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  Alex Castro
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Os Dilemas da Tradução

A leitora Denise se insurgiu contra uns comentários que fiz sobre dublagem. Ela escreveu:
Magnólia
"Percebo em você um preconceito comum nos brasileiros: "filme dublado é ruim". Engana-se. Enquanto você não perde tempo lendo legenda - que nem sempre é bem traduzida -, você presta mais atenção na cena. E a dublagem feita no Brasil é considerada uma das melhores do mundo. Eu vejo filme legendado também, mas acho puro preconceito achar que dublagem só "estraga" filme. Para captar a essência de um filme sem interferências, teríamos que dominar a língua... o que raramente acontece."

Esse assunto é interessantíssimo. Vou tentar aqui discutir os prós e contras da dublagem e das legendas e ainda vou aproveitar pra falar sobre tradução literária e outras questões mais transcendentais.

Afinal, o que é mais importante: entender uma obra de arte ou sentir uma obra de arte?

Preconceito ou Pós-Conceito?

Pra começar, não dá pra ter preconceito contra dublagem. A não ser que você pegue um daqueles índios do meio do nada, que ainda não teve contato com a civilização, explique pra ele o que é um filme, o que é uma televisão, o que é dublagem e só então pergunte a opinião dele. Aí sim, se o índio disser: "Mim pensa que gravar voz no língua pátria sobre o voz original é uma método pobre comparado com inserir letrinhas no canto inferior da tela", você vai poder ter certeza de estar diante de um caso flagrante de preconceito.

Quanto a mim, e todas as outras pessoas que conheço, nosso primeiro contato com filmes e programas dublados foi muito, muito anterior a qualquer conceito que pudéssemos ter formulado sobre o assunto. Você pode até discordar da minha opinião sobre dublagem, e minha opinião pode até estar errada, mas ela foi formulada com total conhecimento de causa, depois de uma vida inteira de exposição a programas dublados. Não é preconceito, é pós-conceito.



Dominando Línguas

Deserto dos Tártaros, O DINO BUZZATIPela sua última frase, "para captar a essência de um filme sem interferências, teríamos que dominar a língua..." acho que me enquadro nesse caso. Fui educado em escola americana e falo inglês tão bem quanto falo português. Pra mim, ver Magnólia dublado em português seria tão esdrúxulo quanto ver Os Normais dublado em espanhol. Pode ser até divertido como curiosidade, mas um filme legal, que eu vi que tem potencial, eu não vou assistir assim pela metade.

Eu deixo de ler um livro pra não ler em tradução. Livros que foram escritos em inglês, espanhol e (por que não?) português eu não leio em outra língua de jeito nenhum.

Meu projeto atual é alcançar esse nível de fluência em italiano também. Já li Il Conformista, do Moravia, e Il Deserti dei Tartari, do Buzzatti, no original, mas precisei suar a camisa e demorei muito. Svevo e Lampedusa eu confesso que ainda leio em tradução, mas chego lá.

Ficou estabelecido, então, que eu ter desligado o Magnólia dublado não foi nem preconceito e nem, digamos, pirraça contra dublagem, pois como eu entendo inglês perfeitamente, não haveria porque ver em português.

Mas, independente de tudo isso, dublagem é muito, muito ruim sim.

Prós e Contras da Dublagem

Ficou estabelecido, então, que eu ter desligado o Magnólia dublado não foi nem preconceito e nem, digamos, pirraça contra dublagem, pois como eu entendo inglês perfeitamente, não haveria porque ver em português.

Mas, independente de tudo isso, dublagem é muito, muito ruim sim.

E digo isso não só como consumidor/espectador, mas também como profissional da área (já trabalhei muito com tradução e, durante dois anos, fui tradutor full-time) e vítima (na minha condição de escritor/roteirista).

A questão central é simplesmente definir qual método, dublagem ou legendas, é o menos intrusivo.

Dublagem Sacrifica o Lado Auditivo

A dublagem torna impraticáveis filmes baseados em diálogo. Monty Python, Woody Allen ou Irmãos Marx perdem cerca de 60% do conteúdo se dublados. Melhor nem assistir.

Muitos atores são conhecidos por suas vozes. É comum diretores escalarem determinados atores justamente por causa de suas vozes e timbres, dicção e sotaque. Tudo isso se perde na dublagem.

Algumas vezes, a própria fama do ator vem de sua voz. Nunca vi Guerra nas Estrelas dublado, mas duvido que a voz do Darth Vader brasileiro seja mais sinistra do que a voz do James Earl Jones, por exemplo.

