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Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.
Um romance da Escola Urbana é, antes de mais nada, redundante. Tudo é muito comum, muito banal, muito repetitivo. Os personagens são apáticos, as situações, tediosas.
A maioria da nova produção literária nacional se alicerça firmemente nas bambas fundações da Escola Urbana.
Se você começar a ler um livro e ele tiver alguma das características abaixo, cuidado: você pode estar lendo um livro da Escola Urbana.
Protagonistas Apáticos
Um narrador solitário e, muitas vezes, sem nome, sem moral e sem ética, frio e apático, desenraizado, sem família e sem amigos, tendo relações curtas e vazias com quem encontra, incapaz de amar, de se apaixonar ou mesmo de ter qualquer tipo de emoção forte ou verdadeira, imerso em um submundo de uma grande cidade, sórdida e podre, simbolizando a falta de sentido da vida moderna e a nossa busca por sentido e identidade no meio do caos das metrópoles contemporâneas.
Comportamento Auto-Destrutivo
Os personagens fumam, bebem e se drogam em excesso. Naturalmente, se a vida não faz sentido e se somos minúsculas peças na engrenagem de um mundo hostil, não há porque cuidarmos de nós mesmos, de nossos corpos e de nossa saúde. Mais uma carreirinha aqui, por favor.
Falta de Enredo
Não há enredo digno desse nome, muitas vezes só um tênue fio condutor, em outras, nem isso, apenas eventos desconexos sublinhando, mais uma vez, a falta de sentido da vida nas grandes cidades contemporâneas, a irrelevância nos nossos esforços, etc etc.
Mulheres Objetos
As mulheres são objetos. Os narradores, feios, sujos e malvados, ou comem uma quantidade enorme de putas ou, por algum motivo inexplicável, fodem mulheres lindíssimas. Não digo namoram pois um protagonista de romance da Escola Urbana não se importa o suficiente com si mesmo, ou com qualquer outro, para namorar ou ter qualquer tipo de relação afetiva estável: ele fode. E olhe lá.
Não fica bem claro o que isso significa, literariamente falando. Eu diria que os autores se identificam tanto com seus protagonistas que gostam de fazê-los comer muitas mulheres gostosas. Ainda estou pra ver o narrador durão de livro da Escola Urbana que ache a vida tão sem sentido que seja brocha e não tenha vontade de comer ninguém. Os autores devem pensar que isso refletiria negativamente em suas masculinidades.
Desprezo aos Ricos
Os protagonistas, apesar de pobres e imundos, sempre circulam entre os ricos. Desprezam a incrível futilidade da elite, mas vão às suas festas e freqüentam suas casas - sem se corromper ou impressionar, claro. Isso dá aos jovens autores a oportunidade de fazer uma crítica social rasteira, enquanto mostram aos leitores que dominam o vocabulário da elite, sabem o que é um blinis e quais adjetivos usar pra descrever um Romaneé-Conti.
A Questão das Referências
Alguns livros da Escola Urbana gostam de enfatizar a sua urgente contemporaneidade fazendo referência a todo o tipo de elemento da vida moderna. Então, os livros contêm intermináveis parágrafos nos quais o personagem salta do 474 Leblon-Leme, compra uma Época, toma uma Fanta Citrus, que tinha acabado de ser lançada, e ele gosta muito, aliás, pede um maço de Marlboro e vai pra casa, porque vai começar o último capítulo de Mulheres Apaixonadas.
Um outro estilo, tão irritante quanto, é aquele que não faz literalmente referência temporal-social-cultural-geográfica nenhuma, em uma tentativa de criar uma obra que não remeta a nenhuma cidade ou época específica.
Por fim, o terceiro estilo é o sofisticado, à la Rubem Fonseca, na qual o autor faz questão de nos brindar com sua enorme erudição, citando hordas de autores, sempre no original, além de também fazer referências a tudo o que a vida tem de melhor. Nesses livros, os personagens estão andando pela Visconde de Pirajá, em Ipanema, debatendo Kant e Heidegger em alemão, entram em uma joalheria que só eles conhecem, pois H. Stern é coisa de turista (segue-se um longo trecho para demonstrar como o autor entende de jóias e quilates) e os personagens decidem largar tudo e pegar o vôo de 20:30 da Air France pra Paris, para ir almoçar num bistrozinho da Rue de Quelque Chose que, também, só eles conhecem, pois são pessoas tão exclusivas. Arre.
Excesso de Palavrões
A linguagem se orgulha de ser desagradável e de fazer farto uso de palavrões. Os autores parecem achar que crueza e rispidez são sinônimos de autenticidade e que uma farta quantidade de merdas e foda-ses aumentará o realismo da obra.
Cultura da Violência
Dependendo da obra, a violência também é uma presença quase viva. Todos são assassinos, bandidos, bandoleiros. Mata-se por qualquer coisinha, com a facilidade que se palita um dente, e sem razão alguma, mais uma metáfora contundentemente gasta para mostrar que a vida humana não vale nada e não faz nenhum sentido.
Metalinguagem de Botequim
Como se escrever um romance da Escola Urbana não fosse fácil até demais, afinal, já está tudo tão bem esquematizado, alguns autores ainda colocam a si próprios como protagonistas, ou seja, escritores jovens, marginalizados, fudidos. Nada é mais gasto, mais clichê e mais fácil do que essa metalinguagem de segunda, esses romances de escritores escrevendo sobre escritores escrevendo sobre escritores, com seus personagens forçados que não conseguem ir ao banheiro sem fazer uma citação literária ou lembrar do capítulo de Primavera Negra, onde Henry Miller discorre sobre os melhores autores para ler no banheiro enquanto dá uma boa mijada.
Onde estão os livros sobre as dificuldades dos pedreiros ou sobre os dramas existenciais das manicures? Será que a literatura não se interessa por eles? Será que só nós, escritores, somos conscientes o suficiente, angustiados o suficiente, complexos o suficiente para merecermos estrelar romances?
Sobre A Escola Urbana
A Escola Urbana, por si só, não é ruim. Mas a última vez em que foi boa, a última vez em que representou qualquer tipo de frescor ou originalidade, foi quando Rubem Fonseca lançou O Cobrador, na década de 70.
Era o peido semi-agonizante de uma tradição literária que começou com Mersault dizendo, apaticamente, que sua mãe morreu hoje, ou talvez ontem. Sei lá. E depois indo ao cinema e à praia. Infelizmente, a tradição continuou, mal e mal, até hoje.
No final do século vinte, a Escola Urbana tornou-se uma paródia de si mesma. Levas e levas de autores jovens e ignorantes (e também autores maduros e ignorantes) lançam livros e livros que são, na prática, iguais: reciclam os mesmos temas, os mesmos personagens, o mesmo vocabulário.
