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  Alex Castro
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As Prisões: Patriotismo II

Necessidade de Brasil

É muito triste não ter uma pátria, mas amá-la é mais triste ainda.

A pátria é importante como trampolim, um ponto de apoio de onde se lançar para o mundo. Sem uma pátria como alavanca, o ser humano fica perdido, sem identidade, apátrida. Mas, quem se deixa prender muito ao chão, jamais alça vôo. Sempre galinhas, voando aos pulinhos, nunca águias.

Alguns idiotas vêm me dizer que sou anti-brasileiro e pró-americano. Que besteira, meu deus. Só me libertei do Brasil pois sou brasileiro. Se fosse japonês, teria me libertado do Japão. E quando alguém me aponta como os americanos são patrióticos, eu pergunto: "Olhem pra eles. É assim que vocês querem ser? Eu, não."

O Brasil ainda é muito preso ao Brasil. Em poucos outros lugares do mundo se fala tanto de "nossa imagem no exterior" ou "nossa imagem lá fora". Os ingleses não estão se importanto com a sua imagem "lá fora". Os nigerianos ou uruguaios também não. Mas, para um brasileiro, essa questão é fundamental.

Como escreveu Sérgio Rodrigues, na NoMínimo:

"[Minha] sugestão é simples: banimento completo e imediato da expressão "nossa imagem no exterior" - ou, o que é pior, "nossa imagem lá fora" - de todas as conversas, discursos, pesquisas, artigos na imprensa. A imagem do Brasil no exterior não é, eis a verdade. Não passa de um vazio, um borrão, uma cartela do teste de Rorschach em que se fundem 90% de ignorância e desinteresse com 10% de preconceitos e mitos, como ocorre com a imagem de qualquer país. E onde cada pessoa projeta os contornos de sua própria mente e vê o que quiser.

Sim, lamento informar que o assunto que volta e meia nos mobiliza não tem a menor importância para ninguém. Imagine-se um equatoriano que perdesse o sono matutando a quantas anda a imagem do Equador diante, sei lá, dos brasileiros. Seria um pobre-diabo, uma figura patética, não seria? Pois o fato é que a "imagem do Equador no Brasil" é um não-assunto absoluto, monumental, monolítico. A "imagem do Brasil no exterior" é a mesma coisa."

Não há como voar com os pés plantados no chão. Eu quero meus pés firmemente plantados nas nuvens.

Por isso, me libertei do Brasil.

Mio Paese

A palavra país veio do italiano paese. Mas, no original, paese não quer dizer somente país ou pátria. Mio paese também quer dizer minha vila, minha cidade, meu bairro. Onde quer que eu me sinta em casa.

Um americano morando no Rio uma vez me contou que ficou no ponto por horas esperando o ônibus parar e nada. Até que percebeu que, aqui no Brasil, você precisa chamar o ônibus, senão ele não pára na ponto.

Ser estrangeiro é isso. É ficar horas no ponto porque você não conhece uma regrinha boba. Algo que nunca aconteceria no seu paese.

Pois o mio paese é onde sei todas as regras. Mio paese é aquele lugar onde eu sei me virar. Como eu escrevi no meu romance, pombo de cidade grande não morre atropelado.

Até hoje, não me acostumei muito com essas pátrias gigantescas. Os gregos não acreditariam nelas. Para eles, a democracia só funcionaria em pequenas cidades-estado, onde as pessoas se conhecessem. Em entidades maiores, as pessoas perderiam contato umas com as outras e não formariam uma identidade única. Pensem nisso.

Pensem na identidade "brasileira". Não é incrível o Brasil ser uma unidade política e a América Hispânica ter se esfacelado? Afinal, um acreano tem tanto a ver com um gaúcho quanto um chileno e um colombiano. Imaginem, pior ainda, aqueles enormes países, com diferentes nacionalidades, etnias e línguas.

No passaporte, sou brasileiro, mas seria muita presunção minha me pensar brasileiro. Não conheço o Brasil. Não sei como as coisas funcionam no Amapá. Não imagino como seja a realidade do Mato Grosso. Sou carioca, e olhe lá. Também há lugares na cidade do Rio onde não sei como entrar ou me comportar. Outro dia, fui a uma festa infantil no Méier e eram tantas regras e costumes desconhecidos pra mim que parecia algum ritual religioso hindu.

Se for para ser sincero, mio paese é a zona sul e oeste do Rio de Janeiro. No semi-círculo que vai da Tijuca, passando pelo centro, zona sul, Barra e Jacarepaguá, eu sei me virar. Conheço a fauna, falo a língua, domino as regras. Mio paese.