A dublagem sacrifica os sotaques. O fato de uma southern belle em Nova Iorque ser zoada por seu arrastado sotaque sulista pode fazer uma diferença vital na trama, mas o espectador de um filme dublado jamais saberá disso.

Quem vê Star Trek na televisão e não escuta o forte sotaque russo do Chekhov não entende metade do personagem, como ele se vê e como é visto pelos outros. Tudo perdido.

É incrível imaginar as distorções que podem ser causadas na cabeça de alguém que só assiste filmes dublados na TV aberta.

Imaginem um super fã do Schwarzenegger, que viu todos os seus filmes, mas não sabe que ele fala com um carregadíssimo sotaque alemão.

Imaginem alguém que assistiu a vários filmes com a Jennifer Tilly, até acha que ela é boa atriz e se pergunta porque será que ela não faz mais filmes?, sem nunca saber que sua voz de taquara rachada é uma das mais insuportáveis de todos os tempos.

Concordo plenamente, claro, com a dublagem de filmes infantis. As crianças raramente têm velocidade o suficiente para acompanhar as legendas. Pra mim, é uma merda, mas não tem problema, assisto em dvd.

Pior são os países em que a dublagem é obrigatória. Na Alemanha, por lei, todos os filmes que passam no cinema são dublados. Com certeza, alguma antiga lei nazista que os aliados esqueceram de derrubar.
Monty Python - A Vida De Brian
Eu assisti Life of Brian, do Monty Python, pela primeira vez em um cinema alemão. Foi uma experiência desagradável, ainda mais porque não consegui pegar a menina que foi ao cinema comigo. Ela era brasileira também, falava alemão fluente, devia saber que a única coisa que me arrastaria pra dentro daquele cinema seria a possibilidade de tascar-lhe um beijo. Pois ela me fez ver Monty Python em alemão e nem um beijinho a cretina liberou.

Aqui em casa, minha mulher assiste muita televisão. Muitas vezes, eu estou na sala trabalhando e fico ouvindo os diálogos. É surreal. Parece que ela está sempre assistindo ao mesmo filme. Devem haver só uns 20 dubladores no Brasil. São as mesmas vozes, programa após programa. As mesmas mocinhas, os mesmos heróis, os mesmos bandidos.

Imagino as dificuldades dos cegos. O Pikachu das 10hs é o Paulo Otávio das 18hs e o traficante boliviano das 21hs. Você não sabe nem quem visualizar, nem como se orientar.

Com exceção de analfabetos e crianças, só há um tipo de pessoa que vai preferir dublados: aquelas muito visuais e pouco auditivas.

Pra pessoas assim, abrir mão do aspecto sonoro, que lhes soa insignificante, é um sacrifício pequeno comparado a não ter mais aquelas letrinhas incômodas poluindo a tela e impedindo uma boa visão da cena como visualizada pelo diretor.

Eu confesso que, como pedólatra, já fiquei injuriado muitas vezes pelas legendas estarem bloqueando logo os pezinhos das atrizes.

Esse talvez seja o melhor argumento em favor da dublagem.

Legendas Sacrificam o Lado Visual

Não pensem que gosto de legendas. Legendas são uma merda.

Ler legenda é um hábito detestável. Falam que os americanos têm preconceito contra filme legendado, e é verdade, porque americano detesta consumir cultura estrangeira, mas, por outro lado, ler legenda é muito difícil e custoso sim. A gente faz isso tanto que não se dá conta do esforço que é. Passem um ano só assistindo filme brasileiro, ou morando nos EUA, e tentem depois ver um filme legendado. Não é fácil ler e assistir ao mesmo tempo. Só com muito treino.

Eu odeio mesmo filme legendado. Não é brincadeira. Sou escritor, obcecado por letrinhas. Leio até embalagem de pasta de dente. Mesmo não precisando, não consigo não ler as legendas. Elas sugam meu olho, diluem minha atenção, abafam o filme.

A melhor coisa do dvd é poder ver filmes com som original, sem legenda. Não ter legenda melhora até a minha compreensão auditiva: você ouve melhor quando não está tentando ler outra coisa.

Lawrence da ArábiaHá filmes eminentemente visuais. Planos longos, cenários belíssimos, detalhes em cada canto. Quem lê legenda, perde tudo isso. Perde não só porque a legenda bloqueia parte da tela como também, mais importante, porque o olho preso nas letrinhas não passeia pela tomada.

Legendas são ideais para filmes baseados em diálogo - a grande maioria, hoje em dia. Assim, de cabeça, eu não consigo pensar em nenhum filme tão visual que seria melhor assisti-lo dublado. Talvez Lawrence of Arabia. Sugestões serão bem recebidas.