Sessenta anos depois, essas pessoas ainda não encontraram nada melhor para fazer do que parafrasear os cacoetes de Mersault, um dos personagens mais chatos e apáticos da literatura mundial. E eu fico pensando: se iriam escolher algum personagem para imitar por tanto tempo, não poderia ser alguém mais interessante? Falstaff, Dom Quixote, Becky Sharp, Tristam Shandy, Brás Cubas?
Eu sou escritor, não crítico. O que quer dizer, sou janela, não pedra. Tento ao máximo não criticar os colegas. Um, porque não ganho nada com isso, somos poucos e temos que nos unir e, dois, porque nem saberia como fazer. Não tenho instrumental crítico pra isso. Leio, reconheço problemas, tento fugir deles quando escrevo. Ponto. No máximo, elogio quem merece.
Por isso, escrevo esse artigo com dificuldade. Estou lambendo ele desde agosto, sem querer mostrar pra ninguém. Mas é difícil se abster de uma questão, pra mim, tão urgente. Cortei ao máximo todos os nomes e referências pessoais. As carapuças que caiam onde couberem.
Em 2003, eu li 31 livros de ficção brasileiros escritos nos últimos 15 anos. A lista está aqui, para quem quiser conferir. Muito poucos, dolorosamente poucos, não requentavam os tiques da Escola Urbana.
Jovens autores são as principais vítimas. Parece que crescem lendo os livros da Escola Urbana, ficam com a impressão nociva de que literatura é isso e, quando vão escrever, escrevem a mesma coisa que todo mundo já escreveu. Depois, se forem bons, à medida que amadurecem, encontrarão sua própria voz - espera-se.
Desses 31 livros, quase todos os que não pertencem à Escola Urbana são de artistas mais maduros. Dos novatos, a maioria caiu na armadilha - com duas honrosas exceções, Alexandre Soares Silva e Daniela Abade. Reparem que não seguir a Escola Urbana não é garantia de um bom livro, mas é garantia de que não será um livro que todo mundo já leu.
Dos autores novatos que caíram no conto da Escola Urbana, alguns são tão bons que tenho certeza que saírão dessa rápido. Outros, provavelmente chafurdarão por lá pra sempre.
O pior livro da Escola Urbana é Estorvo, do Chico Buarque. Estorvo é péssimo. Estorvo é um dos piores livros de todos os tempos. Estorvo, pra usar vocabulário da crítica, é um ponto ótimo de síntese de todas as características marcantes da Escola Urbana.
Cruz credo.
Falta de Originalidade
Nas ciências humanas, um livro ou uma tese nasce de uma curiosidade, de uma comichão intelectual. Você está lendo sobre a Guerra do Paraguai, vê uma menção às crianças em combate e pensa: mas como será que era isso? Quem eram essas crianças? Como funcionava a participação delas?
Bom cientista que é, você fica curioso e vai correr atrás daquela informação. Das duas uma:
a) você encontra um livro sobre o assunto
b) você não encontra um livro sobre o assunto
Se você não encontra um livro sobre o assunto, ótimo, já tem uma tese nas mãos. Você queria saber sobre o assunto tal, descobriu que ninguém nunca falou dele, pronto, taí o seu nicho. Bom doutorado pra você.
Caso encontre o livro, você pode ou ficar satisfeito com sua abordagem e pesquisa, e sair de curiosidade saciada, ou você pode concluir que a abordagem do livro era falha ou insuficiente, que ele falou sobre as crianças paraguaias e não sobre as brasileiras, era excessivamente ideológico, etc.
Então, mais uma vez, usando o livro como ponto de partida, você também arranjou sua tese, seja pra complementar, refutar ou atualizar a obra original. Bom doutorado pra você.
Não consigo imaginar nem o mais medíocre cientista social se propondo a escrever um livro que cubra a mesma área e tem a mesma abordagem que outro livro. Escrever um livro absolutamente igual. Superposição perfeita.
Mas nossos jovens autores de ficção fazem isso o tempo todo: reescrevem livros que já foram escritos não uma, não duas, mas milhares de vezes.
Clarah Averbuck e Máquina de Pinball
Por que nossos jovens, justo as pessoas que deveriam estar tentando reinventar o mundo e começar tudo de novo, justo as pessoas com quem a sociedade conta para trazer frescor e originalidade às artes, são os mais medíocres, os mais conformistas, os mais confortáveis em apenas repetir o que já foi feito e nada mais?
Esses autores, que se acham tão rebeldes, são, no fundo, reacionários.
Não tenho dúvida que Clarah Averbuck, como pessoa, é alternativa. Mas Máquina de Pinball, apesar de ser uma leitura agradável e divertida, é, literariamente falando, profundamente conservador.
Clarah Averbuck escreve bem. Seu texto tem fluência, é engraçado, às vezes até surpreendente. Mas por que ela escreveu Máquina de Pinball?
Um artista tem que ser capaz de responder a essa pergunta. Qual foi a justificativa estética e artística do seu romance? O que estava querendo mostrar ou transmitir?
Não sabemos. Pistas, o texto não fornece.
A impressão que ficamos, tanto em relação à Máquina de Pinball quanto a outras obras da Escola Urbana, é que o autor escreveu o livro porque queria falar de si mesmo. Só.
Até aí, nada de mais. Falar de si mesmo é um objetivo louvável. Mas não é arte.
Por que os editores editam? Por que os leitores lêem?
Diz o Polzonoff:
"É uma literatura baseada em tédio, cansaço, preguiça e inércia. Pode até ter uma proposta redentora, mas a redenção só acontece a partir do momento em que o tédio tomou conta do romance e não tem por onde escapar. Seria possível montar uma extensa biblioteca somente com livros recém-lançados que se apoiam sobre estes pilares. Ferrez, Clarah Averbuck, Mirisola e coisas deste tipo nada mais fazem do que uma literatura absolutamente retrógrada. Ousaria até dizer reacionária. Uma literatura fora de seu tempo, que não se justifica senão na falta de imaginação dos autores."
Por que nossos jovens autores não estão dizendo nada de novo?
Acho que só há uma resposta, e gostaria de me utilizar como exemplo: ignorância.
As Fases de um Escritor
Meu conto, O de Sempre, com o qual ganhei meu primeiro dinheiro, é um bom exemplo de tudo o que há de errado na Escola Urbana. O conto é péssimo, terrível mesmo. Eu sei, eu disse que tinha orgulho dele, mas foi só pra enganar vocês. Queria saber o que diriam. Uma população que lê Estorvo e acha bom poderia gostar até mesmo daquilo.