Todo mundo precisa ter seu paese. Mas alguns não têm.

Os Apátridas

Estudei na Escola Americana do Rio de Janeiro, onde conheci muita gente sem país. Filhos de diplomatas ou executivos de multinacionais, crianças que passaram suas vidas inteiras pulando de continente em continente, sem nunca se firmar.

Para essas pessoas, a construção de uma identidade nacional era um problema muito mais palpável e urgente do que os meus leitores monoglotas xenófobos jamais compreenderão.

Estudo de Caso: Victoria, A Americana que Nunca Morou nos EUA

Victoria era americana, sem nunca ter morado nos Estados Unidos. Conhecia só de passar as férias na casa dos avós. Sua vida tinha sido seguir o pai, executivo de multinacional, por meia dúzia de países diferentes.

Entretanto, sua identidade cultural era firmemente americana. Sempre estudou em escolas americanas nos países por onde passou, falava inglês em casa e (o mais importante) se considerava americana.

Quando a conheci, ela morava no Rio há seis anos e falava um português sofrível. Outros colegas estrangeiros, mais abertos ao mundo à sua volta e ainda mais nessa idade, já estavam falando português como cariocas depois de apenas seis meses.

Além disso, todos as outras crianças estrangeiras que tinham passado tanto tempo assim no Rio se consideravam cariocas da gema. Afinal, quando se tem 14 anos, seis anos é quase metade da sua vida, tempo o suficiente para a construção de uma forte identificação com o local e com os nativos.

Mas Victoria não era aberta ao mundo à sua volta. Defendia sua "americanidade" com zelo, chegando até mesmo a adotar posturas políticas altamente reacionárias, ainda mais pra uma adolescente. Parecia saber que as bases de sua identidade cultural eram frágeis. Qualquer abertura maior para influências estrangeiras e poderia perder sua "americanidade".

Provavelmente, tinha razão. Mas teria sido uma boa troca. Ela passou por um dos ambientes mais culturamente ricos e cosmopolitas que já vi e foi como se tivesse estudado em uma escola de subúrbio do Wisconsin. Absorveu muito pouco.

Em troca, ganhou seu paese. Naquela época, não era americana, todo seu conhecimento de Estados Unidos era de segunda mão. Hoje, é. Terminou o high school, foi fazer faculdade lá e tornou-se, finalmente, uma true blue American.

Estudo de Caso: O Homem sem Pátria

A infância de Mark foi bem semelhante à de Victoria. Ele era filho de diplomata, ela de executivo. Assim como Victoria, ele foi criado como americano e cresceu achando que os Estados Unidos eram sua pátria. Terminou o high school em uma escola internacional e, como Victoria, foi fazer faculdade no Alabama.

Aqui, a história muda. Mark só agüentou quatro anos na "sua terra". Tornou-se professor de escolas internacionais e, hoje, passa sua vida adulta como passou a infância, pulando de país em país.

Conversamos muito sobre isso. Ele se achava americano, até morar nos Estados Unidos. Levou um choque: essa aqui não é a minha pátria. Não tenho nada a ver com essas pessoas. Nem conheço esse lugar. Tenho 18 anos e estou morando aqui pela primeira vez.

Vejam vocês: ele não sabia como os ônibus funcionavam.

Mark descobriu que sua pátria era a estrada. Tornou-se um camaleão.

Algumas Considerações

Não sejam rápidos em condenar Victoria e louvar o Mark. A maioria dos brasileiros age exatamente como a Victoria agia - só que agem assim em suas próprias pátrias e ela agia assim no estrangeiro. E Mark está condenado a ser um eterno andarilho - o que só é bonito na teoria.

Na verdade, não acho nenhum dos casos exemplar ou recomendável.

A Escola Americana é pródiga em casos de crianças alfabetizadas em duas línguas e que, depois de velhas, não dominam nenhuma. A maioria dá certo, claro. Mas aquelas poucas que tinham, talvez, menos inteligência linguística, pagam um preço alto.

Antes de dar à criança uma segunda casa, uma segunda realidade, uma segunda cultura (pois uma nova língua é tudo isso), convém ela estar razoavelmente assentada e confortável na sua primeira casa.

Considero indispensável termos nossa língua e nosso paese solidamente fixos sob nossos pés. Mais indispensável ainda é usarmos toda essa solidez do solo como alavanca para alçarmos vôo em direção à humanidade como um todo.

