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  Alex Castro
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Os Amigos, Os Inimigos e Os Surdos

Sempre estive preparado para que as pessoas discordassem veementemente de mim. Mas o que acontece é ainda pior.

Parece que as pessoas, hoje, só conseguem raciocinar em termos tribais, pequenos, limitados. Um discurso universal, humanista, libertário, que tenta pensar nossa espécie como um todo, é algo aparentemente tão radical que elas não discordam: nem apreendem.

Nunca disse, por exemplo, que odeio ou desgosto do Brasil. Eu disse que todos nós deveríamos amar menos nossas tribos e amar mais a humanidade. O Brasil me é indiferente, assim como qualquer outra abstração geopolítica impessoal, mas amo os brasileiros, tanto quanto amo os eslovenos. E amar realmente a humanidade é o melhor modo de realmente amar tanto os brasileiros quanto os eslovenos.

Essa semana, um dos meus leitores mais perceptivos e bem-educados falou: "Tu criticas os americanos porque eles têm excesso de orgulho na sua pátria. Muito provavelmente os holandeses devem achar que têm um óptimo país e devem ter orgulho na sua pátria, mas não os vais criticar por isso, pois não?"

Eu tenho vontade de arrancar os cabelos. Se acho ridículo americanos e brasileiros serem patriotas (com ou sem razão), por que não acharia ridículo os holandeses serem patriotas também? Será que não entendem que estou falando não de brasileiros, americanos ou holandeses, mas de seres humanos?

Outro dia, quando escrevi sobre o Sérgio Vieira de Mello , um leitor, também querido, veio me jogar na cara: "Você é que não se solidariza com os problemas de milhões de brasileiros e vai dar atenção ao destino do cadáver de um único."

Jamais falei isso. Mas não vejo a lógica de, só porque sou brasileiro, eu ter que achar os problemas dos milhões de brasileiros mais importantes do que os problemas dos milhões de moçambicanos. Me importo com os problemas de todos.

Não somos todos iguais?

E a pior: "Talvez por vc ja ter morado em outros países, ser um cosmopolita, vc já não goste mais do jeitinho brasileiro, Ale; isto é normal; então imagino q deva ser um sofrimento pra vc morar aqui"

Eu sou brasileiro, estou perfeitamente adaptado ao jeitinho brasileiro e gosto muito de morar aqui, senão estaria em outro país. Mas seria igualmente feliz em qualquer lugar onde gozasse de liberdade de expressão, política e religiosa.

NADA do que estou falando é especificamente sobre o Brasil. Como sou brasileiro e a maioria dos meus leitores também, estou usando o Brasil COMO EXEMPLO para escrever sobre uma verdade que, acredito, seja universal. Se esse fosse um blog alemão, estaríamos falando da Alemanha.

Meus leitores têm todo o direito de discordar dessa pretensa verdade que estou defendendo. Têm todo o direito de, inclusive, me xingar ou me detestar. Mas o que eu faço com os que não me entendem?

Um homem se mede por seus amigos e inimigos.

Defendo teorias bem radicais. É natural que algumas pessoas se empolguem, digam que eu abri seus olhos e que mudei suas vidas. Fico muito lisonjeado e tento ajudá-las a caminhar sozinhas. Elas muito me honram.

Defendo teorias bem radicais. É natural que algumas pessoas discordem radicalmente de mim e considerem minhas idéias imbecilidades sem tamanho. São pessoas inteligentes, mas que acham, por exemplo, que um casamento aberto é imoral, ou impraticável, e que se dignam de discutir comigo, alguém do qual discordam tanto. Elas muito me honram.

Agora, o que eu faço com essas pessoas que simplesmente não escutam?

Muitas vezes, os surdos até acham que concordam comigo. Outras, acham que discordam. Naturalmente, não podem fazer nem uma coisa nem outra, pois nunca me ouviram.

Os que acham que concordam são os piores. Já cansei de receber elogios (em privado, os malandros não querem se expor) me dizendo que estou certíssimo, o Brasil é mesmo uma merda. E eu pergunto: onde será que eu disse isso? Onde será que eu fiz sequer uma crítica ao Brasil?

Eu falo que precisamos amar mais a humanidade e menos as nossas tribos, e vêm me dizer que estou certíssimo, o Brasil é mesmo uma merda. Eu falo que precisamos nos erguer acima de conceitos pequenos e limitados, como ser católico, ser carioca, ser brasileiro, e amar mais o Homem com H maiúsculo e vêm me dizer que realmente deve ser um sofrimento pra mim morar aqui no Brasil.

E eu pergunto: o que faço com leitores assim? Eu explico de novo? Eu me repito? Eu brigo? Eu xingo? E vai adiantar alguma coisa? Eles não vão entender. Eles não querem entender. Provavelmente, não conseguem nem ouvir.

Os leitores que ainda não entenderam que não estou falando contra o Brasil ou mesmo sobre o Brasil, então é porque não vão entender nunca. Não sei que blog estão lendo, mas não é o meu. Não sei com quem estão dialogando, mas não é comigo. Não sei que críticas ao Brasil são essas que pensam estar rebatendo, mas não são minhas.

Ainda mais importante, não sei porque voltam.

Aparentemente, essa pessoa que estão lendo, com quem estão dialogando, é um ser humano bastante desagradável, arrogante, egocêntrico, super-reacionário e ultra direitista, alguém que odeia o Brasil e tudo o que é brasileiro, que lambe as botas dos Estados Unidos e que aceita, alegremente e sem critério algum, tudo o que vem de fora. Uma pessoa assim é a inimiga número um da liberdade. Um cara que, se me apontam ele na rua, eu vou lá e chuto.

E, *longo suspiro*, aparentemente esse cara sou eu!

Quem fala o reme-reme que todo mundo quer ouvir nunca é mal-interpretado. Aliás, você nem precisa terminar de ouvir pra saber o que essas pessoas estão falando. Elas só falam o óbvio, o esperado, o lugar-comum. Como dizia Emerson, um dos meus autores libertários favoritos, ser grande é ser mal-interpretado.

É o meu consolo.

Postado no blog em Outubro 15, 2003

 

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