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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Felicidade (rascunho)

Nietszche e Outras Sugestões

 Teoria da Justiça, Uma JOHN RAWLS Antes de escrever a Prisão Felicidade (breve resumo abaixo), estou lendo e relendo algumas obras importantes sobre o assunto. Como podem ver na minha lista de leituras, acabei de reler La Mettrie (o grande inspirador das prisões) e agora estou lendo Utilitarismo, do Mill, e depois pretendo ler Uma Teoria da Justiça, do Rawls, que discorda de Mill.

Também queria ler algo de Nietzsche. Por uma enorme lacuna na minha bibliografia, apesar de já ter sido chamado de nietzschiano a torto e a direito, nunca li Nietzsche. Alguém sabe que Nietzsche abordou essa questão moral da felicidade em algum dos seus escritor?
 Utilitarismo JOHN STUART MILL
Ou teriam alguma outra obra a sugerir? Por sugetão de uma leitora, vou procurar também A Conquista da Felicidade, do Russel.

Sobre a Prisão Felicidade

Uma leitora escreveu:
Li aqueles teus artigos sobre as prisões. Em um deles tu falas que a felicidade deve estar acima de tudo, inclusive da verdade. Muito bem. O que tu tens a dizer de alguém que tem prazer em matar os outros, ou roubar, ou estuprar. A felicidade do sujeito consiste nisso, então pela tua teoria é uma felicidade legítima. Tu podes esclarecer-me a respeito disso?
Realmente, essa é a conseqüência lógica de todo o raciocínio subjacente às prisões e o ponto mais polêmico desse livro que estou escrevendo ao vivo aqui pra vocês. Deixei esse ponto para o final, pois ainda estou me preparando para a saraivada de críticas que receberei.

   Conquista da Felicidade, A BERTRAND RUSSELLSim, se o prazer de alguém é matar, roubar ou estuprar, coisas horríveis em geral e etc, não vejo que outra opção essa pessoa tenha a não ser tentar ser feliz fazendo as coisas que a fazem feliz. Do ponto de vista dela, sua felicidade é legítima, como é a de todos nós.

Anti-natural e hediondo seria alguém conscientemente escolher ser infeliz, escolher não fazer as coisas que satisfazem seus prazeres. (Apesar disso, a maioria das pessoas vive exatamente assim, se sacrificando, se reprimindo, se limitando, se aprisionando, se forçando à infelicidade. Deve ser por isso que não entendem o que estou falando.)

Naturalmente, nada disso quer dizer que roubar, estuprar e matar sejam aceitáveis. Assim como a felicidade dessa pessoa hipótetica depende, digamos, de estuprar, a felicidade de qualquer mulher hipotética depende de não ser estuprada. E a sociedade, que existe justamente para impedir que seus membros tolham as liberdades uns dos outros, está do lado da mulher.

Em outras palavras, cada um tem que defender a sua felicidade. O facínora persegue sua felicidade cometendo as atrocidades que o fazem feliz - pois ele não tem outra escolha. Nós, a sociedade, perseguimos nossa felicidade (ficar vivos, não ser roubados, etc) combatendo o facínora e encarcerando-o pra sempre.

Vou repetir, pra não me encherem o saco (mas sei que vão): pessoas cuja felicidade é causar o mal às outras têm que ser perseguidas, neutralizadas e encarceradas com todo o vigor da lei. Ficou claro?

A Questão Social

Sempre tem alguém que vem me falar da questão social. São todas variações da velha objeção: "e se todos fizessem como você?", que eu já cansei de responder. É como se eu estivesse fazendo um estudo sobre a poços de petróleo e algum viesse me perguntar qual a aplicação prática disso para as artes conceituais.

Ora bolas, não sei, nem quero saber. Eu só estou dizendo como EU vivo a minha vida. Se um ou outro leitor achar bonito e quiser adaptar algumas das coisas que eu digo à SUA vida, beleza - por sua conta e risco.Não estou preocupado com os reflexos sociais dos meus textos porque minhas pobres teorias jamais teriam sucesso o suficiente pra serem aplicadas por largas parcelas da sociedade.

E, digo mais, se tivessem, eu já estaria tão rico de vender tanto livro que estaria morando em um praia deserta e só saberia das convulsões sociais pelo seu Manuel, da padaria da vila mais próxima.

Escreveu o Kita:
Alexandre, uma coisa que talvez voce não tenha percebido, mas esse seu louvor à irresponsabilidade civil incondicional só estimula o aumento da repressão. Nesse sentido, se todos fizerem o que voce prega, o que acontece? O Estado e a sociedade como um todo vão se ver obrigados a incrementar ainda mais o aparato repressivo. Escolas vão ter que contratar seguranças pra tirar alunos baderneiros que só atrapalham a aula dos outros e se recusam a sair, clinicas vão ter que pedir pra seus clientes esvaziarem seus bolsos na entrada pra assegurar que eles não vão acender um cigarro em lugar proibido, o Estado se ve obrigado a por lombada e cameras na ruas, enfim, a nos controlar cada vez mais nosso ir e vir. Por que hoje ninguem mais pode beber cerveja num estadio aqui em São Paulo? Porque sempre tem aquela meia duzia de irresponsaveis libertarios que bebem e fazem merda.

Sei que voce só quer chamar a atenção escrevendo algo "polemico", mas quando voce é chamado à respinsabilidade, sai com algo do tipo "ninguem precisa me obedecer". Ou diz que não é pra todo mundo fazer isso, só uma minoria privilegiada de espertinhos libertarios deve fazer isso, senão fode tudo. Ou seja, vazio, vazio.
Aliás, o Kita menciona algo que era ponto pacífico para o grupo dos Libertinos Eruditos, do século 18: que suas teorias libertárias e libertinas realmente só tinham aplicação individual e elitista. Se o grosso da galera chutasse o balde, a festa acabava pra todos.

Vocês podem concordar ou não com as prisões, mas se não reconhecerem que elas refletem uma filosofia individual, libertária e anti-social, vai ser como somar bananas com laranjas. Não dá nem pra conversar.