Tudo bem, até admito, o conto mostra uma certa promessa. E só.
O maior problema ali não é estilo, ou imaturidade, ou falta de talento, mas ignorância. Até os 14 anos, eu praticamente só tinha lido Bukowski, Stephen King e Rubem Fonseca. Pra mim, literatura era aquilo. Bares imundos, palavrões a granel, pessoas fétidas, vidas vazias e sem sentido.
Escritor tem que ler muito. Escritor tem que ler muito, no mínimo, pra saber o que não fazer. Pra saber o que outros já fizeram. Pra saber o que outros fizeram melhor.
Em si, o conto é ruim? Até que não. Mas em um universo onde já existem Bukowski e Rubem Fonseca, ele é, no mínimo, redundante. Não diz nada de novo. Não acrescenta nada. Não tem nenhum insight original. Zilch.
Minha fase fonsequiana durou dos 14 aos 17. Meus contos dos 17 ainda se inserem na tradição da Escola Urbana, mas já são paródias do gênero, pois senso de humor eu sempre tive e ele me salva de me levar a sério demais. Dos 18 aos 21, eu vaguei meio perdido pela literatura, escrevendo de tudo um pouco.
Aos 21, encontrei minha voz, ainda um pouco dura, mas minha, e escrevi meio romance que estava bastante bom. Dos 21 aos 24, eu treinei e exercitei essa minha voz escrevendo dezenas de contos. Os melhores, eu reuni no meu livro Onde Perdemos Tudo, que ainda vou publicar.
Por fim, a partir dos 24, escrevi meu romance, Mulher de Um Homem Só, e comecei a soltar minha linguagem, tentando ser menos perfeccionista e menos duro. O processo ainda está em andamento.
Meus contos fonsequianos dos 14 aos 17 foram fruto de pura falta de conhecimento. Eu não conhecia nada melhor. Literatura, pra mim, era aquilo. Eu vivia cheio de regras e leis na minha cabeça e, ao crescer, fui descobrindo que literatura era muito mais abrangente do que eu achava que era, que literatura era muito mais livre do que eu imaginava.
Minha melhor explicação para o fenômeno é essa: quem escreve na Escola Urbana entre os 20 e os 30 é porque, simplesmente, ainda não descobriu coisa melhor, ainda não abriu os olhos para a imensidão da literatura lá fora. Não leram o suficiente. Estão vivendo, com alguns anos de atraso, minha fase dos 14 aos 17.
Pelo menos, eu tive a grande vantagem de viver essa minha fase em privado, à revelia de parentes e professores, que insistiam para que eu publicasse aquelas merdas. Eu respondia: quero ser escritor, não menino prodígio quando estiver mais velho, e mais afiado, publico.
Coitados dos bons escritores que estão vivendo sua fase urbana em público, publicando a torto e a direito: amanhã, quando superarem essa fase, vão morrer de vergonha.
Mais coitados ainda, deles e dos seus leitores, são os escritores que nunca saem da Escola Urbana.
Eu Sou Um Protagonista da Escola Urbana
Por Quê? Por Quê?!
No final das contas, uma enorme dúvida se impõe: por quê?! Por que escrever um livro igual a milhares de outros? O que esses autores querem dizer? Será que querem dizer alguma coisa?
Qual é seu tema? Será que escrevem esses livros em uma tentativa mal-informada de denunciar o vazio da vida contemporânea, já tão bem denunciado por escritores melhores, ou será que são eles mesmos os vazios e esvaziados, e seus livros, ao invés de denúncias, são sintomas desse vácuo que acomete as nossas letras?
De mais quantos narradores existenciais-niilistas rebeldes-chicletes nossa literatura ainda precisa? Será que esse gigantesco clichê é o único modo que temos de demonstrar a falta de sentido da vida contemporânea e blá-blá-blá? Será que a falta de sentido da vida contemporânea é mesmo um tema tão importante assim que mereça ocupar 90% da produção literária nacional?
Eu Sou Um Protagonista de Romance da Escola Urbana
Um leitor que caia aqui de pára-quedas pode ficar achando que sou o maior reacionário do mundo. Pelo contrário. Acho que sou tão contra essa escola pois sou parecido demais com seus valores.
Eu, sim, apesar de não me considerar rebelde, sou um existencialista-niilista urbano. Não acredito em nada, só em mim e no presente, e olhe lá. A vida, intrinsecamente, não faz sentido, ela só tem o sentido que nós lhe damos.
Larguei minha incipiente carreira de executivo e hoje vivo uma existência contemplativa, dou aulas em cursos de inglês vagabundos, faço alguns trabalhos de consultoria e escrevo. Falo muito palavrão, freqüento um círculo de pessoas muito mais ricas do que eu e tenho uma mulher realmente desproporcionalmente gostosa que não sei o que ainda faz comigo. Pra piorar, ando por tudo quanto é tipo de submundo sexual e já vi coisas de arrepiar cabelo.
Tirando alguns elementos, como o comportamento auto-destrutivo e a violência, eu poderia ser o narrador de um desses romances horríveis. Aliás, se eu escrevesse um livro de não-ficção sobre a minha vida hoje, não haveria como não ser um romance firmemente inserido na tradição da Escola Urbana - a não ser que eu mentisse muito.
De certo modo, a Escola Urbana não me atrai pois já vivo essa vida. Escrever um romance desses é ridiculamente fácil. Eu mesmo, com 14 anos, escrevi um conto muito bom, pelo menos segundo o padrão de qualidade da Escola Urbana.
Se não sou nem um apático, como Mersault, nem um angustiado, com os existencialistas de Sartre, é apenas porque tenho a irracional alegria de viver de Whitman.
Gosto do difícil. Gosto de me reinventar. Gosto de imaginar pessoas diferentes de mim. Gosto de ser protagonistas que eu não poderia ser. Não vão encontrar, entre os meus personagens, angustiados literatos existencialistas. Isso seria muito fácil. Já basta eu.
Não é à toa que a protagonista do meu romance, Mulher de Um Homem Só, é uma mãe de família bem caretona, católica e ciumenta. Só assim consegui, literariamente falando, fugir de mim mesmo.
Prego o fim da Escola Urbana não é por motivos filosóficos ou estéticos ou ideológicos. Acho que a literatura não tem obrigação de nada, a não ser de ser interessante. E esses romances niilistas-existencialistas são chatos, tediosos, apáticos.
E, seu pior pecado, redundantes.
Pratique uma Saudável Autocensura
Um amigo, professor de literatura, com quem comentei compartilhei meu desespero, fez pouco: me admira você, Alexandre, que defende tanto a liberdade e tudo mais, pregando esse tipo de censura, ditando o que as pessoas podem ou não podem escrever.
