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  Alex Castro
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As Prisões: Religião

Vitória do Self-Denial Sobre a Lógica Mais Rasteira

Não vale a pena escrever sobre a Prisão Religião. O assunto praticamente se escreve sozinho. Quem duvidar do poder nocivo das religiões basta ler qualquer história do mundo nos últimos dois mil anos.

Os politeístas podiam ter todos os defeitos do mundo, mas nunca travaram guerras religiosas. O deus chaveiro de um era tão bom quanto o deus torradeira do outro. Se o povo do deus bolinha de gude ganhasse uma guerra contra o povo do deus clipes de papel, esse último rapidamente concluía que o deus clipes de papel não era de nada, abraçava o deus bolinha de gude sem pensar muito e a vida prosseguia bela.

Bíblia de JerusalémAté que um certo povo do deserto se recusou a adotar a religião do conquistador e disse: sua vitória sobre nós não quer dizer que o seu deus, que nem existe, derrotou o nosso, que é o único; quer dizer que o nosso deus, que é único, está nos punindo por algo que fizemos mas, mesmo assim, escravos e subjugados, nós acreditamos que ele nos ama e nós o amamos de volta.

Com essa vitória do self-denial sobre a lógica mais rasteira, começa a história do monoteísmo.

A Soberba de Querer Adivinhar a Vontade de deus

Um verdadeiro cristão seria alguém tão cego e tão aprisionado por dogmas tão idiotas que mal conseguiria funcionar como ser humano. Infelizmente (ou felizmente), o cristianismo é um amálgama tão sem-sentido de regras impraticáveis que é impossível ser um verdadeiro cristão - o que é, naturalmente, parte do problema.

Qualquer um que se diga cristão acaba sendo obrigado a rejeitar essa doutrina dezenas de vezes ao longo de um dia normal. Pior, ele é obrigado ao pecar por soberba, ao tentar adivinhar a vontade de deus. Afinal, no mesmo livro onde está dito que não podemos matar também está dito que não podemos nos masturbar - sob pena de morte.

E quem é ele pra decidir que uma regra ainda vale mas que a outra deus já revogou ou não liga mais?

Medo de Unicórnio

Um leitor comentou:
"não há nenhum Cristão, pois não há ninguém capaz de ser integralmente Cristão. Só falo de mim, que conheço meus pecados; não sou livre de todo. Mas supondo que não há um Cristão no mundo, como pode o Cristianismo ser nocivo? Isto seria da escala de ter medo de unicórnios."
O problema do cristianismo é justamente ser tão impraticável que não existe, nem poderia jamais existir, um verdadeiro cristão. Até o peixe, que era o peixe, dava patadas (guelradas?) na própria mãe.

E, ainda assim, pior ainda, matam, invadem, conquistam e proselitizam, fazem de tudo para impingir essa prática impossível a outros povos. Você já ouviu falar de um tal de Bush?

Quem dera fosse medo de unicórnio.

 Anticristo, O FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE  Ateísmo e Imoralidade

Confesso que não consegui acabar o Anticristo, tentei ler duas vezes e o livro me irritou muito. É o tipo do livro que dá um mau nome aos ateus, como se fôssemos todos nazistas em potencial, criaturas sem moral nem ética.

(Prefiro a abordagem de Freud, em O Futuro de uma Ilusão, um dos melhores livros que já li, curtindo e baratinho. Recomendo com entusiasmo para qualquer interessado no assunto.)       Futuro de uma Ilusão, O SIGMUND FREUD

Um religioso uma vez me perguntou: se deus não existe, o que lhe impede de matar seu vizinho?

E eu coloquei a mão no ombro dele: amigo, se a única coisa que te impede de matar seu vizinho é a sua religião, então, por favor, continue assim.

O Marxismo de Roberto Campos

Jesus não era cristão. Ele era um rabi judeu, que ensinava dentro das regras do judaísmo, se considerava judeu e jamais pregou uma ruptura com o judaísmo.

