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  Alex Castro
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Meus Trinta Anos

Rio 2004

Faço trinta anos hoje e sinto que algo está faltando. Vocês vão achar graça, mas são as olimpíadas.

Pra mim, 2004 sempre será o ano das olimpíadas no Rio de Janeiro.

A campanha Rio 2004 - Cidade Candidata marcou tanto a minha vida que fico chocado quando converso com outras pessoas e elas nem sabem do que estou falando.

Naquela época, em 1996, meu pai era membro de algum conselho municipal ligado à Riotur, participou do planejamento de parte da campanha e chegava sempre em casa com novidades do front. Novidades e, claro, pins, bottons, adesivos, cadernos, tudo.

O logotipo da campanha é lindo. Só encontrei esse pequenininho que está aí do lado. Quem lembra, lembra. Quem não lembrar, terá vaga idéia.

Campanha Rio 2004Eu não só andava pela cidade orgulhoso, usando o material da campanha, como também distribuía o meu excedente por onde quer que fosse.

1996 foi quando descobri a Web. Um dos primeiros sites que visitei foi o da campanha, morto há eras. Uma das primeiras atividades que desenvolvi foi pilhar meus poucos amigos conectados a votar em uma campanha on-line sobre as olimpíadas no site da CNN. Brasileiro adora essas coisas. Não deu outra: foram tantos votando que o Rio ganhou disparado.

Infelizmente, o COI discordou.

Enquanto isso, eu pensava: quando a olímpiada acontecer, eu vou ter trinta anos. Pensei tanto que ficou marcado: o ano dos meus trinta anos vai ser o ano das olimpíadas. Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de que, em 2004, eu não estivesse morando no Rio.

Bem, os trinta anos chegaram, mas nada de olimpíada.

Parece que está faltando alguma coisa.

Morbidez e Vitalidade

Aniversário é dia de pensar na morte. Aliás, pra mim, todo dia é dia de pensar na morte, mas especialmente no dia do aniversário. E especialmente quando se está completando trinta anos.

Algumas pessoas acham que sou mórbido, por pensar demais na morte. Elas concordariam com Whitman, em To Think of Time:

Do you suspect death? If I were to suspect death, I would die now,
Do you think I could walk pleasantly and well-suited toward annihilation?


(Você suspeita a morte? Se eu suspeitasse a morte, morreria agora,
Você acha que eu poderia andar tão faceiro e bem disposto em direção à aniquilação?)


Walt Whitman, na época em que escreveu Leaves of Grass, 1855Sou exatamente o oposto. Se achasse que eu fosse viver pra sempre, não faria nada. Deitaria em berço esplêndido pela eternidade, lendo, bebendo vinho, comendo.

A única coisa que me faz levantar da cama é saber que vou morrer, e em breve, e que ainda tem muita coisa que quero fazer antes disso.

Pessoas mórbidas usam preto, são sombrias, apáticas e pessimistas. Nunca fazem nada porque tudo vai dar errado e o universo não faz sentido. Meu avô parou de comprar roupas aos 50 anos: "De que adianta, meu neto? Vou morrer mesmo..."

Eu não sou nada disso. Minha energia, minha vitalidade, minha alegria, todas elas são derivadas de um simples fato: em 2116, eu vou estar inapelavelmente morto.

2116 será um ano como outro qualquer, as pessoas vão nascer, morrer e transar, vão escrever literatura (seja lá em que meio ela for publicada e consumida) e vão achar que as coisas não são mais tão boas quanto eram antigamente.

Mas eu não vou estar lá. A mulher que eu não beijar até 2116, eu não beijo mais. O livro que eu não ler até 2116, eu não leio mais.

O futuro...O problema não é viver pouco: é ficar morto muito tempo.

Em minhas aulas de inglês, eu gosto de ensinar o Present Perfect usando um exemplo semelhante.

I have never been to China, eu digo. Mas ainda estou vivo. Enquanto há vida, há China. Amanhã posso encasquetar de ir pra lá e vou.

Por outro lado, Getúlio Vargas never went to China. Getúlio Vargas acabou, coitado. Pra onde ele tinha que ir, ele já foi. Se até hoje ele ainda não foi à China é porque não vai mais.

Enquanto há Present Perfect, há esperança.

Os Prazos do Chefe

Eu só sei funcionar tendo prazos e deadlines. Estou sempre com um prazo a cumprir, com alguma coisa a entregar pra alguém, seja um relatório de consultoria, uma coluna pro jornal ou um trabalho pra pós.

E é uma lei da física que qualquer tarefa sempre tende a preencher todo o prazo disponível.

Se eu acordo às 9hs, sei que tenho que entregar um trabalho às 18hs e que ele demora 2hs pra ser feito, minha tendência será ficar enrolando e enrolando, fazendo o trabalho mais e mais devagar até eu olhar no relógio, ver que já são 17hs, putaqueopariu, ainda não fiz quase nada!, surtar e fazer tudo nas coxas.

Feliz de quem consegue acordar às 9hs, se concentrar no trabalho, acabar tudo até às 11hs e tirar o resto do dia de folga.

A vida é como um deadline, só que a gente não sabe a hora da entrega. O chefe pode bater a qualquer momento e querer ver o que você conseguiu fazer até àquela hora. Pode ser muito cedo, às 10 da manhã, pode ser logo depois do almoço, às 3 da tarde, ou até mesmo às 11 da noite, muito depois de você acabar tudo e já estar de saco cheio de tanto esperar.

O melhor presente que eu poderia receber no meu aniversário seria saber a data da minha morte.

Não pra ser mórbido, mas pra ser prático.

Imagine que você tem um relatório pra entregar. Você acorda de manhã e precisa planejar o seu dia de trabalho.

