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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Patriotismo

O patriotismo é uma prisão.

A Vida é BelaNão há nada mais ridículo, mais amordaçante, mais emburrecedor do que amar seu próprio país, sua própria cidade, sua própria tribo. É o sentimento mais normal do mundo, claro, amar os seus em detrimento aos outros, e por isso mesmo é ainda mais insidioso. Pior, é visto como uma qualidade e ensinado nas escolas. Por todo o mundo, nesse exato momento, criancinhas estão sofrendo lavagem cerebral e aprendendo que os brasileiros são melhores que os argentinos, que a Indonésia é a melhor nação do mundo, que nós os angolanos somos fodas.

Você fica cego às qualidades dos outros e aos seus próprios defeitos. É patético. Passeiem por qualquer cidadeCentral do Brasil americana no 4 de julho e vocês vão entender. É claro que é fácil achar os americanos ridículos, é até covardia, comparado aos americanos, ninguém é patriota, mas ficamos igualzinhos quando somos patriotas. Nem falo de Copa do Mundo. Lembram, por exemplo, do episódio A Vida É Bela versus Central do Brasil? Não vou entrar no mérito da qualidade dos dois filmes, mas só em quão supremamente ridículo foi ver pessoas que eu considerava dignas de respeito malhando um filme, que muitas vezes nem tinham visto, só porque venceu Central do Brasil. Como todas as prisões citadas aqui, ela é nociva pois nos cega e nos acorrenta à idéias pequenas e comportamentos mesquinhos.
 
Dessa prisão, infelizmente, ainda não me soltei. Não totalmente, pelo menos isso. Já não penso mais em mim como brasileiro faz tempo, sou um ser humano pensante, membro da irmandade supranacional de seres humanos pensantes, emocionantes, transantes, amantes. Mas confesso que tenho recaídas de amor pelo Brasil que ainda me envergonham. Confesso que amo o Rio de Janeiro com um ardor que acho que um ser humano só deveria dedicar a um outro ser humano, nunca a algo inanimado. Mas estou me curando, chego lá.

Falam por aí que o brasileiro não é patriota, mas não é verdade. Se o argentino é ridículo por se achar foda, por achar que não precisa de ninguém e por se achar europeu, o brasileiro é só ligeiramente menos ridículo, pois também se acha foda, também acha que não precisa de ninguém, mas pelo menos não se acha europeu. Aliás, não sei o que o brasileiro se acha. Ele deve achar que o Brasil é uma ilha, pois poucas coisas ofendem mais o brasileiro médio do que ser chamado de latino.

Sabe como essa arrogância brasileira se manifesta de modo mais claro? Na mania que a gente tem de achar que todo mundo tem que saber que no Brasil se fala português, que um estrangeiro é burro e ignorante se não souber qual é a nossa capital.

Porra, você sabe qual a capital da Mongólia? Sabe que língua falam na Nigéria? Então, não fode. Por que um estrangeiro teria que saber isso da gente?

Eu sei que é difícil de encarar, mas existem pessoas no mundo que vivem suas vidas inteiras sem nunca nem ter ouvido falar de Brasil, ou sem nunca ter pensado no Brasil mais do que meio segundo, e que nem por isso são ignorantes. Seja sincero: quantas vezes na sua vida você pensou no Butão? Ou parou pra considerar que língua eles falam em Madagáscar?

Além da arrogância patriótica, o problema aqui é uma falácia lógica apavorantemente comum, da qual todos já fomos culpados, uma vez ou outra:

Achar que todo mundo tem obrigação de saber o que a gente sabe (porra, todo mundo tem que saber qual é a capital do Brasil, somos a oitava (sic) economia do mundo, um país importante!) enquanto que, sério, ninguém tem obrigação alguma de saber as besteirinhas que a gente não sabe (caralho, que importância tem saber a capital da Mongólia?! Ninguém precisa saber disso! Posso viver a vida inteira sem nunca a Mongólia nem surgir numa conversa!).

A resposta típica de quem não se conforma é dizer que não dá pra comparar Brasil ao Butão. Mas dá sim. Claro que dá. Para a maioria da população do mundo, o Brasil e o Butão (e tudo o que pode acontecer nesses dois países) são igualmente 100% indiferentes.