O cristianismo, enquanto religião, foi totalmente inventado por Paulo de Tarso e, depois, transformado em religião de estado durante o fim do Império Romano.

  Roberto Campos: um Retrato Pouco Falado OLAVO LUZ Eu não sei como as pessoas conseguem ler a Bíblia em seqüência e não perceber que aqueles ensinamentos belíssimos dos quatro evangelhos são completamente deturpados por Paulo apenas algumas páginas depois.

Pior ainda, como não vêem que aqueles ensinamentos do judeu Jesus estão totalmente ausentes não só do cristianismo inventado por Paulo, mas também do cristianismo estabelecido por Agostinho e, mais tarde, das práticas tanto da Igreja Católica quanto dos protestantes?

Imaginem se o último terço de O Capital tivesse sido escrito por Milton Friedman ou por Roberto Campos e se dedicasse a distorcer e negar tudo o que foi dito antes, mas mantendo, ainda assim, o nome de Marxismo.

Será que também iriam achar isso normal?

Cristianismo e Marxismo        Capital: Obra Resumida, O KARL MARX   JULIAN BORCHARDT

Infelizmente, o cristianismo não é a única religião dogmática que encerra seus seguidores em prisões mentais que os impedem de pensar claramente. Há também o ateísmo (a maioria dos ateus são tão cegos e intransigentes quanto qualquer fundamentalista religioso), a psicanálise (sim, tio Freud derrubou Jesus mas quiseram colocá-lo no lugar) e o marxismo (sem comentários).

Cristãos e marxistas têm em comum a crença em dogmas, dogmas que, por definição, embotam o pensamento. Tanto cristãos quanto marxistas não podem pensar muito, senão correm o risco de questionar, nem que apenas sem querer, os dogmas sagrados de sua religião e ser execrados por seus pares. Conseqüentemente, a liberdade de ação de um intelectual cristão ou marxista é mínima, e pode ser exercida apenas naquele quintalzinho onde é seguro brincar.

 Confissões  AGOSTINHO,SANTOAgostinho ou Tomás de Aquino são homens geniais. A Suma Teológica é uma leitura deliciosa, Aquino é o pai da lógica. Mas é triste ver quantas limitações prendiam cérebros tão brilhantes. A cada passo do caminho, Aquino esbarra no mistério divino e dá um passo atrás. Isso não posso explicar, daqui não posso ir. Ambos autores são monumentos vivos dos efeitos nocivos dos dogmas sobre cérebros que, de outro modo, seriam brilhantes. Suma Teológica III - Vol. 3 TOMÁS DE AQUINO

Leio um pedacinho da Suma Teológica todo mês só pra me lembrar desse perigo, só para não me deixar prender pelas minhas crenças, pelos meus dogmas.

Os exemplos com autores marxistas são abundantes até demais, basta pegar qualquer catálogo de editora acadêmica e tirar 10% dos nomes. Raros são os autores marxistas que conseguem se erguer acima disso e, mesmo assim, só porque estendem, artificialmente, o tamanho do quintal. Hobsbawm é um bom exemplo.

   Era dos Extremos: o Breve Século XX: 1914 - 1991 ERIC J. HOBSBAWM   Marxistas e cristãos não podem ser bons intelectuais. Afinal, um intelectual busca compreender o mundo, mas cristãos e marxistas não precisam disso. Eles já passaram dessa fase. Eles JÁ entende o mundo. Seus dogmas JÁ explicam tudo. Sobram apenas buscar bons exemplos e bons argumentos, fazer estudos com recorte específico para entender pequenos detalhes.

Mas o Mundo mesmo, o Mundo com M maiúsculo, esse já está explicado e entendido.

Não tenho saco pra pessoas assim. Não consigo nem conversar. Estudei primeiro em escola católica, e conheço bem os cristãos. Depois, estudei humanas em universidade pública brasileira, e conheço bem os marxistas.