Se você quer ler um texto com preocupações sociais, por favor, vá catar algum manual marxista e não venha me encher a cachola aqui no LLL. Se você acha que o indivíduo existe para servir à sociedade, e não vice-versa, então as prisões não são pra você.

O que eu não quero (e já estou fazendo) é defender o texto antes de escrevê-lo. Estou demorando a escrever justamente por ser algo que tem que ser dito com cuidado.

Entretanto, nada do que eu falei, falo ou falarei enfatiza ou defende irresponsabilidade civil ou desrespeito às leis. A não ser que ninguém esteja olhando, claro.

* * *

O que vocês acham? Alguém tem mais alguma sugestão? A Prisão Felicidade ainda está em aberto mas quase formada na minha cabeça: quero escrevê-la em breve.

Definindo Felicidade

Scott Adams, o criador do Dilbert, em seu maravilhoso novo blog, diz que considera que "ganhou um argumento" quando alguém pega sua idéia, distorce-a totalmente até ficar irreconhecível e então argumenta contra a distorção que nada tem a ver com o que você disse. Fica implícito, claro, que se houvesse algo que ele pudesse dizer contra o que você de fato falou, ele teria dito. A outra possibilidade, cada vez mais comum, é a pessoa ser uma analfabeta funcional que realmente não entendeu nada.

Em minha última prévia da Prisão Felicidade, por exemplo, o leitor Michel distorceu tudo o que eu falei, colocou palavras na minha boca e depois atacou essas palavras que eu não falei. Enfim, está tudo nos comentários.

Estou percebendo que um dos problemas dessa Prisão Felicidade será a definição de felicidade. Desde a primeira prisão, sempre que eu falo em felicidade, algum idiota sempre faz um comentário assim:
O que você está dizendo não tem nada a ver com nada, porque a felicidade enquanto estado de espírito contínuo e ininterrupto de êxtase não existe, logo não tem que ser buscada, logo não tem como ser alcançada, seu idiota!
Meu deus, sou só eu que reparo a extrema imbecilidade desse comentário?

É como se eu tivesse dito: "muitos cariocas vão à praia" e algum retardado discordasse de mim nos seguintes termos:
O que você está dizendo não tem nada a ver com nada, porque os cariocas, enquanto nativos de Cuiabá, não tem acesso ao mar, moram muito longe da praia, então não podem ir à praia em grandes números, seu idiota!
Ou seja, o animal pegou uma palavra que usei, cuja definição é convencionada e ponto pacífico pra todos os falantes da língua, redefiniu-a de um modo totalmente distorcido (na verdade, inventou uma nova definição que ninguém usa), e usou isso pra dizer que o que eu falei é besteira e impraticável.

Vamos fazer o seguinte, então.

Se você define felicidade como um estado contínuo e ininterrupto de êxtase, em primeiro lugar, me mostre um exemplo, alguém mais que use assim, algum filósofo, algum verbete em dicionário, literalmente qualquer coisa que indique que essa sua acepção bizarra é de uso corrente na língua.

Em segundo lugar, não parta do princípio que eu estou usando essa sua acepção bizarra.

Quando gente inteligente usa palavras fora de seu contexto comum, é de praxe avisos como: "pra fins desse texto, consideraremos como cariocas os nativos da cidade de Cuiabá", etc.

Na falta de avisos semelhantes, considere que estou usando as palavras de acordo com sua definição convencional.

E qual é a definição convencional de felicidade?

Sério, não vou definir felicidade a essa altura do campeonato. Traga a sua definição e eu garanto que ela vai se aplicar ao que estou tentando dizer.

Ainda Definindo Felicidade

Pra quem ainda não entendeu, o assunto aqui é sério. Eu coloco as prisões no ar justamente pra ver que impacto elas têm nos leitores e que tipo de dúvidas ou críticas elas levantam.

Tem gente que diz que eu escrevo o que escrevo só pra causar polêmica. Alguns pensam até que estão falando isso na boa e parecem não entender o tamanho do insulto.

Ou seja, ao invés de as prisões serem minhas reflexões cuidadosamente elaboradas ao longo de toda uma vida (que são polêmicas, sim, especialmente porque os humanos têm cabecinhas pequenininhas e não gostam de ver seus preconceito contrariados), não, na verdade, os meus textos são só pra criar polêmica e deixar os leitores indignados, fazendo ah ih oh, como se eu fosse um macaco treinado tentando arrancar risadas da claque. Na verdade, pensam eles, eu fico aqui sentado não tentando resolver questões intelectuais que eu julgo essenciais, mas imaginando que tipo de absurdo vou falar amanhã pra causar contrariedade e polêmica nos humanos.

Enfim, essa pequenez não me incomoda, estou acostumado. Me incomoda perder tempo. Meu grande desafio aqui no LLL é tentar separar os comentadores que leram, ponderaram e, depois, tiveram dúvidas ou discordaram, dos leitores que não tem capacidade de ler um texto elaborado e não entendem nada, ou então que comentam de má-fé, só pra tentar me irritar.

Vejam bem: não irritam. O problema é quando eu acho que um idiota do grupo dois pertence ao grupo um e perco meu tempo tentando responder logicamente ao que é uma clara provocação. Por exemplo, perdi muito tempo respondendo na boa ao mau-caráter do Iraldo (será que falando assim ele vai embora?) na época em que eu achava que ele comentava de boa-fé. Agora, que a máscara dele caiu, eu ignoro ou faço pouco e não penso nele duas vezes.

Enfim, quando o assunto é potencialmente polêmico como a Prisão Felicidade, eu realmente preciso do feedback. O foda é separar o joio do trigo.

Podem discordar à vontade. Não tenho nenhum problema com discordarem de mim. Mas discordem do que está escrito e não coloquem palavras na minha boca. Inventar que eu falei uma coisa e argumentar contra a sua distorção não conta. É passar atestado que você não sabe ler.

* * *

O Paulo postou no blog dele sua definição de felicidade, uma citação de Ayn Rand, uma autora que nós dois adoramos:
Happiness is not to be achieved at the command of emotional whims.

Happiness is not the satisfaction of whatever irrational whishes you might blindly attempt to indulge. Happiness is a state of non-contradictory joy - a joy without penalty or guilt, a joy that does not clash with any of your values and does not work for your own destruction, not the joy of escaping from your mind, but of using your mind's fullest power, not the joy of faking reality, but of achieving values that are real, not the joy of a drunkard, but of a producer.

