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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Ambição

 

História de uma Dominatrix

Mistress Andy / Goddess KaylissAndréa e eu fomos colegas na Escola Americana. Ela era brasileira, alta, ruiva, exótica. Servimos juntos no grêmio (quando eu era presidente, ela era representante de turma) e no jornal (eu editava e ela colaborava). Mais tarde, ela foi a editora do Yearbook, aqueles livros do ano que às vezes aparecem em filmes americanos, com as fotos e descrições de todos os alunos. Além de tudo, Andréa ainda arranjava tempo de ter notas excelentes.

Com esse currículo, passou fácil para Princeton, uma das melhores universidades do mundo, onde estudou psicologia. Durante a faculdade, conheceu o mundo do sado-masoquismo e se descobriu dominadora. Em pouco tempo, já estava namorando uma garota submissa e andavam juntas pela universidade, vestidas a caráter e apelidadas de "whips & chains" (chicotes e correntes).

Não demorou muito para a Andréa, bolsista, começar a fazer uma dominaçãozinha por fora pra ganhar um trocado. Afinal, não é um trabalho difícil: você xinga, dá umas chicotadas, manda o cara lamber seus pés e a coisa não passa muito disso. O contato físico, quando existe, é mínimo.

Começou a gostar dessa vida. Além de satisfazer seu lado dominador, ela também utilizava todos os seus conhecimentos de psicologia. Não é à toa que um encontro com uma dominadora tem o mesmo nome que o encontro com uma psicóloga: sessão. Assim como uma psicóloga normal, o trabalho de Andréa era cuidar da saúde mental do seus pacientes (quase sempre tímidos e reprimidos) e ajudá-los a conviver melhor com seus desejos.
Mistress Andy / Goddess Kayliss
Depois de formada, casou com um australiano e foi pra terra dele. Durante três anos, viveram um casamento aberto e se separaram bons amigos. Coincidentemente, meu casamento aberto também durou três anos. Será algum estigma? The open marriage three-year itch?

Em 2002, foi selecionada para participar da primeira edição do Big Brother australiano. Imaginem o escândalo: uma estrangeira, bonita, exótica e dominadora profissional. Lá dentro, Andréa comportou-se de forma tão sexualmente desinibida quanto cá fora. Resultado: tornou-se a primeira eliminada. Passou todo o ano seguinte viajando pela Austrália, no seu status de celebridade instantânea BBB, abrindo eventos, sendo jurada de concursos, essas coisas.

Mistress Andy / Goddess KaylissFomos nos reencontrar através de uma reportagem do Fantástico: uma brasileira, dominadora profissional, é a primeira eliminada do Big Brother Austrália, veja isso, e muito mais, depois do Domingão do Faustão. Fui ver e, caramba, não é que era a Andréa?

Escrevi pra ela. Nunca tínhamos sido realmente amigos de sair e trocar confidências, mas havíamos convivido bastante nas diversas atividades extracurriculares que desenvolvemos juntos. E, dez anos depois, através de caminhos diferentes, tínhamos chegado ao mesmo lugar: vivendo casamentos abertos e envolvidos no mundo sado-masoquista.

Em fevereiro de 2003, veio passar umas semanas no Rio e aproveitamos para nos encontrar. Andar com a Andréa pelas ruas amarfanhadas da Lapa em uma sexta à noite foi uma experiência surreal. Por ser alta, ruiva e decidida, ela chama atenção. Confundi-la com um travesti seria um engano compreensível, mas injusto. Os homens rodeavam-na, fascinados. E eu, dói-me confessar, não consegui tirar nem uma casquinha sequer: nem seu pés eu beijei.Mistress Andy / Goddess Kayliss

Sentamos em uma mesa de bar e Andréa começou a falar de sua vida, de sua filosofia, de suas descobertas. De tão inteligente, expansiva e segura de si, ela soava quase como se não percebesse minha presença. Ou até percebia, mas, sinceramente, não fazia diferença quem eu fosse. Com qualquer outra pessoa, ela seria igualmente segura, expansiva, aberta, falaria as mesmas coisas, agiria igual.

Dizem que causo esse efeito nas pessoas. Ninguém jamais tinha causado ele em mim.

Nos últimos anos, depois do fim do seu casamento, Andréa ganhou o mundo. O único modo de saber onde ela está é pelo seu site. Cidade após cidade, país após país, se divertindo, atendendo seus pacientes, recebendo tributos, vivendo sua vida.

Mistress Andy / Goddess KaylissO meu próprio processo de libertação me fez dar enorme valor à coragem, desprendimento e abertura da Andréa. Nossa trajetória tinha sido bastante parecida, em termos de auto-conhecimento e superação de preconceitos, até atingirmos uma maior consciência sobre quem somos, o que queremos e quais são nossos limites.

Muitos dos nossos antigos colegas acham a Andréa completamente louca. Eu também acho, só que pra mim isso é elogio. Louco eu também sou. Devo ser mesmo, pois pra mim a Andréa é um exemplo de ser humano, um modelo a ser seguido. Ser adulto, independente e livre é ter a capacidade da Andréa de se conhecer e de se assumir, sem medo, diante de um mundo tão intolerante e mesquinho.

Quando reencontrei a Andréa, eu já tinha começado a escrever as prisões, mas ainda não tinha blog. Poucos dias depois, inspirado em grande parte por sua postura diante da vida, nascia o Liberal Libertário Libertino.

Estava na minha hora de também colocar a cara à tapa pelas coisas em que acredito.

Visite o site da Andrea: MyMistress

Talentos Desperdiçados

Na verdade, eu e a Andréa tínhamos outra coisa em comum, talvez mais importante do que tudo já citado: estávamos ambos vivendo abaixo de nossas capacidades, desperdiçando nosso potencial.

Ninguém entende. Uma menina brilhante. Formada por Princeton. Nota máxima em todas as matérias. Como pode se contentar em ganhar a vida, bem, chicoteando os outros? É isso que você quer fazer, Andréa? É assim que você se vê daqui a dez anos? Será que foi pra isso que você teve uma educação de nível internacional? Não tem vergonha de desperdiçar as oportunidades que deus lhe deu?

A Andréa já ouviu tudo isso, em todas as possíveis variações. E, guardadas as óbvias diferenças, eu também.

Cansei de ser refém das aspirações e expectativas dos outros em relação à minha pretensa genialidade. Longe de ser um elogio, essa alta opinião que as pessoas parecem ter de mim é um fardo.

Já posso até ver leitores enlouquecidamente levantando as mãos e dizendo que me acham um merda. Obrigado, obrigado, valeu a intenção, mas se achassem mesmo, não estariam nem aqui pra dizer isso.

O Dom do Desenho

Eu sempre gostei de desenhar. Quando criança, eu conseguia reproduzir qualquer coisa que visse, em especial pessoas e objetos. Era excelente retratista: com uma ou duas fotos de qualquer um, eu já produzia um retrato fiel.