Houve pelo menos um filme que me impressionou tanto visualmente que eu voltei para assisti-lo dublado, para aproveitar melhor. Já desisti de tentar lembrar que filme foi.
Romeu & Julieta
Romeo + Juliet, do Baz Luhrman, por exemplo, é o meu filme preferido de todos os tempos. O lado visual é forte, potente, belíssimo, mas se você colocar o Di Caprio declamando Shakespeare em português, eu iria rir tanto que nem conseguiria degustar o visual.

A Denise apontou, com muita propriedade, que muitas vezes os filmes legendados são mal-traduzidos. Mas, pelo menos, com as legendas, o espectador tem a possibilidade de captar o erro, de comparar a legenda com o que ele ouviu. Para quem tem força de vontade, um filme legendado pode ser uma boa maneira de treinar seu ouvido em uma língua que esteja aprendendo.

De qualquer modo, acho que dá pra ficar razoavelmente estabelecido que dublagem é preferível para filmes eminentemente visuais e para pessoas mais visuais que auditivas. Por outro lado, legendas são preferíveis para filmes baseados em diálogo e para pessoas mais auditivas do que visuais.

Tendo sempre em mente que o objetivo da boa tradução é transmitir o sentido original com o mínimo de interferência, a pergunta é: qual desses dois métodos oferece menor interferência?

Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES
Você e Cervantes, Sozinhos no Quarto

O objetivo de qualquer boa tradução é colocar você em contato com o original, com o mínimo de interferência possível.

Ano passado, decidi ler o Quixote. Eu tinha duas edições aqui em casa, uma em inglês e uma em português. São duas línguas que domino igualmente bem. Poderia ler o livro indiferentemente em qualquer uma delas. Escolheria o português apenas por ser bem mais próxima ao original.

Só que encasquetei de ler em espanhol. Leio espanhol bem, embora não fluentemente, como inglês e português. Pior, seria espanhol do século XVII. Eu não iria compreender tudo.

Mas compreensão não é tudo.

Não há nada que substitua estar sozinho em um quarto com Cervantes. Ler uma tradução seria como levar mais uma pessoa pra cama conosco. Quase um adultério: tradutore traditore.

Cervantes está me dizendo: "En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia um hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocin flaco y galgo corredor."

E eu, ao invés de ouvir essa bela frase em sua própria voz, como se houvesse sido recém-proferida, teria que ouvi-la distorcida por séculos de distância e pelo conhecimento de um terceiro, que eu nem sei quem é, ou quais suas qualificações: "In a village of La Mancha, the name of which I have no desire to call to mind, there lived not long since a gentleman that kept a lance in the lance-rack, an old buckler, a lean hack and a greyhound for coursing."

Ou então, na mais recente tradução brasileira, recém-lançada pela Editora 34: "Num lugarejo em La Mancha, cujo nome ora me escapa, não há muito que viveu um fidalgo desses com lança guardada, adarga antiga, rocim magro e bom cão caçador."

Leiam com carinho as três versões. Sei que todo brasileiro tem um conhecimento inato de espanhol. Usem-no. Saboreiem o primeiro trecho. É a voz do próprio Cervantes. Não há substituto pra isso. É o mais perto que o ser humano pode chegar da imortalidade.

A princípio, lendo essa frase, você pode até se sentir ignorante, ou concluir que está perdendo muito por ler Cervantes no original. Afinal, o que é "lanza en astillero" (lança no artilheiro?), "adarga antigua" (uma adaga antiga?) ou "rocin flaco" (uma roca fraca?). Mas aí você lê o trecho em português e percebe que ele não é lá muito diferente nesse sentido. Adarga antiga? Rocim magro? Ficou na mesma.

Quem lê a primeira frase em espanhol não precisa conhecer todas aquelas palavras citadas pra entender o espírito da coisa: estamos falando de um hidalgo à moda antiga, mantenedor das tradições mas um pouco decadente. A leitura das próximas frases só fará confirmar isso.
Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, O MIGUEL DE CERVANTES
O significado exato de rocin é irrelevante, mas em breve vai ficar claro, pelo contexto, que rocin é um cavalo. Adarga é um tipo de escudo que, já naquela época, era obsoleto.

E se o brasileiro não souber disso e pensar que adarga, na verdade, é adaga? Simples: isso não vai fazer a menor diferença, a não ser que ele encuque e decida procurar o termo numa enciclopédia até encontrar. Leitores assim demoram três horas pra ler duas páginas em língua estrangeira e logo desistem.

