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  Alex Castro
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Junichiro Tanizaki: Um Velho Podólatra e Fetichista


Tanizaki, considerado um dos maiores, senão o maior, romancista japonês, é praticamente desconhecido aqui. Teve um livro traduzido pela Brasiliense na década de 80 e depois nada. Finalmente, em 2000, a Companhia das Letras começou a publicar sua obra aqui. O primeiro romance publicado foi A Chave, hoje esgotado. Eu li, me apaixonei e, capitalizado que estava na época, oh saudosa bolha da Internet, mandei vir pela Amazon todos os seus livros traduzidos em inglês.A Chave, por Junichiro Tanizaki

Os Temas de Tanizaki

Ele tem três grandes temas. O primeiro é um dos temas literários que mais me interessam, a inação. E não a inação à la Escola Urbana, de Chico Buarque e Patríca Melo, mas a inação de Conrad e Turgenev. Minhas duas melhores obras, o romance Mulher de um Homem Só e o conto A Morte do meu Cachorro tratam, basicamente, de inação.

O segundo tema deve ser o que mais interessa aos brasileiros: dominação/influência cultural. Tanizaki viveu a época de mais intensa ocidentalização do seu país e acompanhou o processo de perto, com sentimentos bem ambivalentes, que se refletem por toda a sua obra. Confesso que esse tipo de discussão me atrai pouco. Cresci em um ambiente multicultural, acho a interação entre culturas benéfica para todas as partes e considero protecionismos culturais o ápice da imbecilidade.

Mulheres Malvadas e seus Belos Pés

O seu tema mais importante, entretanto, e o que mais me interessa, é dominação sexual. Os livros de Tanizaki são repletos de mulheres malvadas e dominadoras, fazendo gato e sapato de seus homens, e tendo seus pés cruéis lambidos e beijados. E esse não é o tema de um ou outro livro, mas de todos.

Com uma exceção. Críticos dizem que só As Irmãs Makioka, considerado sua obra-prima, não contém elementos de dominação, masoquismo e podolatria. Talvez por isso seja considerado sua obra-prima, por seu o mais palatável. Com certeza por isso é o único que ainda falta eu ler.

O mais interessante, entretanto, é como uma literatura de uma civilização não-cristã, sem as culpas e pecados que fazem parte do nosso dia-a-dia, trata um tema tão, digamos, espinhoso com tão pouca culpa ou danos colaterais.

Sacher-Masoch e Kraft-Ebbing

Por muito menos que isso, Sacher-Masoch é considerado um fracasso. Resenhas da época consideram que ele tinha potencial para ser um dos grandes escritores de sua geração, mas se perdeu ao se entregar às suas obssessões. Masoch, hoje famoso quase que apenas por dar nome ao masoquismo, era uma das grandes promessas da literatura nacional alemã na fase logo posterior à unificação. Entretanto, todos os seus livros giravam em torno de mulheres más e perversas que utilizam seus pés, chicotes e casacos de peles para escravizar os homens. Independente da qualidade literária dos textos, não eram temas adequados para conversas nos saraus literários de Berlim ou para as salas de aulas das universidades de Munique. Quando o psicólogo Kraft-Ebbing, autor de Psicopatia Sexualis (um livro que todos deveriam ler, sensacional) muito apropriadamente cunhou o termo masoquismo, a carreira literária séria de Masoch estava selada. O único de seus romances ainda em circulação é o maravilhoso Vênus das Peles.

Enfim, esse longo rodeio foi pra dizer que, escrevendo em uma civilização não-cristã, Tanizaki foi muito mais explícito, muito mais fetichista que Masoch e, ainda assim, apesar de causar um certo desconforto nos mais pudorentos, é considerado um dos maiores autores japoneses de todos os tempos.daqui e eu não ganho nada.

Voragem, por Junichiro Tanizaki
Voragem

Voragem, por exemplo, é a história de uma atração fatal lésbica entre uma pacata dona de casa e uma perversa estudante femme-fatale. As coisas se complicam quando o marido também se apaixona pela estudante e ela começa a manipular os dois.

Deixa Nelson Rodrigues no chinelo. É um livro que seria escandaloso se eu o publicasse hoje, nos primeiros anos do século XXI, no cosmopolita Rio de Janeiro.

