Não entendo o mundo, não entendo os paradigmas, não entendo as convenções, não entendo o senso-comum.
Entendo tão pouco o mundo que é incrível eu conseguir funcionar em sociedade como um ser humano normal, dar bom-dia às pessoas na rua sem ofender tabus, sair de casa sem cometer atentado ao pudor.
A medida em que avanço nesse meu caminho em direção à liberdade, talvez eu acabe mesmo perdendo contato com a massa da humanidade, talvez eu me torne clinicamente, culturalmente louco. Como me aconselhou um leitor desse blog, tenho cuidado pra não enlouquecer cedo demais.
Um dia, vou perder o chão, meu pé não vai mais tocar o fundo. Tenho opiniões tão diferentes que esqueço como é o mundo, esqueço como funciona a cabeça dos humanos.
Algumas pessoas acham que faço o que faço, que digo o que digo pra chocar. Coitadas. A minha situação é muito mais dramática.
Pior do que fazer pra chocar é fazer e não se dar conta que vai chocar, fazer e não ter idéia de qual será o impacto. Me distanciei tanto do senso comum que já tenho dificuldade de antecipá-lo.
Não sei se entendem o que quero dizer. Deixa eu dar um exemplo concreto.
Traje Passeio Completo
Outro dia, tive um casamento, traje passeio completo.
Naturalmente, não há a menor possibilidade de eu ser pego dentro de um traje passeio completo.
Fui de calça social, camisa social pra fora da calça, sem gravata, e com um blazer por cima. Gostei de como ficou: despojado, levemente excêntrico e contestador, ma non troppo. Bem o meu estilo.
Por outro lado, se eu tivesse ido de short, camiseta e havaianas, isso seria sido totalmente inaceitável.
A linha entre o aceitável e o inaceitável fica entre esses dois extremos.
O máximo da conformidade, e falo isso sem conotação positiva ou negativa, é simplesmente obedecer às instruções e ir de traje passeio completo.
Ir de camisa social pra fora da calça e sem gravata sai um pouco do padrão, mas não tanto.
Já ir de short, camiseta e havaianas, por exemplo, seria inaceitável, não me deixariam entrar, talvez não me convidassem para o próximo casamento e minha mulher, com certeza, fingiria não me conhecer.
Em um caso concreto como esse, os limites são razoavelmente fáceis de ver. Estão, inclusive, escritos.
Mas a vida é muito mais sutil.
Quem Vê Não Consegue Desver
A Ana Cinderela, pra quem não estava aqui na época, foi das leitoras que mais bobagens falou nesse blog. Poucas pessoas, talvez nenhuma, me leram tanto e entenderam tão pouco. Em homenagem a ela, escrevi Os Amigos, Os Inimigos e os Surdos, no qual ela faz parte do último grupo.
Uma a uma, fui comentando algumas das piores besteiras que ela cometeu. Faltava só mais essa. A não ser que ela ressurja das trevas, essa deve ser a última vez que a cito.
Eis aqui o que ela disse, comentando o meu Manifesto Libertário:
“Vc perdeu tanto a noção de realidade q nem mais percebe o quanto são ridículas (desculpe) suas palavras, quanto de ego inflado vc deixa passar no que escreve, o quanto vc demonstra se achar acima de todos.”
O pior é que nem a Ana consegue errar todas. Do insulto veio a reflexão, da reflexão, esse artigo.
Ela está certa. Já estou tendo dificuldades de ver esses mesmos limites em outras situações mais delicadas e subjetivas.
Muitas vezes, já não sei mais se determinada atitude vai ser socialmente aceitável ou não, se as pessoas vão balançar a cabeça e dizer: "Ah, esse Alexandre!", ou se vão se levantar e ir embora, ofendidíssimas.
A capacidade de antecipar a reação das pessoas é um conhecimento que estou sentindo se esvair por entre meus neurônios. Já não consigo mais saber o que ofende ou choca meus compatriotas e contemporâneos.
Henry Miller tinha um ódio brutal ao mundo como ele é. A fonte de onde jorravam seus escritos era sua raiva, seu vigor, sua indignação. Ele tinha orgulho de não conseguir manter um emprego, de não conseguir se sustentar, de não conseguir funcionar em sociedade, de não se adequar às regras de um mundo todo errado.
Eu não sou assim. Pelo menos, ainda não. Não tenho ódio no coração. Por ninguém e nem pelo mundo. O mundo não é perfeito, as pessoas ainda andam acorrentadas aos seus inúmeros preconceitos, mas pelo menos há bastante liberdade de opinião e comportamento, quem quer viver de forma alternativa não é mais queimado na fogueira, as coisas estão melhorando.