O que eu prego não é censura, mas algo parecido, autocensura. Acho que um autor é medido não só pelos livros que publica como pelos livros que não publica.
Um pintor pinta dezenas, às vezes, centenas de telas para poder expor só aquelas trinta. Um compositor compõe, orquestra e até grava dezenas de músicas a mais do que aquelas que entram no CD.
Não deveria ser vergonha alguma um escritor passar um ou dois anos escrevendo um romance pra depois concluir que não, que ele está abaixo do seu nível de qualidade e não vai ser lançado. Não é nem que está ruim, mas não está ao nível dos outros. Pra que publicar? Não vivo disso.
Um diretor de cinema, uma vez terminadas as filmagens ou a edição, não tem mais esse luxo - o filme vai ter que sair! - mas escritores, sim. A não ser, claro, que ele tenha um contrato. A não que esteja obrigado pela editora a lançar um livro por ano. A não ser que ele tenha largado seu emprego e precise publicar livros pra viver, em cujo caso só podemos ter pena dele.
Mas escritores novatos não têm esse tipo de problema. Escrevem qualquer merda por não conhecer nada melhor. Publicam qualquer merda pois estão ansiosos para ser lidos, desesperados para lançar sua voz aos quatro ventos. Vêem todo mundo falando e querem falar. Vêem todo mundo publicando e querem publicar. Vêem todo mundo blogando e querem blogar.
Essa egotrip histérica eu até entendo, mas os editores poderiam ser mais seletivos. Dizem que é difícil de publicar, mas, julgando por boa parte desses 31 livros, não é não. Nem um pouquinho.
O controle tem que vir dos próprios autores. Não fale só pelo prazer de ouvir a própria voz. Releia seu livro. Compare-o com a produção recente. Ele realmente oferece algo de novo ao leitor? Ele diz algo que Rubem Fonseca não disse, e melhor, na década de 70? Você tem de fato algo a dizer ou quer só satisfazer seu flamejante ego?
Quem sou eu pra falar, você se pergunta? Eu sou um cara que escreve seriamente desde os 14 anos e tenho uma gaveta (várias gavetas!) repletas de originais que tenho discernimento e conhecimento suficientes de literatura para saber que, mesmo alguns sendo bastante bons, não oferecem nada de novo, não acrescentam nada. Pra que publicar? Não preciso disso pra viver. Meu ego é grande mas já está saciado, ele também não precisa disso.
Aliás, ainda vou escrever sobre o efeito salutar desse blog na minha vida. Ele me deu um círculo razoável de leitores, gera feedback constante, proporciona instant gratification, já me rendeu até uma coluna em jornal e, principalmente, mantém meu enorme ego ocupado. Se não fosse por tudo isso, talvez, eu também estivesse publicando o lixo das minhas gavetas só pra ter alguns leitores. Hoje, ao contrário, vou tentando publicar meu romance sem pressa alguma, na certeza absoluta de que será publicado e de que, até lá, meu nome só está crescendo.
Sei que sem os inúmeros rascunhos, estudos e esboços que enchem minhas gavetas eu não teria conseguido escrever o meu romance, Mulher de Um Homem Só, e meu livro de contos, Onde Perdemos Tudo, esses sim genuinamente bons.
Aos meus colegas, escritores novatos e ainda não publicados, eu só posso repetir o conselho de Lilian Hellman: se puder se abster de escrever, faça isso. O mundo não precisa de mais escritores. Nem você precisa ser escritor. Ser escritor só traz tristeza, pobreza e dor-de-cabeça. Deixe a literatura para aqueles pobres-coitados que realmente não conseguem não escrever. Produzir literatura não é vocação, é maldição. Sai dessa.
Vai estudar Ciências Atuariais como sua mãe queria.
Estudo de Caso: Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera
Até o Dia em que o Cão Morreu é o primeiro romance de Daniel Galera, um dos melhores escritores de sua geração e, também, dono da Livros do Mal, uma editora que espanta pela beleza dos seus livros e qualidade dos autores.
Dependendo do ângulo de onde se vê, o romance é bom e não é.
O Romance é Bom
O livro é bom porque o Galera é um puta escritor. O homem mal tirou as fraldas e já tem domínio completo sobre o meio. O livro é fechadinho, de um profissionalismo impressionante. Nada sobra, nada falta. Não houve aquele trecho que se estendeu demais e ficou fraco, redundante. Não houve aquela palavra fora de hora. O ritmo não foi quebrado, o clima não foi dissipado. O romance avançou sem tropeços em direção ao clímax.
Os coadjuvantes - em muitos romances, relegados ao pano de fundo - deram vida e profundidade à obra, um mais redondo do que o outro, desde o avô desbravador até o porteiro artista, passando pelo motoboy feliz. 
O timing da transição do antipenúltimo pro penúltimo capítulo foi perfeito: passamos, em um segundo, da última transa do casal para o narrador abandonando seu apartamento.
O último capítulo à la Molly Bloom foi excelente, um bom contraponto com o resto do romance e um fecho muito apropriado.
Também adorei o deus ex machina do final, em que tudo se resolve e uma escolha se impõe. Deus ex machinas são clichês, mas têm seu lugar na boa literatura. Se usados corretamente, ditam o tom da obra e dão sentido à trama. Como foi o caso aqui.
Se tudo foi ótimo, sobrou o quê para eu não gostar?
O Livro é Ruim
O problema do romance é que ele não poderia estar mais firmemente inserido na emocionante tradição da Escola Urbana.
Apesar dos bons personagens e final apropriado, o enredo é frouxo, somente cenas esparsas ligadas por um tênue fio condutor. O protagonista é um rapaz que não quer nada com a vida, não tem objetivos, paixões ou vontades, e cujo grande passatempo é ficar olhando pela janela. E, por algum motivo que nem ele mesmo entende, fode uma modelo gostosona que continua voltando pra ele apesar de ser tratada com a suprema indiferença de que só um protagonista da Escola Urbana é capaz.
O Polzonoff fez uma resenha (bastante agressiva, aliás) no qual desenvolve alguns desses pontos. Discordo do tom, pois ele faz Até o Dia em que o Cão Morreu parecer um livro ruim, o que não é, mas concordo com tudo o que ele fala sobre a Escola Urbana. Até ler essa sua resenha, aliás, eu me considerava sozinho nessa luta.
O Fator Redentor
Daniel Galera é muito bom. Só isso salva o livro e ainda sobra troco. Não tenho dúvida de que, daqui a pouco, ele abandonará de vez a Escola Urbana.
