As Prisões
Essa é história de uma transformação. Essa é história da
minha reinvenção. Essa é a história de como eu me tornei
uma pessoa que eu gosto de ser.
Normal, confesso, eu nunca fui.
Mas, em um dado momento, percebi as bolas de ferro
mentais que eu arrastava pela vida. Idéias
pré-concebidas, tradições mal-explicadas, costumes
sem-sentido. Prisões.
Comecei a questioná-las uma a uma. Algumas eu mantive.
Da maiora, eu me desfiz.
Esse livro é a história das prisões das quais me
libertei.
Eu, Até os 15 Anos
Até os 15 anos de idade, eu era uma criança extremamente
complicada.
Gordo, feio e gago. Óculos de fundo de garrafa no nariz.
Cara coberta de espinhas. Muito mais rico do que todos
os meus colegas.
Ninguém poderia chegar perto de mim a não ser para
sacanear, eu pensava. Por isso, me tornei primeiro
defensivo e, depois, agressivo. Minha boca era uma arma.
Inteligente e articulado, eu conseguia enfiar o dedo em
todas as feridas. Antes que me sacaneassem (o que mais
poderiam querer comigo, afinal?), eu já sacaneava todo
mundo.
Meninas, nem pensar. Pra que se preocupar com
impossibilidades? Mesmo que alguma infeliz desenvolvesse
alguma inexplicável paixão por mim, e teria que ser uma
infeliz, para se sentir atraída por uma pessoa tão
insuportável, eu simplesmente jamais acreditaria que era
verdade.
Nunca vou deixar de amar os poucos amigos que tenho
daquela época. Lembro bem de suas tentativas de
aproximação. Lembro bem de afastá-los a pedradas -
afinal, o que podiam querer com alguém como eu?! Lembro
bem de suas repetidas tentativas até vencerem minhas
barreiras.
Eles me salvaram de mim mesmo e me ajudaram a me tornar
mais humano.
Por fim, nem todos esses defeitos faziam de mim uma
pessoa insegura ou infeliz.
Contra todas as evidências, eu me achava o máximo, mais
inteligente e mais capaz do que qualquer um.
Extremamente seguro dos meus pontos fracos, eu procurava
me concentrar nos fortes.
Trancado em casa, lendo, escrevendo, inventando
histórias e personagens, eu era feliz.
Já naquela época, eu tinha noção de uma coisa muito
importante.
Minha incansável mãe tentava fazer com que eu saísse de
casa, dançasse, fosse a festas, ou seja, me comportasse
como um menino normal.
E, muitas vezes, eu friamente me perguntava: será que eu
não devia estar fazendo isso? Será que eu não devia
estar na festa com os amiguinhos ao invés de trancado em
casa lendo Sherlock Holmes? Será que mais tarde eu não vou me
arrepender de ter desperdiçado minha juventude?
E, apesar de todo o longo caminho que eu ainda tinha a
percorrer, desde os quinze anos eu sabia a resposta
desse dilema.
Fazer hoje o que eu quero fazer hoje é mais importante
do que fazer hoje o que eu posso vir a querer ter feito
amanhã.
Eu amanhã desejar ter dançado mais aos quinze anos é uma
abstração, uma possibilidade. Desejar hoje ler Holmes
hoje era um fato.
Na pior das hipóteses, se o meu eu-velho for infeliz por
não ter dançado mais aos quinze, eu pelo menos vou ser
feliz hoje fazendo o que eu quero.
E dá-lhe Watson.
Eu, A Partir dos 15 Anos
Aos 15 anos, meus pais me colocaram em uma escola
internacional.
Todas as aulas eram inglês. Todas as conversinhas com os
colegas eram em inglês. Todos os nomes de partes do
corpo humano eram em inglês. Todos os laboratórios de
física eram em inglês. E meu inglês nem era isso tudo.
As regras, a cultura, os hábitos, tudo era radicalmente
diferente. Nunca me senti tão mentalmente estafado como
naquelas primeiras semanas. Aprendia coisas novas no
ritmo que só um cérebro de quinze anos é capaz.
Sem querer, sem planejar, bom ser humano que sou, no
esforço de me adaptar ao meu novo ambiente, eu mudei.
Foi minha primeira, e mais importante, reinvenção.
Sobrevivi ao primeiro ano já camaleado. Tão ocupado em
entender o novo mundo à minha volta, nem mesmo percebi o
quanto tinha mudado.
Para melhor absorver o meu ambiente, fiquei mais calado,
mais calmo, mais tolerante. Para fazer amigos, me tornei
mais sociável, menos agressivo, menos boca suja.