Triste Fim de um Apátrida

Eu não queria falar sobre João Herbert, apesar de interessante, seria um desvio muito grande mas, enquanto escrevia sobre os apátridas, tive notícia de sua morte. É como se o destino quisesse me esfregar na cara (de maneira bem exagerada, até) que eu não podia falar sobre apátridas sem contar a inacreditável história de João Herbert.

Brasileiro de São Paulo, foi adotado por um casal de americanos e levado para os Estados Unidos aos 7 anos de idade. Cresceu e foi educado como americano. Não conhecia ninguém no Brasil, não tinha lembranças daqui e não falava português. Aos 19 anos, foi preso vendendo drogas.

Aí começa o inacreditável. De acordo com a lei americana, qualquer estrangeiro preso nos Estados Unidos é imediatamente deportado depois de cumprir pena. E daí? João era americano, certo? Errado.

Na época, adoção por pais americanos não significava naturalização automática - como seria óbvio. Hoje, em parte por causa de João, a lei foi alterada. Entretanto, os pais, mal informados, nunca haviam naturalizado o filho.

Resultado? Para a lei americana, João era estrangeiro e, depois de cumprida a sua pena, seria deportado para seu país de origem, Brasil. Pena que João se considerava americano, não falava a língua do seu país de origem e nem conhecia ninguém por aqui.

O caso mobilizou a opinião pública, ongs, organizações de defesa de direitos civis e o escambau. Nada. Em 2000, João foi deportado.

A Embaixada Brasileira, diga-se a nosso favor, tentou de tudo para evitar a deportação. Chegou a alegar que, de acordo com a nossa lei, a adoção por estrangeiros cancelava a cidadania de João, que não seria mais reconhecido ou aceito como brasileiro. Foi uma luta heróica mas, no fim das contas, ele seria expulso mesmo: não ser nem brasileiro seria pior ainda.

Acabou em Campinas, abrigado por um pastor batista. Casou, separou, teve filha, dava aulas de inglês.

Na terça-feira, 22 de maio, João foi morto com seis tiros. A polícia afirma que João realizava pequenos roubos e que foi morto por seus comparsas, durante discussão sobre o sumiço de uma arma. A família americana suspeita da própria polícia que, segundo eles, perseguia João.

Para os americanos que tanto lutaram para evitar a deportação, a imagem do Brasil deve ser a pior possível. Para eles, voltar ao Brasil será sempre associado com uma virtual condenação à morte.

Assim terminou a história de João Herbert, verdadeira tragédia greco-paulistana. Menino pobre de orfanato da periferia, João estava mesmo quase que estatísticamente fadado a morrer violentamente antes dos trinta.

Por graça dos deuses, teve a chance de mudar seu destino: foi adotado por estrangeiros para levar uma vida melhor no exterior.

Nas grandes tragédias, os heróis sempre caem por suas próprias fraquezas. Com João, não foi diferente. Por culpa sua, esbarrou na lei da maior potência do mundo e foi tragado em um verdadeiro turbilhão que acabou atirando-o na mesma periferia de onde saíra e nos braços do mesmo destino ao qual sempre esteve fadado.

Achou que tinha dado uma volta no destino mas, como sempre descobrem os heróis trágicos, destino não se engana.

Da Folha de 1º de junho, por Márcio Aith:

"As três mortes de João

João Herbert vestia um uniforme laranja de presidiário quando o entrevistei pela primeira vez, em fevereiro de 2000, numa cadeia na cidade de Medina, no Estado de Ohio. Ele tinha 21 anos. Nascera no Brasil e chegara aos EUA aos sete, adotado por uma família dos arredores da cidade de Cleveland.

Herbert não falava português, não tinha contatos no Brasil e sua única memória do país de nascimento eram flashes. "Vivia num orfanato em São Paulo, num lugar com um nome esquisito [bairro de Carapicuíba]. Me lembro de algumas imagens, da quadra de futebol, dos arranha-céus e de uma piscina sem água", disse ele na ocasião. Nos EUA, ainda menor de idade, fora preso por tentar vender maconha a um policial disfarçado. Por isso, estava sob ameaça de deportação, pois caíra no lodaçal de duas aberrações legais. Os EUA, à época, não concediam automaticamente a nacionalidade americana a adotados. Além disso, a lei de imigração mudara após o atentado que tinha destruído um prédio federal em Oklahoma em 1995. Estrangeiros condenados por quaisquer crimes passaram a ser deportados depois de cumprirem suas penas. Ou seja, uma criança adotada e infratora equiparava-se a um terrorista estrangeiro.

"É como se eu não tivesse país, não pertencesse a lugar nenhum", disse ele naquela conversa. "Nasci brasileiro, me transformei em americano e querem que vire brasileiro de novo."