Galera já começou melhor do que João Gilberto Noll (que escreveu a orelha do livro) jamais foi e melhor do que o romancista Chico Buarque jamais será. E se não é melhor do que o Rubem Fonseca década de 70 (aí também seria querer demais), é bem melhor do que o Zé Rubem atual, quase uma sátira de si mesmo.
Infelizmente, o Galera Fonsequiano do Cão perde de goleada pro genial Galera Kafkiano dos Dentes, seu primeiro livro. Espero ansioso pelo terceiro Galera. Será um Galera desempate, ou um novo Galera?
Estudo de Caso: Depois que Acabou, de Daniela Abade
Dos 31 livros de literatura brasileira contemporânea que li em 2003, só dois autores estreantes fugiram do estigma da Escola Urbana: Alexandre Soares Silva, com seu maravilhoso A Coisa Não-Deus, de quem já falei, e Daniela Abade, autora de Depois que Acabou.
Outro dia, um amigo veio me dizer que nunca tinha lido nada parecido com o livro da Daniela Abade. E eu bati a mão no ombro dele e respondi: pôxa, quer dizer que você nunca assistiu Ghost?
O Livro Começa Mal
Sejamos honestos: o livro começa mal. Além da premissa absolutamente velha, os clichês abundam Pra vocês terem uma idéia, a protagonista demora meio livro pra concluir tamanha platitude como "sofrimento e felicidade não tem nada a ver com justiça." Depois dessa revelação, felizmente, o livro engrena.
Daniela Abade é melhor que isso. Um dos mais belos trechos, o encontro da protagonista com seu ex-namorado, em Creta, é fechado com uma frase inesquecível: o fim não tem desculpa. Aliás, a própria idéia da volta ao mundo de Carla é original e bem desenvolvida.
Requentando Ghost
Depois que Acabou é a história de Carla, uma moça que morre atropelada e depois, bem, não vai a lugar algum. Sem ninguém que a aconselhe, Carla vaga pela terra em uma tentativa de entender sua nova condição.
Fiquei pensando em Borges. Não há razão pra eu escrever um romance de centenas de páginas, dizia ele, somente para elaborar uma premissa que pode ser contada em poucas linhas. Não por acaso, seus melhores contos são romances ultra-comprimidos.
A premissa ser velha não quer dizer que é ruim, ou que não deveria ter sido utilizada, mas sim que Abade deveria ter levado isso em conta na hora de escrever o livro. Vários trechos do começo, que seriam ótimos independentemente ou caso não conhecêssemos a premissa, acabam se tornando clichês, previsíveis e repetitivos.
A gente quase pensa: mas caramba, pra que se dar ao trabalho de escrever tudo isso? Aluga Ghost pela quinta vez e pronto!
A partir do meio do livro, Daniela Abade prova ao leitor que sua escolha de premissa foi acertada e que ela tem, de fato, muitas coisas novas, originais e belas para dizer sobre o tema. Só não precisava ter esperado tanto pra começar.
Minha humilde sugestão: Abade poderia ter simplesmente pulado os clichês e acelerado direto para o seu novo conteúdo. Ou, pelo menos, que resumisse os clichês em poucas páginas, para benefício da meia dúzia leitores que não assistiu Ghost.
Sei que não está parecendo, mas gostei muito de Depois que Acabou.
Ele já valeria a pena somente pelo caso de amor entre Carla e Marco, magistralmente desenvolvido, comovente e understated. Demi Moore e Patrick Swayze ficam pra trás.
Fugindo da Escola Urbana
Mais importante, Daniela Abade foge totalmente da estética marginal da Escola Urbana. Seus personagens são pessoas normais, que levam suas vidas comuns, amam, comem, se divertem. Sua premissa pode não ser original, mas é imaginativa. Em Depois que Acabou, ninguém perambula apático por uma grande cidade violenta, comendo putas e se drogando, celebrando a falta de sentido de sua vida.
Os Óculos Escuros Quebrados
Até a capa é original. Está cada vez mais difícil encontrar capas de livros não-abstratas, capas que mostrem algum elemento da trama. Parece que ou os capistas simplesmente não lêem os livros que ilustram ou então sinceramente acham que qualquer coisinha que mostrem pode estar interferindo no direito do leitor de visualizar o enredo como bem entender.
Pois, para mim, foi uma grata surpresa abrir um romance que tem um par de óculos escuros quebrados em sua capa e já descobrir, nas primeiras páginas, que esse par de óculos é essencial para a trama.
O Livro Termina Muito Bem
No excelente final, nada de constrangedores encontros com deus, caminhadas em direção à luz ou grandes momentos de epifânia e revelação. O clímax é, ao mesmo tempo, perfeitamente climático, a culminação de toda a trajetória pessoal (de vida?) de Carla, mas também um clímax não dramático, não exagerado, não forçado. Lindo.
Começar um romance é fácil. Difícil é acabar. Difícil é bolar um final à altura dos personagens, da atmosfera, do enredo. Difícil é escrever um final tão bom como esse.
Daniela Abade inverte o erro clássico dos romances: Depois que Acabou começa mal e acaba bem.
Afinal, Quem Lê Esses Livros?
Eu acredito no mercado. Ninguém rasga dinheiro. Um editor só publica um livro que é igualzinho a trocentos outros porque ele sabe que aquilo vai vender, que a crítica vai afagar.
A Escola Urbana só existe porque existe um mercado grande de pessoas que consome esse tipo de literatura. E quem são esses bandidos que sustentam tanto lixo?
Para tentar entender melhor a atração que a Escola Urbana exerce nos leitores, selecionei esse trecho de uma resenha muito elogiativa do livro do Galera, Até o Dia que o Cão Morreu, feita por Alessandro Garcia, do blog Suburbana:
"Não temos propriamente um romance, mas simplesmente uma história em que o que é preciso ser contado é. O que sobra são indagações tão valiosas quanto as que nos fazemos todos os dias. Recém-formado em letras, o narrador da história, de quem nunca ficamos sabendo o nome, mora em um apartamento sozinho no centro de Porto Alegre, onde a vista para o Guaíba parece ser o que de mais seguro ele tem. O resto é a eterna sensação de solidão e de distanciamento do mundo, mesmo daqueles que lhe parecem mais perto. Como Marcela, uma modelo que surge em sua vida e que, mesmo repleta de beleza e viço, não afasta o protagonista de uma cantilena de auto-destruição, embalada por doses maciças de álcool e cigarro. Por quê? Porque simplesmente ele não vê sentido em buscar um "sentido" para a vida. A sua falta de jeito (talvez o seu principal problema) não o impede, porém, de encontrar meiguice num cão vira-latas - a quem chama de Churras -, recolhido quando voltava para casa. O tom, quase sempre de contemplação, acaba servindo como a resposta que não se tem às mínimas questões práticas da vida."