Talvez não tenha jeito. Eu não quero abandonar a sociedade e me enfiar numa cabana deserta no meio do nada, como fizeram alguns dos homens que mais admiro, Henry Miller, Thorstein Veblen, Walt Whitman, Henry Thoreau. Agora entendo que talvez não fizeram isso porque queriam, mas porque não havia outro jeito.
Em termos mundanos, o insucesso deles foi tremendo. Nunca conseguiram manter um emprego decente. Os dois primeiros tiveram vários casamentos fracassados, não resistiam a um rabo de saia. Os dois últimos nunca casaram ou tiveram relacionamentos duradouros. Enxergavam o mundo com uma lucidez insuportável, mas não conseguiam se sustentar minimamente. O que mais poderiam fazer em sociedade? O que a companhia dos outros homens lhes acrescentaria? Foram se isolar no meio do mato e lá morreram.
Ou talvez tenham se isolado porque já estavam isolados, porque estavam tão distantes de seus compatriotas e contemporâneos que já não eram mais mutuamente compreensíveis. Não conseguiam entender o que as pessoas a sua volta queriam, esperavam, desejavam. A comunicação se rompera.
Será esse meu destino? Será que a verdadeira liberdade só pode existir na solidão?
Minha jornada em direção ao auto-conhecimento, à liberdade, à realização do meu potencial me leva cada vez mais longe das outras pessoas. Não porque sou melhor, ou mais inteligente, mas simplesmente porque sou menos preso às amarras mentais e culturais que ainda as prendem.
E esse processo é irreversível: pode ser desacelarado, desviado, até parado, mas não acredito que eu possa ser desfeito. Eu não poderia voltar atrás ao homem que eu fui. E a cada passo nessa direção, eu me afasto mais e mais de amigos, colegas de trabalho, parentes, quase todos.
Quem vê não consegue desver.
Fico pensando que talvez esse seja meu destino inevitável. Estou caminhando nessa estrada há poucos anos e só agora sinto os primeiros sintomas.
Você começa não ligando para o que as outras pessoas pensam ou esperam de você. Isso já é quase impossível para a maioria dos humanos, mas sempre foi relativamente fácil pra mim.
Quem se preocupa com o que o vizinho vai pensar, constantemente tem que refletir sobre o que o vizinho acha, o que ele pensa, o que ele quer. Quem já está cagando para o vizinho, como eu, não pensa mais no vizinho.
Quando tento pensar no vizinho, não consigo mais. Será que o vizinho iria achar isso ruim? Eu não tenho mais como saber. A ponte entre a minha mente e a do vizinho tanto se esticou que se rompeu.
Talvez seja a hora de eu aprender alguma disciplina técnica. Tudo o que eu sei fazer envolve se relacionar com pessoas. Consultoria, vendas, administração, educação.
Se em cinco anos eu perder a capacidade de me comunicar com as pessoas, eu vou passar fome.
Até lá, melhor aprender programação, análise de sistemas, tradução e revisão, esses trabalhos solitários feitos por gente suja, cabeluda e anti-social.
Não me incomodo de ser um eremita, mas gostaria muito de comer regularmente.
Saindo do Armário
Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis. Individualmente, alguns prestam.
A melhor maneira de desentocá-los? Se mostrar.
Uma de minhas melhores amigas disse me admirar por minha abertura. Que a coisa mais digna de nota na minha personalidade era essa capacidade de me abrir para as pessoas e para o mundo, não ter medo de me mostrar. Eu ri. Aquilo era como me elogiar por ter dois braços, algo inerente a mim e totalmente fora do meu controle. Ao que ela respondeu, sempre muito lógica, que ela admirava não as minhas qualidades que me custavam ou não esforço, mas as minhas qualidades que ela jamais conseguiria ter.
Eu me mostro porque preciso. Eu me mostro porque é assim que eu sou. Mais do que tudo, eu me mostro porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está a minha volta. Escancarando de vez.
Quando eu era adolescente, meu grande sonho era ser homossexual só pra poder sair do armário. Imagina, que delícia, soltar a franga em um daqueles natais com trocentos familiares. É isso mesmo, vovó Leotildes, eu gosto de chupar pau. É, titia Cleonice, eu sou que nem a senhora, gosto de uma jeba entrando em mim. Infelizmente, eu não só era irremediavelmente heterossexual como ainda tinha uma família mínima: o showzinho, se houvesse, teria que se restringir ao meu pai, minha mãe e minha irmã.
Os homossexuais que saem do armário merecem nossa inveja e admiração: eles passam por um momento de revelação quase religioso em sua intensidade. Ao mesmo tempo, ponto de ruptura e ponto de teste. Nessa hora, com um único gesto, você conhecerá todos seus amigos e parentes.