Desde os dez anos, eu fazia histórias em quadrinhos, xerocava, coloria as capas a mão e vendia assinaturas para amigos, parentes e professores. Vocês estão zoando, mas no meu auge, na 6ª série, eu tinha 16 assinantes. Ou seja, já era o mesmo Alexandre-pidão aqui do blog. Reportagem do JB sobre o Goot

Um amigo da família, o Goot (pseudônimo de Gutemberg Monteiro, na foto ao lado), desenhista de sucesso aqui no Brasil, tinha se mudado para Nova Iorque, onde ilustrava as tiras do Tom & Jerry. Quando eu tinha onze anos, passei uma temporada com ele. Foi uma delícia viver como um nova-iorquino. Pegávamos trens, visitávamos estúdios famosos, comíamos bagels. À noite, o Goot, que via em mim um imenso talento, tentava me ensinar algumas das coisas que tinha aprendido em sua carreira, como escolher o equipamento certo, como usar nanquim para máximo efeito, como desenhar a mão perfeita, tudo isso.

Quando voltei para o Brasil, larguei os desenhos definitivamente.

Não foi uma decisão intempestiva ou rebelde. Foi, pelo contrário, a primeira decisão estratégica que tomei em minha vida.

O cotidiano do Goot me fez ver que desenhar dava muito mais trabalho do que eu jamais teria imaginado. E eu pensei: não quero isso pra mim. Não quero passar a vida tendo que comprar equipamento caro, mantendo arquivos de imagens, fazendo rascunhos, sombreados e arte-final, e ainda por cima colorindo.

Percebi que minha verdadeira vocação era ser contador de histórias, não desenhista. Sim, eu tinha o tal dom do desenho, mas desenhava somente como meio de colocar minhas histórias pra fora. Todo o tempo que eu gastasse no lado mais técnico e braçal da ilustração seria menos um tempo que eu teria para criar meus personagens, burilar minhas histórias, transmitir minha mensagem.

A decisão não foi muito bem aceita entre parentes, professores e, principalmente, assinantes dos meus gibis - devolvi o dinheiro de todo mundo.

Mozart, dizia minha mãe, jamais teria sido Mozart se nunca tivesse chegado perto de um piano. Sua teoria era: precisamos ser expostos ao máximo de situações possíveis para sabermos quem somos, o que queremos, o que somos capazes de fazer. Além disso, ela era muito rica e não trabalhava: esse passou a ser seu projeto pessoal. Dos seis anos em diante, eu fiz aulas de tudo o que vocês possam imaginar: equitação, xadrez, flauta. Metodicamente, fui exposto a tudo. E nada.

Minha mãe, formada em Belas Artes e excelente desenhista, tinha um orgulho especial desse meu dom para o desenho, que acreditava ter sido herdado diretamente dela. O que a horrorizava não era nem apenas o desperdício, mas o pecado: minha capacidade de desenhar era um presente inquestionável de deus.

Eu tinha um dom e não tinha o direito de abandoná-lo.

Clique para ver outros desenhosOra, se eu não tiver a liberdade de desperdiçar o meu dom, então não sou eu que tenho o dom: ele é que me tem, escravizado, em seu poder. Condenado a ser desenhista, ó que sina.

Parei com os desenhos.

A única coisa que continuei a desenhar, e ainda desenho, são mulheres de corpo escultural. Há uma certa mágica em ser capaz de criar, do nada, em uma folha de papel branco, a mulher dos seus sonhos, a mulher que tem tudo exatamente do jeito que você quer. Os curiosos e tarados podem clicar na imagem ao lado pra ver outras mulheres que eu desenhei. Vou ser sincero: muitas das masturbações da minha infância foram com as mulheres que eu mesmo desenhava.

Ir à Metrópole

Mais tarde, quando me formei da Escola Americana, o caminho natural também era que eu fosse estudar fora. Só deus sabe como penei para ter o direito de estudar no Brasil.

As escolas americanas são avaliadas (assim como nossos cursinhos aqui) pelo número de alunos que enfiam nas melhores universidades. Todo ano, os folders institucionais da escola eram atualizados pra dizer: em 2003, colocamos 2 alunos em Harvard, 3 em Cornell, 1 em Princeton, etc. Naturalmente, o aluno-gênio que passasse em primeiro lugar pra Medicina na UFRJ seria totalmente inútil para os fins propagandísticos da escola.

Pois eu, apesar de nunca ter sido bom aluno, era ativo e metido a líder, presidente do grêmio e editor do jornal, além de ter ficado bem colocado no SAT, uma espécie de vestibular americano.

Mesmo com as notas baixas, havia uma boa chance de eu ser aceito por uma Ivy League, ou quase, na força do meu SAT e das minhas atividades extra-curriculares.

Resultado: durante quase dois anos, fui perseguido por colegas, professores, parentes, pelo diretor da escola, pelo orientador vocacional, acho que até o faxineiro me chamou pra uma conversa ali no cantinho.

Será que eu não entendia que estava jogando minha vida fora?

Opção pela Mediocridade

Ultimamente, tenho ouvido a mesma ladainha.

Hoje, nos nossos 30 anos, muitos dos meus colegas de classe já começam a ocupar seus lugares de destaque na sociedade (ainda mais com a vantagem que tiveram na largada, sendo ricos e estudando em escola cara): são donos e diretores de empresas, sócios em escritórios conceituados de direito, doutores e phds, alguns casados já há quase dez anos, todos começando a procriar, comprando carros e financiando apartamentos a perder de vista, investindo em portfólios diversificados de ações e fazendo planos de aposentadoria privados.

E eu, pobre de mim, estou pior do que quando me formei da escola. Naquela época, eu pelo menos tinha um pai rico que pagava minhas contas e ainda podia acompanhar meus amigos em viagens ao exterior e visitas a restaurantes caros.

Vivo de dar aulinhas de inglês em cursos de subúrbio. Paga pouco, mas não ocupa minha cabeça, não estressa meus nervos e me deixa tempo livre pra escrever, flanar, pensar. Nunca fui tão feliz nem tão tranqüilo.

Estranhamente, isso não parece ser o suficiente para as pessoas que me amam. Amigos e parentes fazem questão de me dizer, quase diariamente, que não tenho o direito de desperdiçar minha vida assim, eu, uma pessoa brilhante, eu, um homem que poderia estar fazendo qualquer coisa, ser qualquer coisa, em qualquer lugar do mundo.

Sim, posso ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, em qualquer lugar - menos, aparentemente, o que estou fazendo agora: ser eu mesmo.

E falam: um menino que estudou nas melhores escolas e universidades desse país, como pode desperdiçar uma educação dessas dando aulinhas de inglês ao lado de adolescentes que acabaram de chegar do intercâmbio em Utah e querem complementar a mesada?

Realmente, tive uma educação exemplar. Estudei no Santo Agostinho, um dos melhores do Rio de Janeiro, e na Escola Americana, onde me tornei um homem realmente cosmopolita. Depois, cursei História, na UFRJ, estudando com os melhores cérebros do campo.

Minha meta de não desperdiçar minha vida é, em parte, porque essa excelente educação que recebi cumpriu o seu papel: longe de ser uma âncora (como parecem querer que seja) prendendo-me à padrões de comportamento pré-estabelecidos, ela me deu asas, abriu minha cabeça, me fez ver o mundo de outra forma.