E tem mais: se você não sabe nada de Brasil, e dado que sabe, ou tem uma vaga idéia, que se fala espanhol na América Latina, chutar que aqui se fala espanhol também é uma suposição bem lógica e que só não é verdadeira por mero acaso histórico. Ninguém pode ou deve ser acusado de burro ou ignorante por causa disso.

Na verdade, depois vou escrever mais sobre a Prisão Patriotismo de modo geral. As partes seguintes desse post serão sobre essas “ignorâncias geográficas”.



 

Tem Vaca no Brasil?

Já viajei pro mundo todo e estudei em escolas internacionais, convivi muito com estrangeiros. Ignorância crassa mesmo eu só vi uma vez.

Eu estava em Cornell, uma das melhores universidades do mundo, onde todos, teoricamente, são meio geninhos. E uma amiga de uma amiga, gringérrima, vem me perguntar se tem leite no Brasil.

Suspirei e adotei meu tom de voz didático: olha só, ensinei, animais como gato, galinha, porco, cachorro, vaca, cabra, etc, foram domesticados pelo homem milhares de anos atrás e estão disseminados pelo mundo. Então, amanhã, se você tiver dúvidas se têm gato na China, eu respondo: tem. Será que existe porco na Namíbia? Existe, pode ficar certa. E galinhas na Malásia? Com certeza.

Ela ficou meio sem graça e explicou: na verdade, ela queria saber mesmo era se havia sorvete no Brasil, mas achou, sei lá, que era demais já sair perguntando isso (ficou implícito: vai ver eu nem saberia o que era um sorvete!) e por isso ia perguntar primeiro se tinha leite no Brasil, mas também achou que era demais, e decidiu começar pelo mais básico: tem vaca no Brasil?

Eu sei, eu sei. É triste.

Minha amiga brasileira que estava estudando em Cornell veio rápido em auxílio da americana e explicou que, naquele dia mesmo, elas tinham descoberto, conversando com uma dominicana que, lá, ar condicionado era coisa muito rara. A gente nunca sabe o que tem ou não tem nos países, Alexandre, disse minha amiga, já defendendo a cavalgadura.

Concordo. Se ela tivesse perguntado se existia ar condicionado no Brasil, não haveria nenhum problema. Eu responderia sim e pronto. É uma pergunta válida. Ar condicionado é tecnologia, o Brasil é um país pobre, vai ver não existia mesmo, ela não tinha como saber.

O problema da pergunta era não ignorância sobre o Brasil, pois ela não tinha obrigação alguma de saber nada sobre o Brasil.

O problema era a ignorância sobre as dinâmicas mais básicas da raça humana.

Apropriação Indevida

“Aiaiaiaiaiai! O que voce quer dizer com isso? que o nosso pais com as dimensoes continetais (sic) que tem, deve passart (sic) desapercebido no cenario das grandes naçoes? Te da prazer saber que é a capital da prostituição e do oba oba? Por que temos que abrir mao da identiddade (sic... ah, desisto) linguistica? Aquela mewrdinha chamada Portugal, por incrivel que pareça estendeu seus dominios até além do oriente. Mas por que voce acha que o patriotismo aprisiona? todos os povos sentem orgulhos quando ganham medalha de ouro nas olimpiadas e disputam egemonias em varios esportes. Patriotismo sim, por que nao? Afinal de contas voce e louco ou vira casaca? So os filhos da puta do tio Sam podem ser patriotas?”

Esse email que recebi é um exemplo representativo do patriotismo enquanto prisão.

Pra começar, ele vem me falar das “dimensões continentais” do Brasil, como se isso quisesse dizer alguma coisa, como se mero tamanho fosse vantagem. Bem, a Índia e a China também têm dimensões continentais. Alguém sabe o nome de um grande atleta chinês? Ou de um escritor indiano? (O Rushdie é inglês, sua besta!)

Espremam suas cabeças: os fatos que vocês sabem sobre a Índia e a China, juntos, devem ser menos do que sabem sobre a vida particular da Adriana Galisteu, só de folhear a Contigo no consultório do dentista. E olha que esses países, além de ter dimensões maiores que o Brasil, ainda tem populações gigantescas e histórias ancestrais. E se nós mal sabemos qualquer coisa sobre esses países, com que cara-de-pau vamos exigir que o resto do mundo saiba algo sobre o Brasil?