As atividades extra-curriculares da escola serviam de
válvula de escape para minha energia interminável. Fiz
de tudo. Editei jornal, presidi grêmio, participei de
clubes, disputei eleições. Além de canalizar minha
agressividade latente, essas atividades também fizeram
com que eu me socializasse com colegas de interesses
parecidos e até mesmo desenvolvesse liderança.
O eremita ranzinza tinha finalmente aprendido a
interagir com os humanos.
O Espelho dos Outros
A gente vai mudando ao longo da vida e nunca realmente
percebe.
O melhor jeito de isolar, quantificar e acompanhar nosso
processo de transição é através das pessoas que não
conheceram nosso eu antigo, só o novo. Elas são o
espelho que tornam nossa metamorfose visível.
Meus novos amigos, colegas de atividades, companheiros
de chapa no grêmio, redatores do jornal, falavam de mim
e eu não me reconhecia nas descrições. Esse não sou eu,
eu pensava.
Mas eles viam a pessoa na qual eu já havia me
transformado, enquanto eu ainda pensava na pessoa que eu
era.
Um dia, caiu a ficha.
Pelo ano anterior, finalmente me dei conta, eu tinha de
fato sido uma pessoa radicalmente diferente.
Mais importante, aquela era pessoa que eu realmente era.
Ou, melhor, dane-se quem eu realmente era: aquela era a
pessoa que eu queria ser.
Plágio de Mim Mesmo
Preciso reescrever o primeiro capítulo de um romance
dezenas de vezes até encontrar o tom exato. Quando
encontro, o resto do romance nada mais é do que plagiar
aquele primeiro capítulo, manter aquele tom, sustentar
aquele clima.
Eu, romancista da minha vida, fiz o mesmo.
Olhei pra trás e pensei: essa pessoa que eu fui nesse
último ano é quem eu realmente sou, é quem eu quero ser.
Como manter esse tom?
De certo modo, me tornei o ídolo de mim mesmo.
Algumas pessoas se perguntam: o que Jesus faria nessa
situação? Pois eu me perguntava: o que o Alexandre desse
ano passado faria?
E buscava estar à altura daquele padrão de comportamento
que eu mesmo, sem perceber, havia estabelecido.
Mesmo assim, muitas vezes, eu ainda resvalava em meus
velhos e agressivos hábitos. E os novos amigos
estranhavam, não me reconheciam: o que foi isso,
Alexandre? Você não é assim!
E eu ria por dentro: sou sim, mas não pra vocês.
Na prática, eram o termômetro da minha metamorfose.
Afinal, conheciam apenas o novo Alexandre. Ninguém
melhor do que eles para detectar (e estranhar) as
aparições esparsas do velho.
Nenhum dos Alexandres era perfeito, claro. O Alexandre
da escola internacional era sociável e palatável, um bom
político que ganhou todas as eleições que disputou mas,
também por isso, careta, vaselina e tão certinho quanto
jamais conseguirei ser.
E, assim, fui crescendo e, dentro de minhas limitações,
virei gente.
Mas nunca cansei de me reinventar.
Liberal Libertário Libertino
Muitos anos depois, eu era um responsável empresário da
internet, casado com uma bela mulher. Tinha carro
importado, era sócio de um clube de golfe e jogava tênis
duas vezes por semana. Nunca fui tão adulto.
Ao mesmo tempo, na calada da noite, eu me envolvia cada
vez mais com uma turma altamente subversiva. Sade,
Sacher-Masoch e Krafft-Ebbing. La Mettrie, Darwin e
Freud. Freire, Thoreau e Miller. Whitman, Kerouac e
Emerson. Minha mãe deveria ter me avisado para não andar
com maus elementos.
Finalmente, chutei o balde.
Não agüentava mais uma empresa que não dava dinheiro e
sugava toda minha força criativa. Decidi que não queria
mais emprego, não queria mais segurança.
Minha esposa e eu morávamos em um quarto na casa da
minha mãe. Eu dava aulas de inglês em um cursinho de
bairro e prestava consultoria de internet para grandes
empresas. Ela fazia mestrado de manhã e vendia roupa de
grife a noite. Com o tempo, fomos morar em nosso próprio
apartamentinho. Alugado, claro.
Vivíamos um casamento aberto, onde ambos éramos livres
para explorar novas fronteiras, buscar crescimento e
amadurecimento em outros parceiros e trazer essas
experiências para enriquecer nosso próprio
relacionamento.
Mais uma vez, nascia um novo Alexandre. Absolutamente
liberal, libertário e libertino.
Por um lado, mais contemplativo, plácido e tolerante do
que nunca. Por outro, nunca tão ativo, ousado e sensual.