Não vou julgar o mérito da resenha em si. Ignoremos o fato de a primeira frase simplesmente não fazer sentido, por exemplo. O que quero saber é: por que ele gostou do livro?
Pra começar, eu me sinto vingado: o leitor concorda com tudo que eu venho dizendo. As características que vejo nos livros da Escola Urbana ele também viu: "eterna sensação de solidão e distanciamento do mundo", "cantilena de auto-destruição", "não vê sentido em buscar um 'sentido' pra vida", etc.
Mas gostou! Por algum motivo que me escapa, ele gosta de ler sobre o tédio, a monotonia, a apatia. Por quê? Por quê?!
Será que são os autores da Escola Urbana que estão respondendo aos anseios do leitor contemporâneo? Será que sou eu, e o Alexandre Soares Silva, e a Daniela Abade e outros infelizes, que estamos deslocados? Será que as pessoas vazias querem mais é ler livros vazios escritos por autores vazios contando as histórias vazias de personagens vazias?
Sempre achei estranho serem logo os artistas, que levam vidas tão interessantes, as pessoas que mais se drogam, que mais fogem da realidade. Por que precisam disso? Não seria mais lógico que fossem os contadores, os caixas de banco e os vendedores de seguros que realmente precisassem de esctacy pra aturar o tédio de suas vidas? A vida de Mick Jagger deve ser interesante o suficiente sem precisar de cocaína.
Quando mais reflito, mais concluo que não entendo nada do mundo, que não sei como as pessoas funcionam. Nada disso faz sentido pra mim.
Essas pessoas de vidas apáticas e vazias, os Mersaults ambulantes, fariam melhor em ler as grandes obras imaginativas da humanidade, o Senhor dos Anéis, Dom Quixote, até mesmo Harry Potter. Talvez essas obras maravilhosas chacoalhassem suas rotinas, quebrassem suas correntes, levitassem seus pés. No mínimo, se divertiriam um pouquinho.
Mas não.
Lêem Máquina de Pinball e Até o Dia em que o Cão Morreu, livros que só reciclam, em forma de literatura, o vazio inescapável que já permeia suas infelizes vidas.
Enquanto os reis barbudos, de Veiga, e os anjos, de Soares Silva, voam lá em cima, os leitores chafurdam cá embaixo.
O Fim da Ficção
Minha esposa não é nenhuma literata.
Em 2003, na minha rebaba, ela leu todos os livros da Livros do Mal (são oito), Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck, Valsa Negra, de Patrícia Mello, Aquele Rapaz, do Bernadet e A Casa dos Budas Ditosos, do Ubaldo. Doze livros, se não esqueci nenhum.
Clarah Averbuck e Daniel Galera lhe causaram orgasmos literários. Ela andou com Máquina de Pinball na bolsa por vários dias, como se fosse um pequeno tesouro: se identificou totalmente com o romance e com a vida de Clarah Averbuck. Pra ela, aquilo ali é que era a vida, a vida de verdade da mulher moderna e maluca, super inteligente mas sem nada na cabeça, sem perspectiva e querendo curtir a vida. Estou usando as palavras dela.
Até o Dia que o Cão Morreu também foi motivo para celebrações. "Ambos os livros são muito iguais, falam de amor de uma forma que não é banal, em uma linguagem muito direta, muito jovem. Mas, também, por outro lado, são livros que não falam de nada, os personagens ficam só bundando de um lado pro outro, e dá um certo desespero imaginar pessoas assim."
Sua terceira grande empolgação foi com Valsa Negra, mas somente pelo enredo. Achou a história bem bolada e bem amarrada e o final surpreendente. Gostou especialmente dos personagens e do modo como foram sendo desenvolvidos ao longo da trama, mudando, evoluindo, involuindo.
Gostou dos outros livros da Livros do Mal (menos Hotel Hell, amém pra ela) e também do Bernadet e do Ubaldo, mas sem fogos de artifício.
Já o excelente A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, ela tentou ler três vezes, por muita insistência minha, mas anjos interagindo num céu de mentirinha, aquilo pareceu fora demais do seu dia-a-dia e da sua experiência para que pudesse se identificar. Largou.
Minha irmã, que é a inteligente da família, está cursando doutorado em Economia em uma das melhores universidades do mundo, na Califórnia. Apesar de ser uma pessoa culta e sensível, ela simplesmente não consegue ler ficção: por que eu iria me interessar em saber como nunca se desenrolou uma situação que nunca aconteceu entre pessoas que nunca existiram? Ela me diz isso e eu quase imagino como meu pobre pai deve se sentir quando lê meus textos. Ficção não desperta nenhuma empatia em minha irmã.
Diz o Polzonoff:
"Há quem consuma, claro. E a partir dos leitores deste tipo de literatura é possível escrever um verdadeiro Tratado Patológico do Leitor Brasileiro. Que, carente de escritores realmente inventivos, sofre até hoje de imaginose aguda, isto é, carência de imaginação — própria e alheia. Não há como se iludir neste sentido, porque a imaginose aguda é como a subnutrição e está entranhada na nossa cultura. (...) Fico me perguntando apocalipticamente, à la Fukuyama, se também a imaginação, com a história, acabou. Escritores jovens escrevem somente sobre si mesmos, sobre seus umbigos alimentados com sucrilhos Kellogg’s, sobre seus momentos hamletianos tão superfaturados. Ninguém parece ser capaz de um lampejo de criatividade na literatura atual: uma imagem remotamente original, um personagem minimamente carismático."
Será essa a resposta? Que a literatura imaginativa está em decadência porque os leitores perderam a capacidade de imaginar, de viver outras vidas, de habitar novos mundos? Vivem vidas vazias e querem livros que retratem isso?
Por um lado, as pessoas parecem ter perdido a capacidade de sentir empatia, como minha irmã. Por outro, cada vez mais só conseguem ler livros com os quais se identificam, como minha esposa.
Será o fim da ficção?
Em Defesa da Escola Urbana
Li muito, em preparação desse longo ensaio. Fiz questão de ler todas as resenhas, a maioria positivas, que receberam os piores exemplares da Escola Urbana. Ler alguém, por exemplo, elogiando os méritos de Estorvo, de Chico Buarque, me parece tão bizarro quanto ler alguém elogiando os méritos de comer bosta. Mas li. Li tudo.
