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  Alex Castro
 
Onde Perdemos Tudo - Resenhas (negritos meus)

Miguel Sanches Neto - (Publicada no Prosa & Verso, do jornal O Globo, em 11 de novembro de 2006)

Disponíveis na internet, mas escritos para um volume impresso, os contos de "Onde perdemos tudo", de Alex Castro, incorporam a gramática do meio eletrônico. O volume dialoga com o formato do blog, tanto pela diagramação quanto pela opção por fontes sem serifa e pela forma de dispor os parágrafos. Mais do que esse parentesco gráfico, os contos guardam a velocidade de leitura própria da internet. Lê-se com rapidez mesmo os relatos longos, que em nenhum momento se revelam cansativos. As frases e os parágrafos são curtos, o autor cria suítes, dividindo a história em blocos, com subtítulos divertidos.

O conto mais bem realizado, como quer o próprio autor, é o primeiro "A morte de meu cachorro". História de um momento em que um casal se separa, e cada um vai cuidar de sua vida. A velhice e a solidão são atingidas quando o narrador não é reconhecido por uma alma gêmea, obrigando-se a conviver com experiências que não são mais plenamente compartilháveis. Esse esvaziamento se dá num cenário que deveria ser palco de um reencontro. A amiga muda-se para Buenos Aires, o narrador segue para visitá-la, tentando vencer a distância espacial, que cumpre seu papel: "Lendo cada um sua seção do Clarín, Fiona e eu padecíamos de um silêncio ainda mais cancerígeno [sic]: o silêncio de quem tem muito a dizer, mas prefere calar; o silêncio da conveniência. Pra que discutir? Emudecer poupa dores-de-cabeça, explicações, embaraços. Sobra o nada". Esta elevação do silêncio a uma categoria cancerígena revela a forma dramática de representar alguns episódios. O conto não segue um fluxo narrativo contínuo, trabalha com flash-back e janelas, que são abertas para esclare cer coisas ou resumir passagens.

Outro conto interessante é o que dá título ao livro. A história se passa numa festa, quando dois ex-namorados se encontram depois de um longo distanciamento. As conversas tendem ora para o dramático, ora para o banal, e nelas cabem, por exemplo, comentários sobre um tratamento de pele. A moça é uma ficcionista, no início de carreira, com as dificuldades normais de afirmação. O ex-namorado é o modelo de personagens para ela, o que mostra que esta é uma relação de atração e repulsa. O que os separou não é conhecido, e a vida dos dois segue vazia.

Os personagens dos contos de Alex Castro apresentam uma tendência para filosofar, fortalecida pelas epígrafes, algumas longas, presentes em todos os contos. Em certas passagens, encontramos uma dramaticidade exacerbada, que valoriza o acontecimento marcante, em detrimento da exploração dos pequenos nadas. A morte, a separação e a briga acabam muito valorizadas, levando a narrativa a soluções folhetinescas.

O componente que dá literariedade aos contos é a ironia, a busca de soluções bem-humoradas. O autor, que brinca o tempo todo com conceitos literários, transita por um universo em que cabem produtos literários sofisticados e outros da cultura de massa. Os diálogos, os subtítulos e os títulos dos contos e dos livros inventados ganham um tom paródico. Tudo apontando para uma saborosa desconstrução da seriedade. Onde perdemos tudo apresenta narradores meio tagarelas — outro pedágio à internet? —, mas é justamente nisso que reside sua força. E se falta uma maior voltagem literária nestes contos, é indiscutível que a prosa de Alex Castro já possui apelo estilístico."

Bruno Torres: "O conto é sensacional [A Morte do Meu Cachorro] e, obviamente, não fala da morte de um cachorro, mas usa como metáfora para descrever uma perda muito importante, a perda da inocência, quando deixamos de ser crianças e passamos a ser adultos e a encarar cada fato da vida de uma maneira completamente diferente. O conto fala de uma amizade que, apesar de ter sido muito forte no passado, já não existe mais. O narrador encontra sua antiga grande amiga, mas não consegue se aproximar e revive, em sua memória, o momento da morte de seu cachorro, ou seja, o momento em que aquela grande amizade acabou, numa tarde, em Buenos Aires. No conto, Alex aborda de maneira característica um tema que é quase um tabu, a amizade sincera entre um homem e uma mulher. As cenas são muito bem descritas, como no restante do livro e os sentimentos mais profundos de cada personagem são expostos de maneira quase pornográfica.