Happiness is possible only to a rational man, the man who desires nothing but rational goals, seeks nothing but rational values and finds his joy in nothing but rational actions.
Eu comentei com o Paulo que essa definição era perigosamente limitada e demonstravelmente falsa. O que não falta no mundo são pessoas felizes e absolutamente burras, irracionais, iludidas.

E o Paulo respondeu: "E sera que esses sao realmente felizes? Pelo que eu ja vi, nao. Pelo menos para mim, essa definicao funciona bem."

Bem, funciona pra mim também. E pra Ayn Rand. E pra maioria dos leitores desse blog, que são pessoas racionais, ou tentam. Mas estamos tentando definir felicidade de modo geral ou somente para um pequeníssimo grupo?

Querer restringir felicidade somente aos indivíduos mais racionais me parece o cúmulo do preconceito.

Via de regra, aliás, eu sempre observei o oposto.

Muitas das pessoas mais inteligentes que eu conheço simplesmente perderam a capacidade de aproveitar a vida. Mesmo quando tudo vai bem, sempre arranjam sarnas pra se coçar, motivos para se sentirem angustiadas, deprimidas, desesperadas, questões existenciais torturantes, aquecimento global, será que deus existe, qual é o sentido da vida, blá blá blá.

Enquanto isso, muitas das pessoas mais burras, superficiais, irracionais e primitivas ainda se permitem ser felizes, ainda têm acesso aos prazeres mais tranquilos e básicos da vida. Não estou falando só do lavrador ignorante, mas também daquela patricinha superficial que consegue ficar extasiantemente feliz com um simples dia na praia e nunca vai esquentar sua cabeça com questões existenciais profundas.

Vejam bem: eu não estou dizendo que a minha felicidade ao descobrir Nietzsche anteontem (e, acreditem, eu fiquei em êxtase) vale menos do que a felicidade da patricinha na praia.

Eu estou dizendo que uma definição de felicidade, pra ser abrangente, pra ser verdadeira, tem que contemplar ambas as coisas.

Qualquer definição de felicidade que diga que a maior parte da humanidade não é ou não pode ser feliz simplesmente não tem como estar certa.

* * *

Eu tenho uma definição de felicidade que eu acho adequada e abrangente, mas fica pra amanhã.Folhas das Folhas de Relva (Tradução de Leaves of Grass), de Walt Whitman

Por hoje, uma citação da Canção de Mim Mesmo, obra-prima de Walt Whitman, um dos homens mais maravilhosos de todos os tempos, meu mestre:
I think I could turn and live with animals, they are so placid and self-contain'd;
I stand and look at them long and long.

They do not sweat and whine about their condition;
They do not lie awake in the dark and weep for their sins;
They do not make me sick discussing their duty to God;
Not one is dissatisfied--not one is demented with the mania of owning things;
Not one kneels to another, nor to his kind that lived thousands of years ago;
Not one is respectable or industrious over the whole earth.

Felicidade: Definição de Trabalho

A felicidade é um dos grandes problemas filosóficos de todos os tempos. Com certeza, jamais será resolvido. Por isso, tentar definir felicidade é sempre temerário.

Mas, por enquanto, para fins das prisões, minha definição de trabalho é a dos utilitaristas.

    Constituição Viva dos Estados Unidos da América SAUL K. PADOVERO Utilitarismo

Simplicando muito, utilitarismo é a filosofia ética e normativa que afirma que uma ação é moralmente correta se promover a felicidade do máximo possível de pessoas e moralmente incorreta, se promover a infelicidade. Portanto, se cada indivíduo procurar maximizar sua própria felicidade, isso irá naturalmente aumentar a felicidade geral do conjunto da sociedade.

Os Estados Unidos e o moderno Reino Unido são países fundados em bases filosóficas utilitaristas. Nada mais utilitarista do que a constituição norte-americana. Alguns dos principais autores dessa corrente são Jeremy Bentham e John Stuart Mill.

Como vocês podem imaginar, uma filosofia que estabelece a felicidade como mola propulsora da ação humana e guia absoluto dos padrões éticos e morais teria que ter uma definição muito boa de felicidade.
 Utilitarismo JOHN STUART MILL
John Stuart Mill Define a Felicidade

O ensaio Utilitarismo (1861), de John Stuart Mill, é considerado a melhor síntese da filosofia do movimento.

Ele começa afirmando que uma ação é certa na medida em que promove felicidade, e errada na medida em que tende a produzir o oposto da felicidade. Por felicidade, se entende prazer e ausência de dor; por infelicidade, dor e ausência de prazer. Assim, prazer e ausência de dor são os únicos fins desejáveis. Tudo o que é desejável é desejável ou pelo prazer inerente em si ou como meio de promover o prazer ou para diminuir/prevenir a dor.

Em seguida, Mill responde aos babacas que, tanto naquela época quanto hoje, basta alguém falar em felicidade e eles já aparecem retrucando que felicidade é inatigível porque eles definem felicidade como algo inatingível, ou seja, o tal estado contínuo e ininterrupto de êxtase.

Quando alguém diz que a felicidade é inatingível, rebate Mill, só pode ser má-fé e implicância (quibble) ou um completo exagero. Naturalmente, se a felicidade for entendida como um estado contínuo de excitação prazeirosa, claro que é impossível. Um estado assim de prazer exaltado dura apenas alguns segundos ou, em alguns casos, e com intervalos, horas ou dias, e sempre é um estouro brilhante de prazer, nunca uma chama permanente e estável.

  Capítulos Sobre o Socialismo JOHN STUART MILLE ainda completa o pobre Mill, dotado de infinita paciência: é claro que os filósofos que ensinaram a felicidade como fim último da vida sabiam disso tão bem quanto aqueles que os atormentavam.

Acrescento eu: levantar esse tipo de objeção tão óbvia e primária só prova ou a burrice ou má-fé de quem a faz.