Não quero nada com nenhum dos dois.

Teologia da Libertação: O Auge da Imbecilidade

       Cidade de Deus: Contra os Pagãos, A  AGOSTINHO,SANTO O Marxismo e o Cristianismo são duas das piores, mais nocivas e mais assassinas idéias da História. Felizmente, ambas raramente andam juntas: quem sofre de uma, não sofre de outra.

As antas da Teologia da Libertação merecem um prêmio especial de escória da humanidade por ter conseguido, a custa de muito esforço, conciliar duas teorias idiotas e, a princípio, irreconciliáveis, em uma teoria que é, talvez, a MAIS idiota de todos os tempos. Em uma espécie idiota como a humana, esse é um feito e tanto.

Um dos livros mais engraçados que tenho aqui em casa é a Bíblia Pastoral, editada por estudiosos ligados à Teologia da Libertação. Em função de sua ideologia, eles distorceram tudo o que poderia ser humanamente distorcido - especialmente as introduções, notas e subtítulos dos livros.

Exemplos de subtítulos do Eclesiastes, na tradução da Bíblia Pastoral:
  • A competição é desumana
  • A felidade é usufruir o fruto do próprio trabalhoBíblia Pastoral
  • O acúmulo traz desgraça
Desnecessário acrescentar que nenhuma dessas expressões ocorre no próprio texto, mas são apenas tentativas desastradas guiar e influenciar ideologicamente a leitura dos mais incautos.

Eu confesso que dou boas gargalhadas com minha Pastoral. Sempre que leio um livro da Bíblia, eu vou na Pastoral conferir como os Freis Bettos a distorceram. Nunca falha em me divertir.

Quando sair de casa pra realizar lavagem cerebral em pobres camponeses ignorantes, não esqueça de levar sua Bíblia Pastoral.

Quantos Deístas Dançam na Ponta de Um Alfinete

Nada mais chato (e mais ilógico!) do que um ateu militante.

Os cristãos e os marxistas, pelo menos, tentam convencer os pobres-coitados à sua volta a adotar um dogma fechadinho e abrangente, uma visão de mundo que explica tudo e oferece algum conforto às mentes imaturas e confusas.

Já os ateus, o que oferecem? Uma negativa. Se é impossível provar uma negativa, quem dirá converter alguém a uma negativa.

Além dos mais, os não-religiosos ou anti-religiosos acabam se dividindo em tribos fluidas, de difícil definição. Dependendo do seu estado de espírito (ou falta dele, claro), você pode ser ateu na segunda, deísta na quarta e agnóstico na sexta. E daí? Na prática, a diferença entre eles é insignificante.

Pra quem bebe, a diferença entre vodca e uísque é gigantesca. Pra um abstêmio, é tudo igual.

Eu já vi, em uma mesa de bar, um ateu pegando um deísta pelo colarinho e dizendo que "deísta era tudo covarde". Um deísta nada mais é do que um ateu que tem vergonha de dar o passo seguinte, disse ele. E levou um soco.

Essas são as mesmas pessoas que criticam os religiosos por travar guerras por questões como a santidade da mãe de deus ou quantos anjos dançam na cabeça de um alfinete.

Fundamentalismo Laico

Não me incomodo de viver em um mundo de religiosos, contanto que não me atrapalhem em nada. Se acharem que vou pro inferno por defender a libertinagem, mas que posso defendê-la, por ser meu direito constitucional, seremos amigos e aliados políticos para sempre.

Concordo com a separação Igreja/Estado. O crucifixo na parede do Congresso Nacional me causa algum incômodo, mas sei que a influência dele é nula. Por outro lado, acho preocupante cairmos em um fundamentalismo laico, representado pelo episódio do véu nas escolas da França.

Sim, as religiões devem ser retiradas da escola - mas só quando estão em posição de poder.