A única defesa válida que li da Escola Urbana foi escrita por Cláudio Lampert, colaborador do Epinion, blog de Paula Foschia, a namorada do Polzonoff. Lampert e Polzonoff também são os primeiros autores publicados pela Candide, a nova editora da Paula.
Enfim, o Cláudio leu a resenha na qual o Polzonoff simplesmente destrói o livro do Galera e teve o seguinte a dizer :
"E então Paulo Polzonoff alegra a minha tarde. Descasca o tal Daniel Galera, que eu desconheço quem seja e cujo livro provavelmente não lerei. O nosso crítico paranaense – meu amigo de pouco tempo mas de muitas afinidades – desanca o pobre Daniel. Eu não vou enveredar pela meta-crítica e desancar o Paulo. Ou talvez até faça isso amanhã, quando almoço com ele no Cervantes para falar do meu assunto predileto: o tédio e a apatia. Paulo ataca o tédio, o cansaço, a preguiça e a inércia dos argumentos literários de Daniel (a essa altura, depois desse winning streak, já considero ler a tal estória do dia em que o cão morreu). E ataca a proposta redentora do livro do nosso preclaro Daniel. Pois então digo: literatura existencialista é redentora, nem que seja para fazer a redenção do tédio – redenção essa que, sem nunca ter escrito um opúsculo existencial, promovo diariamente. Divagar sobre a ordem de entrada em vigor da existência e da essência é algo fora de moda? Não sei não. Eu até agora não me convenci plenamente da existência do tal arquiteto divino, que projeta o autor e, na seqüência, faz o crítico – parece até que o tal arquiteto se deleita com essas fricções. Diogo Mainardi escreveu um romance existencialista e foi criticado por isso. Bernardo Carvalho fez a mesma coisa, com um contorno bem menos filosófico, e tomou pau de todos os cantos. E agora é a vez do Daniel, em conjunto com parceiros luxuosos como Averbuck, Young, Mirisola et al., tomar na cabeça porque produz um livro repleto de tédio. E, muito provavelmente, chato como toda a narrativa existencial.
Romances existenciais são muito chatos para quem não provou a vida das calçadas. Quem se identifica com esse tipo de literatura já passou lá por baixo. Roubou no pôquer. Entrou na fila do pão para comprar um trago de conhaque logo cedo. Comprou quilos de droga batizada. Fez surubas circenses com anões besuntados. Admirar o autodidata lendo uma biblioteca inteira pela sua ordem alfabética por entre sessões de onanismo e prostração não é para qualquer um. Alguém conhece um personagem mais apático do que Mersault? Algo mais tedioso do que a forma monocórdia com a qual ele descrevia o ritmo dos domingos em Orã? O Estrangeiro, deixando de lado sua densidade filosófica, é obra de apatia e tédio; relato monótono de uma vida monótona. Até a descrição de um assassinato é lenta e apática.
Quem já foi de cara no limo da vida-como-ela-é-aí-fora gosta dessas nojeiras – por mera identificação, palpito eu. Anote aí leitor: se você já fritou o lado A e o lado B às 10 da manhã, todo suado e com medo do vizinho da frente invadir a sua casa, pode ler qualquer porcaria dessas porque foi escrita para você. Não hesite e consuma esse poliedro de tédio, cansaço, preguiça e inércia. O quadrilátero da minha vida – que não se desfaz nem com maratonas, filhos, amigos cultos que lêem o que há de mais sofisticado no mundo das letras, consumem jazz de primeira linha, clássicos e virtuosos, autores de gênio – é composto disso, só disso. E sem isso, desconfio, não teria a graça que teve até agora.
E se um dia conseguir escrever alguma coisa, certamente vai nessa direção. Por algum motivo, acho que o que tenho de melhor para entregar são as reminiscências dos arrabaldes do começo da minha idade adulta."
A Escrita dos Desesperados
O leitor Affonso diz:
"Não se pode ver o tipo de crítica do Alexandre como um ataque pessoal. Só me resta entender que, para quem escreve porque quer desesperadamente falar, é muito duro ouvir que talvez seja melhor calar."
Affonso, quem escreve porque quer desesperadamente se comunicar não deveria ter escolhido a literatura como meio. Literatura é arte, literatura é técnica, literatura não é para desesperados, literatura não é pra gente que escreve com os colhões, por exemplo.
Quem está desesperado pra se expressar que crie um blog, suba num caixote, faça um diário, escreva artigos para as colunas de opinião dos jornais, tudo menos cagar mais um romance Escola Urbana.
Então, quem também vai ficar desesperado são os leitores.
Daniel Galera e as Intenções do Autor
Não se enganem: eu gosto muito de Daniel Galera, seu primeiro livro de contos foi ótimo e considero Até o Dia em que o Cão Morreu somente uma derrapada precoce em uma carreira longa. Usei seu romance como estudo de caso por saber de tudo isso. Criticar um autor realmente ruim seria covardia.
Galera me mandou um email longo e ponderado, que ele não permitiu que eu postasse aqui, pois já está cansado de polêmicas literárias, mas me deixou citar trechos.
Pra começar, ele vestiu algumas carapuças que não eram pra ele. Besteira. Tudo o que eu tinha a dizer sobre os autores citados, eu disse citando-os. As carapuças e comentários vagos devem ser encaixados nas cabeças dos autores tão ruins que nem citados foram.
Na mensagem, o Galera me explica várias de suas motivações para isso ou aquilo do livro, numa deliciosa conversa de escritor que, realmente, não deve nunca vazar aos leitores. Não se trata nem de artesãos guardando os segredos de sua prática e muito menos de donos de fábrica de salsicha escondendo as porcarias que enfiam nos embutidos.
A intenção declarada de um artista, além de irrelevante, é nociva à obra: os leitores ficam presos à interpretação do autor, como se ela fosse a resposta certa, e deixam de construir seus próprios livros.
Nesse caso, entretanto, acho que a revelação mais importante do email do Galera foi que “um dos meus objetivos era exatamente denunciar a apatia e a patologia contemplativa que tomam conta da vida de muita gente hoje em dia. (...) Minha última intenção era apresentar esse narrador como um cara legal, descolado, um modelo de vida para jovens revoltados com a condição humana. No máximo, podemos ter compaixão por ele, pois ele é uma vítima.”
Como eu tenho fé no Galera, eu considerei seriamente a hipótese de que seu livro fosse diagnóstico e não sintoma, ou seja, denúncia e não celebração dos temas da Escola Urbana.
Mas à medida que eu lia esse e outros livros da Escola Urbana, e fiz muita força pra gostar de alguns, acabei concluindo que não faz diferença. A Escola Urbana infectou nossa literatura de tal jeito que é impossível distinguir.