Eu cresci como um menino rico. Não sei que pessoa eu seria se minha infância e adolescência tivessem sido diferentes. Vai ver se eu tivesse estudado com dificuldade em escola pública, engraxado sapatos à tarde e feito um curso técnico profissionalizante à noite eu não tivesse nunca tido tempo ou serenidade de perceber a absoluta insânia dessa luta pela sobrevivência.

A maioria das pessoas que conheço acorda cedo, trabalha o dia todo, dorme tarde. Vivem exaustas. Trabalham pra nada. Trabalham para trabalhar. Sucesso é isso?

Lamentam meus amigos: tive o mundo à minha disposição e, ao invés disso, fiz uma opção pela mediocridade.

Não entenderam nada. Tenho ojeriza à mediocridade. O problema é que, pra mim, não há mediocridade maior do que a noção deles de sucesso.

Dou minhas aulinhas de inglês, aproveito minha juventude, sou feliz, sou livre. No meu tempo livre, escrevo. Sou escritor, mas não faço disso minha razão de viver.

Minha razão de viver sou eu mesmo. Minha única obrigação é com minha própria felicidade.

O Mundo Ficou Pequeno Demais

O mundo, que era vasto e misterioso, converteu-se em uma aldeiazinha global furreca. E ninguém parece que reparou o efeito devastador que isso teve em nossos frágeis egos.

O ser humano sempre viveu em pequenas unidades populacionais, relativamente isolado do resto da humanidade. O conhecimento a respeito do resto do mundo era ínfimo e fragmentado. Viajava-se, mas pouco. As comunicações só podiam ser feitas em pessoa: escreviam-se cartas, mas era preciso que alguém viajasse, fisicamente, até o destinatário.

Só com o telégrafo o homem conseguiu, finalmente, projetar sua comunicação através do espaço. Meros 150 anos depois, meus gastos com comunicação (celular, telefone e internet) são maiores do que com comida e moradia juntos.

De repente, derruba-se um murinho em Berlim e o mundo todo assiste, ao vivo, de suas casas, da Mongólia ao Timbuctu. Copas do Mundo, eventos quase míticos acompanhados pelo rádio ou por jornais de países distantes, são agora vistos em tempo real. Estamos a um clique de distância de qualquer ponto do mundo.

E o problema é justamente esse. Quem diria. O mundo ficou pequeno demais.

Egos Sem Um Arranhão

Foi tudo muito rápido. Ainda ontem, morávamos em pequenas aldeias. Hoje, fomos impelidos para uma única aldeota global. Somos todos vizinhos. E quem é que agüenta 6 bilhões de vizinhos - e pior, 1 bilhão deles esquisitíssimos chineses!

Felizmente, foi por pouco tempo. Só o suficiente para encontrarmos nossas próprias tribos. Depois, nos segregamos de novo.

No começo, eram as vilas. Tanto no começo do homem quanto no começo do Homem. A escola, a rua, o condomínio, a vila eram microcosmos do mundo. Limitados e delimitados.

Todos tinham oportunidade de brilhar. Todo mundo sempre era o melhor em alguma coisa. Nossos egos, zerinhos, ainda cheiravam a carro novo, nem um amassadinho na lataria.

A competição podia até já ser feroz, mas o número de competidores era muito limitado. Ninguém era tão ruim que não tivesse pelo menos um talento especial, uma habilidade a ser trabalhada.

Quem não conseguia correr atrás de uma bola ainda poderia ser o melhor desenhista do condomínio. Aquele aluno com enormes dificuldades de aprendizado fazia, todo ano, um solo de piano maravilhoso no concerto de natal. A menina mais bonita da rua era péssima em redação. E daí?

Eu era o escritor da turma. Desde os dez anos, eu fazia histórias em quadrinhos, xerocava, coloria as capas a mão e vendia assinaturas para amigos, parentes e professores. Vocês estão zoando, mas no meu ápice, na 6ª série, eu tinha 16 assinantes. E isso em plena Era Mesozóica: não havia nem água encanada, quem dirá telefone e internet. Depois, fui o editor (e autor de 75% do conteúdo) do jornal do colégio. Só eram impressas 200 cópias para 1500 alunos e eu confesso que era um prazer perverso ver meus leitores mais afoitos brigando durante a distribuição pra não ficar sem o seu exemplar ou barganhando por exemplares mais tarde. Eu também escrevia contos e romances (péssimos, de doer), que impingia a todos que me cruzavam o caminho. E quando comecei a escrever para a Revista Mad, aos 18 anos... Bem, pra um adolescente, isso é quase como ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.

Nesse meio tempo, pais e professores, educadores e amigos, cumpriam seu papel. Estimulavam vocações. Alimentavam egos. Mesmo face aos erros mais atrozes, suspiravam e davam apoio irrestrito. Diziam coisas como: "Está muito bom para sua idade." Ou "Com trabalho duro você chega lá."

De certo modo, se iludiam também, coitados. Chegavam mesmo a acreditar que o artilheiro do time da escola seria, realmente, o próximo Pelé e que, um dia, poderiam dizer, todos bobos: "Sabe o fulano? O primeiro treinador dele fui eu." E bateriam no peito, orgulhosos desse dúbio privilégio.

Mais do que tudo, entoavam que Shakespeare também começara assim. Ou você pensa que os pais do Machado de Assis não faziam ele ler seus sonetos para as visitas? Vem, Joaquim Maria, vem ler Cantiga dos Esponsais pra sua madrinha!

Todos bem intencionados. Todos cumprindo o seu papel. Mas tudo tão perverso. Realmente, não há outro caminho. Realmente, só se começa assim. Infelizmente, nem todo solista da banda da escola sai em turnê mundial. Infelizmente, nem todo editor do jornal do colégio vira Guimarães Rosa.

E a ninguém, entre tantos experientes pedagogos, educadores e psicólogos, ocorria dizer ao jovem tenista que, se o backhand dele ainda estava daquele jeito aos quinze anos, então ele nunca seria um profissional, sinto muito, meu filho.

Ou então, que professor de português é capaz de ler as poesias de um aluno de doze e recomendar, enfaticamente, uma carreira nas ciências atuárias? Nem eu (que sou insano e impróprio para a vida em comunidade) consegui dizer a minha leitora que o livro dela era péssimo.

Ninguém quer correr o risco de desestimular o próximo Manuel Bandeira. E, realmente, nunca se sabe. Não dá pra bater o martelo e condenar o poeta medíocre dos 17 à mediocridade eterna.

Pior, tememos por nossos empregos. Eu já trabalhei em escola. Nada mais provável do que a mãe do aluno ir ao diretor pedir a cabeça do boca-grande. Ele teve a coragem de dizer que o meu Julinho, o MEU JULINHO, ela repete, aos berros, nunca teria condições de ser pianista profissional! Eu quero esse animal fora dessa escola já ou minha família nunca mais bota os pés aqui. E lá se vai mais um candidato com diploma superior para a fila da Comlurb.