Não entendi o comentário sobre identidade lingüística, mas a façanha de Portugal nos séculos XV e XVI realmente foi incrível. Sou historiador, esse é um dos meus períodos prediletos, sei bem do que estou falando. Mas quem fez isso não fomos nós, não temos nada do que nos orgulhar. Aqueles homens estão mortos. Só restam aos portugueses de hoje ler Camões e João de Barros e chorar pitangas.

Mas, pergunta um leitor, não posso sentir orgulho das medalhas de ouro que o Brasil ganha? Poder até pode, só não merece.

Então quer dizer que a Luiza Parente dedica toda a sua vida à Ginástica Olímpica, faz todo o tipo de sacrifício pra ir às Olimpíadas e supera todas as barreiras pra ganhar o Ouro, tudo isso só para, no dia seguinte, patriotas por todo o Brasil se orgulharem: “Ganhamos o Ouro em Atlanta!”

Ganhamos, é? Nós quem? Onde estava você quando a Luiza Parente treinava oito horas por dia? Você colaborou em alguma coisa? Levou lanchinho pra ela no intervalo? Emprestou dinheiro quando ela precisou? Fez vaquinha pra pagar a passagem, pelo menos?

Ah, então não fode.

Outra: ganhamos de 3 a 1 do Vasco ontem. E eu pergunto: nós quem, cara-pálida? Você estava em campo? Você estava quiçá no banco? Você colaborou em alguma ínfima parte que seja da vitória? Então que porra é essa de “ganhamos de 3 a 1 do Vasco”? Quem ganhou de 3 a 1 do Vasco foram aqueles onze caras em campo, você não teve nada a ver com isso.

Ou, pior ainda: o Brasil ganhou a Copa do Mundo. O Brasil, cara! O Brasil! Você não liga pro Brasil?

Leva a mal não, mas o Brasil não cabe num estádio de futebol. Quem ganhou não foi o Brasil, quem ganhou foi uma equipe. Nem eu, nem você e nem o Brasil teve nada a ver com isso. Aliás, se você levar em conta como esse país é ingrato com seus atletas, é mais provável de terem ganho apesar do Brasil.

Se fosse uma guerra, seria ainda assim ridículo, mas haveria um fundo de verdade no ufanismo babaca. E aí, soube que tomamos Buenos Aires ontem? Que tomamos, rapaz?! Você por acaso estava lá? Fez alguma coisa? E o outro poderia retrucar: bem, sou contribuinte, algumas daquelas balas fui eu que paguei...

O Isaac Asimov, um dos poucos homens que admiro, conta uma história interessante. Ele era judeu e, uma vez, um de seus amigos judeus veio dizer, em tom de vitoriosa confidência, que os judeus eram zero vírgula alguma coisa da humanidade mas que tinham ganho trinta e tantos por cento dos Prêmios Nobel. Não é incrível? E ficou rindo sozinho, que nem um idiota.

O Asimov ouviu aquilo, pensou e respondeu: e você sabia que os judeus são também zero vírgula alguma coisa da população dos Estados Unidos, mas quase quarenta por cento dos gigolôs? O amigo ficou chocado. Sério? Sim, disse o Asimov. Faz você sentir vergonha de ser judeu, não é? E o outro: claro que não, não fui eu que fiz nada disso.

Bem, responde Asimov, esse número eu inventei agora, mas se você não sente vergonha pelas coisas ruins que não fez, por que sente orgulho das coisas boas que também não fez? Aqueles Prêmios Nobel não foi você que ganhou.

Por trás de todo patriotismo cego e ufanista estão pessoas pequenas, sem conquistas próprias das quais se orgulhar, tentando se apropriar indevidamente dos feitos dos outros. Pelé dedicou seu milésimo gol às criancinhas do Brasil, mas não vi nenhuma delas em campo.

Ter orgulho dos feitos dos outros é o cúmulo da babaquice. Sejam os outros a seleção brasileira, a Luiza Parente ou os navegadores portugueses do século XVI.

Por fim, meu amiguinho pergunta se sou louco ou vira-casaca (ora bolas, ambos!) e se são só os filhos da puta do Tio Sam que podem ser patriotas. Claro que não, mas, convenhamos, nessa conversa de patriotismo, eles são hors-concours.

É até covardia.