O segundo conto, A porta, disponível por completo, de graça, na web, é o mais curto dos cinco. Fala da perda de um amor, e tem um tom meio sobrenatural e um final trágico, quase cômico, que ajuda a quebrar um pouco o clima pesado do conto. O terceiro, Onde perdemos tudo, conta o reencontro, depois de cinco anos, de um casal cuja relação foi desfeita de maneira traumática. É muito carregado de sentimentos dúbios e mentiras ditas como verdade em momentos de grande emoção.

Mas, pra mim, o destaque do livro são os dois últimos contos. Quando morrem os pêssegos nos mostra como uma grande perda pode ser suplantada por um pequeno momento de felicidade extrema. É um belo conto e nos introduz o personagem do escritor (fictício) Jácome Gol, que é fundamental na história narrada no quinto e último conto do livro, o melhor de todos na minha opinião, A falta que nos fazem os figos: surpreendente, divertido, enigmático, o tipo de história que não se pode deixar pra terminar de ler depois. Por isso mesmo não vou contar nada pra vocês, pra deixar que a curiosidade faça com que comprem o livro.

Onde Perdemos Tudo está à venda pela web, em formato PDF. Tem 120 páginas e custa só 7 reais. Não deixe de comprar. Acho que Alex Castro tem tudo pra ser um dos grandes autores brasileiros no futuro. Aproveite enquanto você pode comprar um livro dele por 7 pratas e ainda ter a possibilidade de contar diretamente pra ele o que achou. Aproveite."


Alexandre Inagaki: "[Sobre A Porta] Um bom conto se reconhece pelo final: vitória por nocaute. (...)Alex também é um escritor que conhece como poucos seu ofício. "A Porta" segue à risca os ensinamentos de mestre Júlio Cortázar, que dizia: "Enquanto no romance você conquista o leitor por rounds, no conto você deve abatê-lo por nocaute". E, de fato, Alex Castro leva à lona seus leitores. Não apenas em "A Porta", como também nas quatro outras narrativas que compõem o livro Onde Perdemos Tudo. (...) Como disse Zander Catta Preta, é um filho da puta que escreve bem, desgraçadamente bem. Bom nocaute."Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

Emanuel: "[Sobre A Porta] Não sei falar sobre o seu texto sem um palavrão: caralho de conto bom!!!!"

Reginaldo Siqueira: "Veja bem que a [primeira] citação [do conto "A Porta"] fala de sacrifício e danação, sendo a porta apenas o objeto separador. Temos então a porta como peça, objeto comum ao teu conto e à citação. A situação em que a porta se fecha entre um e outro é diferente. Em um é a porta para a salvação, que exige sacrifício, em outro a porta entre a vida e a morte, filha do acaso. Já a citação de Emily Brontë está bem inserida, transmitindo angústia em estado puro.

Gostei muito da pontuação da porta em teu conto, alinhavando todo o texto: "me espere aqui e vamos entrar em um lugar muito melhor" é uma pérola.

Em meu comentário no blog insinuo que você teria preparado uma armadilha, jogando no ar a primeira metade um tanto morna e trivial do conto, esperando as reações, e depois publicando a segunda metade, densa e surpreendente. Após a leitura de todo o conto pensei em te dizer para suprimir esta primeira metade, ou ao menos as referências à bunda da Alicinha, por achá-los fora do ambiente da segunda parte. Esta primeira parte provocou reações como a de DaniCast: "um conto sobre como o cara vai comer a mulherzinha má não me interessa, absolutamente." Confesso que senti a mesma coisa. Depois percebi que a função da primeira parte é justamente esta, criar uma falsa expectativa, te deixar despretensioso em relação ao que virá, criar um ambiente propício à surpresa. O conjunto adquire então um novo e grande valor. (...)

A segunda parte é ótima. A preparação do clima no banheiro é divina. Porém você se supera no telefonema. O ritmo, as palavras, a formação da cena e o crescente de angústia estão perfeitos. Nos transporta suspenso para o clímax, onde Amanda está e ao mesmo tempo não está porque não É mais. A porta entre os dois é uma porta, mas ao mesmo tempo não é porque não pode mais ser aberta. Está formado todo o desespero da situação em que a amada chama À PORTA (meu título para o conto) e não será atendida jamais.