Herbert foi deportado, depois de mofar na cadeia por 28 meses, durante os quais me telefonava com freqüência. Demonstrava medo. Também perguntava como eram as mulheres e os empregos brasileiros. Ao chegar ao Brasil, foi morar em Campinas, a convite de um pastor batista. Deu aulas de inglês, casou-se e separou-se. Na semana passada, foi assassinado com seis tiros perto de sua casa, no bairro Jardim São Pedro de Viracopos. A polícia credita o crime a dívidas com traficantes, mas ninguém sabe ao certo o que ocorreu.

Herbert viveu o pior dos mundos -no Brasil e nos EUA. Estou para conhecer uma história mais inacreditável que essa."

Outras matérias:
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Órfão brasileiro deportado dos EUA é morto a tiros em Campinas
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Nossa Cultura É Monotemática

Há quem diga que o brasileiro tem baixa auto-estima cultural. Que o brasileiro só gosta do que vem de fora. Que o brasileiro é um aculturado.

Meu deus, por onde essas pessoas andam? O que elas estão lendo?

Não existe cultura nacional mais egocêntrica do que a nossa. Tudo o que fazemos é pensar o Brasil, buscar a identidade brasileira, perseguir uma fugidia brasilidade. Quase não há outro assunto. As exceções, piores ainda, são romances da Escola Urbana, cheios de palavrões em inglês, sobre adolescentes fúteis que vão se drogar no exterior.

Escreveu Diogo Mainardi, na Veja de 29 de agosto de 2001:

"Pegue uma lista dos livros brasileiros mais importantes de todos os tempos. Invariavelmente, tratam do mesmo tema: a identidade nacional. Alguns o fazem de maneira direta, como Os Sertões, Casa-Grande & Senzala, Raízes do Brasil, Triste Fim de Policarpo Quaresma ou Macunaíma. Outros, de maneira indireta, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas ou Morte e Vida Severina. Nossa literatura é monotemática. Procura mostrar, sempre, qual é o nosso caráter, de que forma se deu a mistura de raças, como incorporamos as diferentes culturas presentes em nosso território. Enquanto as outras literaturas exploram o indivíduo, a nossa explora as problemáticas da pátria, do grupo, do coletivo. Só estamos interessados em ouvir análises a respeito da nossa brasilidade. O pior é que nem conseguimos entender direito essas análises. Se entendêssemos, já teríamos passado para outro assunto."

Marx não estava querendo libertar os trabalhadores ingleses ou alemães. Freud não estudou o complexo de Édipo em função do caráter nacional austro-húngaro. Sartre não tentou entender a identidade existencialista francesa. Nem Jesus (vulgo o Cristo) queria salvar só os galileus e nazarenos.

Todos os grandes pensadores da humanidade tinham se libertado de suas amarras territoriais. Não estavam tentando resolver as ridículas neuroses culturais de suas efêmeras tribos. Estavam pensando o Homem com H maiúsculo.

O Vizinho de Nietzsche

Pouca gente lembra disso mas, quando morou na Basiléia, Nietzsche tinha um vizinho chamado Gunther Von Trass. Eram ambos alemães morando na Suiça, ambos catedráticos de Filosofia, vizinhos de porta, seria natural se tornarem bons amigos.

Embora tivessem a mesma pouca idade, Nietzsche ainda era um completo desconhecido, enquanto a estrela de Von Trass estava em franca ascensão. Em suas caminhadas ao redor do lago, Nietzsche contava ao amigo os primórdios de suas teorias como a vontade de poder e a fraqueza inata do cristianismo. Em um tempo em que ninguém queria ouvir falar dessas coisas, Von Trass era um dos poucos interlocutores de Nietzsche.

Em troca, Von Trass dividia com o amigo suas investigações sobre o caráter filosófico do povo alemão. Afinal, a Alemanha se unificara há pouquíssimo tempo, união de dezenas de reinos, condados e principados com longuíssimas e consolidadas histórias e culturas, fazia-se premente criar uma identidade nacional alemã que pudesse amalgamar todo aquele povo em uma unidade coesa.

As teorias de Von Trass sobre a unicidade essencial das nacionalidades formadoras da Alemanha, seu libenstraurüng lúdico enquanto elemento de coesão, e as diversas correntes dialéticas subjacentes cuja tensão, longe de enfraquecer, apenas fortaleciam a união, eram muito populares.

