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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Medo

Medo de Não Ser Escritor
 
No processo de me libertar das minhas prisões, me livrei de incontáveis medos.

O maior deles era justamente o medo de não ser escritor, de não fazer sucesso como escritor e de morrer sem publicar nada que prestasse. Coisas como essas me paralisavam à noite, me causavam suores secos, me impediam de ser feliz. Hoje, são só palavras.

Antigamente, eu atrelava meu ego completamente à minha literatura. Minha razão de ser na terra era escrever. Eu não era o Alexandre, eu era um escritor ou, pior, um projeto de escritor.

Kerouac adorava perambular pelos Estados Unidos, entre os mendigos, os sem-teto, os andarilhos. Eram pessoas sem futuro, muitas vezes sem passado, que viviam apenas para o presente. Não esperavam nada da vida. Kerouac admirava isso, não conseguia ser assim: "eu sabia que seus esforços literários seriam um dia recompensados por proteção social", enquanto que os andarilhos viviam sem esperança alguma, a não ser aquela secreta esperança eterna só obtida dormindo majestosamente ao relento na estrada.On the Road, de Jack Kerouac

Quando me libertei dessa esperança, quando passei a sinceramente cagar se meus esforços literários seriam recompensados com proteção social ou não, pude experimentar um pouco da felicidade primordial, da liberdade profunda que Kerouac buscava.

Descobri que minha única obrigação era ser um homem feliz e realizado. Se eu fosse isso, tudo já estava resolvido. O resto era sintonia fina.

Na prática, se você quer alguma coisa (ser escritor, ganhar um milhão de dólares, conhecer Paris, comer a Gisele Bündchen, etc) é porque acha que isso vai te fazer feliz e realizado.

Mas me dei conta de que não precisava de nada, literalmente nada, pra me sentir feliz e realizado. Esse processo é puramente interno e 100% sob meu controle.

Então, ao invés de querer ser escritor de sucesso pra ser feliz e ser realizado, basta ser feliz e realizado. Se você, que já é feliz e realizado, escrever e for um escritor de sucesso, melhor ainda. Se não, se você for tão feliz, que nunca mais sentiu aquela necessidade compulsiva de escrever... Bem...

Porra!, você já é feliz e realizado, vai querer escrever pra quê? Deixa isso pra quem ainda está precisando se comunicar, lutando contra seus demônios, tentando se encontrar.

O melhor conselho que se pode dar a um jovem escritor é: se puder se abster de escrever, não escreva. Só dá dor de cabeça.

Medo do Fracasso

Na adolescência, metade das pessoas é artista ou atleta. Todos destinados a um futuro brilhante nas quadras, nos palcos, nas letras.

Então, chega a idade adulta e bate o medo. Medo de não ter carreira. Medo de não ganhar dinheiro. Medo de não conseguir satisfazer as ambições dos pais. Medo do ridículo. Medo de fracasso. Medo de nunca chegar ao primeiro do ranking. Medo de nunca chegar às listas de best-sellers.

O poeta faz concurso pro Banco do Brasil, o cestinha vai estudar ciências atuariais. É mais seguro. É mais responsável. Afinal, não sou mais criança, Alexandre, preciso pensar no futuro.

Mas nem todos desistem.

Tânia tinha vinte e tantos anos e era atriz. Fazia parte de um grupo de teatro alternativo do Rio de Janeiro. Eles mesmo escreviam, encenavam e produziam suas peças. Sempre em grandes teatros, mas em dias alternativos, terças e quintas, quando as casas emprestam seus dias ociosos para os iniciantes. Batalhavam muito. Nunca aparecia muita gente. Quase sempre amigos e parentes.

Para se sustentar, Tânia trabalhava de assistente de dentista. De manhã, estudava e decorava suas falas; à tarde, entregava o motorzinho pro Doutor Fulano e repassava os roteiros em sua cabeça; à noite, ensaiava ou se apresentava com o grupo.

Minha amiga não era uma atrizinha de fim-de-semana. Formou-se em Artes Cênicas e inclusive dava aulas de interpretação em uma universidade particular.

Eu não perdia nenhuma de suas peças. Depois, íamos com a trupe para algum bar próximo, beber e comentar a perfomance.

Tânia era uma atriz na total acepção do termo. Vivia a vida de ator, com todo seu charme e todos seus sacrifícios. Mas não tinha talento.

Acabou casando com um iraniano, foi morar em Londres e tem cinco filhos. Não nos falamos há muitos anos.

Ela não sabe, mas é meu ideal de integridade artística. Nos meus piores momentos, eu sempre pergunto se teria a força de persistir apesar de tudo, de viver a vida do artista até o fim, sem se preocupar com reconhecimento, sucesso, recompensa.

Porque ser artista não depende de talento. Só de vontade.