Achei ótima a imagem: "me espalmei contra a porta como uma lagartixa". É bem o retrato de como eu me sentiria em tal situação. Eu tiraria o olho mágico e deixaria do outro lado da porta uma Amanda etérea (imaginação, sobrenatural?). (...)

Repito, teu conto me agradou muito, seu início prepara para um clímax que não acontece, fui surpreendido pelos acontecimentos e acompanhei palavra a palavra toda a angústia transmitida. É o tipo de conto que fica gravado na memória."

Marmota: "Perdas trágicas mexem com qualquer um, mesmo diante da perda marido que fugira dois meses antes, como em "Quando Morrem os Pêssegos". Ou durante um misterioso telefonema, em "A Porta". Nem toda perda, no entanto, provoca impacto imediato. As vezes a gente leva tempo para se dar conta que aquela sensação mágica, provocada pela presença de outra pessoa, não existe mais. Convenhamos: é normal mudarmos nossas prioridades, deixando antigas histórias para trás. E nem mesmo os ares do centro de Buenos Aires, por exemplo, são capazes de dar vida a memórias passadas. "A Morte do Meu Cachorro" traz essa situação bem comum: "cachorros vivem pouco e morrem todos os dias". Pode parecer bobo da minha parte, mas o mais genial de "Onde Perdemos Tudo" são as referências ao título do livro, que aparece tanto no conto de mesmo nome - uma descrição angustiante de um daqueles péssimos reencontros com um grande amor do passado - quanto no misterioso "A Falta que nos Fazem os Figos". Que, aliás, também faz referência ao autor fictício Jácome Gol, autor da coletânea "Quando Morrem os Pêssegos" e personagem central do último e surpreendente conto."

Daniela Castilho: "[Sobre A Morte do Meu Cachorro] O Alê tem essa mágica de transformar o que ele escreve em história de mistério, em quebra-cabeça: se você apenas ler, sem prestar atenção, não vai sacar as sutilezas nas entrelinhas, não vai perceber a real motivação por trás dos personagens. Precisa ler com atenção, uma dúzia de vezes. Daí quando cai a ficha e seu cérebro se ilumina, você percebe que a história tinha no mínimo duas maneiras de ser lida: superficialmente, se atendo a narrativa, e esmiuçando e procurando as pistas escondidas dos reais motivos dos personagens."

Laura "GOSTEI MUITO MUITO MUITO MUITO MUITISSIMO, me emocionei com o relato impecável, com os detalhes dos sentimentos, com a riqueza das suposições. Estou falando de "A morte do meu cachorro". Acabei de ler. Gostei tanto que por hoje nao vou continuar lendo. Vou dormir com aquelas imagens. Com esse sentimento de morte e perda que tantas vezes experimentamos e vc coloca em palavras nesse conto. (...)  Vc lembra aquela parte de Estorvo, do Chico (adoro esse livro) em que o protagonista lembra de um amigo que está na piscina e num dado momento ele diz "é como se sabendo-se lembrado ele demorasse seus movimentos". (algo assim..) Eu SENTI nessa linha o que o relator falava. O mesmo me aconteceu lendo este conto seu. SENTI cada sorriso, cada dúvida, cada suposicao, coisa que nao me aconteceu quando li seu romance. Talvez pelo ritmo, "Mulher..." tem mais ritmo de videoclip, mas estes contos têm o ritmo de um filme francês. E eu me identifico mais com filme francês. (...) Olha que eu nao gostei pq a história acontece em Baires (fiquei surpresa , sim). Gostei é do conceito disso que vcs, artistas, conseguem fazer: colocar no papel, na pintura, etc o que a gente sente no mais fundo da alma. Esse sentimento de morte de algo que existia entre dois seres humanos é tal como vc descreve aí. (...) O que me atrai como leitora é tudo aquilo que me produz uma reacao, boa, adversa, qualquer uma, aquilo que me deixa pensando por qualquer razao, independentemente do intuito do autor quando escreveu. Vc já entrou na minha lista de autores preferidos. Agora pode dormir tranquilo :-)))"

