiramente na calçada, talvez eles nem mesmo tivessem reparado.

E eu me pergunto: quanta coisa bela, insólita, inesperada deve acontecer na vida deles, de vocês, de todo mundo, e ninguém repara?

* * *

Sherlock Holmes uma vez perguntou a Watson quantos degraus tinha a escada que ambos subiam todos os dias. Watson não sabia. Holmes, sempre arrogante e sempre cheio de razão, disse: ahá, Watson, você vê, mas não observa.

Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

Postada no blog em setembro de 2005

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Será A Minha Vida Mais Interessante Que A De Vocês? 
Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

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Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.