Aproveitando oportunidades, expandindo limites,
experimentando a vida de modo geral. Menos estressado,
mas também menos sociável, e menos preocupado com tudo,
especialmente com a opinião dos outros.
Desamarrei meu ego do meu trabalho, de um modo que a
grande maioria dos homens não consegue nem conceber.
Dar aulas de inglês não era minha carreira. Eu não era
professor de inglês - como já havia sido, por exemplo,
empresário. Pela primeira vez na vida, eu era só
Alexandre e isso tinha a força libertadora de uma
revolução.
Não era nenhum emprego desafiador a altura de minhas
pretensas capacidades brilhantes, e isso também era uma
libertação. Ninguém esperava nada de mim. Minha chefa
não queria um intelectual inovador ou um manager
pró-ativo. Ela queria apenas que eu ensinasse o present
perfect como estava no livro e não criasse caso.
Percebi que eu não devia nada a ninguém. Bastava eu
trabalhar o suficiente para pagar minhas contas e eu
estaria livre o resto do tempo, pra flanar, vagar,
perambular, observar, experimentar, transar.
De vez em quando, alguém vinha me dizer que era uma pena
alguém brilhante como eu desperdiçar meus inúmeros
talentos dando só aulinhas de inglês. E eu respondia:
vai ver o meu brilhantismo está em perceber que existem
coisas mais importantes na vida do que trabalho,
carreira, segurança.
O Alexandre da Cláudia
No meio de tudo isso, apareceu Cláudia.
Primeiro, fomos amigos, depois amantes, então
amigos-e-amantes e também amantes-e-amigos. E
continuamos assim até hoje.
Ela foi a primeira pessoa que conheci depois de
completada essa última metamorfose. Pra ela, esse novo
Alexandre não era um novo Alexandre, era O Alexandre.
Pra os amigos mais antigos, para a família, eu estava
apenas surtando, dando um tempo, já já iria voltar ao
normal, que eu não poderia me desperdiçar assim, não
tinha nem emprego, nem plano de saúde, nada, isso não é
vida!
Mas, para Claúdia, o Alexandre era aquilo, sem tirar nem
pôr. Ela foi, e continua sendo, o parâmetro do sucesso
contínuo e continuado dessa minha nova jornada em
direção a sei lá onde.
Quando ela fala que sou a pessoa mais cuca-fresca que
conhece, eu fico feliz.
Essa é a pessoa que eu sou. Essa é a pessoa que eu sou
porque essa é pessoa que eu criei. Essa é a pessoa que
eu criei porque essa é a pessoa que eu queria ser. Essa
é a pessoa que eu queria ser porque sei bem que
naturalmente eu não sou assim.
Mas, por um ato consciente de vontade, essa pessoa
existe e sou eu.
Meus pais, que conheceram o adolescente complexado e
agressivo, nunca irão me enxergar assim, por mais que eu
mude.
A Cláudia não. Para ela, eu sou essa pessoa. E cada vez
que eu vejo essa pessoa refletida em seus olhos, sei que
alcancei uma grande vitória, daquelas decisivas,
verdadeiro Dia D interior.
E quando ela, uma mulher neurótica e complicada, diz que
está aprendendo comigo a cagar mais pra vida, a ser mais
livre, mais tranqüila e mais feliz, o que eu escuto é
não só que passei por mais uma etapa na minha jornada
como que ainda estou trazendo-a junto.
E quando ela observa que estou diferente, estressado,
com uma agressividade que não reconhece, que nunca me
ouviu falar daquele jeito, aí eu dou um passo atrás e
soam todos os alertas: é o velho Alexandre, Godzilla
tentando emergir, placas tectônicas se movendo no
subsolo, terremotos e maremotos na superfície.
Eu penso: o que o Alexandre da Cláudia faria numa hora
dessas? Como ele reagiria? Mais importante, como voltar
a ser o Alexandre da Cláudia?
Mantendo a Estrada
Esse livro é a história de minha jornada nessa estrada,
tentando descobrir quem eu realmente sou, acordar meu
potencial, me melhorar, mudar.
E, por enquanto, o meu objetivo balizador é continuar
reconhecível para Cláudia. Enquanto ela vir em mim o
Alexandre que conheceu e amou é porque não me afastei
demais da estrada que escolhi.
Em breve, a não ser que eu morra primeiro, espero
transcender esse Alexandre e me tornar uma nova pessoa.
Mas esse passo a frente Cláudia acompanharia ao vivo, no
nosso dia-a-dia.
Já um passo atrás, porém, em direção a um Alexandre que
não conheceu, ela perceberia na hora.
Postada no blog
em
Março de 2006
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Prisões
Introdução às Prisões
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