Algumas pessoas têm medo de se mostrar. O que minha mãe vai pensar? Será que a tia Maricota vai achar ruim? E se eu perder amigos?
Mas, caramba, o objetivo é justamente esse!
A melhor coisa de se mostrar é se livrar daquelas pessoas que nunca foram realmente suas, aquelas pessoas que amam mais seus próprios preconceitos do que você, aquelas pessoas que, por força das convenções vigentes, simplesmente não vão mais conseguir te amar e te aceitar. Deixe elas seguirem viagem. Quem se importa com elas?
Eu tento me concentrar em quem vale a pena.
Em um primeiro grupo estão aquelas pessoas que me amavam e continuam me amando, que me aceitam e sempre aceitaram.
Ainda mais valiosas são as pessoas que me amam apesar dos seus preconceitos, que me aceitam apesar de eu ir contra tudo o que acreditam. Essas diferenças de opinião não importam para esses meus heróis. Nosso amor transborda e cobre os preconceitos, inunda as normas vigentes, afoga as convenções, varre do mapa as mesquinharias.
Por fim, meu grande prazer é descobrir iguais onde menos espero. Pessoas que eu nem conhecia, com as quais eu nem falava, por quem eu não dava nada de repente se revelam, apertam minha mão e me oferecem seu apoio irrestrito. E eu penso: mas como?, você também é assim?, você também gosta disso?, e a gente se conhece há tanto tempo, não é?, quem diria!
As primeiras pessoas já eram e continuam sendo os pilares de sustentação da minha vida e da minha sanidade.
As segundas me ensinam todo dia lições profundas de maturidade e amor. Porque, no fim das contas, se existe maturidade e se existe amor, pouco importa quem é comunista ou capitalista, monogâmico ou poligâmico, ateu ou crente.
As terceiras enriquecem a minha vida e compensam todas as que foram embora. Por serem semelhantes a mim, são o espelho onde me vejo, a experiência em que me baseio, o padrão no qual me meço.
É ao me revelar que descubro que vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede?
É ao me mostrar que descubro quem vai me dar as mãos nessa viagem e quem vai estancar na encruzilhada.
Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas.
Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
Não me incomodo de ser um eremita, mas gostaria muito de comer regularmente.
Pós-Escrito: As Vantagens da Internet
Nunca quis ser blogueiro. Trabalho com Internet, todo mundo que conheço já tinha blogs e flogs há anos, e eu lá resistindo bravamente.
Decidi criar esse blog apenas como campo de testes para os meus artigos sobre liberdade, a ser posteriormente publicados em livro. O tema era polêmico e eu estava curioso pra saber como ele seria recebido. Coitados daqueles autores de outrora que escreviam livros inteiros totalmente no escuro.
A experiência desse blog tem sido fascinante. Aprendi muita coisa. Conheci pessoas sensacionais. Peguei até algumas leitoras. Não podia ser melhor.
A Prisão Conformismo ilustra perfeitamente a maior vantagem de publicar na Internet.
Esse ensaio já estava parcialmente escrito faz uns cinco, seis meses. Ele é uma colcha de retalhos de trechos de emails, respostas a comentários e escrevinhações em cadernos avulsos. Não dava nada por ele. Um amontoado de truísmos, o óbvio mais que ululante, sem nenhum insight redentor. Fraquíssimo. Estava criando poeira cibernética no meu HD esse tempo todo.
Acabei publicando pelo mesmo motivo que qualquer escritor remexe suas gavetas: preguiça de escrever algo novo. Quando urge a falta de tempo, aquele texto fraco de seis meses atrás fica parecendo uma obra-prima.
Incrivelmente, a reação foi muito positiva. Dá pra ver pelos comentários e, mais ainda, pelos emails, que foi daqueles poucos artigos que bateram fundo em uma grande quantidade de leitores, palavras fortes que, às vezes, mudam nossas vidas.
Quem diria!
Na verdade, isso tudo só prova a tese central do ensaio: eu perdi mesmo a capacidade de prever a reação dos outros. Não sei mais quando vão gostar e quando não vão. Já não consigo antecipar se o artigo que acho ótimo não passa de uma besteirada sentimental ou se aquele amontoado de obviedades não são, na verdade, palavras que mudam a vida de alguém.
Ainda bem que tenho vocês, amigos leitores. No mínimo no mínimo, o feedback de vocês faz com que eu me sinta menos cego nessa minha vida tão precária.
Postada no blog entre Novembro 18 e 24, 2003
As Outras Prisões
Introdução às Prisões
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