Basta não ter medo do fracasso, não ter medo do ridículo.

Medo do Futuro

O problema não é o medo. Medo é uma coisa boa. É o medo que nos impede de enfiar a mão na tomada, acariciar cascavel ou se jogar do desfiladeiro. O problema é quando o medo paralisa.

A maioria das pessoas que eu conheço vive simplesmente paralisada pelo medo. Têm medo de perder o emprego ou o cônjuge, de adoecer, brochar ou engravidar, do filho fumar maconha ou virar viado, de não conseguirem mais se sustentar. Mais do que tudo, têm medo do futuro.

Mesmo os mais jovens. Converso muito com meus alunos adolescentes. No momento em que mais deveriam estar auto-confiantes, querendo abraçar o mundo, todas as portas abertas diante deles, a maioria só pensa em segurança.

Pois é, queria fazer biologia, mas não dá dinheiro, vou fazer direito. Mais seguro, né?, e olham pra mim com aquela carinha de criança pedindo encorajamento-confirmação, achando que estão tomando a atitude mais sensata e responsável.

Como assim não dá dinheiro?, eu pergunto. Quem dá dinheiro é marido rico. Nenhuma profissão, nenhum curso "dá dinheiro". O seu dinheiro você é que vai ter que correr atrás, com iniciativa, garra, liderança. Independente do curso.

Fiz voto de pobreza e cursei História na UFRJ. Era um dos melhores cursos do país, daqueles onde os alunos têm o privilégio de estudar com as maiores mentes da área, com os autores dos livros que estavam na vanguarda do conhecimento.

Mas, apesar de todas as oportunidades únicas e empolgantes oferecidas naquele campus, a maioria dos meus colegas só estava lá para poder prestar concursos públicos que exigissem diploma superior. Havia um muralzinho com os concursos do mês e boa parte do pessoal do último ano gravitava por lá, calculando quantas inscrições poderiam pagar, qual seria o melhor custo-benefício para conseguirem uma boca no estado, como poderiam, enfim, se sentir seguros.

Pra você, é fácil falar, Alexandre, diria um leitor chato. Você cresceu rico, sempre teve tudo o que quis, não sabe o que é passar necessidade. Por isso, não dá valor à segurança de um bom emprego com estabilidade e plano de carreira.

Pode ser. Se o fato de eu ter crescido rico me impediu essa pequeneza mental, então a minha infância já se pagou. Mas pior é que não é verdade. Quando eu ainda era rico, eu vivia obcecado por segurança também.

Precisei perder tudo pra aprender.

A Mediocridade Compensa

Meu pobre pai vive tentando refrear meus instintos enlouquecidos. Ele me mostra seus amigos - um respeitável círculo de ricos homens brancos, executivos, empresários, figuras de renome na comunidade - e me conta suas histórias. Invariavelmente, os mais bem-sucedidos, os presidentes de multinacionais, os capitães de indústria, são aqueles que, desde a infância, eram os mais medíocres, os mais covardes, aqueles que não se colocavam, não davam suas opiniões, não se arriscavam e não faziam inimigos.

Depois, ele me conta as histórias dos seus amigos mais ousados, mais originais: aqueles que tinham verdadeiro espírito de liderança e se arriscavam para implementar suas idéias. Esses raramente acabaram bem: o arquiteto bem comportado galgou os degraus da escada do sucesso enquanto um outro arquiteto "arrogante", "metido a artista" e que "só pegava os projetos que bem entendesse" (meu pai diz essas coisas como se fossem negativas) é até hoje considerado um "gênio incompreendido", mora em uma vila e leva uma vida modesta.

Um amigo genial largou carreira estável em banco para montar empresa atrás de outra, e ficou rico, quebrou, ficou rico e quebrou, e hoje mora de aluguel. Seu colega de sala medíocre passou 30 anos na mesma multinacional sem abrir a boca e hoje é o presidente - ainda sem abrir a boca.

Pobre do meu pai. Ele não entende que não meço a vida por resultados. Se ele conseguisse me provar por A + B (está pertíssimo disso) que a mediocridade compensa, que os medíocres herdarão as riquezas da terra, ele ainda assim não conseguiria me convencer a abraçar a mediocridade. A vida dos seus amigos rebeldes, ousados, loucos, intempestivos é mil vezes mais interessante e gratificante, apesar dos altos e baixos, por causa dos altos e baixos, do que as vidinhas seguras dos seus amigos encarreirados.

Entendo a preocupação do meu pai, mas acho que ele não percebe que a vida, por definição, até mesmo por ser algo tão frágil e fugaz, é um caminho, não um ponto de chegada.

