"É possível homem e mulher serem apenas amigos? Carla, recém-casada com Murilo, precisa lidar com a incômoda proximidade de Júlia, melhor amiga de seu marido desde a infância."
Em quatro anos, o romance Mulher de Um Homem Só já foi baixado mais de
30 mil vezes e entusiasticamente resenhado em dezenas de blogs e sites.
Os downloads estão temporariamente
suspensos, mas devem voltar em breve.
No momento, estou ativamente buscando uma editora para Mulher de Um Homem Só.
Apresentação
Mulher de Um Homem Só é um romance curto e intenso (25 mil palavras), sobre os desafios e atribulações do começo da idade adulta e, também, sobre amizade entre homem e mulher.
Murilo e Júlia são melhores amigos de infância. Quando Murilo ainda está na faculdade, ele se casa com Carla, a narradora da história. A partir daí, o romance trata das aventuras e desventuras dos primeiros anos de casamento de Carla e Murilo, com ambos tentando ser adultos, maduros e casados, buscando independência financeira e procurando, ao mesmo tempo, encontrar um lugar para aquela melhor amiga dentro do relacionamento. Para Carla, Júlia é uma presença intimidadora: uma mulher que ama seu marido e a quem ele ama, ainda que apenas como amigos, e que o conhece há mais tempo que Carla e, sob certos aspectos, melhor. Com a chegada da filha de Murilo e Carla, Raquel, tudo se complica: Júlia, solteira, sem filhos, se apega à menina como se fosse sua própria, o que vai causar mais tensões. A narrativa na primeira pessoa, naturalmente, é parcial e as entrelinhas podem, ou não, revelar que nem sempre Carla é objetiva ao retratar Júlia.
A narrativa de Carla, apesar de desabalada, confusa e aparentemente prolixa, é concisa e passional, um ritmo que se tornaria inviável e extenuante em uma obra muito mais longa. O romance avança sempre num crescendo, atrás de um clímax que parece iminente mas nunca chega, até acabar abruptamente, sem longas despedidas e sem perda do ritmo ou intensidade.
A voz de Carla é apaixonada e desabalada, entulhando metáforas e imagens com um humor amargo, indo e voltando no tempo em um stream-of-consciousness aparentemente sem direção. Sua narração força ao enredo uma estrutura concêntrica, pois ela faz tantos desvios que parece que nunca fala o que vai falar, permanece em um eterno círculo em torno de seu assunto, mas deixando aparente ao leitor que muito foi de fato dito nas entrelinhas.
Além disso, em Carla, experimentei com narração em primeira pessoa onisciente. Carla narra a história em primeira pessoa, mas com conhecimento de fatos que, simplesmente, não poderia saber. É como se estivesse dividida em duas: a Carla-personagem, que fala e age, e a Carla-narradora, que tudo vê e tudo sabe. Por tudo isso, é difícil precisar onde Carla-narradora está no tempo e no espaço, ou mesmo a quem ela está se dirigindo.
Trecho
"Se eu não podia ter o Murilo, Júlia era o que de mais próximo havia. E vice-versa. Ela esteve acostumada, a vida toda, a ter o Murilo a sua disposição. Agora, o homem sumia o dia inteiro. Júlia tinha vício de Murilo: e satisfazia comigo. Perguntava da nossa vida, queria ajudar, precisávamos de alguma coisa?, como estávamos de dinheiro? e, também, perguntava da minha vida, e queria saber sempre mais.
Não adianta que a Júlia eu não consegui destrinchar. Um parasita, se alimentando do nosso casamento, isso ela não era. Sua relação conosco era simbiótica. Se fosse uma parasita, talvez eu gostasse mais dela. Teria pena. Mas a necessidade dela o Murilo também tinha: ele se injetava nela e ela se injetava nele. Se picavam quase toda noite: ela ligava, ou senão ele. E isso me ulcerava por dentro. Em noite de sexo negado, eu odiava Júlia mais do que tudo. Odiava chegar no meu marido com dengo, odiava ser repelida com amor em nome do cansaço, mas isso dava pra agüentar. Duro era, logo depois, ele passar meia hora no telefone com outra mulher. Não tem lógica, eu sei, e por outro lado, cheio de lógica está, mas na minha cabeça, se ele não tinha energia pra mim, não devia ter pra ela também. Júlia me lembrava minha avó grudenta, só que pior: porque a avó grudava em mim e Júlia grudava no meu marido. E enquanto eu tentava me livrar da velha, o Murilo se grudava de volta. E batia pena porque, às vezes, na loja, Júlia comentava que eu tinha sorte, que eu ia ver o Murilo de noite e ela, no máximo, ia falar com ele no telefone. E eu pensava: posso dizer pra ela aparecer lá, não posso? Mas nunca gostei de ser hipócrita.
Ela tentava me dar a impressão de que, durante o dia, o Murilo era tão fora do alcance dela quanto do meu. Mas não. Júlia tinha o horário mais livre e uma imaginação malandra: dispensou aviões e subiu o morro, foi direto ao fornecedor. Aparecia sempre na universidade. Naquela época, quando não estava trabalhando, estava ou na loja comigo ou na universidade com Murilo. Sabia o número das salas, o horário das aulas, até a mesa onde ele comia. Deve ter aprendido muito de medicina, porque assistiu a várias aulas junto com o Murilo, só pra sentar do lado dele e conversar. E os almoços. No começo, ele tentava expulsar Júlia, assim como fazia comigo quando eu me chegava nele de noite. Mas tinha receio de Júlia sofrer uma crise de abstinência caso passasse uma tarde sem fumar seu baseado de Murilo. Júlia, vulnerável e quebradiça, se jogava sobre Murilo de alma inteira e ele espalmava os pés no chão, dobrava os joelhos, trincava os dentes e aceitava aquele peso, deixa cair que eu agüento.
E eu? Murilo achava que me conhecia bem demais, ficou confiante: nunca olhou dentro da carapaça. Viu a carapaça e achou que aquilo é que era, achou que já estava tão fundo dentro de mim quanto alguém poderia estar. Mas o fundo é sempre mais embaixo, nem eu sei onde, e lá o Murilo nunca se aventurou. Casou com a rocha, se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que eu fosse.
Aos poucos, se institucionalizou o almoço: todo dia comiam juntos, se olhavam juntos, se amavam do jeito lá deles. E, logo depois, Murilo ia pra aula e Júlia vinha pra loja, chorar suas misérias. Não vejo mais o Murilo, quem tem sorte é você, Carla!, blá blá blá, mas nenhum dos dois cachorros nunca me disse que almoçavam juntos dia sim, dia também.
Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra despontar o vício de Murilo que Júlia tinha. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta, eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia, amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu."
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