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  Alex Castro
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As Prisões: As Expectativas dos Outros

 

As Obrigações do Thiago

O leitor Thiago Frazão levantou questões interessantes sobre as prisões, sobre os limites da nossa liberdade individual e sobre as obrigações que temos em relação às outras pessoas.

Vale a pena ler com cuidado. Respondo mais embaixo.
"Gostaria de comentar esse seu "chutar o balde" de uma ótica talvez muito influenciada pelo meu meio mas, de fato, a minha ótica atual.

Tenho 20 anos e faço duas faculdades ao mesmo tempo: Direito e Economia. Por diversas vezes penso em como seria largar tudo e viver de uma maneira diferente, sem preocupações como trabalho, horas, reuniões, ternos e telefonemas. Mas tem certas coisas que me incomodam e me fazem pensar duas vezes:

1. Meus pais - foram eles que me deram, por toda a minha vida, condições de estudar em bons colégios, ter boas refeições e uma boa qualidade de vida. Não deve existir ao menos um sentimento de gratidão? Até mesmo da espécie "se você me linka, eu devo te linkar"? Algo como um "se eles me pagaram tantas coisas por 20 anos, não devo ao menos atender certas expectativas deles e retribuir de alguma forma"? Afinal, eles poderiam ter usado esse dinheiro para outras coisas...

2. Minha própria felicidade - nesse caso, usarei você como exemplo. Você gosta de ler e de não ter "prisões". Ser livre.

Mas você tem que concordar que existe um preço por isso. Você poderia estar lendo muito mais livros e desfrutando de mais coisas que te dão prazer caso se dedicasse a um trabalho qualquer que te pagasse por essa "dedicação".

Talvez a solução não esteja nem nos workaholics nem nos LLLs ao extremo, mas na devida dosagem de interesses. Se por um lado você quer desfrutar das coisas que gosta, por outro, essas coisas tem um preço. E para pagar esses preços, você deve dar algo em troca."

Será a Gratidão uma Prisão?

Não entendi, Thiago. Como assim gratidão? Você se acha na obrigação de enterrar sua vida em gratidão aos seus pais? Será que eles não querem justamente o oposto, que você seja feliz?

Meus pais realmente gastaram uma grana absurda na minha educação. Ainda mais se você incluir as viagens à Europa - meu pai, com certeza, incluía, e me disse isso várias vezes. A mensalidade da minha escola custa, hoje, mais de R$ 2.000.

Se eu tenho a meta de não desperdiçar minha vida é, em parte, em gratidão não a esse dinheiro (que, confie em mim, teria sido torrado de outra maneira mais estúpida) mas ao amor e confiança que dedicaram a mim.

Não sei como eu seria se minha vida tivesse sido diferente. Vai ver se eu tivesse estudado com dificuldade em escola pública, engraxado sapatos à tarde e feito um curso técnico profissionalizante à noite eu não tivesse nunca tido tempo ou serenidade de perceber a absoluta insânia de tudo isso.

A maioria das pessoas que conheço acorda cedo, trabalha o dia todo, dorme tarde. Vivem exaustas. Trabalham pra nada. Trabalham para trabalhar. Será que seus pais estão orgulhosos?

Eu acho que minha única obrigação é comigo mesmo, com a minha própria felicidade. Não é fácil. Somos seres humanos complexos e contraditórios. Imagina se eu fosse me sentir obrigado também pelas expectativas dos outros. Seria um paradoxo sem fim.

Parta do princípio que seus pais também querem que você seja feliz. Pode até haver alguma divergência de opinião, caso você ache que será feliz tocando piano e eles, fazendo concurso pro Banco do Brasil, mas, nessas horas, quando dá empate, o voto de Minerva é seu: faça como achar melhor e confie que, se eles te amam te verdade, vão entender. Mais lá na frente, reconhecerão que a sua felicidade estava no piano, não no Banco do Brasil, e vão te amar mais ainda por isso.

E, claro, se eles não aceitarem as suas escolhas individuais, então, sinceramente, são um par de boçais que não te respeitam, o que, em minha opinião, te desobriga automaticamente da obrigação de mudar sua vida para agradá-los.

O Preço da Liberdade

É claro que você pagará o preço.

Eu dou 12 aulas por semana no curso de inglês aqui do bairro, a R$13 a aula. Você pode ficar certo que esse valor baliza todos os meus gastos. Quando penso em comprar uma pizza grande de pepperoni da Domino's, eu penso: putz, tenho que dar duas horas de aula pra ganhar essa pizza! E acabo não comprando.