Ninguém Olha para Baixo

Uma outra amiga e leitora, essa racional, escreveu o seguinte:

“Que alguém lá do outro lado do mundo não saiba o que é o Brasil, onde fica, a língua falada nele e sua capital é compreensível. Nós também não sabemos muita coisa deles. Mas me irrita, sim, ver certos narizes arrogantes, como os norte-americanos, por exemplo, desconhecerem pelo menos duas dessas informações, estando no mesmo continente. Quanto ao patriotismo doentio, também acho uma prisão e um passo para conflitos, guerras e outras burrices semelhantes.”


Ana, entendo que é frustrante, mas você sabe dizer a capital e a língua falada em cada um dos países das Américas? Eu duvido. Qual a língua falada em Belize, rápido? Qual a capital de Honduras? Outro dia, em um programa de perguntas, uma vestibulanda errou a seguinte múltipla escolha: qual dessas capitais está mais próxima de Brasília: Lima, Berlim ou Moscou. Ela escolheu Berlim.

A dura verdade é que ninguém se preocupa com quem está embaixo. Sempre olhamos para quem está acima. Os noticiários norte-americanos só falam de si mesmos (e, algumas vezes, da Europa) porque os caras são os donos do mundo. Os noticiários da Europa falam dos americanos (porque eles são os donos do mundo), de si mesmos e, dependendo de cada país, de suas antigas colônias. E olhe lá.

Eu adoraria poder criticar essa política arrogante, mas aí eu abro um jornal brasileiro e, sério, não vou nem falar da África ou da Ásia, pois é covardia, mas não vejo notícias rotineiras nem sobre países do Mercosul, nossos parceiros comerciais mais próximos, como Chile, Uruguai ou Paraguai. Nada. Só em época de eleição ou revolução. Via de regra, um leitor desatento de qualquer seção internacional de jornal brasileiro acharia que fazemos fronteira só com a Argentina. Os outros ficam em uma galáxia distante de onde, ocasionalmente, chegam notícias.

Em suma, nós, brasileiros, fazemos igualzinho aos americanos, temos o mesmo supremo desinteresse por quem está abaixo. Muda só quem está por baixo e por cima de quem.

Na verdade, a única coisa que me irrita mesmo é quando a ignorância é incompetência profissional. Quem nunca leu um gibi, ou viu algum filme, em que o herói vinha para o Brasil e, pra isso, treinava seu espanhol? Ou chegava aqui e já ia falando com o Capitán Hernandéz?

Para o cidadão mundial comum, é até uma suposição bastante lógica achar que no Brasil se fala espanhol. Mas a anta que vai escrever um filme, livro, episódio de seriado, o que seja, que se passa no Brasil tem obrigação de, pelo menos, investir cinco minutos lendo uma enciclopédia pra não falar besteira.

É o mínimo.

Reserva de Mercado

Outro dia, me veio uma cavalgadura defender boicote aos produtos americanos por causa da guerra do Bush. E eu perguntei: foi a Coca-Cola que invadiu o Iraque? Foi o McDonald’s que inventou as tais armas químicas que não existem? Essas empresas têm alguma coisa a ver com as decisões criminosas do Bush? Se for por isso, vou parar de tomar Guaraná Antarctica em repudio a essa elevadíssima taxa de juros do Governo Lula.

Esperem, que fica melhor. A mesma cavalgadura, militante doente de esquerda, disse que acabou decidindo parar o boicote porque, num mundo globalizado como o nosso, essas iniciativas podem acabar saindo pela culatra. Afinal, quantas fábricas a Coca-Cola têm no Brasil? Se as vendas no Brasil caírem, vão ser os empregados brasileiros que vão acabar demitidos e os lucros da Coca-Cola não iriam cair nem meio por cento.

(Vamos fingir que ela não desistiu do boicote porque, na verdade, não agüenta viver sem Coca Light, que eu conheço bem a peça)

Eu perguntei: mas você, militante da esquerda, pelos direitos dos trabalhadores, trabalhadores do mundo, uni-vos, etc etc, não se importa com os empregos dos operários americanos? Ela ficou meio confusa, coitadinha.

Esse patriotismo nós contra eles eu nunca entendi. Numa guerra, vá lá, você comemora mil mortes inimigas e chora uma sua, e mesmo assim, me parece profundamente hipócrita e cretino.

Mas essa esquerda nacionalista me parece duplamente perversa. Antigamente, os fascistas é que eram nacionalistas, a esquerda era supranacional, trabalhador é trabalhador, não importa de onde. O faxineiro da fábrica da Coca-Cola em Atlanta é tão trabalhador (ou seja, tão fudido) quanto o faxineiro da fábrica da Coca-Cola na Baixada Fluminense.