Sou totalmente contra preces em escolas, por exemplo. As preces sempre partem da escola, ou seja, vêm de quem está na posição de poder, e sempre representam a religião dominante do Estado, uma posição de mais poder ainda.

Somente uma criança de muita fibra (e são poucas, ainda mais nessa idade) para ser capaz de ir contra essas duas forças quase irresistíveis e exercer o seu direito de não rezar.

Por outro lado, nada contra que cada aluno, ou cada pessoa, ou cada deputado, traga em seu corpo os símbolos de sua fé. Se um aluno petista pode ir à aula com um broche do PT (hoje em dia, não há maior ato de fé do que ainda ser petista e, pior, usar adereços que comprovem isso!), se um aluno punk pode ir com o cabelo roxo, por que uma aluna muçulmana não poderia ir de véu?

Testemunho de Não-FéBíblia do Peregrino

O Estado do Rio de Janeiro tem uma governadora que apóia o ensino do Criacionismo nas escolas e escreve livros sobre as virtudes submissas da mulher ideal. Nessa conjuntura, é interessante lembrar que o Imperador Juliano, por volta do ano 350, o último grande imperador pagão e um dos meus heróis, proibiu os cristãos de lecionarem lógica ou retórica.

Afinal, pessoas que defendem uma fé implícita e inquestionável em algo ilógico e impossível de ser provado não estão aptas para ensinar ou usufruir dos benefícios da ciência, da lógica e da razão.

Imaginem se um dos critérios de admissão na Nasa fosse um "testemunho de não-fé".

Prisão Religião ou Prisão Cristianismo?

Alguns leitores estão reclamando que não estou falando de religião, estou falando de cristianismo. Ora bolas, caro leitor, para um brasileiro, cristianismo e religião são sinônimos. Perguntam: e o judaísmo, e o islamismo, e o hinduísmo?

Quanto ao judaísmo, quase tudo o que diz do cristianismo também vale pra ele. O cristianismo, afinal, nada mais é do que uma dissidência do judaísmo.

Quanto aos outros, sinceramente, não sei.

Lembrem-se de que esse blog trata da minha jornada interior de descobrimento. Se servir também para ajudá-los nas jornadas de vocês, melhor ainda, mas só posso falar da minha experiência. Não tenho como saber como os hindus encaram sua religião, que amarras prendem um muçulmano ao islamismo, ou algo assim. Seria leviano querer estender minhas observações de como os cristãos lidam com o cristianismo a todos os religiosos.

Longe de mim responder dogma com dogma.

Lugares Comuns

Até aqui, a Prisão Religião foi só lugar-comum, confesso. Quando eu disse que não valia a pena escrever sobre a Prisão Religião, não era jogo de cena. Se tudo o que eu tivesse a dizer fossem essas três primeiras partes, coisas que já foram faladas e refaladas por gente muito mais inteligente, eu teria ficado calado. Mas escrevi por achar que tinha algumas contribuições algo originais a fazer. Pode ser que eu esteja enganado, vocês que me digam. As três primeiras partes foram só pra esquentar. Amanhã, começa, de fato, a Prisão Religião.

A Aposta de Pascal

O Veríssimo disse uma vez que tem inveja de religiosos e de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, pois elas vivem em um mundo muito mais interessante e colorido que ele.

 Pensamentos  BLAISE PASCAL      A gente não acredita no que quer, mas no que pode. Em sua famosa aposta, Pascal diz que, mesmo sem acreditar, vale a pena apostar que deus existe. Afinal, se ele não existir, não estaremos cometendo heresia contra o universo aleatório. E, se existir, podemos ganhar a felicidade eterna.

Faz sentido, mas não dá. Sério, não dá.
 

A Experiência da Água Fervida

A empregada queria ferver uma xícara d'água. Enquanto ela ia catar o bule no armário, eu falei: por que não ferve no microondas?

