SobreSites > Alex Castro > Prisões > Preconceito
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Preconceito

Suavizando a Negritude

Sala dos professores. Eu, cuidando da minha vida. Entram a diretora e uma professora nova. A diretora está mostrando a escola, explicando o método de ensino, falando dos outros professores. O nome mais citado é o de Milene, uma das professoras preferidas da diretora. É Milene pra cá, Milene pra lá. Lá pelas tantas, a professora nova, que já tinha circulado bastante mas ainda não tinha sido apresentada a ninguém, pergunta: mas quem é essa Milene?



E minha chefa: é aquela morena.

A descrição, óbvio, não ajudou muito. Estamos no Rio, todo mundo é moreno, até os turistas alemães. Eu devia ter ficado calado, mas não agüentei. Vendo que a moça estava confusa, eu clarifiquei:

Milene é a negra.

Ah tá. Negra só tinha uma.

Minha chefa, coitadinha, ficou extremamente constrangida, ainda mais na frente de uma funcionária nova. A única coisa que conseguiu balbuciar foi: tentei suavizar...

A questão: minha chefe é racista?

Essa cena é relativamente comum. Não foi a primeira vez que alguém descreveu um negro como moreno e eu me senti obrigado corrigir. Mas usei esse exemplo por ser totalmente positivo.

Minha chefa é um exemplo de pessoa boa, inteligente, tolerante, sensível e, o que eu gosto mais, bem-humorada. Não há nada de desapreço ou condescendência na sua atitude em relação à Milene. Ela considera a Milene a melhor funcionária que já teve. As duas, aliás, se adoram.

12 Faces do Preconceito JAIME PINSKYAinda assim, ao descrever sua melhor funcionária, ela foi incapaz de descrevê-la como ela é e foi obrigada a apelar para suavizações e eufemismos. Por quê?

Minha chefa é falsa-loira e adora contar piadas de loira burra. Aliás, pouco depois de ser contratada, ela fez uma besteira e Milene zoou: coisa de loira. E ela, de bate-pronto: sou loira, mas tenho raiz negra. Nessa única piada, ela ganhou o nosso respeito e não perdeu mais. E a nova funcionária, essa é loira mesma, filha de alemão com alemão, ariana até a medula e ainda não misturada.

Imaginem então uma cena alternativa. Minha chefa é falsa-negra (passa o dia inteiro no bronzeador artificial) e a nova funcionária é preta azulona, chegou ontem do Sudão. E pergunta: quem é mesmo essa tal de Milene?

E a chefa: é aquela de cabelo castanho.

A nova professora não entende. Praticamente todo mundo na escola tem cabelo castanho. E eu, que não consigo ficar calado e odeio mal-entendidos, clarifico:

É a loira.

E a diretora, envergonhadíssima, abaixa a cabeça: tentei suavizar...

Minha chefa, loira por opção, todo dia me chega com uma pergunta nova (“Sabe qual a santa padroeira das loiras?”) mas Milene nunca veio me perguntar se eu sabia quando preto é gente.

Naturalmente, só se suaviza o negativo. Apesar de todas as piadas de loira, ser loira não é algo social ou culturamente visto como negativo. Ser loira não é algo que precise ser suavizado.

O Primeiro Negro

Tirando uma ou outra cavalgadura que eu conheço, ninguém mais se diz racista. No ambiente de classe média alta de uma metrópole progressista como o Rio de Janeiro, as pessoas tendem a ser cada vez menos preconceituosas e mais tolerantes. Mas o quanto disso será só na superfície?

Como eu amo e adoro a minha chefa, minha teoria é de que ela descreveu a Milene como morena por receio. Teve medo de que se a tivesse descrito como negra, a nova professora poderia ter pensado que ela era preconceituosa, ou algo assim. O fato de a nova professora ser branca-branca e ter acabado de chegar do sul não sei se influenciou. Enfim, ela disse o que disse, e quem ficou com a pulga atrás da orelha fui eu.
Política e Preconceito CELSO PITTA
Ou talvez seja apenas a dificuldade de todos nós de sairmos da senzala. A escravidão é uma merda, mais merda ainda pois escravizou todos os brasileiros em hábitos mentais e culturais que ainda não conseguimos vencer. Hoje, qualquer apartamento, mesmo o mais humilde, tem a sua senzalinha, escura, úmida e sem ventilação. Por mais pobre que você seja, sempre vai haver alguém pior pra limpar sua privada, comer farinha com água e ovo e morar em um dos seus armários.

Ou talvez seja que, mesmo entre os brasileiros mais progressistas e sensíveis, nós sabemos que os negros não são inferiores, claro!, mas não sentimos isso ainda. A escravidão ainda está muito próxima.

Brasileiro (a) é Assim Mesmo: Cidadania e Preconceito JAIME PINSKYOu então, sabemos e sentimos mas não temos certeza do outro. E se eu chamá-la de negra, será que minha nova funcionária pode achar que eu sou racista? Não, eu não sou racista, eu sei que não sou racista, mas ela não sabe. E se pensar que eu sou racista?! Melhor não facilitar.