Zander Catta Preta: "Esse filho-da-puta libertino escreve bem. Mesmo. Sete reau pelo PDF. Ah, não gosta de ler no micro? Imprima no escritório. Ou na tua jato de tinta. Porra. Sete reau você gasta em quatro passagens de ônibus e uma ida ao MacDonald's. Sobre o episódio da morte da infância [no conto A Morte do Meu Cachorro, o meu favorito], ontem à noite estava no MSN com uma amiga que me citou Legião. Porra. Eu fui no primeiro show da Legião no Circo Voador no Arpoador. E fazem 20 anos do disco Dois. E eu tinha 15 no lançamento. E fichas foram caíndo em seqüência, mas não surtiram o efeito total. No meio do texto, me peguei soluçando. Pode ser que eu esteja somatizando a solidão, a distância, a dureza condicional, mas foda-se! O fato é que me emocionou e é o que interessa. Na boa, comprei o livro pq acho que é certo. Compro livros em papel por 40 pratas e mal consigo passar da página 10. Como já lia no blogue - dica de Baxt e Hiro e meio mundo - achei certo e justo. Tinha lido o romance e achei mediano. Obviamente isso quer dizer porra nenhuma. Gosto é como cú. E achismo é o cú ao quadrado. Não tinha fé no texto, mas PQP. Tempo ótimo, ritimo 100. Ducaralho."

Allan Robert: "Após ler o livro e constatar, mais uma vez, que o Alex escreve de forma envolvente e divertida, o que torna impossível largar o livro antes do fim, descobri um excelente contista. O que me deixa impressionado com o fato de ver tantos autores de qualidade duvidosa e mesmo sem qualidade nenhuma, abarrotando as prateleiras das livrarias enquanto o Alex vem sendo esnobado. Sem resenhas. Compre e leia o livro. O Alex merece. E você também."

Bruno Torres: "Esse [A Morte do Meu Cachorro] eu li assim que você me enviou o livro. Excelente. Ainda não li os outros contos. Assim que terminar de ler, vou ver se escrevo alguma coisa sobre (espero que positiva). Mas esse conto sozinho já valeu os 7 reais."

Beto Lins: "Cara, esse conto é excelente [A Morte do Meu Cachorro], sem brincadeira. ainda não terminei o livro, mas esse conto, por si só, já merece um livro completo."

João Paulo: "Adorei "A Morte do Meu Cachorro". Difícil como o caraças, irritante ao ponto de nos viciar. É pura manipulação do leitor. (...) Os dois últimos também são bastante bons (deram-me umas ideias porreiras, talvez daqui a uns anos também escreva umas coisas), mas continuo a preferir A Morte do Meu Cachorro. Disse que era difícil (mais irritante do que difícil) porque várias vezes se perde o fio condutor da história. Várias vezes tive de voltar atrás para perceber o que é que afinal era verdade e o que era mentira, várias vezes tive de saltar à frente para não me perder nos apartes do narrador. O que irrita é que se lês o conto uma vez do princípio ao fim, sem voltar atrás ou saltar à frente, corres o sério risco de não perceberes nada! Por isso digo que neste conto se percebe bem o que é manipulação do leitor. (...) N'A Morte do Meu Cachorro que a manipulação do leitor é mais forte. Dá vontade de dizer "Raios partam a memória do velho!!!" Pronto, irritou-me, e quase sempre as histórias que me conseguem irritar são as mais interessantes."

Raphael: ""E hoje, li "Onde Perdemos Tudo". Acabo de terminar. Ainda não sei exatamente o que acho, só fiquei com a impressão de que é ainda melhor que o romance de Carla, Júlia e Murilo. Pra ser bem superficial, falando sobre sensações apenas, achei o primeiro conto [A Morte do Meu Cachorro]Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro pesadíssimo, uma bad trip que mexeu comigo, provocou minha sensibilidade. Não sei bem pq, acho que a confusão entre memórias voluntária e involuntária e seu efeito na narrativa, o quanto a ordem dos fatos confunde o protagonista é quase uma questão de tempo bergsoniano (e dá-lhe Proust!). Enfim, pegou pra mim. (...) Olha que não é qqr coisa que me faz matar minha capoeira. Gostei do ritmo, da sensibilidade (como eu evoco isso), das minúcias, da criatividade, da observação. Dignos de lágrimas. Lágrimas de beleza. Obrigado por esses momentos."

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