Meu pai fica enlouquecido. Ninguém pode ser feliz sem ter dinheiro pra comprar uma roupa, pra ir num restaurante, pra ter TV a cabo!, ele diz. Mas dá sim. Eu até gostaria de ter essas coisas, mas teria que trabalhar mais para poder adquiri-las. Esse sacrifício não estou disposto a fazer, tenho outras prioridades.

Acho que você deve pensar a questão ao contrário: qual o preço que VOCÊ paga por fazer duas faculdades, por exemplo, ou, amanhã, por trabalhar em um escritório 10, 12 horas por dia?

Quanto tempo lhe sobra pra ser você? Que horas você toca seus projetos pessoais? Será que você tem projetos pessoais? Ou será que sua vida é trabalhar e trabalhar, ralando pra ganhar dinheiro o suficiente para comer e, amanhã, ter forças para trabalhar mais um pouco?

A grande pergunta é: será que o salário que você recebe compensa tamanha abdicação do seu eu-próprio?

A Falta de Um Projeto Pessoal

O grande problema da maioria dos escravos que conheço é a falta do que fazer, a falta de um projeto pessoal.

Se, subitamente, tivessem sua jornada de trabalho cortada pela metade e ganhassem mais quatro horas livres por dia, simplesmente não saberiam o que fazer com elas. Provavelmente, iriam desperdiçá-las em frente à televisão. Nesse caso, realmente, melhor arranjar um outro trabalho meio-período e ganhar dinheiro.

Eu não sei vocês, mas EU tenho projetos. Livros a ler. Romances a escrever. Mulheres a comer. Coisas assim.

Quando pego uma consultoria e tenho que trabalhar que nem um ser humano normal por algumas semanas, eu sinto que a minha vida sofre. Que cada momento que passo com o cliente interpretando o bem-comportado Alexandre-consultor é menos um momento que sou o Alexandre-real, um momento que nunca mais vai voltar. Menos duas páginas que eu teria escrito no romance que estou desenvolvendo, menos um livro que eu teria lido.

Meu único consolo é que esses trabalhos acabam rápido e são eles que bancam os meus momentos de lazer, ócio e criação entre um cliente e outro. Se não fosse isso, não suportaria. Não sei como as pessoas suportam. Basta uma semana indo ao mesmo lugar, na mesma hora, pra ver as mesmas pessoas, e eu já começo a pirar.

Meus projetos são literários, porque sou metido a artista, mas projeto pode ser qualquer coisa. Aprender uma língua. Melhorar seu backhand. Derrotar seu primo no ping-pong.

Um projeto é algo seu. É algo que você faça por prazer. Por você.

E, realmente, se você não tem isso, vai precisar de mais tempo livre pra quê? Pra dormir mais?

As Expectativas dos Meus Leitores

Muita gente me escreve. Pedem ajuda, recomendações literárias, xingam, querem conversar, algumas querem até dar. E a triste verdade é que não dá pra responder todos.

Ou melhor, até dá, mas então eu teria que usar pra isso uma parcela grande desse tempo que me custou tão caro. De um modo economicamente bem concreto, eu pago pelo meu tempo livre com a minha pobreza. E, se eu não puder utilizar esse tempo para meus projetos pessoais, então vou utilizá-lo trabalhando. Responder emails não é uma prioridade.

Apesar disso, eu tento. Faço o melhor que posso. Algumas vezes, só piora.

Alguns leitores criam relacionamentos complexos comigo em suas cabeças. Eu me mostro muito em meus textos e eles sentem como se já nos conhecêssemos, me escrevem como se fôssemos amigos íntimos. Essa falsa intimidade não me incomoda. Sou carioca, estou acostumado. O problema é outro.

A maioria dos leitores compreende que "nossa" relação é de mão única. Elas até me conhecem bem, mas eu nem sei quem são.
Henry David Thoreau
Infelizmente, a diferença entre seus amigos e as outras pessoas é que você cria expectativas em relação aos seus amigos. Você espera deles um certo padrão de comportamento que não cobra das outras pessoas. E quando eles não atingem seu nível de exigência, você fica magoado, às vezes até revoltado.

Acontece sempre: alguém me manda um email enorme, contando como eu influenciei sua vida, como minhas prisões abriram seus olhos, etc etc. (Eu adoro esses emails, não me entendam mal, são eles que fazem esse sacerdócio aqui valer a pena.) Eu respondo como posso, às vezes demoro algumas semanas. De bate pronto, volta um outro email gigantesco. Antes que eu possa mesmo respirar fundo para pensar em responder, começam as cobranças: como é que você me deixa sem resposta, quem você pensa que é, quem diria que você era tão grosso/esnobe/metido/etc, pensei que éramos amigos, mas você é feio/bobo/etc.

Eu tenho ganas de perguntar: colega, eu te conheço? Eu te prometi alguma coisa?