Imaginar que foi publicado na década de 20 do século passado (e que o autor não foi preso, mas prestigiado!) só me faz concluir que as diferenças entre Oriente e Ocidente são maiores do que eu imaginava.

Diário de Um Velho LoucoDiário de um Velho Louco, por Junichiro Tanizaki

Diário de um Velho Louco, último romance de Tanizaki, me parece o menos literário e mais fetichista: é a história da paixão de um velho senil por sua perversa nora. Ela faz pouco de todos na família, gasta compulsivamente e traz seus amantes pra casa nas barbas do marido mas, em troca de deixar o sogro lamber e beijar seus pés, é defendida e paparicada por ele. Sua paixão pela nora é tão louca e fetichista que ele deseja que ela molde as solas dos seus pés em seu túmulo, para que ele possa se imaginar morto e sendo pisado por ela.

Trecho da resenha de Marcelo Pen para a Folha:

"[A] real obsessão do personagem [é] sua nora Satsuko. Ela mora com o marido no andar de cima da casa de Utsugi [o protagonista]. Ex-corista, é bonita, inteligente, dominadora e cruel. Consegue do sogro o que quer: dinheiro, jóias, carro. As filhas de Utsugi a odeiam. O velho se compraz em vê-las discutir com a nora. Satsuko sempre leva a melhor. (...)

[Utsugi] vive de migalhas do corpo de Satsuko. Ela o permite beijar-lhe a perna, lamber-lhe os dedos do pé. Em troca, exige um valioso anel de olho-de-gato. Mas seria Satsuko má ou estaria desempenhando um papel? Utsugi revela sua predileção por mulheres de índole cruel e Satsuko age como tal, espezinhando o velho e zombando de sua decrepitude.

Quanto mais Satsuko o maltrata, mais o ancião se apaixona. Ele a ama porque ela preenche suas expectativas fetichistas e masoquistas. (...) Satsuko se maquia e se veste com apuro sedutor. Apresenta-se ao velho portando sandálias das que se usam em espetáculos de strip-tease. Assim como o ator fora para cama em roupas femininas, Satsuko não tira a máscara de "femme fatale".

O requinte do fetichismo erótico se dá quando o velho decide mandar gravar em sua lápide os pés de Satsuko como se fossem as pegadas etéreas de Buda. Dessa forma, seu desejo não consumado em vida se prolongaria pela eternidade. "E quando ela pensasse", ele raciocina, ""Estou pisando os ossos do velho caduco debaixo da terra", minha alma, que estaria viva em algum lugar, sentiria o peso do seu corpo, sentiria dor, sentiria a tenra planta de seus pés. Hei de sentir, mesmo depois de morto. Por que não?"

Em nossa época de cínico moralismo politicamente correto, macaqueado aos berros a torto e a direito, é revigorante voltar a atenção para esse relato de taras sutilmente descritas, com toda a complexidade e o "pathos" acarretados e sem concessão ao decoro, ao puritanismo ou ao ridículo. Se há a consciência da transgressão, não existe a idéia do pecado. Não se fale aqui em culpa cristã."


Amor Insensato, por Junichiro Tanizaki
Amor Insensato

Em Amor Insensato, também publicado pela Brasiliense como Naomi, um jovem inexperiente e pacato se apaixona por uma dançarina ocidentalizada que, óbvio, faz gato e sapato dele.

Marcelo Coelho, na Folha, faz uma comparação interessante entre Amor Insensato e Diário de um Velho Louco:

"Quase 40 anos separam "Amor Insensato" do "Diário de um Velho Louco", mas o tema não muda: homem respeitável se deixa subjugar por mulher ocidentalizada, magnífica, obsedante. No primeiro, a narrativa é direta, por vezes estereotipada, mas prende a atenção. No "Diário" tudo é ao mesmo tempo mais sutil e extravagante. Nos dois casos, o encaminhamento dessas paixões lamentáveis, com direito a cenas de podolatria e humilhação em público, é bastante previsível.

Mas esses livros não se resumem ao retrato de uma servidão masculina na qual, visivelmente, o próprio autor do livro se compraz. Casos como o de Joji e Naomi, assim como o do sr. Utsugi e sua nora Satsuko, são a metáfora de outro tipo de submissão: a da cultura japonesa tradicional diante das influências do Ocidente. O complexo de inferioridade dos japoneses perante americanos e europeus é tratado com minúcia por Tanizaki, e merece ser lido por qualquer brasileiro, mais até pelas diferenças do que pelas semelhanças com nosso caso. (...)