A felicidade a que esse filósofos se referem, continua Mill, não é uma vida de êxtase, mas momentos de prazer em uma existência composta de poucas dores transitórias e muitos e variados prazeres, e nunca esperando mais da vida do que ela é capaz de fornecer. Uma vida assim, para quem teve a sorte de tê-la, sempre parece merecer o nome de felicidade. E, mesmo hoje, observa ele, uma existência assim é vivida por muitos durante parte considerável de suas vidas. E completa: atualmente, nossa educação e costumes sociais lamentáveis são os maiores impedimentos para a felicidade da maioria.

Mill escreveu isso em meados do século 19. Eu escrevo a mesma coisa no começo do 21. O que ele chama de educação e costumes sociais lamentáveis eu chamo de prisões.

Mais adiante, ele diz algo que eu já cansei de falar aqui no blog: claro que é possível dispensar a felicidade; isso é feito involuntariamente por dezenove vigésimos da humanidade.

E eu adicionaria que muita gente abdica de sua felicidade voluntariamente. Nada pode ser mais triste do que isso.

Por fim, Mill volta a afirmar que somente a felicidade é desejável enquanto fim. Não há razão justificável para a felicidade ser desejável, tirando o fato de que cada pessoa, se considerá-la factível, deseja a felicidade. Na verdade, nada mais é desejado além da felicidade. Qualquer coisa que seja desejada sem ser um meio para a felicidade é porque é desejada como parte da própria felicidade.

Basicamente, Mill está respondendo a uma objeção típica ao utilitarismo. Alguém pode dizer: "ok, eu tomo sorvete de morango porque me dá prazer, mas eu ajudo a velhinha a atravessar a rua porque isso é o certo - não para ter prazer ou ser feliz!"

E Mill rebate que, para essas pessoas, a virtude, por si só, é parte integrante de sua felicidade, da sua paz de espírito e da sua ausência de dor/culpa.   Lógica das Ciências Morais, A JOHN STUART MILL

Ou seja, você ajuda a velhinha atravessar a rua não porque você é bonzinho, mas porque você tem um prazer secreto em se dar tapinhas nas costas e pensar: "caramba, como eu sou um cara legal, eu até ajudo velhinhas a atravessar a rua".

A virtude, para algumas pessoas, dá onda.

Desde 2002, eu tento decifrar a felicidade. Já pensei nessa questão por todos os lados. Não concordo com os utilitaristas em tudo, em particular com alguns corolários das idéias expostas acima, mas não vejo como refutar sua definição de felicidade.

Ela é fechadinha, abrangente, perfeita, cobre todo mundo.

Prisão Medo

Naturalmente, nenhuma dessas idéias é novidade para quem tem acompanhado as prisões com cuidado. Um trecho da Prisão Medo:
Descobri que minha única obrigação era ser um homem feliz e realizado. Se eu fosse isso, tudo já estava resolvido. O resto era sintonia fina.

Na prática, se você quer alguma coisa (ser escritor, ganhar um milhão de dólares, conhecer Paris, comer a Gisele Bündchen, etc) é porque acha que isso vai te fazer feliz e realizado.

Mas me dei conta de que não precisava de nada, literalmente nada, pra me sentir feliz e realizado. Esse processo é puramente interno e 100% sob meu controle.

Então, ao invés de querer ser escritor de sucesso pra ser feliz e ser realizado, basta ser feliz e realizado. Se você, que já é feliz e realizado, escrever e for um escritor de sucesso, melhor ainda. Se não, se você for tão feliz, que nunca mais sentiu aquela necessidade compulsiva de escrever... Bem...

Porra!, você já é feliz e realizado, vai querer escrever pra quê? Deixa isso pra quem ainda está precisando se comunicar, lutando contra seus demônios, tentando se encontrar.
John Rawls Contra o Utilitarismo

Uma Teoria da Justiça (1971), de John Rawls, é considerado um dos últimos grandes clássicos da filosofia.

 Teoria da Justiça, Uma JOHN RAWLS Fiquei hoje em uma livraria aqui de Berkeley namorando o livro. Quero muito ler.

Na introdução, Rawls afirma que seu objetivo era dar argumentos aos adversários do utilitarismo. Ao longo dos últimos dois séculos, o utilitarismo havia sido defendido por algumas das maiores mentes anglófonas mas os argumentos opostos eram esparsos e desarticulados. Em Uma Teoria da Justiça, afirma Rawls, ele costura velhas idéias de Rousseau, Kant e Montaigne em um argumento uno e articulado que demonstre uma alternativa política e moral à hegemonia do pensamento utilitarista.

No blurb da contracapa, um resenhista prestigiado chega a dizer que, apesar de americano, Rawls deu o tiro de misericórdia em qualquer pretensão filosófica do mundo anglófono - enorme sic. Contrato Social, O JEAN-JACQUES ROUSSEAU

Apesar de várias discordâncias, acho o utilitarismo uma das idéias mais belas da humanidade. Enquanto isso, Rousseau provavelmente era gente finíssima (ele adorava pés e mulheres malvadas também, podem conferir sua autobiografia), mas suas idéias são de uma ingenuidade galopante.

Enfim, quero muito saber o que Rawls tem a dizer.

Versão Original dos Trechos de Mill Parafraseados Acima
Actions are right in proportion as they tend to promote happiness, wrong as they tend to produce the reverse of happiness. By happiness is intended pleasure, and the absence of pain; by unhappiness, pain, and the privation of pleasure. (...) Pleasure, and freedom from pain, are the only things desirable as ends; and that all desirable things (...) are desirable either for the pleasure inherent in themselves, or as means to the promotion of pleasure and the prevention of pain.

When, however, it is thus positively asserted to be impossible that human life should be happy, the assertion, if not something like a verbal quibble, is at least an exaggeration. If by happiness be meant a continuity of highly pleasurable excitement, it is evident enough that this is impossible. A state of exalted pleasure lasts only moments, or in some cases, and with some intermissions, hours or days, and is the occasional brilliant flash of enjoyment, not its permanent and steady flame. Of this the philosophers who have taught that happiness is the end of life were as fully aware as those who taunt them.
 Utilitarismo JOHN STUART MILL

The happiness which they meant was not a life of rapture; but moments of such, in an existence made up of few and transitory pains, many and various pleasures, with a decided predominance of the active over the passive, and having as the foundation of the whole, not to expect more from life than it is capable of bestowing. A life thus composed, to those who have been fortunate enough to obtain it, has always appeared worthy of the name of happiness. And such an existence is even now the lot of many, during some considerable portion of their lives. The present wretched education, and wretched social arrangements, are the only real hindrance to its being attainable by almost all.