Assim, vamos crescendo. Artistas, matemáticos, músicos, beldades. Olhamos para o mundo lá fora e sabemos (pelo menos, os mais observadores) que quase todos os adultos são frustrados, fodidos, medíocres e infelizes. Mas foram eles que fizeram tudo errado. Agora, é a nossa vez. Olhamos em volta e nos vemos cercados de gente destinada ao topo. Nos encontraremos, no futuro, em vernissages, posses presidenciais e camarins da Brahma, e revelaremos aos ávidos repórteres: vocês sabiam que estudamos todos na mesma escola? Sério! O escritor best-seller, a diretora premiada, o tenista número um, a super-model, o capitão de indústria, crescemos juntos!

Ninguém tem obrigação de destruir as ilusões dos outros. Nada é mais doloroso. Mutuamente doloroso. Só aqui vale o chavão: vai doer mais em mim quanto em você.

Por outro lado, pais e educadores só fazem piorar a queda inevitável.

Estamos lá, crianças curiosas e ativas, subindo em um frágil caixote para ver o que há no topo da vida. E o que fazem nossos audazes pedagogos? Eles nos oferecem mais um e mais outro caixote, todos bambos e tortos, e empilham um em cima do outro, e subimos ainda mais alto, cada vez mais alto, sobre uma base cada vez mais trêmula. Vai subindo aí, eles dizem, e viram o rosto, torcendo para estarem longe quando finalmente cairmos de cara no chão.

O Flautista Virou Contador

E então, um belo dia, chega a hora. Somos formalmente apresentados à realidade. Alexandre, mundo. Mundo, Alexandre. Virem-se.

O artilheiro do time passa vergonha na escolinha do Flamengo. A menina mais bonita não consegue nem fazer um book. O editor do jornal acumula cartas de rejeição.

Nossa auto-estima é destruída, detonada, arruinada. Todas aquelas esperanças, cuidadosamente semeadas, alimentadas e estimuladas ao longo de todos os anos da infância são aniquiladas em poucos anos. Na virada dos trinta, o flautista virou contador, a menina mais bonita teve trigêmeos e não passa mais pela porta de tão gorda e o matemático fez engenharia e foi trabalhar num banco.

Parece que estou fazendo o maior escândalo, mas todo esse processo é relativamente natural e normal. Você sabe que virou gente grande quando conclui, finalmente, que ser bombeiro não deve ser um emprego tão bom assim.

O que a revolução nas comunicações fez foi multiplicar nossos pares, decuplicar nossos competidores.

Jogando Ping-Pong com Chou Lao Zadong

Em um universo restrito, era fácil ter a melhor pronúncia no inglês, o melhor backhand, o melhor contralto. Subitamente, nossos pares não são mais aquelas poucas milhares de pessoas que vivem a nossa volta, mas toda a massa de 6 bilhões de seres humanos.

Subitamente, o fato de você jogar ping pong melhor do que qualquer pessoa que conheceu, o fato de ninguém em um raio de 300 km jamais ter ganho de você, isso já não quer dizer nada. Um dos seus primos frustrados, que tenta te derrotar há dez anos, liga a ESPN, passa a final do campeonato mundial, na China, e fala: "Você? Você não joga nada. Quem joga mesmo é Hu Li Chin. Olha só, duvido que você devolvesse esse saque."

E então, só porque o Pin Lao Dong existe, a dezenas de milhares de quilômetros de distância, uma pessoa praticamente abstrata, que pra todos os fins práticos não existe, mas existe, sim, lá na China, e está jogando ao vivo na televisão, e só porque ele existe, você já não pode mais se considerar bom em ping pong. Ponto. Todo o seu esforço, toda a sua habilidade, os dez anos de treino, não valem nada.

O mais perverso desse processo é que quem diz isso tudo pra você não é seu primo invejoso: é você mesmo. Afinal, provavelmente, você entende mais de ping pong do que seu primo. Você é ainda mais apto do que ele pra julgar, realmente, o quanto o Xu Ming Fu joga melhor que você, o quanto você, realmente, não duraria dois minutos na mesa contra ele, o quanto você, realmente, ao contrário de toda a evidência empírica coletada ao longo de uma vida, não joga nada de ping pong. Xongas.

Necas de pitibiribas.

O Einstein de Carvalhal do Sul

Em cidades pequenas, as coisas são melhores. O mundo também paira sobre elas com sua sombra asfixiadora, mas o mundo é uma presença bem menos avassaladora em Nova Friburgo do que no Rio de Janeiro.

Alguns atrás, muito antes do blog, quando eu era ainda mais desconhecido do que sou hoje, ganhei um prêmio literário em uma distante cidadezinha do interior. Mais por curiosidade do que por outra coisa, fui lá receber o prêmio. A experiência foi surreal: eu, que não sou literalmente ninguém, fui recepcionado como se fosse uma celebridade literária de primeira grandeza por uma comitiva de pessoas que também não eram literalmente ninguém, mas que se comportavam (e eram tratados pelo resto da cidade) como se fossem a própria Academia Brasileira de Letras.

Parece que estou fazendo pouco, mas não estou não. Naquele momento, pra todos os fins e efeitos, eu era, de fato, Machado de Assis visitando a França para receber um prêmio literário diretamente das anacrônicas mãos de Rabelais, Balzac e Proust.

Não importa a realidade. Naquela cidadezinha, rigorosamente incrustada no meio do nada, eles são sim a mais alta elite cultural, os literatos, os donos do saber, as estrelas dos jornais locais. E daí que mundialmente, nacionalmente, ou mesmo estadualmente, eles não são nada? E daí que nunca conseguiriam publicar uma crônica que fosse em um jornal de bairro de São Paulo?

Pelo menos, quem nasceu em Piraçununga do Oeste e teve a sorte de poder vir estudar na civilização também tem a opção de voltar pro mato depois da primeira surra. Você se torna o filho pródigo, o mais amado. Afinal, tem um diploma prestigiado da capital, é mais do que o Paulinho, filho do seu Zé Luis, conseguiu, que trabalha de ajudante no açougue e nunca completou o ensino médio. Mesmo não sabendo nada e não sendo ninguém, você funda a Academia Maristopolitense de Letras e se torna um notável das Belas Artes.

Afinal, não precisamos correr mais rápido que a onça, só mais rápido que uns aos outros.

A diminuição do mundo e a criação da aldeia global tiveram um impacto fulminante no ego coletivo da humanidade. Antes, cada cidadezinha tinha seu artilheiro. Hoje, Ronaldinho é o artilheiro de todas as cidadezinhas.

Curiosamente, a situação criada pela revolução das comunicações começa a ser revertida com a revolução digital.

O Mundo, Novamente Vasto e Misterioso

Felizmente, com o ciberespaço, a humanidade ganhou um novo mundo: sombrio e esfíngico, impossivelmente vasto, hermético e impenetrável. A nascente do Nilo já foi encontrada ("Dr. Bezos, eu presumo"), a fossa das Marianas já foi explorada, mas quem jamais visitará todos os sites? Ou mesmo a maioria deles?

Há pouco tempo, no auge da bolha da economia digital, a palavra de ordem era "comunidade". A internet serviria para formar comunidades - e a premissa era de que seria mais fácil vender marketing direcionado para esses grupos. O lado econômico realmente não deu muito certo ainda, pelo menos em grande escala, mas, de fato, comunidades foram formadas, comunidades hoje cada vez mais fortes e estabelecidas.