Ao ler um texto literário, sua última preocupação deve ser entender tudo. Largue as palavras individuais pra lá. Atire-se na corrente e deixe o texto te levar. Se alguma palavra realmente for essencial, ela será repetida, o contexto ajudará. Na pior das hipóteses, você procura no dicionário aquelas poucas palavras que criarem problemas. Mas, via de regra, siga adiante. As palavras são pedras pelo caminho, concentre-se no romance, confie na estrada.

Tradutore Traditori

Jorge Luis Borges dizia que há dois tipos de tradutor.

Um se contenta em simplesmente traduzir, sem tentar melhorar o original. Esse, diz
Borges, é um medíocre e não me interessa.

Outro, mais literário, não resiste a melhorar o texto aqui e ali, e acaba criando um novo texto. Esse é ainda mais perigoso.

Não há como fugir. O problema das legendas e da dublagem é o problema intrínseco da tradução: qualquer tradução, por mais bem-feita que seja, às vezes por ser bem feita, sempre acaba distorcendo o texto original - especialmente se for literário.

Na Rússia, o nosso ditado "Não conte com o ovo no cu da galinha" é "não conte com a pele antes de matar o urso."

Digamos que, no meio de um romance russo, um dos personagens, querendo algo pra ontem, pressione outro personagem e esse responde: "Calma, Dmitri, a pele do urso já vem" ou então "relaxa que o urso ainda está vivo." Naturalmente, para o leitor russo, esse diálogo remete imediatamente ao ditado que todo mundo conhece.

Mas como traduzir a frase para o português?

A primeira opção, dos medíocres de
Borges, é traduzi-la assim mesmo e o leitor que se foda. Quase sempre, verdade seja dita, essa opção não é bem uma opção. O tradutor medíocre faz isso por ignorância, por não conhecer o ditado original e por ignorar totalmente aquela cultura. Ele acha que a frase é algum non-sense que ele não entendeu e passa ela adiante como a encontrou, torcendo pra ninguém perceber.

O segundo tradutor, o literato, só tem compromisso: o bom entendimento do texto. Muda e adapta sem dor na consciência. Então, traduz a frase como "Calma que a galinha ainda nem botou o ovo" e, se o leitor não souber que o ditado com a galinha não existe em russo, nunca vai sentir a diferença.

Borges é um pouco injusto com o tradutor literato, Ele, às vezes, é uma força do bem. Outras vezes, claro, você fica perplexo ao encontrar um personagem em um romance italiano da década de 50 imitando o Chacrinha. E você coça a cabeça e pensa: não deve ter sido isso que o Moravia escreveu!

Há um terceiro tradutor, o acadêmico. Esse coloca uma nota de pé de página e explica que o Stefano está imitando o Polpetone Parmigiano (1899-1960), um dos pioneiros dos programas de auditório na Itália, cuja atração El Stromboli foi o maior sucesso da tevê italiana na década de 50 e, até você acabar de ler essa longuíssima e absolutamente inútil nota de rodapé, você já perdeu o ritmo do romance, esqueceu com quem o Stefano estava falando e se lembrou que vai começar a novelas das oito, esse negócio de ler livro é muito complicado.

Tradutor é pior que goleiro. Tradutor e goleiro você só repara quando erra. Mas o goleiro, pelo menos, quando pega o pênalti, vira herói, ninguém tem o que reclamar.

o tradutor está sempre errado. Não tem jeito. É inerente.

Não há caminho certo, método unânime: só pencas de contras e alguns poucos prós.

Traduzir Literatura e Traduzir Cinema

Traduzir literatura é mais difícil do que traduzir cinema. Na literatura, a linguagem é tudo. Todo e qualquer significado será transmitido somente pela linguagem.

Cinema, entretanto, é bem mais complexo de traduzir do que literatura. No cinema, as variáveis se multiplicam. Na literatura, a variável é uma só.

Traduzindo Quadrinhos

Fui Editor de Texto da Revista Mad. Uma das minhas tarefas era encaixar o texto traduzido no balão. Não era fácil. O balão é adaptado ao tamanho da frase e o tamanho da frase em inglês era sempre menor. Fazer adaptações para o texto caber no balão até que era fácil: o desafio era fazer isso sem matar a piada. Muitas vezes, quando não dava mesmo, a gente simplesmente sentava, mudava tudo, inventava uma nova piada e bola pra frente.

Tradução para Dublagem

Traduzir para dublagem deve ser o inferno.

Como a própria Denise apontou (e eu reiterei antes da hora, pra não me lincharem), a dublagem brasileira é ótima: a frase nunca sobra, nunca falta, sincronia labial perfeita.

Só quem encaixa piadas em balões sabe o valor que isso tem.

Posso imaginar a cena:

Zé, não coube. Corta mais alguma coisa.

Caralho, não tem mais o que cortar, não dá para o dublador falar um pouquinho mais rápido?