Unquestionably it is possible to do without happiness; it is done involuntarily by nineteen-twentieths of mankind.

Happiness is desirable, and the only thing desirable, as an end; all other things being only desirable as means to that end. (...) No reason can be given why the general happiness is desirable, except that each person, so far as he believes it to be attainable, desires his own happiness. (...) There is in reality nothing desired except happiness. Whatever is desired otherwise than as a means to some end beyond itself, and ultimately to happiness, is desired as itself a part of happiness.

Desonestidade Intelectual, Felicidade Coletiva & Contrato Social

Minha queridíssima Alê escreveu:

"Portanto, se cada indivíduo procurar maximizar sua própria felicidade, isso irá naturalmente aumentar a felicidade geral do conjunto da sociedade".

Alê, isso não é verdade. O utilitarismo condena especificamente o que chama de "egoísmo", a busca da felicidade individual, que ignora o coletivo. Bentham, mais que Mill (e repetindo idéias de Hume, mas não importa) afirmou claramente que a busca da felicidade NÃO pode ser individual.

Pense no seu violador de mulheres. A busca da felicidade dele não vai, de forma alguma, aumentar a felicidade coletiva.

Também acho perigoso associar utilitarismo com suas prisões. Veja que eles estão falando de MORALMENTE CORRETO, um fator escorregadio e estabelecido por consenso contra o qual, no meu modo de ver as coisas, as prisões LLL vão diretamente contra.

Não é moralmente honesto ler um autor fora de seu contexto, e os utilitaristas falavam da felicidade geral da sociedade, do grupo, daquele contrato social que você não assinou nunca. É exatamente esta a crítica n. 1 de Rawls: ele não concordava em que os direitos individuais fossem sacrificados aos interesses sociais.
Alê, não é bem assim.

Eu não falei sobre o utilitarismo em si, que é bastante complexo, mas somente da definição de felicidade do utilitarismo. Eu tentei dar uma definição básica do movimento, bem no comecinho do artigo, para os leitores que não soubessem o que era não ficarem boiando, mas tentei ser breve, pra não complicar muito.

Essa ênfase do utilitarismo no coletivo, naturalmente, é a parte que eu não concordo, mas não quis entrar nesse mérito, justamente porque o artigo não era pra discutir os prós e contras do utilitarismo, mas tentar definir felicidade. Eu simplesmente afirmei que gostava do utilitarismo, com algumas discordâncias, não dei detalhes e segui adiante.

Quanto à acusação de desonestidade intelectual, sou inocente. Todos os textos foram citados rigorosamente no contexto.

Sim, os utilitaristas visavam a felicidade coletiva da sociedade mas partindo da felicidade individual. Não li Bentham ainda (está na minha mesinha de cabeceira, pra ler depois do Mill) e meu Hume está enferrujado, mas o Mill (que está bem fresco na minha cabeça e aqui do lado do computador) enfatiza isso o tempo todo - particularmente nos trechos citados. Em todos, ele está se referindo especificamente à felicidade individual, partindo do pressuposto algo adamsmithiano que, se todos perseguirem sua felicidade individual, de algum modo a felicidade coletiva será aumentada.

Eu não citei os trechos em que ele demonstra como essa busca pela felicidade individual redundará na felicidade coletiva (porque não tinha nada a ver com os objetivos do meu texto), mas os trechos que eu citei eram todos sobre felicidade individual e estão bem contextualizados.

Por fim, duas coisas - e sempre lembrando que estou falando só do Mill.

Sobre o moralmente correto, Mill diz explicitamente que uma pessoa buscar sua felicidade individual é moralmente correto por definição. (Acho meio forçação de barra, mas enfim.)

Sobre o Contrato Social, Mill é anti-Rousseau até a medula e, em um ponto do ensaio, até faz pouco da idéia de Contrato Social. Aliás, tanto Mill é anti-Rousseau que Rawls se apóia basicamente em Rousseau (or so it says in the Introduction) pra refutar os utilitaristas:
To escape from the other difficulties, a favourite contrivance has been the fiction of a contract, whereby at some unknown period all the members of society engaged to obey the laws, and consented to be punished for any disobedience to them, thereby giving to their legislators the right, which it is assumed they would not otherwise have had, of punishing them, either for their own good or for that of society. This happy thought was considered to get rid of the whole difficulty, and to legitimate the infliction of punishment, in virtue of another received maxim of justice, Volenti non fit injuria; that is not unjust which is done with the consent of the person who is supposed to be hurt by it. I need hardly remark, that even if the consent were not a mere fiction, this maxim is not superior in authority to the others which it is brought in to supersede. It is, on the contrary, an instructive specimen of the loose and irregular manner in which supposed principles of justice grow up.

Punição e Livre-Arbítrio

Na prévia da Prisão Felicidade, eu disse que as pessoas não têm escolha a não ser fazer o que as faz felizes. Eu escrevo porque isso me faz feliz mas, do mesmo jeito, alguém cuja felicidade dependa de estuprar criancinhas não terá escolha a não ser perseguir sua felicidade como for capaz. Anti-natural e hediondo seria alguém conscientemente escolher ser infeliz, escolher não fazer as coisas que satisfazem seus prazeres.

(Naturalmente, estou falando do melhor dos mundos. A maioria das pessoas sabe exatamente o que as torna feliz e não faz: se condenam a vidas de infelicidade, auto-sacrifício e ressentimento, tornando a sua vida e a de todos ao seu redor um inferno. Todo o objetivo da Prisão Felicidade é justamente combater esse tipo de comportamento nocivo que eu vejo por todo lado.)

Enfim, nada disso quer dizer que o comportamento de pessoas que invadam a liberdade dos outros deva ser tolerado pela sociedade. Alguém cuja felicidade dependa de estuprar criancinhas é alguém que deve ser preso, neutralizado, castrado, executado, o que for, o mais rápido possível.

