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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Trote sobre Câmeras Digitais Engana Imprensa Mundial

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Quem Vigia os Vigias?

Antigamente, na Guerra do Vietnã, eram os jornalistas que levavam à guerra aos lares americanos. Hoje, são os próprios soldados, com os blogs e flogs que mantém do front.

As autoridades não sabem para que lado olhar. Preocupado com a reeleição, o governo Bush está controlando ao máximo as imagens que saem do Iraque. Uma funcionária pública que tirou fotos dos caixões de soldados americanos acabou sendo demitida. Redes de televisão e jornais ligados aos conservadores não veicularam as imagens dos prisioneiros torturados. Bem ou mal, a imprensa vem se comportando docilmente.

Leia esse artigo na edição de 17 de fevereiro de 2004 da Tribuna da ImprensaMas como controlar centenas de milhares de blogs, flogs e câmeras digitais? Essas ferramentas, básicas para qualquer recruta recém-saído da adolescência, estavam totalmente fora do horizonte mental dos velhos do Pentágono. Foram pegos com as calças na mão.

A princípio, desde que não revelem informações confidenciais, os soldados têm liberdade de escrever o que quiserem para suas famílias, inclusive manter blogs ou enviar fotos. Até quando?

J.D Lasica, editor do Online Journalism Review, considera que essas fotos amadoras se tornaram as imagens emblemáticas dessa guerra. "Cidadãos comuns estão 'fazendo mídia com suas próprias mãos' ('to take media into their own hands')", diz ele. E conclui:

"This scandal could not have occurred four or five years ago, before citizens (including US troops) achieved the power to be visual reporters. (...) There's no question that, but for the publication and airing of these photos, the reports of the prisoner abuse would have wound up buried on page A19."

"Esse escândalo nunca teria acontecido quatro ou cinco anos atrás, antes dos cidadãos (incluindo soldados norte-americanos) terem obtido o poder de se tornar repórteres visuais. (...) Sem essas fotos, o escândalo da tortura dos prisioneiros teria sido enterrado na página 19."


Cada guerra tem a sua foto emblemática. Os generais americanos torcem para que a foto emblemática dessa guerra seja a de Lynndie English levando um iraquiano na coleira.

Pois a alternativa é muito pior e está deixando os generais sem dormir: a foto emblemática dessa guerra pode estar sendo enviada por email nesse exato momento.



Câmeras Digitais São Proibidas no Iraque. Ou Não.

As palavras acima saíram na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, de 21 de maio de 2004, e também no Observatório da Imprensa, na mesma semana. Poucos dias depois, Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos Estados Unidos, decidiu banir o uso desse tipo de aparelho das bases militares no Iraque.

Pelo menos foi isso que noticiaram a Agência France-Presse, a Folha Online e centenas de outros jornais pelo mundo, como Yahoo! News, Washington Times e Sydney Morning Herald, entre outros.

Pena que era tudo mentira.

História Mal-Contada

Eu li a matéria na Folha e já pensei: escrevo sobre isso na sexta, ele proíbe no domingo, perfeito. Já tenho minha próxima coluna.

Na verdade, considerando o estrago que essas fotos têm causado, o governo semi-ditatorial de Baby Bush até demorou muito pra tomar essa decisão.

Entretanto, o clamor público que deveria ter se seguido não aconteceu. Decidi pesquisar um pouco mais a fundo.

A matéria da Folha, reproduzida da Agência France-Presse, cita como fonte um tal jornal "The Business." Não poderia haver nome mais geral e vago. A medida que a notícia era reproduzida por todo o mundo, a nacionalidade do jornal variava. Veículos ingleses diziam que o "The Business" era inglês, australianos, que era australiano.

Até o news.com.au, confiável portal de notícias da Austrália, citava o "The Business" como sendo um jornal australiano. Quem sou eu pra desdizer?

Bem, sou um jornalista que sabe encontrar as coisas na internet. E, com exceção de reproduções dessa falsa notícia, não há nenhuma outra menção de jornal inglês ou australiano chamado "The Business". Além disso, curiosamente, ninguém dava o link da matéria original. Será que existe um jornal australiano ou inglês que não possua site?

Felizmente, não fui só eu que procurei. Vários outros jornalistas, blogueiros e diletantes em geral também tentaram ir fundo nessa história e deram com a cabeça nas pedras. As teorias foram muitas - seria o "Sunday Business" ou o "Business Times"? - mas a verdade é que não havia evidência suficiente para apoiar nenhuma conclusão.