Se você sabe que seu chefe vai bater na sua casa às 11hs pra pegar o material, você corre, pula o café da manhã, não lê o jornal, tudo pra cumprir o prazo.

Se você sabe que seu chefe só vai vir lá pelas 19hs, você pode se dar ao luxo de tomar o café e ler o jornal sossegado, trabalha um pouco e, quem sabe?, dá até uma paradinha pro almoço também.

Mas é muita sacanagem seu chefe querer que você faça o relatório às escuras, sem saber de quanto tempo você dispõe, e ele ainda podendo aparecer a qualquer momento para levar tudo.

Pois vivemos a vida assim.

Histórias de Escritores

Lúcio Cardoso escreveu vários livros fraquinhos. Aos 50 anos de idade, pouco depois de publicar sua maior obra, Crônica da Casa Assassinada, ele sofreu um derrame e nunca mais conseguiu escrever.

Cornélio Pena cometeu três romances ilegíveis. Aos 58 anos, publicou A Menina Morta, um dos melhores romances já escritos no nosso país. Morreu do coração logo depois.

Mais um pouquinho e ambos não seriam nem notas de pé de página na literatura. Pior, não teriam nos mostrado do que eram capazes, não teriam nos legado duas obras tão belas.

Guimarães Rosa passou dez anos escrevendo Grande Sertão: Veredas. Pouco depois de acabar o livro, sofreu um leve ataque cardíaco e ficou pra sempre com medo de morrer.

Ainda viveu mais de dez anos, mas jamais empreendeu nada de vulto, com medo de deixar a obra inacabada. Sua produção final são curtíssimas histórias com a mesma linguagem e nada do conteúdo de Grande Sertão: Veredas.

Se Rosa tivesse sabido que teria até 1967, ao invés daquele medo de morrer a qualquer momento, será que não teríamos hoje outro Grande Sertão: Veredas? Jamais saberemos.

Pra Que Serve a Juventude?

Lúcio CardosoConsiderem um dia normal na minha vida.

Eu acordo de manhã cedo, alegre, vigoroso e bem-disposto. Então, ao invés de sair fazendo o meu trabalho, eu enrolo, navego na Internet, leio o jornal, escrevo um post, assisto o Sítio.

O dia vai passando e começa a mordiscar uma culpa, ressoar um desespero: caramba, ainda não fiz nada!

Tento fazer tudo de uma vez só, mas aí já estou cansado e não tão disposto, preciso de café e guaraná em pó pra manter minha energia, e penso: putz, se eu tivesse feito isso de manhã, quando ainda estava descansado e bem-disposto, ficaria bem melhor.

Será a vida assim também?

A historinha se presta a duas lições conflitantes.

Por um lado, juventude é pra isso mesmo, badalar, fazer merda, perambular. Sem estresse, sem cobrança. Quando ficarmos velhos, quando vier a conta, quando chegarem as obrigações e responsabilidades, aí começaremos de fato a ser membros produtivos da sociedade.George Bernard Shaw

Por outro lado, é melhor darmos nossa contribuição ainda de manhã, enquanto ainda podemos, enquanto ainda temos força e vitalidade. Depois, ficamos cansados, abatidos, conservadores e impotentes, tomando remédio pra tudo e votando no PFL. Tudo se torna mais difícil.

Naturalmente, são concepções totalmente diferentes de mundo.

A lição que você tirar dessa história será profundamente reveladora da pessoa que você é.

Como diria George Bernard Shaw, a juventude é boa demais para ser desperdiçada nos jovens.

Planejar o Tempo que se Tem

Jean-Paul Sartre, por Cartier-BressonTenho uma série de metas a realizar. Para realizar essas metas, eu tenho um plano de ação. Meu plano de ação atual pressupõe que vou viver, no mínimo, até os 55 anos. Embora seja provável que eu viva mais, estou me programando pra realizar tudo o que tenho pra realizar nos próximos 25 anos.

Tudo suposições. O ônibus pode me atropelar aos 42. Meu coração pode parar aos 38. Posso escorregar no chuveiro aos 98.

Pois eu adoraria saber quando o chefe vai, de fato, bater na minha porta e pedir pra ver o relatório.

O problema não é ter pouco tempo: é não poder planejar o tempo que se tem.

Se for daqui a cinco anos, iria ser péssimo, mas nenhuma grande tragédia. Eu simplesmente adotaria um esquema de emergência, abandonaria tudo o que não fosse essencial e me concentraria nas tarefas a realizar.

Se for daqui a cinqüenta anos, isso me daria liberdade de arriscar mais, tentar coisas diferentes, sair em tangentes interessantes, pois sei que teria tempo de voltar para a estrada principal.

Coro gregoPor exemplo, me propus tirar três anos de licença da literatura pra abrir uma empresa e tentar ganhar dinheiro. Foi uma experiência interessante e aprendi muito, mas só o tempo dirá o seu verdadeiro valor.

Se eu morrer aos 38, terá sido um trágico desperdício, um desvio que consumiu minhas energias e me impediu de realizar coisas mais importantes. Se eu morrer aos 55, terá sido uma experiência inestimável.

Imagino somente um grande problema: se eu soubesse que iria morrer velho, eu me conheço, eu iria me acomodar e não fazer mais nada até a velhice chegar.

O Fim É A Explicação

Não dá pra julgar um livro antes de terminar de ler. É à luz do final que captamos a essência do enredo.

Levo Sartre um pouco mais longe: sim, a existência precede a essência, pois só quando essa existência cessa é que a essência pode ser plenamente apreendida.

Ou, como diz o coro final de Édipo:

"E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz."

Postada no blog em Fevereiro 16, 2004

 

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