O leitor Michel retrucou que, se ele não tem escolha a não ser fazer essas cosas, ele não teria que ser punido.

O leitor Michel deve ser muito bonzinho ou muito cínico.

Se algum fidaputa estuprar minha filhinha de três anos, eu estou pouco me lixando se ele teve escolha ou não, ou qual foi seu motivo, explicação ou justificação. Eu quero que esse desgraçado sofra a pior punição prevista em lei e, se eu achar pouco, ainda contrato uns caras do morro pra acabar com ele de vez. Genealogia da Moral, A FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE

Curiosamente, lendo A Genealogia da Moral, de Nietzsche, me deparei com o seguinte trecho, no segundo ensaio, seção 4:

That unavoidable idea, nowadays so trite and apparently natural, which has really had to serve as the explanation how the feeling of justice in general came into existence on earth -"The criminal deserves punishment because he could have acted otherwise" - this idea, in fact, is an extremely late achievement, indeed, a sophisticated form of human judgment and decision making.

Anyone who moves this idea back to the very beginnings is sticking his coarse fingers inappropriately into the psychology of primitive humanity. For the most extensive period of human history punishment was not meted out because people held the instigator of evil responsible for his actions, nor was it assumed that only the guilty party should be punished. It was much more the case, as it still is now when parents punish their children, of anger over some harm which people have suffered, anger vented on the perpetrator. But this anger was restrained and modified through the idea that every injury had some equivalent and that compensation for it could, in fact, be paid out, even if that was through the pain of the perpetrator.

É, acho que sou um homem à moda antiga.

La Mettrie, Inspirador das Prisões

La Mettrie (1709-1751), filósofo materialista francês, foi esquecido durante muito tempo.

Sua reputação tem crescido ultimamente, mas ele continua sendo considerado um filósofo menor quando comparado a Diderot e Voltaire e até mesmo a Condillac e D'Holbach.

Ele não mereceu o esquecimento. E também, de certo modo, não merece a atual ressureição. Julien Offray de La Mettrie

Eu sei que vocês leitores nunca devem ter ouvido falar de La Mettrie. E também sei que a gente tende a não ler sobre quem nunca ouviu falar. Mas fiquem comigo. Eu vou expor as principais idéias de La Mettrie, falar um pouco sobre o iluminismo, materialismo e libertinismo franceses do século 18 e acho que vocês vão se surpreender.

O Homem-Máquina

La Mettrie era médico. Sua obra mais famosa, na qual sua precária fama se baseia, é O Homem-Máquina, publicado em 1747.

Na época, O Homem-Máquina foi escandaloso precisamente pelos motivos que hoje o tornam banal. Pela primeira vez, o funcionamento do corpo humano era explicado sem recorrer à metafísica, ao sobrenatural ou à busca pela localização fisiológica da alma.

La Mettrie, ateu e libertino até o último fio de cabelo, considerava o corpo humano como uma máquina, um mecanismo complexo obedecendo a regras precisas.

Ou seja, hoje em dia, nada de mais.

O Homem-Máquina é a única obra de La Mettrie traduzida para o português, em uma edição portuguesa. Por causa dela, La Mettrie experimentou um renascimento nos últimos anos, começou a ser chamado de pai da Ciência Cognitiva e citado em trabalhos sobre ciborgues, biotecnologia e, basicamente, alterações tecnológicas no corpo.

Homem-Máquina: a Ciência Manipula o Corpo, OEm 2001, foi realizado no Brasil um ciclo de conferências chamado O Homem-Máquina, reunido em livro dois anos depois. Dêem uma olhada também nesse seminário da UFRJ.

Na verdade, parece que as pessoas leram o título da obra e mais nada - pelo menos, não tiveram a cara-de-pau de colocá-lo em suas bibliografias, eu chequei.

O Homem-Máquina é um título provocante e sensacional. Os títulos de La Mettrie são todos ótimos. Mas um estudo primitivo de um médico antiquado, tentando entender o mais básico funcionamento do corpo humano (coisas que hoje aprendemos na 5ª série), simplesmente não tem nada a ver com a biotecnologia e ciência cognitiva do século 21.

Eu não recomendaria O Homem-Máquina para ninguém. Seu valor é meramente histórico. Os curiosos podem conferir essa versão online em inglês.

Fugas e Perseguições

A primeira obra filosófica de La Mettrie, História Natural da Alma (basicamente dizendo que esse troço de alma não existe), fez com que ele fosse expulso da França e tivesse que fugir para a mais tolerante Holanda. Na Holanda, La Mettrie de novo forçou a barra e escreveu O Homem-Máquina. Nem os tolerantes holandeses poderiam suportar tamanha barbaridade e La Mettrie foi novamente expulso.

Mal sabiam que o homem só estava começando.

Na época, Frederico o Grande, Rei da Prússia, estava tentando atrair para seu pequeno reino as melhores mentes da Europa e convidou o francês atrevido e fugitivo pra sua corte. Foi em Berlim, durante os últimos três anos de sua vida, que La Mettrie compôs suas obras primas: O Sistema de Epicuro, o Discurso Preliminar e, mais importante, o Discurso sobre a Felicidade.

La Mettrie morreu muito jovem, aos 42 anos. Reza a lenda, por ter epicureanamente exagerado na dose de um patê.

A Obra de La Mettrie

La Mettrie estava trabalhando em suas obras completas quando morreu. Foram publicadas logo após a sua morte - peculiarmente, sem incluir o Discurso sobre a Felicidade. A maioria das reedições posteriores seguiu essa padrão. Ninguém queria saber do Discurso sobre a Felicidade.

Ao longo dos séculos seguintes, cientistas e filósofos constantemente lembraram La Mettrie e seu Homem-Máquina, por sua visão racionalista, materialista e científica do corpo humano. O Discurso sobre a Felicidade, enquanto isso, que nada mais é do que as conseqüências éticas do cientificismo do Homem-Máquina, era cuidadosamente esquecido e jamais mencionado.