Hoje, não. Parece que a esquerda perdeu uma das suas poucas características redentoras: se os lucros da Coca-Cola caírem e demitirem milhares de trabalhadores americanos, que se fodam, esses ianques imperialistas que ganham salário mínimo! (É, tem gente nos Estados Unidos que ganha salário mínimo) Se forem brasileiros, oh, meu deus, que horror! É a globalização! É a globalização! Esses cachorros!

Memórias de um Sargento de Milícias MANUEL ANTONIO DE ALMEIDASou contra qualquer tipo de reserva de mercado.

Sou contra, por exemplo, estudar José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo ou Manuel Antônio de Almeida. São autores menores, absolutamente menores, totalmente medíocres. Seus livros são literatura somente na mais ampla acepção do termo e olhe lá. Os três têm seu lá imenso valor histórico, ajudaram a criar nossa literatura, desbravaram o campo, etc etc etc, mas Literatura, com L maiúsculo, é muito maior do que o nosso pobre  Memórias de um Sargento de Milícias.

Não é que eu não goste desses autores. Gosto muito e já li grande parte de suas obras. Mas só porque sou historiador e carioca doente – tentando fugir dessa prisão, lembram? Os romances românticos urbanos, como Senhora, A Moreninha, O Moço Loiro, A Pata da Gazela, Diva, etc, são verdadeiras viagens por um Rio de Janeiro há muito desaparecido.

Mas que não são literatura, não são. Se o valor deles é apenas ter sido brasileiros, então, desculpem-me, mas isso não é valor algum: é acidente geográfico. Se o valor deles é como objeto de estudo do romantismo, então é melhor estudar o romantismo dos grandes Senhora JOSE DE ALENCARmestres e não dos praticantes medíocres.

Pensei em fazer um mestrado em Literatura, mas vi que todas as cadeiras eram em Literatura Brasileira. Quer dizer que só posso estudar nossa literatura? Não é nem que não existam grandes mestres entre nós (Clarice, Rosa, Machado, etc) mas por que me restringir a eles quando tenho o mundo?

Por que posso estudar o naturalismo de Aluísio de Azevedo, mas não o de Zola? Só por que um brasileiro e o outro não? Isso é pequeno demais, mesquinho demais, não consigo pensar assim.

Não consigo coadunar.

Mordendo a Mão que me Alimenta

Por fim, uma recomendação de leitura: tudo o que eu sei e jamais vou precisar saber sobre patriotismo está em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, do Freud. O livro não fala hora nenhuma em patriotismo mas explica tudo sobre como o ser humano se emburrece e se barbariza quando em grupo. Aliás, pra quem não conhece o Freud cientista social (de O Futuro de uma Ilusão, Moisés e o Monoteísmo, Totem e Tabu, Mal Estar da Civilização, etc), saibam que ele dá banho no Freud psicanalista.

Escrevendo sobre o tribalismo (que é o patriotismo sem exército), Freud me fez perceber que não ser patriota significa, de certo modo, ser egoísta. Afinal, você nasce em um grupo, é amado e amparado pelos membros desse grupo e, muitas vezes, eles até protegem sua vida contra a violência de outros grupos.

Moisés e o Monoteísmo SIGMUND FREUDSe você, em um dado momento, passar a defender igualdade entre os povos, que todos devemos nos amar igualmente, etc, você estará na verdade deixando de oferecer tratamento diferenciado aos membros do seu grupo – tratamento esse do qual você desfrutou e muito, tratamento esse que o seu grupo tem o direito de esperar de você.

Ou seja, o não-patriota teria que fugir de sua tribo entre pedradas e viver como um pária pelo resto dos seus dias.

Será que as coisas mudaram?

Um amigo, que sempre soube que eu era contra o casamento, ficou muito surpreso quando eu casei, mas, homem educado que é, não falou nada. Muito tempo depois, lendo o meu blog, descobriu que eu vivia um casamento aberto e me ligou, rindo: seu filho da puta, não é que você mudou de idéia, como eu achava, você mudou foi a definição de casamento!