Eu, que dei o voto de confiança ao Galera, eu, que leio com cuidado, eu, que li procurando por sintomas da Escola Urbana, eu, que tentei buscar por indícios de que o livro era diagnóstico e não sintoma, eu não consegui encontrar. Editores, leitores, críticos também não encontrarão.
Acredito no Galera, mas basta ver como os leitores comentam seu livro para perceber que o que foi escrito como crítica está sendo lido como celebração.
Trabalhei em lanchonete por seis meses e, nos dois anos seguintes, fui vegetariano radical, não comia bicho morto nenhum e, mesmo assim, simplesmente não conseguia tirar aquela inhaca de óleo de hambúrguer do meu cabelo.
A Escola Urbana funciona do mesmo jeito: a gente não pode chegar nem perto, nem um pouquinho, nem pra criticar, que ela já contagia, o cheiro gruda no cabelo e não sai mais.
Nada, Por Si Só, Resolve Nada
Daniel Galera também concorda, via de regra, com minhas críticas à Escola Urbana, mas ressalta que elas se aplicam a todo tipo de romance: “a redundância, a ausência de transmissão de idéias, a publicação apressada de textos que poderiam ser engavetados por um tempo, a falta de imaginação, etc.” Parece que eu acho que se o próximo livro dele fosse sobre uma “idosa aristocrata que acorda um belo dia numa planície da Sibéria e passa a interagir com uma misteriosa seita local”, ele seria necessariamente melhor, mas “mesmo a mais fantástica e fantasiosa das literaturas pode sofrer dos mesmos males.” A relevância literária não se manifesta somente através do inusitado, diz ele, o buraco é mais embaixo.
Como muita gente deve ter achado a mesma coisa, cabe a explicação. Não acho que uma narrativa imaginativa é intrinsecamente melhor do que uma narrativa autoibiográfica. Não acho nenhum estilo ou método intrinsecamente melhor que outro. A literatura tem muito poucas regras.
O resgate da imaginação seria interessante mas, por si só, não resolve nada. Um livro do Galera sobre uma velhinha na Sibéria não seria necessariamente melhor do que um livro sobre um gaúcho de vinte e tantos anos.
Nada, por si só, resolve nada.
Deixa eu me usar como exemplo: meu romance, todo passado no meu bairro, é sobre jovens, entre 18 e 28 anos, casando, começando na vida e tendo filhos. Nada poderia ser mais próximo da minha realidade. Não há realismo mágico, impossibilidades científicas, elfos e hobbits, deuses barbudos. Narrei o livro como uma mulher pra fugir um pouco de mim mesmo, mas aquela é a minha realidade que está lá, minha e de inúmeros jovens das grandes cidades que estão começando na vida.
Mas, definitivamente, não é Escola Urbana. As pessoas não vivem vidas vazias e sem sentido, não vagam apáticas pela existência, não freqüentam bares imundos com putas feias e bebem Porco Preto. Pelo contrário, são jovens normais de vinte e poucos, eletrizados pela vida, correndo atrás, procurando emprego, tendo ciúmes e confundindo amizade com amor.
Existe uma enorme e intermediária área cinza entre, digamos, o narrador Escola Urbana de Até o Dia em que o Cão Morreu e o romance absolutamente imaginativo A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, sobre um céu de anjos ateus. Eu, como nunca vou escrever no estilo Escola Urbana nem me acho capaz dos vôos de imaginação do xará, vou ter que ir me virando nesse meio campo.
Nada impede um romance de ser próximo, tanto da vida do autor quanto dos leitores, e ser absolutamente original. O que mata é seguir a estética viciada e redundante da Escola Urbana.
Destruir a Escola Urbana
Polígono das Secas é o melhor romance de Diogo Mainardi e uma das mais contundentes críticas já feitas à literatura nacional. No natal de 1995, eu comprei cinco cópias para presentear amigos selecionados. Não é algo que eu faça com qualquer livro.
Sua proposta: destruir a literatura regional brasileira e tudo o que ela representa, através de uma paródia daqueles infindavelmente parecidos romances regionalistas que infestaram a nossa literatura entre as décadas de 30 e 70 - até serem desancados pela ainda pior Escola Urbana.
A literatura regional não era intrinsicamente má, assim como a Escola Urbana também não é. Mas 40 anos dos mesmo romances sendo reescritos é um inferno. De quantos caboclos caladões querendo vingar alguma coisa a nossa literatura precisa?
Mais uma vez, o que mata é a redundância.
Infelizmente, não tenho nem o livro aqui para citar os melhores trechos ou dar mais exemplos. Além dos cinco exemplares que dei de presente, emprestei minha cópia tantas vezes que ela sumiu. Quem tiver como conseguir, vale a pena.
Um dos meus projetos literários mais queridos é fazer o Polígono das Secas da Escola Urbana. Escrever uma grande paródia de todos os cacoetes do gênero. Se ficar bom, algum desses editores ignorantes pode até publicar, achando que é sério. E, um projeto desses, é melhor se escrito a várias mãos. Soares, Polzonoff, vocês já estão convidados. Voluntários, apresentem-se.
Finalizando
O otimista Alexandre Soares Silva acha que a Escola Urbana já começa a agonizar. Pessoas começam a reparar nela, reclamações afloram, daqui pro colapso final é um pulo. Sei não. O tédio tem uma inércia poderosa.
E quem reclama? Poucos gatos pingados. A crítica e os leitores parecem ainda apaixonados pela Escola Urbana. Livros como Manual Prático do Ódio são descritos como "romance original e vertiginoso - onde todos cultivam razões odiosamente humanas para matar, amar, morrer"!
A decisão está em nossas mãos, autores e leitores. Não existe o editor malvado ditando o rumo da literatura. O editor publica o que ele acha que as pessoas querem ler.
Cabe a nós, como leitores conscientes, exigir que os livros que lemos tragam um mínimo de originalidade, imaginação, beleza. Eu até admito que romances como Máquina de Pinball causem uma forte identificação entre as jovens mulheres das grandes cidades, mas identificação não é literatura. Pra isso, temos espelhos.
Cabe a nós, como escritores conscientes, exercemos uma censura interna mínima na hora de lançar nossos textos ao mundo. Nossa voz é só uma, entre muitas, e ninguém está exigindo que participemos da conversa. Melhor ser autor de três obras-primas, cada uma com sete anos de diferença, do que publicar um livro por ano e, ao final da vida, ter uma obra enorme que terá que ser garimpada para se encontrar as poucas pepitas entre os pedregulhos.
Não publique só para ouvir o som da própria voz: publique porque tem algo a dizer.
Postado no blog entre Janeiro 12 e 30, 2004
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