Ela resmungou alguma resposta, que microondas era mais lento ou algo assim, mas a verdade é que, senhora mais idosa do interior, ela não tinha era confiança naquelas engenhocas tecnológicas. Puro preconceito.

Eu respondi que apostava com ela que no microondas era mais rápido. Ela aceitou a aposta.

A xícara d'água, no fogão, ferveu em pouco menos de três minutos. No microondas, demorou três minutos e uns quebrados. Quebrada, também, ficou a minha cara.

Eu ainda contra-argumentei que a grande vantagem do microondas era a praticidade. Você só precisava sujar o recipiente que fosse usar, a xícara, ao invés de sujar a xícara e o bule. (Quando eu descobri que poderia fazer mingau de aveia no microondas, no próprio prato, sem precisar esfregar panela depois, foi um dos dias mais felizes da minha vida.)

Mas a verdade é que ela estava certa e eu errado.

Cada Um Aferrado aos seus Preconceitos

O episódio da água fervida deveria ter sido esquecido mas, estranhamente, ele continuou a me voltar à mente, como se ainda houvesse uma lição a ser tirada. E havia.

Não há nada pior do que os preconceitos de quem acha que não tem preconceito.

Minha empregada era uma senhora simples. Ela conhecia os seus preconceitos. Ela sabia que não gostava dessas rebimbocas modernosas, que esse negócio de homem com homem era coisa do diabo e, tem mais, lugar de mulher era em casa, criando os filhos. Nunca mentiu para si mesma, ou se enganou.

Já eu, homem culto, cosmopolita e sem preconceitos, estava totalmente cego pelos meus.

Assim como ela não tinha motivo lógico algum para preferir ferver água no fogo, a não ser seu preconceito inato contra tecnologia, eu também, por outro lado, não tinha motivo lógico algum para preferir ferver água no microondas, a não ser minha tecnofilia inata de brasileiro-jovem-urbano-elitizado.

Assim como ela estava presa à sua criação, que enfatizava desconfiança à tecnologia, eu estava preso à minha, que enfatiza um abraçar acrítico e entusiasmado de novas tecnologias. Nenhum de nós pensou clara ou logicamente.

E a única evidência empírica da história toda é que usar o fogão é mais rapido, mas usar o microondas faz menos sujeira.

Wishful Thinking dos Religiosos

Os descrentes (ateus, agnósticos, deístas e similares) gostam de se imaginar lógicos e racionais, pessoas que consideram as evidências empíricas disponíveis e tomam as únicas decisões cientificamente possíveis.

Já a maioria dos religiosos admite não apenas acreditar em deus, mas precisar dele. Não conseguem imaginar um universo sem um deus zelando por suas almas. Viver seria insuportável sem esse conforto.

Dizem: não consigo acreditar que nossa existência seja só isso, algo tão carnal, tão bestial. Tem que haver algo mais.

Traduzindo: não acredito que um ser tão incrível e complexo como eu esteja destinado à mesma morte e esquecimento que os peixes, as mariposas e os mamutes!

O nome disso é wishful thinking.

Quem Disse que o Universo É Justo?

Um adesivo de pára-choque popular entre kardecistas é o inefável "Reencarnação: Uma Questão de Justiça".

Naturalmente, não faz nenhum sentido. Ninguém, em momento algum, disse que o mundo, a natureza, o universo são justos. Quando muito, são conseqüentes, o que não deixa de ser uma forma rudimentar de justiça.

Há poucos dias, um ativista contra a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança morreu em um acidente de trânsito. Foi um acidente bobo. Todos os outros passageiros, de cinto, sofreram apenas ferimentos leves. Ele, por estar sem cinto, foi atirado para fora do veículo e morreu. Injustiça?