A Lição Mais Importante

Quando eu era jovem e muito rico e, depois, quando era menos jovem e bem menos rico, eu tinha essa idéia meio preconceituosa de que era preciso muito dinheiro para se viver. No meu mundo, tudo era muito caro: bastava uma aritmética simples para concluir que só ganhando muito, muito dinheiro para manter aquele estilo de vida.

Buscando essa quimera, montei uma empresa e, logo depois, fali. Meu pai e minha mãe não estavam em condições de me ajudar financeiramente com nada. Fui morar com a esposa na casa da minha mãe, e pagando aluguel, ainda por cima. Vendi o carro e fiquei a pé pela primeira vez desde os 17 anos, uma experiência bem mais emasculante do que eu imaginaria.

Então, abri o jornal de domingo e fui procurar um modo de ganhar dinheiro. A demanda por professores de inglês era gigantesca e eu estava em posição ideal de supri-la. Passei dois meses espalhando currículos até obter a primeira resposta. Tinha dias que eu pegava mais de oito, nove ônibus pra dar duas ou três aulas em pontos diferentes da cidade. Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

Percebi que não precisava ter medo da vida. Não são necessários R$15.000 por mês para ser feliz. Com poucas horas de aulas em dias alternados da semana eu já conseguia ganhar o suficiente para pagar minhas contas básicas - e viver como um bicho, é verdade, mas sem depender de ninguém e saqueando a biblioteca da PUC. Se e quando eu precisasse de mais dinheiro, bastava encher progressivamente os outros horários. Além disso, minha reputação na praça ainda era boa o suficiente para que trabalhos de consultoria surgissem esporadicamente aqui e ali.

Essa certeza de que eu conseguia me sustentar sozinho (e com esforço mínimo) foi talvez a revelação mais importante da minha vida.

As pessoas acham que precisam se escravizar dez horas por dia em um escritório sem janelas para poder viver. Que o único modo de terem tranqüilidade na vida, de serem consumidores, de garantirem sua velhice, é vendendo a alma ao mercado de trabalho.

Não é verdade. E isso não é vida.

Se a sua vida é isso, você quer viver pra quê?

Meu Fracasso Pessoal

Só tive um grande medo na minha vida. Logo depois de casar, no auge da felicidade, achando que tinha encontrado a mulher perfeita pra mim, eu morria de medo de perdê-la.

Aí fui e perdi. No começo, doeu muito, depois doeu menos, e por fim passou. Como acontece com todo mundo. História mais velha do mundo. Quase tediosa. Mas me ensinou o valor do medo.

Desde criança, fui educado para pensar que o mundo era meu, que não havia nada que eu não pudesse fazer. Entretanto, olho para trás e minha vida é um fracasso atrás do outro.

Nunca me dediquei a nada com tanto afinco quanto à minha empresa. Por dois anos, eu fiz de tudo, usei todos os meus truques, acionei todos os meus contatos, me esforcei ao máximo. Nada. Fracasso retumbante, caí direto nas pedras.

Duro e falido, fui dar aulas de inglês e me concentrei no meu casamento, nesse meu casamento tão difícil, tão desafiador, tão gratificante. Havia sempre um problema, uma questão inesperada, um terceiro, uma quarta ou um quinto envolvidos; cada caso era um caso, cada situação, um problema em potencial. Quando percebi que estava fazendo água, fiz de tudo para salvar meu casamento. Usei todas as táticas. Dependendo da hora e da situação, fui enérgico, tolerante, autoritário, permissivo, cego. E nada. Fracasso retumbante, caí direto nas pedras.

Em quatro anos, entre 2000 e 2004, perdi circensemente as duas grandes batalhas que travei. Meus melhores esforços e minhas enormes habilidades se provaram completamente inúteis.

Ao mesmo tempo, correndo por fora, vai a minha ainda inexistente carreira literária. Aos 31 anos, com um romance e um livro de contos prontos para o prelo, não encontrei ninguém que encarasse o desafio de me bancar. Em um mercado onde semi-analfabetos (literalmente!) publicam romances, ainda sou um autor inédito.

Apesar de toda a evidência em contrário, eu não consigo me sentir um fracassado.

Vou seguir em frente. Porque eu só tenho essa vida. Porque eu sou apenas eu mesmo, e nunca serei outra pessoa, com outros dons e outras qualidades. Porque o universo só me deu essa mão e eu ou ganho a rodada com ela ou perco tudo. Porque sou um animal sem alma que, depois de existir por um piscar de olhos, ficará morto por todos os eons da eternidade.

Não tenho medo da vida. Não tenho medo do fracasso. Não tenho medo do ridículo. Não tenho medo do futuro.

Postada no blog entre Maio 20, 2003 e Novembro 19, 2005

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As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 
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É possível homem e mulher serem apenas amigos? Carla, recém-casada com Murilo, precisa lidar com a incômoda proximidade de Júlia, melhor amiga de seu marido desde a infância.
 

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Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.