Eram tantas pulgas atrás da minha orelha que elas escorriam pelos meus ombros. Uma coisa é certa: essa história estava incrivelmente mal-contada.

Imprensa Enganada

Na minha coluna de 30 de abril, mostrei como notícias falsas, criadas por sites humorísticos, estavam circulando pela Internet como se fossem verdade, e enganando até jornalistas.

Essa semana, por exemplo, Ricardo Noblat, excelente colunista de O Dia, caiu no trote. O Cocadaboa veiculou uma notícia (falsa, como tudo o que mais que eles publicam) sobre Lula ter sido zoado pelo programa humorístico norte-americano Saturday Night Live.

Noblat engoliu tudo. Reproduziu a matéria completa, sem citar a fonte, e ainda acrescentou:

"É o que dá arranjar briga sem necessidade. Se Lula não tivesse mandado expulsar do país o correspondente do NYT, ninguém lá fora teria dado importância ao que ele escreveu. E aqui dentro também não."

E eu pensei cá com minhas teclas: teria a imprensa mundial caído em um enorme trote digno do Cocadaboa?

Departamento de Defesa Desmente

Xeni Jardin, jornalista da Wired e uma das responsáveis pelo ótimo blog Boing Boing, decidiu ir fundo no assunto. Entrevistou um porta-voz do Departamento de Defesa e ele negou tudo.Leia esse artigo no Observatório da Imprensa

Não houve a tal proibição, embora existam algumas diretivas bem gerais sobre o uso de aparelhos sem fio. Basicamente, as diretivas se resumem a "usem seu bom-senso e juízo, hein!"

Ainda assim, fica uma dúvida: bom-senso do ponto de vista de quem? Para o soldado torturador, bom-senso seria não registrar seus crimes. Para o contribuinte norte-americano, bom-senso seria divulgar as fotos e descobrir que tipo de atrocidades ele está financiando.

A Farsa Diária

A fonte do trote parece ser uma matéria do jornal satírico "The Daily Farce" (A Farsa Diária), publicada no dia 6 de maio: "Surgem novas fotos de abusos: Rumsfeld proíbe câmeras digitais no Iraque" (New Abuse Pictures Emerge; Rumself Prohibits Digital Cameras In Iraq). Alguns trechos:

"Para proteger os prisioneiros iraquianos de futuros abusos, todas as câmeras digitais, filmadoras ou telefones celulares com câmeras estão rigorosamente proibidos em qualquer instalação militar do Iraque."

"To protect the Iraqi prisoners from any future abuses; any digital cameras, camcorders, or cell phones with cameras are strictly prohibited anywhere in any military compound in Iraq."

Outras manchetes em destaque na mesma página incluem coisas como "Tropas Norte-Americanas Atiram em Casamento Iraquiano; Bush: 'Pensamos que Fosse um Casamento gay.'" ("U.S. Fires on Iraqi Wedding; Bush: 'We had intelligence it was a gay marriage.'")

Ou seja, não dá pra levar a sério.



Armas de Fotografia em Massa

A matéria enganou o mundo por ser extremamente verossímil. Baby Bush, em campanha pela eleição (só quem foi eleito pode ser reeleito), vai tentar de tudo para cobrir seus podres. Rumsfeld já chegou a afirmar:

"Pessoas estão andando de um lado para o outro com câmeras digitais, tirando essas fotos inacreditáveis e passando-as adiante, contra a lei, para a imprensa, pelas nossas costas, quando elas nem mesmo chegaram no Pentágono."

"People are running around with digital cameras and taking these unbelievable photographs and then passing them off, against the law, to the media, to our surprise, when they had not even arrived in the Pentagon."

Em artigo de opinião para o Houston Chronicle, "Sim para as Armas de Fotografia em Massa" (Yes to Weapons of Mass Photography), Clarence Page comenta essas declarações de Rumsfeld, dizendo:

"Não, amigos. Aparentemente, na opinião de Rummy, o problema não é a grosseira falta de preparo desse governo para os problemas do Iraque pós-Saddam. O problema são esses garotos intrometidos e suas armas de fotografia em massa."

"No, folks, it's apparently not the administration's gross lack of preparation for the management of post-Saddam Iraq that's the problem, in Rummy's view. It's those pesky soldiers and their Weapons of Mass Photography."

Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 28 de maio de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.

Publicado na Tribuna da Imprensa, em Maio 28, 2004, e no Observatório da Imprensa, em Junho 1, 2004.  

Postada no blog em Maio 28, 2004

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