Não, porra! O personagem é calmo e ponderado, não vai disparar falando rápido só porque você não conseguiu cortar a frase. Te vira, Zé!

E lá se vai o Zé ralar o cu nas ostras pra tentar descobrir um modo meio segundo mais curto de dizer "Reúna os homens no saloon às quatro horas."

Todos os tradutores e dubladores têm a minha irrestrita simpatia e admiração. E têm também todas as minhas críticas, as mesmas que eu me fazia quando traduzia, revisava tradução e encaixava texto em balão.

Literatura Intraduzível: Ulysses, de James Joyce
Ulisses JAMES JOYCE
Sempre fico espantado quando alguém me diz que leu Ulysses em tradução.

Ler Ulysses em português é trapaça intelectual.

Quem lê Ulysses em português não quer ler Ulysses: quer dizer que leu Ulysses. Quem quer ler Ulysses, conhece o bastante sobre a obra pra saber que Ulysses é intraduzível. Quem quer ler Ulysses aprende inglês primeiro. E é melhor aprender muito bem, pois a maioria dos falantes nativos de inglês também não consegue ler Ulysses no original.

Joyce dizia que literatura não é pra dizer, é pra fazer: "I have discovered that I can do anything with language I want." Ulysses é experimentação narrativa pura. Tire isso do livro e o que sobra é uma história absurdamente prolixa sobre um dia em Dublin.

Não saber ler inglês não é vergonha alguma, mas essas pessoas não tem nada que ler Ulysses.

A regra vale para qualquer romance experimental, ou que dependa fundamentalmente da linguagem em detrimento do enredo.

Li um pedaço da tradução de Grande Sertão: Veredas para o inglês: Devil to Pay in the Backlands. O tradutor, sabiamente, nem mesmo tentou adaptar a linguagem rosiana. Mas também, sem isso, sobrou muito pouco: só uma história de cowboys e cross-dressing.

Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSA
Literatura Intraduzível: Eugene Onegin, de Puchkin

Alguns devem estar dizendo: o homem lê inglês, espanhol e italiano, é fácil pra ele me mandar desistir de Ulysses. Mas já senti isso na pele também.

Amo os russos. Gogol, Tchecov, Turgenev, Dostoievski, Tolstoi, Bulgakov, Zamiátin, Gorki, um melhor que o outro.

Só não entendo a adoração que os russos têm por Puchkin. Li alguns contos e não vi nada de mais. Tsc tsc, pensou o leitor de Devil to Pay in the Backlands, o que os brasileiros vêem nesse tal de Rosa?

Os russos, por algum motivo insondável para estrangeiros, consideram Puchkin seu maior escritor, o inventor da moderna língua russa. Mais estranhamente ainda, os ciumentos russos se orgulham de que só eles reconhecem o valor de Puchkin. Seu gênio, dizem, só se manisfesta em russo e, principalmente, em seus longos poemas, como Eugene Onegin. Assim como o Alcorão, Puchkin, só no original.

Até comecei a ler uma tradução de Eugene Onegin, mas desisti. Perda de tempo. Gosto tanto dos russos que talvez seja um bom investimento de tempo aprender a língua. Nesse dia, eu vou descobrir se Puchkin é bom mesmo.

Até lá, quem não sabe russo não tem nada que ler Eugene Onegin.

Compreensão Não É Tudo

Começamos falando sobre os prós e contras de dublagem e legendas. Depois, saí em uma aparente tangente sobre intereferência em tradução. Dentro disso, falei dos estilos de tradução: literal, metafórica e acadêmica. Terminei comparando as dificuldades inerentes à tradução em cinema, quadrinhos e literatura.

A função da tradução é colocar o leitor/espectador em contato direto com o artista, fazê-lo sentir a obra. Compreensão não é tudo.

Por isso, o maior argumento contra a dublagem é o artístico.

O Hamlet do Olivier

Quem vê o Hamlet, do Olivier, vê porque é o Hamlet do Olivier. Quem vê o Hamlet do Olivier está querendo ver um grande ator em sua maior forma. Quem vê o Hamlet do Olivier quer ver sua expressão corporal, seus gestos, seus olhos e, também, quer ouvir sua voz, seu timbre, sua intonação. Não a voz do rapaz que dubla o He-Man!

Colocar uma outra voz por cima da do Olivier é um desrespeito quase criminoso. Equivale a dizer que é tudo muito bom, mas que o que importa mesmo é a cara dele, sua expressão corporal. O resto é detalhe. A gente pode colocar outro cara falando por cima que não vai fazer falta alguma. Quem liga pra voz dele?