 Desobediência Civil - HENRY DAVID THOREAU Thoreau e As Expectativas dos Seus Leitores

Thoreau, um dos homens que mais admiro, era extremamente solitário e recluso. Com o relativo sucesso de alguns de seus livros, ele começou a formar um pequeno círculo de fãs, que lhe escreviam regularmente. Ele também teve problemas com leitores chatos.

Nas palavras de Carl Bode:

"He [Ricketson] continued to write Thoreau and he filled his letters with invitations and reproaches. Ricketson's hurt feelings showed themselves increasingly. He complained about Thoreau's neglect. Why didn't Thoreau write? Or visit New Bedford again? Thoreau, he mourned, must be cold and anti-social, indifferent to his obligations toward fellow men.

Finally, after Ricketson had besieged him with prose -- and verse -- for a year and a half, the Concord man replied. He turned on Ricketson with a hard explicitness. The disciple deserved some sort of an answer and Thoreau gave it to him. In doing so he also provided us with one of the clearest statements we have about his fundamental view of life.

This then was the manifesto of November 4, 1860; this was the letter launched at Ricketson. It begins politely enough, with Thoreau's thanks for the laudatory verses Ricketson sent. But after that Thoreau breaks out:

"Why will you waste so many regards on me, and not know what to think of my silence? Infer from it what you might from the silence of a dense pine wood... My silence is just as inhuman as that, and no more. You know that I never promised to correspond with you, and so, when I do, I do more than I promised."

Such are his pursuits and habits, Thoreau continues, that he rarely goes abroad. He has enjoyed his visits with Ricketson and regrets that he cannot enjoy them more often. But after this concession he repels Ricketson again and says flatly:Walden ou a Vida nos Bosques e a Desobediência Civil, por Henry David Thoreau

"Life is short, and there are other things also to be done. I admit that you are more social than I am, and far more attentive to 'the common courtesies of life' but this is partly for the reason that you have fewer or less exacting private pursuits."

Thoreau
has his own private life to live, his own aims to pursue."

A moral da história é simples: se você tiver um projeto pessoal, se a sua vida estiver sob seu controle e se você souber pra onde está indo, dificilmente permitirá que as expectativas de outros (mesmo que justas!) lhe desviem da sua meta.

Epílogo

Está havendo um enorme mal-entendido nos comentários desse post. Eu acho que os leitores estão pensando que eu vivo de renda.

Disse a Ale (mas outros disseram parecido):
"Eu ainda não entendi bem onde é que projetos pessoais e trabalhar pra ganhar a vida se tornam excludentes. "
Eu também não entendi. Onde foi que você leu um absurdo desses?

Só pra deixar claro: eu NÃO vivo de renda. NINGUÉM me sustenta. Eu TRABALHO pra ganhar a vida. O dinheiro que me pagou viagens à europa acabou-se faz tempo.

Eu dou aulas em cursinhos, dou aulas particulares, mantenho sites, faço traduções, faço revisões, presto consultoria, escrevo artigos e, pior, como não tenho carteira assinada nem salário garantido por nenhum dessses lugares, eu estou SEMPRE correndo atrás, sempre de olhos abertos para tentar conseguir mais um aluno, mais uma tradução, etc. Janeiro agora será o mês da fome, por exemplo, pois todos os alunos somem.

Ninguém disse que trabalho é ruim, ou que trabalho e ter um projeto de vida são incompatíveis. Naturalmente, a não ser que você seja um rico herdeiro, você TERÁ que trabalhar, senão seu único projeto de vida factível será morar em uma caverna no mato. Além disso, a única independência possível é a financeira. Se você não paga suas próprias contas, jamais será realmente livre.

A questão é COMO trabalhar.

Abdicar a vida no afã de ganhar a vida não faz sentido. Trabalhar pra ganhar a vida mas não ter tempo de TER vida não faz sentido.

E, lembrando, o artigo não é sobre as vantagens comparativas do trabalho vs ócio, mas sobre viver a sua vida de acordo com as expectativas dos outros ou não.

O epílogo perfeito veio da sempre insightful Ale, do Chez Nous:

"Ale, eu acho que você trabalha o mínimo possível para suprir suas necessidades a fim de ter tempo para seu projeto pessoal porque ainda não conseguiu ser bom o suficiente em seu projeto pessoal para que lhe paguem por ele (bom no sentido comercial, não questiono suas muitas virtudes literárias). Não acho que o Stephen King se queixe de trabalhar 12 horas por dia porque isso não deixa tempo para os "projetos pessoais" dele."
Touché.

Mas a grande verdade é que, quando estou desenvolvendo meus projetos pessoais, blogando, escrevendo ficção, não parece que estou trabalhando - mesmo quando dá dinheiro.

 


Postada no blog em Dezembro 2004

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