Saindo um pouco dos atos falhos da minha chefa, tudo isso são sintomas de doenças culturais e sociais das quais ainda não conseguimos sarar.

Não faz muito tempo a imprensa toda ficou se masturbando e se dando tapinhas nas costas por causa do primeiro negro no Supremo Tribunal Federal, o jurista Joaquim Benedito Barbosa Gomes. Essa palhaçada foi repetida ad nauseum. O pobre homem, teoricamente um profissional competente e do mais alto gabarito, teria todo o direito de se sentir ofendido e diminuído. Quem tivesse um saco do tamanho do mundo pra ler todas essas reportagens sairia achando que o Barbosa Gomes foi escolhido para o Supremo pela cor da pele, e não pelo seu excelente currículo.

Ou, pior ainda, pior ainda por ser provavelmente verdade, pensaria que foi o nosso presidente politicamente correto que decidiu que seria o primeiro a nomear um negro pra a Suprema Corte e mandou um assessor qualquer encontrar o melhor negro da lista.

Aliás, alguns meses depois, em alguma cerimônia oficial, Barbosa Gomes foi barrado por um segurança — por acaso, também negro. O ministro calmamente apresentou seus papéis de identificação e entrou, afirmando à imprensa que o episódio não tinha nada de mais. Até isso é emblemático. Naturalmente, se o ministro fosse um dos negros revoltados que faz escarcéu com coisas assim, já teria dado vários socos por aí ao longo da vida e provavelmente não teria conseguido subir tão alto.

E quem não lembra do Eraldo Cabral, o primeiro negro a apresentar o Jornal Nacional? Quantas vezes isso não foi repetido! E olha que o homem era só interino.

De vez em quando, alguém me descreve como forte, ou fortinho. É a mesma coisa. A diferença é que tanto eu quanto o meu interlocutor concordamos que ser gordo é uma merda. Estamos suavizando o que ambos consideramos ruim. E, mesmo assim, o ridículo da coisa me deixa irritado. Por que não fala logo que eu sou gordo e pronto? (Leia mais sobre esse assunto na Prisão Aceitação.)

Será que Milene concordaria com a minha chefa que ser negro é algo a ser suavizado?

A Gente Não Vê o Que Quer, Vê o Que Pode

Um visitante estrangeiro ao Brasil Colonial estava conversando com um brasileiro e manifestou a sua surpresa - surpresa positiva - de que o Capitão-Geral da província era negro. Era nunca teria imaginado que era possível um negro chegar a-

Foi rispidamente cortado pelo brasileiro, às gargalhadas. Onde já viu, essa era boa!, um negro Capitão-Geral!, onde esse mundo iria parar! Nunca!

O estrangeiro não se conformou. Fez o comentário com muitos outros brasileiros e a resposta foi sempre a mesma.

Restou a dúvida: estarão todos fingindo juntos? Será que combinaram não ver e não comentar que o Capitão-Geral era negro?

Ou então, e essa era a mais provável, eles sinceramente não viam. Por razões sociais e culturais, eles eram simplesmente incapazes de ver. Como disse um poeta, o poder embranquece.

A gente não vê o que quer, vê o que pode.

Um grupo de antropólogos estava deixando uma tribo isolada, com quem haviam passado vários meses. Como tinham falado muito da terra deles (eram ingleses), decidiram mostrá-la aos índios: levaram, a muito custo, uma TV e um vídeo para a selva e passaram um filminho com cenas da vida em Londres. Ao final da apresentação, os nativos só queriam saber de uma galinha que aparecera em uma das cenas. Os antropólogos, bons antropólogos, ficaram curiosos: em um filme cheio de maravilhas e novidades, por que aquelas pessoas só queriam saber da porra da galinha?

A explicação era simples: os nativos só falaram da galinha pois só viram a galinha. O resto estava fora demais de seus padrões, dos horizontes de suas expectativas. Não tinham contexto para entender um engarrafamento no centro de Londres. Pra eles, era só estática.

Então, pra piorar, concluo que toda a masturbação da imprensa sobre o primeiro negro no supremo derramou-se no chão. Um dos jornais masturbatórios desencavou uma lista de outros juízes da suprema corte do passado que haviam sido descritos como morenos.

Bem, me desculpe o excelentíssimo ministro Barbosa Gomes, mas então ele não foi o primeiro negro na Suprema Corte não. Se o tal juiz de 1910 fosse realmente moreno, ele teria sido descrito como branco, pura e simples. Se chamavam o homem de moreno, em 1910, é provavelmente porque ele era tão preto, mas tão preto, que seria absolutamente risível chamá-lo de branco. Ficou, então, moreno. Negro não, claro. Afinal, onde já se viu crioulo na Suprema Corte? Não me faça rir, por favor!