Pois eu defendo e muito, defenderia com a própria vida, a noção de que temos que proteger o que é nosso. Eu só defino nosso de um modo um pouquinho diferente. O "nosso" não é o brasileiro, o carioca ou o latino-americano. O nosso é o humano. Sou grande demais para o Brasil. Tudo o que é humano me é familiar. Tudo o que é humano eu amo. Quando quiserem boicotar os filmes de Marte ou os fast-foods de Júpiter, podem contar comigo.

Mal-Estar na Civilização, O SIGMUND FREUD Freud está certo. Todos os nossos instintos, toda a nossa educação, todas as nossas influências pessoais e culturais nos impelem a dar tratamento diferenciado ao grupo que nos protegeu, seja ele a família ou a pátria. Ir contra isso requer muita força de vontade, ou muito egoísmo. Ou ambos.

Não quero saber. Apedrejo a mão que me afaga. Escarro na boca que me beija. Sem rancor. Com método. Por amor transbordante à humanidade.

Mas, se chegar perto, eu mordo.

Nacionalismo Versus Patriotismo

O amigo Pedro Ernesto, editor do excelente Guia de Arquitetura do SobreSites, fez um comentário com várias considerações. O texto é bem grande, lúcido e inteligente e vale a pena ser lido. Cito só alguns trechos:

"Acho que você está confundindo patriotismo com nacionalismo. Patriotismo é um sentimento de amor pelo seu país (qual o problema em amar o nosso próprio país?) Nacionalismo é um sentimento radical e até doentio de achar que o seu país é o único e verdadeiro que existe. o nacionalismo é que embota e obstrui a razão humana, entregando os homens a paixões cegas e doentias em prol de uma nação "superior" às outras. Existe algo mais absurdo do que o nacionalismo americano? Esse sentimento exacerbado aumentou consideravelmente depois do 11 de Setembro. Eles vivem nequele país como se não existissem quaisquer outros no mundo. Cantam ardorosamente seu hino, com a mão sobre o peito estufado, o semblante carregado de orgulho e os olhos virados para a bandeira indiferentes aos problemas que existem em outras partes do mundo. Aliás, a forma como eles cantam o hino parece uma espécie de auto-sugestão coletiva, louvando exageradamente seu país em detrimento dos outros."

Pedro, valeu por ler e opinar. É muito difícil distinguir patriotismo de nacionalismo. Quase sempre, patriotismo é o nosso, nacionalismo é o dos outros.

Não tem muito como fugir: amar mais o Brasil é amar menos o resto do mundo.

Pense em termos de família: meu irmão espera, da minha parte, um tratamento diferenciado das outras pessoas. Ele iria ficar revoltado se viesse me pedir um favor e eu o tratasse como se ele fosse um qualquer. Ele não é um qualquer, ele é meu irmão. Mas, na prática, dar vantagens comparativas aos meus irmãos necessariamente significa tratar os outros mais duramente.

Substitua irmão por compatriota e veja como tudo se encaixa. Proteger um é desproteger o outro. É só isso, por exemplo, que os americanos estão fazendo com o nosso suco de laranja e com nosso aço: estão protegendo seus irmãos. Claro que isso fode os nossos irmãos daqui que vendem aço e laranja, mas isso é outra história.

Lembro da época da hiperinflação? Eu ia numa loja e perguntava: tem acréscimo no cartão? E o solícito vendedor: não, não, nunca, imagina!, isso é contra a lei, jamais em tempo algum, etc etc. Eu ouvia tudo aquilo entendiado. Algumas vezes esse discurso podia ser bem longo. Aí, perguntava: e à vista, tem desconto? A resposta, muitas vezes, era dada sem nem cara-de-pau, só ignorância mesmo: tem, claro, 10%.

Dá no mesmo, Pedro. Se você se considera um privilegiado por morar no Brasil, logicamente considera alguém que nasce e mora na China um desprivilegiado, ou um menos privilegiado.
A Tapas e Pontapés, por DIOGO MAINARDI

Defender a Brasilidade

Ainda o comentário do Pedro Ernesto:

"Pois é, infelizmente nós, brasileiros, somos um pouco elitistas, apesar dos muitos esforços que se fizeram no passado por conta dos nossos escritores, pintores, intelectuais que lutaram por uma cultura de brasilidade (embora esse termo seja mais abstrato do que real). Existe algo mais elitista do que um artigo do Diogo Mainardi? Como alguém, morando há tantos anos em Veneza, pode dar tantos palpites sobre a realidade brasileira, viajando algumas vezes para cá e pesquisando simplesmente pela internet? Será um novo Paulo Francis italiano?"