Meu trecho preferido da peça é quando Ofélia está tentando convencer Hamlet a deixar de ser maluco e ele manda ela ir pra um convento: "Get thee to a nunnery! Why wouldst thou be a breeder of sinners?"

Há tantos modos de se interpretar essa cena. Hamlet pode dizer isso num surto de raiva, pode dizer isso com indifirença. Eu prefiro quando ele diz isso com malícia, quase que zoando da pobrezinha.

Em última análise, pessoas como Lawrence Olivier, Marcelo Mastroiani e Antônio Fagundes passam suas vidas se preparando para dizer frases como essas da melhor maneira possível.

Se o moço da Hebert Richers conseguir dizer "Vá pra um convento! Pra que ser, você também, uma parideira de pecadores?" com a mesma força e intensidade com que Olivier diz "Get thee to a nunnery! Why wouldst thou be a breeder of sinners?", bem, eu diria que ele está no emprego errado. Se quiser um agente que reconheça os seus talentos, por favor, entre em contato comigo pelo email na coluna da esquerda.

Dublador É Ator?

A Denise escreveu: "Você se contradiz quando afirma que "todas as minhas críticas são à dublagem enquanto método de tradução de uma obra de arte, nunca à qualidade do trabalho dos dubladores" e anteriormente diz, referindo-se ao fato de sua mulher assistir a filmes dublados: "Parece que ela está sempre assistindo ao mesmo filme. Devem haver só uns 20 dubladores no Brasil. São as mesmas vozes, programa após programa. As mesmas mocinhas, os mesmos heróis, os mesmos bandidos."... ora... se isso não é uma crítica aos dubladores, é ao quê??? Um bom dublador não parece sempre igual... afinal, ele é, antes de tudo, um ator!"

Mas dublador não é ator. Dublador é dublador. São profissões diferentes, que exigem habilidades diferentes e, principalmente, egos de tamanhos diferentes.

Tradutor também não é escritor - e falo isso com conhecimento de causa, pois sou ambos. Até acontece de escritores e atores fazerem bicos de dubladores e tradutores, mas nunca dura. Quem quer criar tem o ego muito grande: não consegue se prender a simplesmente reproduzir o trabalho dos outros. Dublar e traduzir são exercícios em humildade: antes de mais nada, você tem que saber o seu lugar.

Eu tinha uma edição dos contos de Poe traduzidos pela Clarice Lispector. Alguém aqui confia na fidelidade (ou seja, na não-interferência) de uma tradução da Clarice Lispector? Aquele espírito mais livre e louco que já nasceu nesse país, tolhido numa tradução? Será que Clarice sabia o seu lugar?

Clarice era mais escritora do que Poe jamais sonhou em ser - e olha que o Poe era maravilhoso, mas a Clarice era algo de outra dimensão. É capaz de os contos de Poe traduzidos por Clarice serem melhores que os originais. Mas aí já estaríamos lendo uma nova obra, não mais os contos do Poe.

Será que, digamos, o Marco Nanini conseguiria dublar decentemente o Olivier? Marco Nanini é, talvez, mais ator do que Olivier. Deve saber disso. Será que conseguiria seguir Olivier quando discordasse dele? E se ele achar que o get thee to a nunnery tinha que ser choroso e não irônico?

Dublador não é ator. Dublador não ser ator não é demérito algum. Mas, principalmente, dublador não deve ser ator. Dublador deve ser dublador, deve ter respeito ao texto e saber o seu lugar.

Vendo as Figuras

Ao assistir Hamlet legendado, já estamos abrindo mão daquela mágica primordial, você e Cervantes sozinhos no quarto. É lamentável, mas necessário. As letrinhas sambando aos pés de Polônio são um preço pequeno a se pagar para que você possa entender que a concisão, afinal, é a essência da sabedoria.

Mas, ao ver Hamlet dublado, você está abrindo mão de coisas demais. Não ouvir nunca a voz do Olivier? Não saber jamais qual o tom exato que ele usou ao mandar Ofélia para o convento? Depender da interpretação de dubladores?

Quem assiste filmes dublados é como aquele analfabeto que folheia um livro e só vê as figuras. Você até vê os atores correndo de lá pra cá, lutando de espadas, levantando caveiras em cemitérios, mas o filme, o filme mesmo, não está lá.

Melhor nem assistir.

Posfácio: Reverberações

Nenhum outro assunto até hoje (outubro de 2003) gerou tanta polêmica quanto esse artigo. A seguir, algumas reverberações que se seguiram à sua publicação:

Um Blog Intelectual?

Que horror! Hoje me acusaram de pseudointelectual! E pior: com razão! Inventem o que quiserem de mim, mas ficar por aí espalhando verdades a meu respeito é torpe demais! Vocês jogam baixo!