Ann Thomson, em sua tese de doutorado sobre La Mettrie, faz um apanhado muito interessante de todos os cientistas e filosófos que o citaram durante os últimos dois séculos e meio. Foi ela que me chamou atenção para o fato de que eles, ao mesmo tempo em que se esforçam pra se aproximar do autor de O Homem-Máquina, tentam se distanciar ao máximo do autor do Discurso sobre a Felicidade. Um deles classifica as teorias morais e éticas do Discurso como uma simples boutade de La Mettrie: não era realmente isso que ele queria dizer, claro que não. Como levar idéias assim à sério? Ele só podia estar brincando!La Mettrie : Machine Man and Other Writings


Estranhamente, 15 anos depois de escrever a tese de doutorado mencionada acima, Ann Thomson acabou cometendo o mesmo crime que denunciou. A única edição das obras de La Mettrie atualmente em catálogo na língua inglesa foi editada por ela. Adivinhem qual foi a única obra de La Mettrie a não ser reproduzida integralmente? Talvez mesmo para proteger a reputação de seu filósofo-xodó, Ann Thomson incluiu apenas alguns trechos do Discurso sobre a Felicidade - os menos polêmicos, os mais bem-comportados.

E, mesmo assim, sua tradução desses trechos foi a primeira tradução do Discurso para o inglês. Em 1996!

Eu li o Discurso sobre a Felicidade em uma edição de sua Obra Filosofica publicada na Espanha em 1983. Se a santa biblioteca da PUC não tivesse essa edição, minha vida teria sido outra.

Vocês, felizmente, têm sorte. Em 2005, o Discurso Sobre a Felicidade foi reeditado, em uma nova tradução para o espanhol, edição caprichada, bonita e anotada, e ainda com O Sistema de Epicuro de lambuja, por uma nova editora alternativa de Buenos Aires chamada El Cuenco de Plata. O nome da coleção? El Libertino Erudito.

Quem quiser, e essa edição eu não poderia recomendar mais enfaticamente, pode comprar pela Amazon ou por qualquer livraria virtual de livros em espanhol. Eu comprei minha cópia na Cuspide.com, mas parece que lá acabou.

O Discurso sobre a FelicidadeJulien Offray de La Mettrie

O Discurso sobre a Felicidade foi considerado, tanto pelos seus contemporâneos quanto desde então, como uma cínica apologia da auto-indulgência, da libertinagem e até mesmo do crime.

La Mettrie começa afirmando que as fontes da felicidade são, em larga medida, físicas. A felicidade de alguém fraco, doente e incapaz não será a mesma de outro no auge da forma física. Felicidade torna-se quase sinônimo de saúde.

É o próprio organismo do ser humano que força-o a buscar sua felicidade em uma determinada direção - seja ela qual for. La Mettrie defende que verdadeira felicidade consiste em seguir esse impulso.

Ao contrário do ascetismo dos estóicos e cristãos, que afirmavam que só o homem virtuoso é feliz, enquanto os maus são sempre desgraçados, La Mettrie rebate que a verdadeira felicidade está completamente ao alcance dos maus, pecadores, e até mesmo dos ignorantes e estúpidos. Não é o conhecimento que leva à felicidade.

La Mettrie : Machine Man and Other WritingsO grande inimigo da felicidade natural do ser humano é o remorso. Para La Mettrie, se felicidade significa, remorso torna-se então equivalente a uma verdadeira doença psíquica que deve ser eliminada.

O remorso é simplesmente resultado dos preconceitos morais arbitrários inoculados em nós desde a infância, com o objetivo único de reprimir nossos desejos e condenar o prazer como inferior, pecaminoso, perverso.

Desde seu nascimento, as criança sofrem uma verdadeira lavagem cerebral: ao mesmo tempo em que os preconceitos, crenças e convicções de sua cultura são mostrados como éticos e intrinsecamente bons, seus desejos naturais são suprimidos e vilificados. Esse processo leva o nome pomposo de educação, mas nada mais é do que o condicionamento mais rasteiro, pouco diferente do que fazemos com cachorros.

Assim, ao fazer com que ações e atitudes totalmente anti-naturais pareçam naturais e, até mesmo, inevitáveis, a sociedade transforma suas crianças em membros respeitáveis da comunidade.

No conflito entre esse impulsos opostos, seguir seu instinto natural ou seu condicionamento, o primeiro, mais forte, mais verdadeiro, mais visceral, sempre acaba vencendo, mas a um preço altíssimo. O condicionamento, apesar de derrotado, ainda possui força suficiente para causar remorso, culpa, tristeza e arrependimento, muitas vezes destruindo a própria felicidade do indivíduo.

A doutrinação de padrões morais arbitrários e o terror da punição eterna reprimem o instinto natural que todos os homens têm, de buscar sua própria felicidade. Como o ser humano é amoral e anti-social, sem essa repressão, não haveria autoridade e a sociedade ruiria. Portanto, a civilização só pode existir através da coerção dos instintos do homem.

Dado que não existe moral, a punição para os crimes não pode mais ser vista como retribuição por pecados cometidos, mas somente como uma ação para inibir novos crimes e proteger a paz social. A moral deixa de ser divina e torna-se pragmática, padrões arbitrários de comportamento cujo objetivo é a própria defesa e manutenção da coletividade.

O objetivo de La Mettrie é ajudar a humanidade a se soltar desses grilhões artificiais e dessa infelicidade condicionada. O homem é um ser puramente material, ele explica, e seus tão preciosos valores são totalmente arbitrários e impostos pelo meio.

La Mettrie conclui que o homem é naturalmente propenso ao crime e que qualquer tentativa de impor limites arbitrários aos seus desejos só resultará em sofrimento e remorso. A felicidade verdadeira está em nos libertarmos da fé em deus e abraçarmos nossa natureza material. O homem inteligente, então, apesar de livre para seguir seus desejos sem culpa e remorso, escolherá seguir as regras civilizadas, por julgar que a manutenção da sociedade é do seu interesse individual.

Se quiser ser feliz, o homem deve ceder às paixões que não conseguir evitar. Se suas ações forem anti-sociais, ele será condenado pela coletividade, talvez até encarcerado. Mas, pelo menos, estará livre da culpa inoculada por preconceitos arbitrários, livre do terror de se achar condenado ao fogo eterno, livre da idéia de que é um ser intrinsecamente perverso e pecador.