Diogo MainardiPedro, me explica o que é lutar por uma cultura de brasilidade. Ou, melhor ainda, o que é não lutar por uma cultura de brasilidade. Quem foi incluído e excluído desse conceito? O Diogo Mainardi, por exemplo, escreve romances. Em que sentido um romance dele é menos brasileiro do que o romance de um piauiense que escreve no meio do sertão? Como se mede essas coisas? Será que um é mais elitista, o outro mais popular? Como assim?Contra o Brasil DIOGO MAINARDI

O Brasil é tudo isso. O Brasil é o autor piauiense do sertão, colocando as tradições da sua terra no papel, e o Brasil é o autor paulista morando em Veneza, erudito e cosmopolita. Bons ou maus escritores, onde quer que morem, têm tanto direito quanto eu e você de dar pitaco sobre o Brasil e sobre tudo o que é brasileiro. Não adianta ficarmos pensando que só o folclore é tipicamente brasileiro. A nova cultura urbana das grandes cidades, pra bem ou pra mal, americanizada e cagando pra amazônia, é tão brasileira quanto o boi-bumbá, tão válida quanto o carnaval de rua de Olinda.

Considero o Francis e o Mainardi dois grandes escritores. E morar fora do Brasil
Malthus DIOGO MAINARDIpermitiu que eles observassem e pensassem o Brasil melhor até do que nós, que estamos aqui. Enquanto acho que o Mainardi, de fato, desistiu do Brasil, como eu estou desistindo, o Francis era um patriota e, quando você lê os textos dele, você vê um amor enorme pelo Brasil, uma enorme preocupação com o futuro do país e como melhorá-lo. Realmente, você não vai ver nada disso nem em mim e nem no Mainardi. Aliás, se me juntarem a esses dois pra ser jogado na fogueira, vai ser ótimo. Se eu tiver que queimar, que seja em excelente companhia.

Eu e Mim Mesmo

Por fim, ainda o Pedro:

"A natureza tem muito a nos ensinar: por exemplo, aqui no Brasil existem aves que migram periodicamente das regiões frias do Canadá e EUA quando é inverno por lá. Ou seja, para elas o planeta é um só, não existem fronteiras, nem passaporte, nem visto de entrada ou coisa parecida. Elas simplesmente voam e vão para o lugar de acordo com o seu instinto de sobrevivência. Mas nós, seres humanos, somos burocráticos por natureza. Temos que seguir certas regras, normas e leis, se quisermos conviver em relativa harmonia. Na verdade, se soubéssemos respeitar uns aos outros não haveria necessidade de tais artifícios, apenas as leis divinas nos bastariam para isso."

Não há problema algum, per se, em se amar aos seus: o seu país, a sua família, o que quer que seja seu. Não estou cagando regra, nem estou muito interessado no que as outras pessoas vão fazer.

Estou falando, sempre, de mim mesmo: eu acho que o patriotismo é uma prisão pra mim. O patriotismo, esse sentimento de amor ao chão, ao Brasil, ao Rio, é algo negativo na minha vida, é algo que me impede de olhar mais longe, que me impede de ter todas experiências. E algo que quero eliminar da minha vida, como uma cobra elimina uma pele velha que não serve mais.

Você falou nos pássaros. Foi um excelente exemplo. Eu sou assim. Se não sou, quero vir a ser. Estou lutando pra ser. Um ser não-burocrático. Sem amarras. Não reconheço nem mesmo a lei divina e não respeito a lei dos homens. Reconheço somente a força bruta. Se quiser que eu faça ou não faça alguma coisa, só colocando uma arma na minha cara. Sigo a lei e a tradição por conveniência, enquanto me apetece.

Talvez, em alguns momentos do meu texto, escape algum "vocês têm que", ou algo parecido, mas é pura distração, e serão todos limados quando o livro for publicado. Alguns me dizem arrogante por só falar de mim, e eu acho que arrogantes são eles por querer impor aos outros o que fazer. Não sei dos outros, nem quero saber. O objetivo desse texto é tentar expor o meu caminho filosófico pessoal, as descobertas que eu fiz, e como estou tentando aplicá-las na minha vida.

A graça desse blog é eu falar de mim, vocês falarem de vocês e assim irmos construindo um diálogo.

