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  Alex Castro
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Um Épico Injustiçado

"O Senhor dos anéis: o retorno do rei", terceira parte da trilogia dirigida por Peter Jackson, tem estréia marcada nos Estados Unidos para 17 de dezembro. No Brasil, o filme deve estrear no dia de Natal. Deve. Apesar de o site da Warner ainda listar a estréia nacional como confirmada para o dia 25 de dezembro, fontes próximas já dão como certo o adiamento dessa data. As especulações variam. Alguns cogitam a sexta-feira, 26, outros, o sábado, 27, mas a maioria concorda que a data mais provável é a do feriado de 1º de janeiro.

"O que se sabe com certeza absoluta é que a pré-estréia será no dia 20 de dezembro," diz Daniel Cossi, Fundador e Diretor-Presidente da Sociedade de Tolkien Brasileira .

Naturalmente, o possível adiamento não agradou em nada a legião de fãs de Tolkien no Brasil. E agradou menos ainda o motivo alegado: evitar concorrência direta com "Abracadabra", o novo filme da Xuxa, que estréia dia 19, também pela Warner.

A mensagem é clara: o estúdio considera que ambos os filmes têm o mesmo público e, sendo o caso, por que colocá-los para brigar logo de cara? Não há motivo para arriscar diluir o impacto cada vez mais importante do primeiro fim-de-semana. Além disso, não haveriam cinemas suficientes para comportar dois megalançamentos simultâneos.

Como Xuxa teria se recusado a trocar a data do lançamento de seu filme, só restou à Warner adiar a estréia de "O senhor dos anéis" por aqui. Não há porque estranhar a banca da ainda rainha dos baixinhos: seus filmes são disparados as maiores bilheterias do cinema nacional.

Mercadologicamente, não se pode negar que o estúdio tem lá sua razão, mas vá convencer os fãs de Tolkien. Por seu lado, eles também argumentam que os públicos-alvo não são tão semelhantes assim: enquanto o filme da Xuxa é voltado para crianças e pré-adolescentes, "O senhor dos anéis" é um filme para todas as idades.

"No Brasil, vende-se mídia e não filmes," opina Daniel Cossi, que também é editor do Guia de Tolkien, do Projeto SobreSites. Ele acredita que o problema está, justamente, no modo como os filmes são vendidos no Brasil: o apelo de filmes como o da Xuxa, diz ele, são mais pelas participações especiais de uma avalanche de nomes famosos do que por suas qualidades cinematográficas, como roteiro e produção.

Mas não é de hoje que "O senhor dos anéis" é taxado de simples obra infanto-juvenil.

Tolkien e a Tradição Épica

Há muito mais literatura entre o primeiro e o último livro de "O senhor dos anéis" do que suspeita a vã filosofia dos doutores em Literatura Comparada.

A trilogia se insere solidamente na grande tradição das narrativas épicas e não fica a dever a nenhuma. Pelo contrário, é a síntese de todas, com uma roupagem moderna e mais acessível.

Tolkien faz uso de todos aqueles arquétipos que povoam o imaginário humano desde as primeiras rodas ao redor da fogueira até a mais recente novela das oito. Em seus livros, e não só em "O senhor dos anéis", podemos encontrar os monstros irredimíveis e os monstros que se revelam heróis, os heróis incorruptíveis e os heróis corrompidos, o rei que revela sua nobreza ao se comportar com um homem do povo e o rei que revela sua falta de berço ao abusar das prerrogativas do cargo. Duendes, magos, princesas, elfos e anões completam a lista de arquétipos.

Apesar disso, "O senhor dos anéis" nunca é um romance fácil. Ele se utiliza dos arquétipos sem se submeter a eles. Distorce nossas expectativas e nos revela mais do que esperávamos. Sua deliciosa complexidade se deve nem tanto às referências geográficas e mitológicas da Terra-Média, dificuldade que um bom glossário resolve, mas sim às inúmeras camadas de leitura e interpretação que a saga exibe.

"O assassinato no Expresso Oriente", por exemplo, clássico de Agatha Christie, foi escrito unicamente por ela, sem a participação de nenhum leitor. Não interessa quantas vezes o lermos: ele vai sempre dizer a mesma coisa, contar a mesma história.

Experimente ler "O Processo", de Kafka (ou "O senhor dos anéis", de Tolkien) de dez anos em dez anos: a cada leitura, você estará segurando um livro diferente.

A crônica da Terra-Média se presta a múltiplas leituras.

Uma leitura mais clássica, por exemplo, se focalizaria em Aragorn, o herói épico tradicional, forte, seguro, leal, comprometido, um poço de qualidades romenescas.

A leitura mais óbvia pensa o livro como a história de Frodo. Por um lado, o portador do anel é o herói trágico por excelência, escolhido pelo destino para se sacrificar pelo bem comum, sem esperar nada em troca. Como ele mesmo diz, em um dos trechos mais bonitos do livro, ele salvou o Condado, mas não para ele; algumas vezes, alguém tem que desistir de algo para que os outros possam usufruir dos seus benefícios.

Frodo também encarna um típico personagem do imaginário do século XX: o homem comum pego em acontecimentos muito maiores que o obrigam a navegar entre escolhas morais complexas. O exemplo mais imediato são os chamados "romances sérios" de Graham Greene.

Mas há outras leituras possíveis do épico de Tolkien.

Esqueçam os lordes como Aragorn e, de certo modo, Frodo. Experimentem ler o livro como a história de um jardineiro simples que seguiu seu patrão sem titubear em uma missão suicida do outro lado do mundo.

De certo modo, Sam é o único que não se deixa deslumbrar pelos acontecimentos históricos que presencia. Até mesmo Merry e Pippin têm suas ilusões de grandeza e orbitam as cortes dos reis humanos. Mas Sam, o simples Sam, de mentalidade tacanha e direta, consegue o que nem os mais poderosos conseguiriam, usar o anel sem se corromper, e depois voltar calmamente para o Condado e viver feliz para sempre.

Outras leituras são possíveis. E a cada nova leitura, o enredo do livro revelará novos símbolos, novos significados, novos tesouros.

Apesar disso, os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur", "Nibelungenlied", "El Cid", "Os Lusíadas" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis".

É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles. Ninguém melhor do que eles para aproveitar todas as referências e estruturas simbólicas do texto.

Mas, infelizmente, os doutores da Academia, e tantos outros, não lêem "subliteratura".

Esse artigo, versão estendida da 3a parte de Literatura Imaginativa, foi originalmente publicado na Tribuna da Imprensa, em 17 de dezembro de 2003, por ocasião da estréia de O Retorno do Rei, baseado na obra de Tolkien.

Postado no blog em Dezembro 18, 2003

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