Ao contrário dos outros filósofos materialistas da época, La Mettrie é apolítico. Ele nunca afirma que a sociedade funcionará melhor se os indíviduos buscarem satisfazer suas paixões. Essa questão não parece lhe interessar. Sua única preocupação é o bem-estar do homem e ele abstrai o indivíduo do seu contexto social para poder melhor estudar seus problemas fundamentais.Julien Offray de La Mettrie

Se o razoavelmente bem-comportado Homem-Máquina já causou escândalo, sem tocar em nenhuma questão de fundo ético ou moral, imaginem O Discurso da Felicidade. Só pelos comentários histéricos aqui do blog sempre que menciono suas idéias, La Mettrie continua escandoloso até hoje.

Ele não só rejeitou todos os princípios religiosos, mas também deus, educação, padrões morais, lei natural, tudo. E, ao defender que o homem era era naturalmente anti-social e amoral, atacava também o senso-comum dos filósofos da época. Difícil seria achar algum grupo que o Discurso da Felicidade não atacou, de um modo ou de outro.

Naturalmente, o horror dos contemporâneos só era exarcebado pelo fato de que a prosa vigorosa de La Mettrie levava essas idéias hediondas às suas conseqüências máximas.

Afinal, disse ele, se existem homens cuja felicidade depende da maldade e do crime, como podemos condená-los por isso? Quer dizer, agindo pragmaticamente em defesa da sociedade, podemos e até devemos prendê-los e neutralizá-los, mas não por terem feito algo de errado.

Que outra escolha tinham a não ser buscar sua felicidade?

(O texto acima é, em larga medida, uma paráfrase comentada do terceiro capítulo de Thomson, Ann. Materialism and Society in the Mid-Eighteenth Century: La Mettrie's Discours Préliminaire. Genebra, 1981)

La Mettrie e os Iluministas

La Mettrie foi contemporâneo de Voltaire, Diderot, D'Holbach, Helvetius, entre outros, a iluministas, livres-pensadores e enciclopedistas, filósofos lutando para criar um novo humanismo agnóstico e deísta livre da opressão religiosa.

Homem-Máquina: a Ciência Manipula o Corpo, OE você poderia até pensar, amigo leitor, que La Mettrie se sentia em casa com essa turma. Nada disso. Foram eles justamente seus maiores inimigos.

Pois o que os enciclopedistas queriam construir era um ateísmo água-com-açúcar, bonzinho, socialmente aceitável, que não assustasse muito os religiosos.

O grande debate da época era se seria possível um país de ateus, pois era crença corrente que, longe de deus, os homens tornavam-se bestas descontroladas, aéticos, amorais, anti-sociais. Sem o poder repressor da religião em uma sociedade de ateus, não haveria lei capaz de impedir que os homens se transformassem em feras.

A luta dos enciclopedistas era justamente para mostrar que não, ser ateu não quer dizer ser assassino, bandido ou mau-caráter. Ateus podem ser bonzinhos e obedecer a lei. Olha só, até sabemos comer na mesa direito.

E, enquanto isso, lá vinha o chato do La Mettrie estragar tudo e dizer o óbvio: que não faz sentido ser ateu e viver preso à moralidade religiosa. Uma vez que você conclua que deus não existe, sua obrigação intelectual é levar esse raciocínio às últimas consequências.

Pois seria muita hipocrisia achar que podemos matar deus em vão, e ficar tudo por isso mesmo. Se deus não existe, a sociedade criada em função dele não tem como permanecer igual. Tudo precisa ser repensado do zero. Tábula rasa. E o trabalho dos filosófos é justamente criar uma nova ética e uma nova moral que emanem do próprio homem, e não de manifestações antropomórficas da imaturidade humana.

Mas só se forem verdadeiros filósofos, temerários e honestos, capazes de perseguir uma idéia até as últimas consequências. E não dá pra fazer isso jogando pra platéia, não dá pra destruir um conceito, a religião, sem descabelar as pessoas que sobrevivem às custas dele.

Na verdade, Diderot e sua turma estavam certos. Existem coisas que não podem ser ditas. Apesar de ter feito tudo para desqualificar La Mettrie publicamente, negando-lhe até o título de filósofo, cartas privadas de Diderot revelam que ele também achava que as consequências lógicas do ateísmo eram mais ou menos as descritas no Discurso sobre a Felicidade. Mas ele não era bobo de falar isso.

La Mettrie era.

Para os religiosos, a diferença entre La Mettrie e os outros filósofos era insignificante. Pra quem bebe, tequila não tem nada a ver com licor mas, para os abstêmios, é tudo igual. La Mettrie ainda tinha a vantagem de ser um verdadeiro manancial de citações escandalosas que os religiosos usavam, justamente, para desqualificar todos os iluministas, inclusive os mais moderados.

Não era à toa que eles se pelavam de ódio de La Mettrie e tentavam, de tudo quanto é jeito, desqualificá-lo e se afastar dele, chamando-o de louco, bufão, insensato, apologista do crime. Esse homem não só não é filósofo como não é um de nós!, gritavam. Não temos a nada a ver com as loucuras que diz.

Abandonado por aqueles de quem esperava amizade e perseguido por aqueles que atacou, La Mettrie passou a vida sendo expulso de um país pro outro e morreu sozinho, no exílio.

A honestidade intelectual e intransigência filosófica de La Mettrie fizeram com que suas idéias, ainda hoje, sejam polêmicas e tabu.

Sim, o ateísmo já é relativamente bem aceito, mas desde que se limite a negar somente a deus, e não toda a estrutura social, moral e ética imposta pela divindade.

A idéia de partir da não-existência de deus para construir um novo sistema moral ainda é genuinamente impensável.

Vocês já devem ter percebido que La Mettrie é meu herói.

Alguns Links sobre La Mettrie

La Mettrie - verbete da Wikipedia
Eulogy on La Mettrie - pequena biografia de La Mettrie escrita pelo Rei da Prússia, quando de seu falecimento
Homem-Máquina - texto integral em inglês
El imperio de los sentidos - matéria do Suplemento Radar libros, de Buenos Aires
Trechos do Discurso sobre a Felicidade - em espanhol
 


Postada no blog em Janeiro de 2006

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