Von Trass não era só uma moda passageira, um filosófo pop utilizado pelo Estado para se legitimizar. Pelo contrário, o próprio Nietzsche, em mais de uma carta, exalta o espírito filosófico de Von Trass, considera-o um filosófo muito mais perspicaz e insightful que ele. Nietzsche constantemente ressalta que embora tenham objetos filosóficos diferentes, Von Trass era a mente mais brilhante de sua geração e iria muito mais longe.

Talvez. Mas, de que adianta ir longe e explorar a fundo um assunto que, no frigir dos ovos, não tem importância praticamente nenhuma? Algum de vocês têm algum interesse pelo processo de formação filosófica do povo alemão no século XIX? Não? Nem um pouquinho?

Bem, então podem começar a imaginar a enormidade do desprezo que o resto do mundo tem, por exemplo, pelas geniais teses tropicalistas de Gilberto Freyre. Não é nem propriamente desprezo. Realmente, o resto do mundo não tem interesse algum nos elementos formadores da nossa brasilidade. É tamanho não-assunto que chega a doer.

Talvez Von Trass fosse realmente maior filosófo que Nietzsche. Mas sua escolha de assunto o condenou. Nietzsche ganhou o mundo, fez uma contribuição decisiva ao pensamento humano. Von Trass é ensinado em alguns cursos de formação do pensamento alemão.

Toda sua genialidade de nada lhe valeu. Pior, de nada NOS valeu. Von Trass nada acrescentou ao conhecimento da humanidade sobre si mesma.

A Contribuição do Brasil

Casa Grande & Senzala é, sem dúvida alguma, a mais genial obra literária jamais executada por um brasileiro. Grande Sertão: Veredas, por seu lado, é inquestionavelmente nosso maior romance. Pena que sejam obras de vidas tão efêmeras.

Casa Grande & Senzala atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional. Além disso, é sempre divertido acompanhar as reações histéricas da esquerda burra contra o livro.

Entretanto, apesar de seus gigantescos méritos, a grandeza de Casa Grande & Senzala será sempre limitada por seu escopo. É um livro que só interessa a brasileiros ou brasilianistas.

Casa Grande & Senzala explica tudo o que você quiser saber sobre o caráter do povo brasileiro, e nada mais.

Um dia, o Brasil, nossa língua, nossa cultura, tudo isso irá desaparecer. E Casa Grande & Senzala, apesar da genialidade imortal de Gilberto Freyre, morrerá junto.

A situação de Grande Sertão: Veredas é ainda mais precária.

Mesmo depois que o Brasil se for e o português estiver mais morto que o latim, curiosos ainda poderão ler Casa Grande & Senzala, devidamente traduzido para suas respectivas línguas, para saber como era nosso país e nossa cultura, assim como hoje lemos sobre os zigurates da Mesopotâmia.

Grande Sertão: Veredas nem isso. Grande Sertão: Veredas é intraduzível. Li um pedaço da tradução de Grande Sertão: Veredas para o inglês: Devil to Pay in the Backlands. O tradutor, sabiamente, nem mesmo tentou adaptar a linguagem rosiana. Mas também, sem isso, sobrou muito pouco: só uma história de cowboys e cross-dressing.

Um hipotético estudante secundário do século 48, curioso para saber mais sobre essa antiga nação Brasil, vai adorar ler uma edição anotada de Casa Grande & Senzala, traduzida para sua língua, mas não iria entender nada de Grande Sertão: Veredas.

Por outro lado, enquanto existirem homens e mulheres nesse mundo, Dom Casmurro e Água Viva serão lidos, apreciados e entendidos em línguas que hoje ainda nem existem, em meios que ainda nem foram inventados.

Dom Casmurro e Água Viva são universais. Dom Casmurro e Água Viva são verdadeiras contribuições brasileiras à humanidade. Eles permanecerão.

Joaquim Maria saiu da cidade do Rio uma única vez, para uma breve viagem. Clarice nasceu no mar, filha de imigrantes, foi criada em Recife, casou com diplomata, passou trinta anos rodando o mundo e veio também morrer no Rio.

Duas biografias tão diferentes, com um importantíssimo traço em comum: uma obra verdadeiramente universal, uma preocupação constante com o que é Humano, com o que é perene.

* * *

Não rejeitei o Brasil. Isso teria sido mesquinho e ingrato. Transcendi o Brasil.

Passei os últimos dez anos (mais precisamente, até 1999) tentando entender meu país. Li todos os grandes autores. Refleti os grandes temas de nossa nacionalidade. Então, me dei por satisfeito. Criei asas e ganhei o mundo.

Ganhar o mundo sem antes conhecer seu paese, entretanto, é como levantar vôo sem ter onde pousar.

Postada no blog em Junho de 2004

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As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 

 

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