O ciberespaço nos remete a uma realidade há muito sumida: um universo tão grande, tão vasto, tão avassalador e assustador que, a exceção de alguns poucos viajantes profissionais, todos preferem mesmo se limitar às suas aldeias e levar suas vidas. Melhor não se aventurar no mar aberto, diz o senso-comum.

A maioria dos internautas visita pouquíssimos sites regularmente. Explorar a web não é uma atividade popular. Acessar e-mail sim. Fazer buscas localizadas. Participar de listas de discussão. Visitar os sites de assuntos do seu interesse. Em suma, freqüentar sua comunidade.

Na web, as pessoas ainda moram em vilas, como moravam há milênios, com apenas uma diferença: moram em vilas de sua escolha.

Namoro, Sado-Masoquismo e Coprofilia

Sites de namoro, por exemplo, estão perdendo seu estigma de "coisa de perdedor".

Martha King, 38 anos, usuária do JDate, site de encontros voltado especificamente para a comunidade judaica norte-americana, estava procurando por um homem (judeu, naturalmente) que soubesse o que queria da vida, ganhasse pelo menos tanto quanto ela e gostasse de dançar. Dentre os 20 resultados de sua primeira busca, encontrou seu futuro marido. Se, por um lado, o processo não foi tão romântico quanto ela sonhara, Martha King disse que aprendeu a preferir a realidade. "Não importa realmente como se conhece as pessoas." Disse ela.

Naturalmente, quanto mais específico for seu grupo de interesse, mais útil será a Internet. Isso se aplica especialmente a fetiches e taras sexuais.

Consideremos, por exemplo, a comunidade sado-masoquista. Pra começar, trata-se de pessoas com uma preferência sexual que, apesar de não ilegal, vai na contramão da moralidade cotidiana. Por isso mesmo, muitas vezes, sentem profunda culpa de seus próprios desejos, quase sempre tentam reprimi-los, quase sempre não conseguem e acabam sentindo-se piores ainda. Além disso, têm extrema dificuldade em encontrar parceiros adequados. Você começa a se interessar por uma moça e nunca sabe: "Será que ela vai surtar se eu disser que adoraria cobri-la de porrada?"

A internet permite que essas pessoas interajam umas com as outras através de uma enormidade de meios: sites especializados, serviços de encontros, listas de discussão, salas de bate-papo e blogs. Toda essa parafernália significa, na prática, que os praticantes dessas atividades têm hoje um potencial de felicidade que não teriam jamais há meros dez anos.

Por um lado, agora dispõem de um grupo de apoio que compartilha os seus desejos e taras, pra não falar das suas frustrações e culpas. Pessoas que antes não tinham com quem conversar sobre seus desejos mais intensos (e sinceros) hoje se encontram firmemente integrados e socializados em comunidades. Já não se sentem mais deslocados, párias, doentes mentais. Podem começar a se aceitar como realmente são.

Além disso, depois de um primeiro momento de apoio emocional e psicológico, a comunidade serve também para que os indivíduos encontrem parceiros cujas preferências sejam complementares às suas. Poucos casamentos podem ser mais perfeitos do que entre quem gosta de bater e quem gosta de apanhar.

A comunidade também serve para trocas de experiências, histórias, fotos, desenhos. Naturalmente, os membros vão se sobressaindo de acordo com seus talentos. Vai sempre haver aquele que faz os desenhos mais picantes, reproduzidos nos sites e blogs, ou aquele que escreve as melhores histórias, incansavelmente retransmitidas via email, e etc.

O sado-masoquismo é uma das taras sexuais mais difundidas e socialmente aceitas, mas o mesmo se aplica a todos os tipos de fetiches. Na verdade, quanto mais estranho e fora do comum a tara, mais reprimidos estarão seus praticantes, mais difícil será encontrar parceiros e mais vital será a influência da internet em suas vidas.

Estou falando aqui de coisas extremamente impalatáveis como, por exemplo, coprofilia. A comunidade virtual de coprófilos é particularmente ativa. Eles têm que ser, de que outro modo encontrariam pessoas que compartilham dos seus desejos?

Marinheiros de Água Cibernética

Naturalmente, não é preciso ir tão longe para encontrar exemplos de como a Internet permite a criação de redes de contatos, verdadeiras comunidades que fortalecem os laços de relacionamento entre as pessoas.

Consideremos, por exemplo, a comunidade naval. Existem diversos sites, listas, grupos e blogs sobre assuntos navais: navios, armamentos, estratégias. O mesmo grupo de pessoas cria e visita esses sites, faz parte das listas e grupos, posta e comenta nos blogs. Um verdadeiro microcosmo, onde há espaço para todos brilharem. Todo mundo pode ser expert em alguma coisa.

Um dos membros, por exemplo, é um velho marinheiro. Reformou-se cedo, foi pra iniciativa privada, mas nunca parou de amar a Marinha, de se informar, de ler revistas especializadas. Armamentos eram sua grande paixão. Dentro da comunidade, à medida que interagia com os outros membros, essa sua expertise foi ficando evidente. Logo tornou-se o expert por definição em armamentos. Sempre que alguém tinha uma dúvida a esse respeito, perguntava pra ele. Envaidecido pela atenção, ele respondia com mensagens longas, refletidas, ilustradas com gráficos e diagramas que ele garimpava com amor. Com o tempo, sua comunidade tornou-se mais popular, destinação obrigatória a todos os interessados em assuntos navais na internet. Sua fama tanto cresceu que acabou convidado a assinar uma coluna sobre armamentos em uma revista militar.

Em outras épocas, esse senhor seria apenas um marinheiro frustrado, trabalhando em um banco e suspirando ao ver o mar. Nem da ativa ele é e, quando era, não era nem oficial. Mas, na comunidade de internet, ele é um expert, conhecido e respeitado, aclamado e requisitado.

Válvula de Escape para o Talento

Outro fenômeno interessante é o das fan fics, ou seja, ficções de fãs, nas comunidades formadas em torno de temas ficcionais, como Harry Potter ou Jornada nas Estrelas. Indivíduos que tenham interesse suficientemente forte por um tema ficcional ao ponto de unir-se a organizações de fãs também vão tender a extravasar seus impulsos artísticos através desses temas. Inevitavelmente, os fãs começarão a escrever histórias sobre seus personagens favoritos, histórias essas que serão avidamente distribuídas, lidas e comentadas por outros fãs.

No longo hiato entre o quarto e quinto livro de Harry Potter, por exemplo, a ansiedade dos fãs só foi saciada a custa de muito fan fic. Essas histórias, algumas bastante boas, exploram todos os temas possíveis e imaginários do universo potteriano, falam do passado dos personagens principais, apresentam versões alternativas das histórias e mostram mais detalhes sobre personagens coadjuvantes.

Em outros tempos, estariam escrevendo essas historinhas apenas para si mesmos, com vergonha de mostrá-las aos seus conhecidos, que poderiam não entender sua devoção à série de Harry Potter. Hoje, os autores de fan fics têm tudo o que um escritor pode sonhar: um público cativo e motivado, que devora tudo o que lhe é dado pra ler e comenta efusivamente.