Tanizaki é mestre nas descrições do corpo feminino, e o erotismo que emana de Naomi é bem mais convincente do que sua crueldade; quanto a Joji, parece excessivamente encarregado de representar as intenções do próprio autor, xingando Naomi de "meretriz imunda", por exemplo. É como se a lição moral deste romance (o Japão se corrompe ao abandonar a dignidade de suas tradições) tivesse de ser repetida até o clichê, para que o próprio Tanizaki se livrasse do sortilégio erótico das suas malévolas dançarinas de jazz. Ambigüidade que não é o menor motivo de fascínio deste livro."

The Secret History of the Lord of Musashi

Esses foram os disponíveis em português. Tem mais.

The Secret History of the Lord of Musashi é uma novela de época sobre um guerreiro cuja grande tara eram não apenas mulheres más, mas também ser decapitado por elas. Um trecho:

"He wanted to be killed, transformed into a ghasthly head with an agonized expression, and manipulated in the girl's hands. Becoming a severed head was a necessary condition. He found no pleasure in imagining himself alive at her side; but if he could become such a head and be set before her in all her charm, how happy he would be!"

Captain Shigemoto's MotherHá Quem Prefira Urtigas, por Junichiro Tanizaki

Captain Shigemoto's Mother é uma das melhores novelas históricas que já li, apesar de o contexto me ser totalmente estranho. Sua técnica narrativa é circular: o narrador circula seu assunto incessantemente, sempre fugindo dele, sempre se aproximando e se afastando, sem nunca alcançá-lo. Ao final, não narrou o que iria narrar, mas narrou muito mais.

De certo modo, essa é minha técnica literária preferida e estou tentando aperfeiçoá-la desde A Morte do meu Cachorro até Mulher de um Homem Só.

The Portrait of Shunkin

The Portrait of Shunkin, conto do livro Seven Japanese Tales e que inspirou parcialmente o filme Dolls, é a história da belíssima Shunkin, uma professora de música cega, e seu discípulo. A dominação de Shunkin sobre seu discípulo é completa. Ela dorme com as solas dos pés em seu rosto, para que ele as esquente. Quando Shunkin é desfigurada em um acidente, o discípulo fura seus olhos antes de encontrá-la. Ela responde:

"You have made me very happy. (...) I must confess that I couldn't stand to have you, of all people, see me as I am now. I am grateful to you for realizing it."

Shunkin também era extremamente cruel com os alunos:

"Ironically enough, her cruelty seems to have had its attraction. I suspect that even among her serious pupils there were those who found the most intriguing part of their studies to be the strange pleasurable sensation of being punished by the beautiful blind woman."

A Cat, a Man and Two Women

Por fim, saindo do fetiche, sua novela A Cat, a Man and Two Women, sobre a briga de um casal divorciado pela custódia do gato, é o melhor tratamento literário da relação do homem com seus animais de estimação. Tanizaki era fanático por gatos, eu por cachorros. Não deixa de ser estranho que algo tão importante na história da humanidade, e tão presente no nosso dia-a-dia, seja tão ignorado pelas artes em geral.

Será Tanizaki Grande?

Às vezes, tenho dúvidas se posso confiar nas minhas inclinações. Me pergunto: será que Tanizaki é mesmo um grande autor, ou será que só gosto dele por compartilharmos algumas taras? Com certeza, ler suas histórias é uma enorme delícia. Mas também adoro ler Masoch e sei que não estou na presença de nenhum gigante literário.

Além disso, vou confiar na opinião dos japoneses. Se eles consideram Tanizaki tão bom assim, não deve ser só por suas taras.


Links Relacionados (todos da Folha)
As Miudezas Irrecuperáveis - Resenha de Diário de um Velho Louco
O Império do Gelo - Resenha de A Chave
Obsessões povoam a literatura de Tanizaki - Resenha de Diário de um Velho Louco
Tanizaki traduz embate entre tradicional e moderno - Resenha de Há Quem Prefira Urtigas
Tanizaki faz crônica de complexo japonês - Resenha de Amor Insensato

Postada no blog em Junho de 2004
 

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Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

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Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

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Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

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Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.