Realmente, qualquer um que tenha acompanhado essa história da tradução, com argumentos, debates, contra-argumentos e premissas lógicas, teria toda a razão do mundo em achar que está em um blog sobre debates intelectuais, comandado por um intelectual. (Não vou entrar na questão do pseudo.)

Intelectual é tudo o que eu não sou e não quero ser. Erudição é uma praga que eu adquiri lendo muito, mas da qual tento me livrar ao máximo, cultivando uma falta de memória proverbial. Eu penso muito, é verdade, por isso dói fundo ser chamado de intelectual, mas fiz por onde, escuto calado.

Sou artista, sou romancista. Felizmente, ninguém precisa ser inteligente, ou culto, ou erudito para pintar um grande quadro, compor uma grande sonata ou escrever um grande romance. Viva a idiotice, viva a sensação, viva o instinto.

Infelizmente, o blog continuará intelectual por mais algum tempo, pois escrevi uma outra enorme série de posts sobre a defesa da língua. Como a série que terminou, essa será uma seqüência lógica de argumentos destinados a provar uma hipótese. Ou seja, tudo que eu não queria, tudo o que eu tinha jurado que não ia mais escrever.

Não consegui evitar. O assunto é importante demais: a língua portuguesa é a minha ferramenta de artesão, com ela trabalho de dia e me deito à noite. Me parte o coração vê-la tão incompreendida, tratada com tanta condescendência: essa atitude xenófoba de que a língua portuguesa está sob ataque e precisa ser defendida me lembra aqueles maridos que fazem cafuné nas esposas e falam: "Não preocupe sua linda cabecinha com isso, não, meu amor...", como se elas fossem retardadas mentais que não sabem se cuidar.

Mas a língua portuguesa sabe se cuidar e não está precisando da nossa ajuda para nada. Pelo contrário, se cortarem seu acesso às influências estrangeiras que a alimentam, ela vai se atrofiar e morrer, sozinha e subnutrida, na solitária onde estão tentando encarcerá-la.

Tentarei provar essa posição *ai ai* logicamente, através de exemplos e argumentos, já sabendo que é inútil. Qualquer coisa que possa ser logicamente provada ou demonstrada é algo que nem vale a pena saber.

Enfim, meu coração não é enfeite: gosto de usar meus instintos. Pensar muito distorce o próprio pensamento, a gente acaba sem nem saber o que quer: a vida não é jogo de xadrez.

Premissas, Você Aceita ou Não Aceita

Só quero aproveitar esse interlúdio pra deixar algumas coisas claras. Quase tudo o que eu falo é polêmico, pode ser debatido ou contrariado, e todos continuaremos bons amigos. Mas algumas afirmações são premissas que, por definição, não podem ser rebatidas: ou você aceita, e parte daí em diante, ou não, e acabou a conversa.

Disseram que legendas eram ruins porque não mostravam o filme em sua totalidade. Eu apontei que nenhuma versão mostra o filme em sua totalidade. As legendas resumem os diálogos e bloqueiam visualmente a tela. A dublagem cobre as vozes. Filme em sua totalidade só no original, pra quem pode, ou seja, para quem tem habilidade linguística para tanto. A questão em discussão era qual método, dublagem ou legendas, mais se aproximava dessa totalidade.

Alguém discorda ou não aceita a premissa acima? A pergunta não é retórica: por favor, respondam.

Aparentemente, o ponto não ficou claro, pois o Mauro Sales escreveu: "E quem pode, Alexandre? Parece que vc sabe inglês mas não sabe nada de matemática *risos* Perdão pela brincadeira. Mas já ouviu falar em estatística? Sabe quantos brasileiros sabem falar outra língua? Não acha mais justo e democrático deixar a informação acessível a todos(ou a uma maioria) e não apenas a uma elite?"

Essa é a premissa de toda a discussão. Se não foi compreendida (ou aceita) então não tem o que conversar além disso.

Não foi um comentário arrogante. Eu posso ser capaz de ver filmes em inglês no original, em sua totalidade, mas nunca poderei ver um filme, digamos, russo em sua totalidade, pois não falo russo. Pra eu ver um filme russo, ele tem que ser mediado ou por legendas ou por dublagem e, por isso, é essencial discutir qual método é melhor.

Claramente, cada um tem sua opinião sobre qual é o melhor método, mas se vocês não entenderam ou discordam da premissa básica acima, então a discussão não valeu absolutamente nada. Perdemos o nosso chão em comum.

Confundir o Específico com o Geral

Por fim, nada do que falei foi específico em relação à língua portuguesa.