Mas também não cabe dizer que nada mudou. O grande mérito de Barbosa Gomes, portanto, não é ter sido o primeiro negro na Suprema Corte. Isso tenho certeza que ele não foi. Seu mérito é de ser o primeiro negro que entra na suprema corte sem precisar, antes, embranquecer.

O primeiro negro que entra na Suprema Corte como negro.

O Falso Negro

A graça é que ser negro não é um critério científico, que possa ser objetivamente medido. Daí os problemas que vão impossibilitar (ou inviabilizar) a adoção da Ação Afirmativa em um país mestiço como o Brasil. Ser negro ou ser branco é, antes de tudo, um critério comparativo.

Voltemos ao nosso estrangeiro visitando o Brasil Colonial. Ele formulou duas teorias sobre o capitão-geral negro: ou os brasileiros tinham combinado não vê-lo como negro ou, de fato, não conseguiam vê-lo como negro. Mas vou agora defender um tiquitinho meus compatriotas e levantar uma terceira hipótese: vai ver ele realmente não era nem negro.

Um dos meus chefes, em uma empresa de investimentos, foi um negro norte-americano, advogado formado em Harvard, diretor de multinacional, uma das melhores lábias que já vi em ação. O homem tinha um orgulho tribal de sua herança africana (“African Heritage”) e de tudo que tinha conseguido alcançar, blá blá blá, e até aí tudo bem, mas então ele começava a falar de racismo no Brasil e eu, como odeio papo furado, era obrigado a interromper.

Você não é negro.

E ao que ele me olhava chocado, depois de eu ter destruído os alicerces de sua cultura e de sua identidade, pior do que se eu tivesse dito que ele não era terráqueo, eu acrescentava: pelo menos aqui no Rio você não é negro.

Não é, obviamente, que não exista preconceito racial no Brasil. Era apenas que meu chefe nunca seria vítima dele, pois não era percebido como negro.

O homem tinha traços negros, é verdade, mas não muito, e sua pele era bastante clara. No sul dos Estados Unidos, onde negro é quem tem uma gota de sangue negro e onde os brancos têm cara de leite, realmente, ele era negro, era visto como negro e, de fato, o que ele conseguiu não foi pouco, ainda mais lutando correnteza acima contra o preconceito do Alabama.

Mas no Brasil, ao contrário, país de miscigenação profunda, negro é só quem é muito negro e branco é só quem é muito branco. A grossa maioria da população se vê e se pensa e se considera em uma grande categoria amorfa e indefinida, que se situa entre esses dois extremos, e cujo nome varia muitas vezes de pessoa pra pessoa: mulatos, pardos, morenos, mestiços ou, a melhor que já ouvi e a que adotei pra mim: cor de brasileiro. Tem como ser mais claro? Não sou branco, nem negro: sou brasileiro.

Além disso, mesmo no nosso Brasil miscigenado, mas ex-escravista, convenhamos: um americano rico, culto, inteligente, bem vestido e diretor de multinacional só vai ser considerado preto se for realmente muito, muito preto, daqueles negros azulões como só se vêem na África. Quase posso ouvir os nativos rindo: onde já se viu diretor de multinacional negro?

Mais tarde, eu reparei que, quando ele fazia seu discurso-padrão de negritude e preconceito para brasileiros que não conheciam a realidade norte-americana, ninguém nunca entendia nada. Ouviam o discurso pensando que ele estava falando de outras pessoas, que estava falando do negro de modo geral.

Lembro bem de uma faxineira, negra, que comentou comigo, depois que ele saiu: que pessoa boa, engajada, é de gente assim que o Brasil precisa!

E eu expliquei: é que ele pensa que é negro.

Ela não tinha como ficar mais surpresa: o quê?! Como assim? O patrão?!

É. Na terra dele, ele é negro.

E ela só coçou a cabeça, sem entender nada: que coisa! Esses gringos são todos malucos...

Não estou questionando o direito do meu ex-chefe de se ver como negro e de ser negro. Afinal, ele nasceu negro, sempre se pensou negro e sofreu (e superou!) todos os preconceitos que os negros ainda sofrem no Alabama.

Eu só queria que ele entendesse que os brasileiros nunca o veriam como negro a não ser que ele os informasse previamente desse fato: prazer, meu nome é Fulano e eu sou negro.

Leia agora o que os meus leitores têm a dizer sobre isso.

Postada no blog entre Julho 8 e 12, 2003

Gostou desse texto? Ele resolveu sua dúvida? Ajudou em sua busca? Acrescentou algo à sua vida? Dê um presente a um autor falido e permita que ele continue escrevendo na Internet: Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino

As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 



 

Mulher de Um Homem Só - Download

É possível homem e mulher serem apenas amigos? Carla, recém-casada com Murilo, precisa lidar com a incômoda proximidade de Júlia, melhor amiga de seu marido desde a infância.
 

152kb, 50 pgs (para ler no computador)

152kb, 21 pgs (para imprimir)

Antes de se comprometer, leia um trecho ou a apresentação do romance.

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.