Com o tempo, quem sabe, talvez canalizem sua criatividade para outras áreas.

Renascimento da Palavra Escrita

É interessante que, justo no ápice do domínio da imagem, da TV, do cinema e dos satélites, justamente quando a morte da palavra escrita já havia sido decretada tantas vezes, eis que a palavra escrita, como meio de contato entre usuários de Internet, ressurge com força total, rompendo paradigmas e criando uma nova realidade.

Quase todos os meus alunos adolescente têm blogs, mesmo aqueles que, em sala, não querem escrever nem duas linhas.

Naturalmente, nenhum dos blogs é uma obra-prima. O português, quando não é sofrível, é inexistente: muitos escrevem nakele dialetu d gent q fala axxim.

Mas escrevem. Um parágrafo aqui, outro ali, um texto grande quando lhes acontece algo digno de nota, mas escrevem todos os dias.

Será que vocês se dão conta de como isso é extraordinário? Talvez não. Afinal, se estão lendo isso é porque são internautas razoavelmente experientes, já acostumados a manter sites, comentar em blogs, postar em listas de discussão, mandar emais - todas atividades que exigem uso intensivo da palavra escrita.

Escrever em 1992

Mas pegue na minha mão e vamos voltar no tempo. Só dez anos. Eu fiz o ensino médio entre 1989 e 1993, em uma escola de elite. Tirando eu e meia dúzia de colaboradores do jornalzinho, ninguém escrevia. Nada. Nunca. Nem os mais brilhantes e nem os mais medíocres.

Pensem bem. Além de trabalhos escolares, o que mais um adolescente de 1992 teria pra escrever? Bilhetes pra mãe, listas de compras, marcar nívers na agenda, quase nada. Necessidades fortuitas e esporádicas.

Escrever era algo totalmente alheio ao dia-a-dia mesmo do adolescente mais brilhante e articulado - quiçá dos outros.

Escrever Bem É Pensar Claro

Um dos meus alunos tinha acabado de fazer um post sobre o filme de animação Os Incríveis. Escreveu na lingua di kem fala axxim mas, quando você lia com cuidado, percebia que era uma opinião perceptiva e articulada, com começo, meio e fim e que levaria 10 em qualquer redação de colégio - se não estivesse escrita em outra língua.

Parece pouco, mas não é. Na minha época de ensino médio, nenhum dos meus colegas jamais parou para articular, por escrito, sua opinião sobre nenhum filme. Por que fariam isso? Pra onde mandariam?

Escrever bem não é questão de gramática ou ortografia, mas de pensar claro. Muitos dos meus alunos de inglês não conseguem escrever um composition decente sobre suas férias porque também não conseguiriam em português. Quem pensa claro e escreve bem pensará claro e escreverá bem em qualquer língua ou dialeto que escolha usar.

Escrever É Para Todos

Eu sou escritor até o último fio de cabelo. Criei o LLL porque escrever, pra mim, é trabalho e manter um blog, investimento e divulgação.

Até hoje ainda não entendi muito bem o que um não-escritor faz com um blog. Seria meio como eu abrir uma oficina mecânica para consertar carros por hobby, mas enfim.

E, por isso, me espanto mais ainda em ver alunos meus, que não têm nenhum amor pelas palavras, também mantendo blogs. Hoje em dia, escrever não é mais só para os jornalistas por vocação. Do seu jeito às vezes estranho, todos escrevem. Os futuros escritores, mas também os futuros físicos e os futuros engenheiros.

Escrever não é mais tabu. Escrever não é mais coisa de escola. Escrever não é mais difícil.

Escrever tornou-se um meio de encontrar os amigos, compartilhar novidades, farrear, zoar.

Não acho exagero afirmar que essa será a geração mais letrada dos últimos cinqüenta anos.

Os Blogs e a Nova Literatura

Se a internet permite que os ninguéns sejam alguéns, se a internet permite a criação de públicos-cativos, isso é ainda mais verdade em relação aos blogs.

Espécie de catarse pública, ou psicanálise com múltiplos psicanalistas, a maioria dos blogueiros cria seus blogs em momentos de crise. Estão desempregados, divorciados, deprimidos. Já não sabem mais quem são, ou quem querem ser. Precisam se reinventar. Mas a reinvenção só faz sentido com um interlocutor, ou com vários. E essa reinvenção se dá através da palavra. Como na boa teoria psicanalítica.

(Eu não fui exceção, mas essa história é pro futuro.)

Nas palavras de uma blogueira:
Não sei se o que eu faço é bom. Sei que umas cem pessoas, todos os dias, me perguntam o que aconteceu ontem, e elas estão realmente interessadas. Isso é algo que muita gente jamais experimenta.
Se criar um público-cativo pode ser fundamental pra a auto-estima das pessoas normais, para novos autores essa é uma questão de vida ou morte. Cada vez mais, a nova literatura brasileira acontece na Internet. São tantos blogueiros lançando livros e tantos escritores mantendo blogs que uma das escritoras da novíssima geração, Clarah Averbuck, pioneira na divulgação de contos via fanzines eletrônicos, blogueira de longa data com três livros já publicados, fez o seguinte desabafo:
"Só pra avisar, eu não respondo perguntas sobre blogs. Eu não dou entrevistas sobre blogs nem participo de trabalhos de faculdade sobre blogs. Eu simplesmente não agüento mais essa baboseira de blogs. Chega. Blog não passa de um meio de publicação. O autor do blog, dono e soberano do blog, faz o que bem entender com seu blog. Não existe literatura de blog. Não existe escritor de blog. Blogueiro não é escritor. Escritor não é blogueiro. Não existe escritor de blog. Existe blog enquanto meio de publicação para um escritor. Escritor é escritor. Escritor não é blogueiro. Não sei nada sobre o fenômeno blog. Sequer acho que seja um fenômeno. Nunca mais respondo nenhuma pergunta sobre blog. Por favor, não me incomodem com essas coisas. "
Realmente, apesar de muitos escritores estarem postando seus primeiros trabalhos em blogs, refinando seu estilo, divulgando seus escritos e construindo um grupo de leitores fiéis ou semi-fiéis, os blogs, em si, são só uma ferramenta. Em outros tempos, Clarah Averbuck, Daniel Galera, Daniel Pellizari, Alexandre Soares Silva e outros estariam mimeografando seus textos e distribuindo em bares e universidades. E não seriam, por causa disso, mimeografeiros, assim como não são blogueiros. São escritores. Bons ou ruins, são a vanguarda da nossa literatura.

Medo de Não Escrever

No processo de me libertar das minhas prisões, me livrei de incontáveis medos.

O maior deles era justamente o medo de não ser escritor, de não fazer sucesso como escritor e de morrer sem publicar nada que prestasse. Coisas como essas me paralisavam à noite, me causavam suores secos, me impediam de ser feliz. Hoje, são só palavras.

Antigamente, eu atrelava meu ego completamente à minha literatura. Minha razão de ser na terra era escrever. Eu não era o Alexandre, eu era um escritor ou, pior, um projeto de escritor.