Infelizmente, parece que alguns leitores acharam que defendi as legendas porque tenho baixa auto-estima, porque penso pouco do português, porque não amo a minha língua, e que, por exemplo, se eu fosse alemão ou francês estaria defendendo a minha língua nos piquetes, mandando abaixo-assinados para os Aldos Rabelos da Europa.

Ou seja, transformaram uma defesa ponderada e lúcida (mesmo que a considerem equivocada) das legendas, utilizando argumentos técnicos e gerais que se aplicariam para qualquer país e qualquer língua, em um questão de entreguismo em relação ao nosso idioma.

Não, gente, não é que o Alexandre acha que filmes legendados são melhores do que dublados por tais e tais razões que podem ou não estar corretas.

É que ele tem baixa auto-estima, não ama o português e, portanto, aceita sem questionar tudo o que vem de fora.

Ah, então tá.

Pessoa de Espírito Pequeno e Inteligência Medíocre

Esse aí do título sou eu. Leiam o que andam escrevendo sobre mim:

"Eu adoraria escrever pra esse cara.... Mas é uma pessoa com visão curta, que acha que não entender o filme, ouvir a voz do ator que interpreta o personagem e por cima de tudo não conseguir ver metade da obra por estar lendo letrinhas, é melhor do que compreende a obra, ASSISTIR e se divertir.

É lamentável que a maior parte das pessoas "cultas", acham que ser inteligente é "assistir" (se é que conseguem) filmes legendados, porque isso "é ser intelectual".

Porque essa pessoa não vai morar em algum país de língua inglesa???

Porque viver num país tão "medíocre" como o nosso amado Brasil?

Porque, já que é tão inteligente, ele não é reconhecido e famoso, na sua profissão?

Porque as pessoas acham que o português é tão ruim assim???

Pra esse tipo de pessoa só tenho uma coisa a dizer: POBRE PESSOA DE ESPÍRITO PEQUENO, LAMENTAVEL QUE TENHA UMA INTELIGENCIA TÃO MEDÍOCRE."


Eu não me importo de discordarem de mim: é o não me entenderem que às vezes me frustra.

Até parece que, em algum momento eu critiquei o português, elogiei o inglês ou disse que qualquer língua era melhor do que qualquer outra em qualquer aspecto. Falam da língua inglesa como se toda dublagem fosse de filme em língua inglesa. Não entendem que todos os meus argumentos seriam os mesmos para defender, digamos, a exibição de Central do Brasil legendado na TV americana. Imagina que esdrúxulo que iria ser Central do Brasil dublado em inglês?

Realmente, estou atacando o método dublagem e acho até válido que os dubladores, como essa moça, me ofendam ou me ataquem. Mas eles poderiam fazer isso dizendo o que a dublagem tem de bom, o que a dublagem oferece que as legendas não oferecem, etc.

Ao invés disso, eles trocam de assunto, apelam pra um patriotismo corporativista e agem como se achassem, como se sinceramente achassem, que tudo o que eu falei contra o método dublagem foi, na verdade, uma crítica à língua portuguesa ("porque as pessoas acham que o português é tão ruim assim?!") e uma apologia ao inglês ("porque essa pessoa não vai morar em algum país de língua inglesa?!").

Ai ai.



Idiomas em Guerra

Quando meus leitores me dizem que a língua portuguesa está em perigo, que a defesa da soberania passa pela tradução, etc etc, eu me vejo no meio de uma guerra linguística, com línguas boas e más, fortes e fracas, lutando pela dominação mundial, no qual línguas atacam umas às outras, no qual as línguas têm que se defender uma das outras.

Que mundo é esse em que vocês vivem?

No meu mundo, as línguas convivem em harmonia, uma enriquece a outra, todas parte de uma mesma sinfonia das muitas vozes da humanidade. No meu mundo, o Aldo Rebelo é uma piada e das mais sem-graça. Estudar línguas, ver como uma influencia a outra, como duas línguas se unem para formar uma terceira, ver como os vocábulos se originam em uma língua, migram pra outra e outra, mudam de significado de acordo com as culturas pelas quais passam, isso é lindo.

Os idiomas não guerreiam: eles se amam e têm filhos.

Não sei o que leva pessoas inteligente ao nível de xenofobia que tenho encontrado nos comentários desse blog. Será desconhecimento do exterior? Será que já viajaram pelo mundo? Será que têm amigos estrangeiros? Será que falam outras línguas? A pergunta fica lançada aos meus leitores que acham que a língua portuguesa tem que ser defendida.

Esse é o assunto do próximo artigo dessa série: Em Defesa da Língua Portuguesa.

Postada no blog entre Setembro 09 e 20, 2003

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