O fumante inveterado de vinte anos não pode clamar "injustiça" quando descobre que tem um câncer de pulmão inoperável. Acho que ele tem todo o direito de ficar triste, deprimido, revoltado (afinal, só temos uma vida, não é mesmo?), mas seu câncer de pulmão não foi injusto. E nem justo, aliás. Foi uma conseqüência das escolhas que fez durante a vida.

Esse wishful thinking dos religiosos é ilógico e incoerente, mas muito compreensível. Nada mais humano do que querer que o universo seja como nós quisermos. Nada mais humano do que querer, desejar, ter fé de que o universo será carinhoso conosco.

Os religiosos abraçam essa contradição sem medo e devem ser respeitados por isso.

A Falsa Lógica dos Ateus

Os descrentes, por outro lado, gostam de gabar de sua lógica e empiricismo. Não estão presos à fé emocional e ilógica dos religiosos. Para eles, a questão é puramente científica. Não há provas diretas e observáveis da existência de deus, logo não podemos afirmar que deus exista. Simples assim. Lógico. Racional. Não somos o máximo?

A questão do wishful thinking não entra na equação. Não estamos falando do que desejamos ou não. Simplesmente não há provas. Ponto.

Mas, graças ao episódio da água fervendo, eu passei a ver a coisa por outro ângulo.

A não-existência de deus não foi uma conclusão lógica e científica a que cheguei com base nas evidências empíricas disponíveis.

Pra mim, ser ateu era uma necessidade existencial tão básica e profunda como a crença em reencarnação para os kardecistas. Uma questão de justiça.

Hoje em dia, a pergunta que faço aos ateus é: ok, você não acredita que deus exista, mas você preferiria que ele existisse? Se você pudesse escolher, preferiria viver em um universo regido pelo acaso e pela entropia, ou em um universo criado e mantido por deus?

Com certeza, alguns leitores espírito-de-porco vão ser do contra, mas serão a exceção que prova a regra.

Todos os ateus com quem já conversei sobre isso, se forem sinceros, se olharem profundamente dentro de si mesmos, acabam admitindo que, de fato, prefeririam que deus não existisse.

Não chegaram a dar o salto lógico de concluir que não crêem em deus PORQUE preferem que deus não exista, mas pelo menos admitiram o seu wishful thinking.

Os Critérios Inescrutáveis de deus

Uma das melhores crônicas do Veríssimo, ateu confesso, narra a chegada de um homem no purgatório. Começa seu julgamento, para decidir se irá ao céu ou ao inferno. Primeiro, o promotor acusa: no semana tal, ele usou a mesma cueca por três dias consecutivos. Ahhhh, faz o júri. Em outra ocasião, ele ligou a água do chuveiro, para enganar a mãe, mas não tomou banho. Ooohhh, faz o júri. Ao longo da vida, ele urinou 5.456 vezes sem lavar as mãos logo depois. Uhhhh, diz o júri.

Por fim, o homem não se contém e começa a listar todas as coisas boas que fez, foi um bom pai, doou para a caridade, etc, e no meio desse discurso, ele enxerga Hitler, angelical, caminhando plácido entre os habitantes do céu, e aponta, indignado: e ele? Ele causou guerras, matou, criou campos de concentração!

Sim, admite o promotor, mas tinha uma higiene pessoal inatacável!

Sou Ateu Porque Preciso

Confesso: eu acredito viver no melhor universo possível.

Não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.

Não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.

Não suportaria saber que vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente, mas sem lembrar de nada!

Se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. Ao seu bel-prazer, somos mortos, escravizados, santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o experimento.

Se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.

Se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.

Já disseram que, se deus não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por outro lado, então não vale a pena fazer nada, pois nada faz sentido.

Um leitor questiona:
"Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?"
Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?

Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente marionetes em seu projeto cósmico.

Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da liberdade do que nada.

Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.

Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.

Sou ateu porque preciso.


Postada no blog entre Janeiro 10 e 15, 2005

 

Outros Artigos sobre Religião:

Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas

A Bíblia Como Literatura

 

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As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 

 

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