Kerouac adorava perambular pelos Estados Unidos, entre os mendigos, os sem-teto, os andarilhos. Eram pessoas sem futuro, muitas vezes sem passado, que viviam apenas para o presente. Não esperavam nada da vida. Kerouac admirava isso, não conseguia ser assim: "eu sabia que seus esforços literários seriam um dia recompensados por proteção social", enquanto que os andarilhos viviam sem esperança alguma, a não ser aquela secreta esperança eterna só obtida dormindo majestosamente ao relento na estrada.

Quando me libertei dessa esperança, quando passei a sinceramente cagar se meus esforços literários seriam recompensados com proteção social ou não, pude experimentar um pouco da felicidade primordial, da liberdade profunda que Kerouac buscava.

Descobri que minha única obrigação era ser um homem feliz e realizado. Se eu fosse isso, tudo já estava resolvido. O resto era sintonia fina.

Na prática, se você quer alguma coisa (ser escritor, ganhar um milhão de dólares, conhecer Paris, comer a Gisele Bündchen, etc) é porque acha que isso vai te fazer feliz e realizado.
Mas me dei conta de que não precisava de nada, literalmente nada, pra me sentir feliz e realizado. Esse processo é puramente interno e 100% sob meu controle.

Então, ao invés de querer ser escritor de sucesso pra ser feliz e ser realizado, basta ser feliz e realizado. Se você, que já é feliz e realizado, escrever e for um escritor de sucesso, melhor ainda. Se não, se você for tão feliz, que nunca mais sentiu aquela necessidade compulsiva de escrever... Bem...

Porra!, você já é feliz e realizado, vai querer escrever pra quê? Deixa isso pra quem ainda está precisando se comunicar, lutando contra seus demônios, tentando se encontrar.

O melhor conselho que se pode dar a um jovem escritor é: se puder se abster de escrever, não escreva. Só dá dor de cabeça.

Os Uvas-Verdes

O mundo é cheio de pessoas que escolheram não ser bem-sucedidas. Vocês devem conhecer alguém assim.

Há o colega que tirou 5 na prova, mas tem certeza que teria tirado 10, se tivesse estudado - mas não quis. Há a dona-de-casa, com uma bela voz, que se tivesse seguido carreira hoje seria maior que a Maria Rita - mas preferiu criar 8 filhos no Grajaú. E por aí vai.

São os uvas-verdes, pessoas blasé que nunca mergulham de cabeça em nada, que nunca se esforçam 100% para alcançar nenhum objetivo.

Assim, deixam sempre aberta a possibilidade de dizer: é, não consegui, mas a verdade é que nem tentei. Se tivesse tentado, teria conseguido, mas preferi minha vidinha. Estou melhor assim.

Um uva-verde parece alguém que se libertou da Prisão Ambição, mas não é. Um uva-verde é só uma pessoa hipócrita.

Fracassos e Fracassos

Em meados do ano passado, meus leitores acompanharam em tempo real um dos grandes fracassos da minha vida: o fim do meu casamento. Pouco antes, eu havia saído de um outro fracasso: minha empresa.

Eu disse que me considerava um completo fracassado e vieram muitos leitores me consolar, me dizer que não era bem assim, que eu estava exagerando. Que talvez o problema fosse não o meu fracasso, mas meus objetivos:
"Se a febre está muito alta, troque o termômetro! Acho que não precisaria explicar, mas vá lá. Se pelos parâmetros atuais você sente que fracassou, reveja seus parâmetros."

Meus queridos leitores tentaram ajudar mas não me entenderam bem. Eu não me considero um fracasso porque não sou rico, porque não sou bonito, porque ainda não fui publicado, porque não vendi trolhões de livros, porque não tenho uma coluna no Globo, porque não ganho R$15.000 por mês, nada disso - apesar de serem todas coisas que eu gostaria muito.

Me considero um fracasso por ter fracassado em alcançar dois objetivos relativamente simples: manter minha empresa e manter meu casamento.

Reparem que não estou dizendo que meu casamento é um fracasso só porque acabou. Isso seria como dizer que D.Pedro I foi um fracasso só porque morreu. Todo mundo morre, todo casamento acaba.

Além de inúmeras razões pessoais que não vêm ao caso, considero meu casamento um fracasso pessoal pois percebi há tempos que ele fazia água, usei todas minhas forças para mantê-lo flutuando, e ele afundou ainda assim.

Como não sou uva-verde, não posso nem me consolar dizendo que teria conseguido se tivesse me esforçado mais.

Não. Eu dei 100%, me esforcei ao máximo, usei todos os truques. E, ainda assim, falhei. Por isso, estou me sentindo fracassado.

Meu "fracasso" em alcançar objetivos não-importantes (nunca fui campeão de surfe) ou até mesmo objetivos importantes, mas para os quais eu não me esforcei (ter coluna no Globo), é absolutamente irrelevante.

Dói é o fracasso em alcançar o objetivo pelo qual você lutou com todas as suas forças.

Como Não Ser Um Uva-Verde

A maioria das pessoas que conheço não gosta de dizer quando está tentando ou começando alguma coisa antes de saber o resultado. Só apresentam o novo namorado à família depois de algumas semanas. Só dizem que foram à uma entrevista de emprego se conseguirem o trabalho. Só revelam o experimento se os resultados comprovam sua teoria.

Para uns, o motivo é supersticioso: dá azar. Para outros, prático: é patético dizer pra todo mundo que você foi até São Paulo pra uma entrevista de emprego só pra depois ter que contar que não foi empregada.

Besteira. Eu estou me candidatando a um mestrado nos Estados Unidos e contei a todos vocês. E sabe o que vai acontecer se eu não for aceito? Eu vou contar a todos vocês. E daí? Tira pedaço, por um acaso?

Os fracassos têm que ser encarados de frente. Você tentou, fracassou, beleza. Lavou, está novo. Amanhã, a gente tenta de novo. Fingir que o fracasso não aconteceu não ajuda em nada.

Minhas tentativas não são segredo. Sim, eu quero muito esse raio desse mestrado. Sim, eu já investi quase mil suados reais nisso. Sim, eu já mudei a minha vida em função dessa possibilidade - desisti de morar com aquela amiga na zona sul, por exemplo, uma coisa que eu queria muito fazer. Sim, se o mestrado não rolar, eu vou ficar, mais uma vez, totalmente sem saber como será meu 2005.

Pronto. Falei. Quando e se não rolar, não poderei me refugiar entre os vinhedos dos uvas-verdes. Não poderei fazer um muxoxo e dizer: é, se tivesse rolado, teria sido ótimo, mas não rolou, tudo bem, estou bem aqui.

Porra nenhuma. Se essa merda não rolar, vou ter que repensar totalmente meus planos para esse ano. Fudeu.

O melhor modo de não ser um uva-verde é partir sempre para o tudo ou nada. Desistir ou dar tudo de si. Escolher bem suas batalhas e não mentir pra si mesmo.

Leia também A Vida Como Obra de Arte, sobre os meus fracassos.

O Gênio Incompreendido

O mundo também é cheio de gênios incompreendidos. Vocês devem conhecer alguns. Pessoas excessivamente ambiciosas, mas bem-sucedidas, ainda dá pra aturar. Pior são aquelas cuja própria ambição transforma-se em uma bola de ferro que arrastam pela vida.

