Estava atrasado pra uma reunião em Ipanema e fiz uma coisa chata: roubei uma vaga. Vim pela direita, acelerei, penetrei na vaga, pimba. A vida pode ser cruel em um bairro com tão poucas vagas.
Mas a derrotada não se deu por vencida. Parou o carro atrás do meu, como se bloqueando minha saída, e ficou me esperando.
Putz, pensei, será que vou levar um tiro por causa de uma vaga? Carioca já pensa logo em tiro.
Fiquei no carro o máximo que pude. Vesti o paletó, tirei o alarme, escondi o rádio, peguei a pasta, catei o dinheiro pro guardador, e nada da mulher ir embora.
Ela não gritava, não xingava, nem abaixou o vidro. Só olhava pra mim, placidamente, me esperando sair do carro.
Por fim, saí. Nossos olhares se cruzaram por um instante. Não fiz gestos, não sorri, não estendi o instante, não queria provocar. Tranquei o carro e fui embora.
Acham que acabou aí? Não mesmo. Minha personal stalker começou a me seguir. Eu andava pela calçada e o carro dela me acompanhava, devagarinho. Em plena Ipanema, às duas da tarde.
Tentei não olhar pra ela, pra não piorar a situação, mas via o carro pelo reflexo das vitrines. Entrei em duas galerias e perguntei: "Estou sendo seguido por uma louca, essa galeria tem alguma saída dos fundos?" Como estamos no Rio, ninguém estranhou, mas não havia outras saídas.
Quando saí da segunda galeria, minha stalker não estava mais lá. Considerei seriamente voltar ao meu carro e estacioná-lo em outro lugar, pra não arriscar de encontrar o vidro quebrado ou os pneus furados. Mas a reunião era importante e eu estava muito atrasado.
Pra eu aprender a não ser malandro.
Postada no blog em Maio 22, 2004
Outros Artigos
Pai Sabe das Coisas
Democracia É um Processo, Não um Fim
O Miojo Não-Comido
As Mulheres Querem Tudo!
Trago Pessoa Amada em 3 Dias
Mas Que Calor, Hein?
|