Será o Brasil uma Merda?

É muito ruim quando concordam com você pelas razões erradas. Muita gente veio me dizer que eu estava soterrado de razão porque ou 1) o Brasil é mesmo uma merda, ou 2) porque o Brasil tem muitos problemas, blá blá blá. Não é bem por aí. Não é nada por aí. Eu não amo (ou eu não quero deixar de amar o Brasil) porque ele tem defeitos. Isso implicaria em amar mais alguma outra nação que tivesse menos defeitos.

A questão não é se somos bons ou ruins ou se temos qualidades ou dificuldades. A questão é não nos deixarmos aprisionar por isso. Nem que fôssemos comprovadamente o melhor país do mundo. E daí? Não faz diferença.

Essa é a prisão dos americanos. Mais do que qualquer povo, eles tem fé (e tem muita evidência empírica pra apoiar essa afirmação) de que são a maior nação de todos os tempos, um farol para o mundo, um exemplo para os que ainda não chegaram lá. Isso, naturalmente, os desobriga de olhar para fora, de buscar exemplos em outros lugares, de entender o outro. Eles já estão no topo da cadeia alimentar, pra que se preocupar?

Então, pelo contrário, se o Brasil fosse um país "melhor", mais rico, mais igualitário, mais justo, aí mesmo é que o meu grito seria mais necessário. Aí mesmo é que eu teria que ir pra uma praça pública, subir num caixote e tentar convencer os passantes a amar menos o Brasil.

A Imoralidade Brasileira

Tenho um amigo mórmon. Ele é brasileiro, estudou comigo na Escola Americana, foi pra Utah fazer universidade, casou com uma gringa e ficou por lá. Outro dia, encontrei os dois no centro. Estavam ambos a passeio no Brasil, ela tinha vindo conhecer a terra do marido.

Perguntei a ele o que ela estava achando e ele me veio com essa:

É, ela gostou, mas encurtamos um pouco a viagem, estamos voltando mais cedo, ela não suportou tanta... E ele olhou em volta... imoralidade, sabe como é? Ela é muito religiosa...

Eu fiquei feliz de ver como ela compreendia bem a realidade brasileira e concordei, empolgado:

Sua esposa está coberta de razão! O que fode o Brasil é essa imoralidade. Ter que ver criança esmolando pela rua, carro bloqueando cruzamento, guarda recebendo propina, congresso seis meses por ano de recesso, é realmente insuportável. A única coisa que salva, pelo menos aqui no Rio, é ver a mulherada de fio dental na praia, os decotes, os rebolados, esse clima de sexo no ar!

E o meu amigo corrigiu:

Não, Alexandre, você não entendeu. Somos religiosos. Esse negócio de injustiça, desigualdade, pobreza, isso não nos incomoda. Deus quis assim, no outro mundo, tudo será corrigido. O que nos incomoda mesmo são essas bundas todas de fora que não estão machucando ninguém.

Ah, então tá.



Raízes

Por fim, minha grande amiga, Loba Má, escreveu o seguinte:

“pode até ser babaquice ter orgulho de um feito que merecidamente não é seu. mas é importante ter algum tipo de sentimento de qualquer coisa que saia da sua terra porque você a ama, e quer pertencer a ela, fazer parte da sua história. sem isso, fica-se muito sem raiz.”

Mas é justamente isso: quer algo pior que raiz? Raiz é o que nos prende ao solo e nos impede de voar. Essa necessidade de amar o país, de pertencer a ele, de fazer parte de sua história, essas nossas raízes, isso é o que nos impede de alçar vôo e sobrevoar o mundo. Eu ainda tenho alguns amores residuais pelo Brasil, muitos pelo Rio, mas confesso que essa necessidade de amar e de fazer parte já não tenho faz tempo. Não quero amar nada, não quero pertencer a nada, não quero fazer parte de nenhuma história que não seja a minha.

Quero ser livre e só.

Leia agora o que os meus leitores têm a dizer sobre isso.

Postada no blog entre Julho 24 e Agosto 9, 2003

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As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 

 

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Mulher de Um Homem Só - Download

É possível homem e mulher serem apenas amigos? Carla, recém-casada com Murilo, precisa lidar com a incômoda proximidade de Júlia, melhor amiga de seu marido desde a infância.
 

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Antes de se comprometer, leia um trecho ou a apresentação do romance.

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Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.