Por definição, o gênio incompreendido tem mais de 35 anos. É fácil perceber porquê. Quando o cara tem menos de 30, ele ainda não se acha incompreendido: só gênio. Ele é gênio, sabe que é gênio, sua genialidade apenas não estourou porque ele é muito novo, ainda é cedo, o mundo vai ouvir falar muito dele.

O tempo passa, nada acontece, ele não estoura, o mundo não ouve falar dele. Então, ao invés de reconhecer que não é gênio coisa nenhuma, ele conclui que o mundo é que não o compreendeu, o mundo é que não o merece, ele está a frente de seu tempo!, e bate o chopp na mesa, respingando em todos à sua volta, em franco desafio às forças ocultas que tolheram seu sucesso.

Nasce um gênio incompreendido.

Na verdade, não acho nem que esse é um modo intrinsecamente errado de se encarar a situação. Sempre existe a possibilidade de ser mesmo um gênio que o mundo não percebeu - Bach, Kafka, etc. Acredito mais em felicidade do que em verdade: de que lhe adianta encarar uma verdade - sua total incompetência - que só vai lhe trazer tristeza? Melhor ser feliz na crença de sua genialidade não-compreendida.

Infelizmente, raros são os gênios incompreendidos felizes: quase todos chafurdam na amargura e na inveja com a mesma sofreguidão com que porcos chafurdam na lama.

Fracasso Energiza, Amargura Paraliza

O problema do gênio incompreendido não é ele se achar gênio. O mundo seria um lugar melhor se todos nos achássemos gênios.

O problema do gênio incompreendido é que ele cria expectativas pouco realistas sobre seu futuro. Ele passa a vida esperando um reconhecimento que pode nunca chegar.

Quem não conhece pessoas brilhantes e talentosas, na faixa dos 40, 50 anos, mas absolutamente amarguradas, rancorosas e infelizes?

E elas olham profundamente em meus olhos e dizem, certamente com a melhor das intenções: eu era muito parecido com você quanto tinha a sua idade, Alexandre - e meu sangue gela.

Tinham, ou acreditavam ter, um grande talento e esperavam, em troca disso, que o mundo lhes daria dinheiro, fama, notinhas na imprensa, convite para ao camarote da Brahma, não ter que fazer reserva no Fasano, essas coisas. Mas, por algum motivo, isso nunca aconteceu.

Ou seja, fracassam, como eu fracassei nas minhas duas grandes batalhas. Até aí, tudo bem.

O fracasso não é necessariamente paralisante. O fracasso muitas vezes energiza o fracassado para tentar de novo. O fracassado só é um fracassado até que obtenha sucesso. O importante é compreender as razões do fracasso e tentar de novo. E de novo. E de novo.

O grande problema do gênio incompreendido não é fracassar.

Como ele nunca fracassa por culpa sua, ele não tem motivos para mudar, para se melhorar, para fazer autocritica. Ele não falhou consigo mesmo, o mundo é que falhou em lhe dar o reconhecimento que ele merecia. O público - idiota - é que não entendeu seu filme genial. O editor - analfabeto! - é que não viu o potencial do livro. Quem já não ouviu xurumes assim, entre o quarto e o quinto chope, em um bar de Ipanema?

Pior que fracassado (uma falha de caráter perdoável), o gênio incompreendido é um amargurado (ou seja, um chato).

O erro foi do mundo, não dele. E como o mundo é um adversário grande demais, o tipo de amargura do gênio fracassado leva à imobilidade e ao rancor. Para que lutar, se o mundo está contra mim? Para que produzir, se o mundo é incapaz de entender minha mensagem? Melhor ficar pelos bares, bebendo cerveja e destilando veneno contra o establishment cultural.

A princípio, alguns são até fascinantes. Há meninas que se especializam em ser groupies de gênios amargurados. Estão sempre a volta deles, ouvindo como seu single de 1981 foi boicotado pelas gravadoras, balançando suas cabecinhas enquanto ele explica que, se não fosse por isso, hoje seria maior que o Djavan.

É tudo ilusão, minha filha. Não caia nessa. Oprimido e obcecado por suas idéias fixas, o gênio incompreendido pode até dar uma boa transa rápida (a maioria deve ser broxa, já vou avisando), mas é péssima companhia.

Como Não Ser um Gênio Incompreendido

Eu não espero nada, nada do mundo.

Não acho que ninguém tenha que me dar uma chance. Não acho que o mundo me deva coisa alguma. Não acho que os leitores tenham que me entender. Não acho que a sociedade tenha que me aceitar. Não acho que os editores estão errados em não investir em autores desconhecidos que raramente recuperam o investimento. Não tenho amargura nem rancor. Não vivo fechado em um mundinho só meu. Não acho que exista qualquer tipo de conspiração contra mim.

Mais importante, não me acho gênio (só me faltava essa!) e não me acho incompreendido.

Pelo contrário, esse blog me prova, todos os dias, que tenho um respeitável círculo de leitores, cujas vidas consigo influenciar positivamente.

Tirando alguns obtusos esporádicos, sou muito bem compreendido, sim, senhor.

Ambição e Internet

Se consegui superar a Prisão Ambição, se perdi esse medo de não ter sucesso, se consegui ser mais Alexandre-Alexandre e menos Alexandre-escritor, a Internet talvez seja a grande responsável.

Mantenho esse blog há dois anos, nos quais ele já teve mais de meio milhão de visitantes. Esse número mais que dobra se somado aos visitantes do Guia de Blog e do site pessoal. Meu romance e meu livro de contos foram baixados mais de 15 mil vezes. Todo dia, o LLL recebe centenas de comentários e emails.

Além de serem as cobaias dos meus experimentos literários, meu leitores me dão feedback, alimentam meu ego, perguntam quando não sou claro, me colocam na linha quando é necessário, e ainda me dão presentes.

Eu, hoje, já não tenho mais aquela ânsia para publicar, como se o ato de publicar um livro por uma editora, qualquer livro, por qualquer editora, mesmo a mais furreca, fosse um ato mágico, fosse a espada no ombro que me concederia o status de escritor. Sir Alexandre, escritor.

Não preciso disso. Já sou escritor. Por mérito próprio. Quem diz isso não sou eu, são as milhares de pessoas que me lêem todos os dias.

Se não fosse por isso, imagino que estaria tão desesperado para publicar quanto qualquer autor novato de antigamente: ansioso para mostrar ao público os escritos nos quais tanto me empenhei, para conferir qual será o impacto da crítica, talvez até (risos) obter algum retorno financeiro.

Mas, quer saber? O público já viu, já me disse o que achou e já tenho até retorno financeiro.

Nada disso quer dizer que não quero publicar. O papel continua sendo o destino final de qualquer literatura digna desse nome. Mas já não preciso correr. Posso planejar minha carreira com mais calma. Posso esperar pelo editor certo.

* * *

A Internet tornou novamente grande e vasto um mundo que havia encolhido. As pessoas, antes habitantes de metrópoles, agora moram em pequenas vilas.

A única e grande diferença, a diferença que faz toda a diferença: moram nas vilas de sua escolha.
 


Postada no blog entre Janeiro 21 e 31, 2005

As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 

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