Vitória do Self-Denial Sobre a Lógica Mais Rasteira
Não vale a pena escrever sobre
a Prisão Religião. O assunto praticamente se escreve
sozinho. Quem duvidar do poder nocivo das religiões basta
ler qualquer história do mundo nos últimos dois mil anos.
Os politeístas podiam ter todos os defeitos do mundo, mas
nunca travaram guerras religiosas. O deus chaveiro de um era
tão bom quanto o deus torradeira do outro. Se o povo do deus
bolinha de gude ganhasse uma guerra contra o povo do deus
clipes de papel, esse último rapidamente concluía que o deus
clipes de papel não era de nada, abraçava o deus bolinha de
gude sem pensar muito e a vida prosseguia bela.
Até que um certo povo do deserto se recusou a adotar a
religião do conquistador e disse: sua vitória sobre nós não
quer dizer que o seu deus, que nem existe, derrotou o nosso,
que é o único; quer dizer que o nosso deus, que é único,
está nos punindo por algo que fizemos mas, mesmo assim,
escravos e subjugados, nós acreditamos que ele nos ama e nós
o amamos de volta.
Com essa vitória do self-denial sobre a lógica mais
rasteira, começa a história do monoteísmo.
A Soberba de Querer Adivinhar
a Vontade de deus
Um verdadeiro cristão seria
alguém tão cego e tão aprisionado por dogmas tão idiotas que
mal conseguiria funcionar como ser humano. Infelizmente (ou
felizmente), o cristianismo é um amálgama tão sem-sentido de
regras impraticáveis que é impossível ser um verdadeiro
cristão - o que é, naturalmente, parte do problema.
Qualquer um que se diga cristão acaba sendo obrigado a
rejeitar essa doutrina dezenas de vezes ao longo de um dia
normal. Pior, ele é obrigado ao pecar por soberba, ao tentar
adivinhar a vontade de deus. Afinal, no mesmo livro onde
está dito que não podemos matar também está dito que não
podemos nos masturbar - sob pena de morte.
E quem é ele pra decidir que uma regra ainda vale mas que a
outra deus já revogou ou não liga mais?
Medo de Unicórnio
Um leitor comentou:
"não há nenhum Cristão,
pois não há ninguém capaz de ser integralmente Cristão. Só
falo de mim, que conheço meus pecados; não sou livre de
todo. Mas supondo que não há um Cristão no mundo, como pode
o Cristianismo ser nocivo? Isto seria da escala de ter medo
de unicórnios."
O problema do cristianismo é
justamente ser tão impraticável que não existe, nem poderia
jamais existir, um verdadeiro cristão. Até o peixe, que era
o peixe, dava patadas (guelradas?) na própria mãe.
E, ainda assim, pior ainda, matam, invadem, conquistam e
proselitizam, fazem de tudo para impingir essa prática
impossível a outros povos. Você já ouviu falar de um tal de
Bush?
Quem dera fosse medo de unicórnio.
Ateísmo
e Imoralidade
Confesso que não consegui
acabar o
Anticristo, tentei ler duas vezes e o livro me irritou
muito. É o tipo do livro que dá um mau nome aos ateus, como
se fôssemos todos nazistas em potencial, criaturas sem moral
nem ética.
(Prefiro a abordagem de Freud, em
O Futuro de uma Ilusão, um dos melhores livros que já
li, curtindo e baratinho. Recomendo com entusiasmo para
qualquer interessado no assunto.)
Um religioso uma vez me perguntou: se deus não existe, o que
lhe impede de matar seu vizinho?
E eu coloquei a mão no ombro dele: amigo, se a única coisa
que te impede de matar seu vizinho é a sua religião, então,
por favor, continue assim.
O Marxismo de Roberto Campos
Jesus não era cristão. Ele era
um rabi judeu, que ensinava dentro das regras do judaísmo,
se considerava judeu e jamais pregou uma ruptura com o
judaísmo.
O cristianismo, enquanto religião, foi totalmente inventado
por Paulo de Tarso e, depois, transformado em religião de
estado durante o fim do Império Romano.
Eu
não sei como as pessoas conseguem ler a Bíblia em seqüência
e não perceber que aqueles ensinamentos belíssimos dos
quatro evangelhos são completamente deturpados por Paulo
apenas algumas páginas depois.
Pior ainda, como não vêem que aqueles ensinamentos do judeu
Jesus estão totalmente ausentes não só do cristianismo
inventado por Paulo, mas também do cristianismo estabelecido
por Agostinho e, mais tarde, das práticas tanto da Igreja
Católica quanto dos protestantes?
Imaginem se o último terço de
O Capital tivesse sido escrito por Milton Friedman ou
por
Roberto Campos e se dedicasse a distorcer e negar tudo o
que foi dito antes, mas mantendo, ainda assim, o nome de
Marxismo.
Será que também iriam achar isso normal?
Cristianismo e Marxismo
Infelizmente, o cristianismo
não é a única religião dogmática que encerra seus seguidores
em prisões mentais que os impedem de pensar claramente. Há
também o ateísmo (a maioria dos ateus são tão cegos e
intransigentes quanto qualquer fundamentalista religioso), a
psicanálise (sim, tio Freud derrubou Jesus mas quiseram
colocá-lo no lugar) e o marxismo (sem comentários).
Cristãos e marxistas têm em comum a crença em dogmas, dogmas
que, por definição, embotam o pensamento. Tanto cristãos
quanto marxistas não podem pensar muito, senão correm o
risco de questionar, nem que apenas sem querer, os dogmas
sagrados de sua religião e ser execrados por seus pares.
Conseqüentemente, a liberdade de ação de um intelectual
cristão ou marxista é mínima, e pode ser exercida apenas
naquele quintalzinho onde é seguro brincar.
Agostinho
ou Tomás de Aquino são homens geniais. A
Suma Teológica é uma leitura deliciosa, Aquino é o pai
da lógica. Mas é triste ver quantas limitações prendiam
cérebros tão brilhantes. A cada passo do caminho, Aquino
esbarra no mistério divino e dá um passo atrás. Isso não
posso explicar, daqui não posso ir. Ambos autores são
monumentos vivos dos efeitos nocivos dos dogmas sobre
cérebros que, de outro modo, seriam brilhantes.
Leio um pedacinho da
Suma Teológica todo mês só pra me lembrar desse perigo,
só para não me deixar prender pelas minhas crenças, pelos
meus dogmas.
Os exemplos com autores marxistas são abundantes até demais,
basta pegar qualquer catálogo de editora acadêmica e tirar
10% dos nomes. Raros são os autores marxistas que conseguem
se erguer acima disso e, mesmo assim, só porque estendem,
artificialmente, o tamanho do quintal. Hobsbawm é um bom
exemplo.
Marxistas
e cristãos não podem ser bons intelectuais. Afinal, um
intelectual busca compreender o mundo, mas cristãos e
marxistas não precisam disso. Eles já passaram dessa fase.
Eles JÁ entende o mundo. Seus dogmas JÁ explicam tudo.
Sobram apenas buscar bons exemplos e bons argumentos, fazer
estudos com recorte específico para entender pequenos
detalhes.
Mas o Mundo mesmo, o Mundo com M maiúsculo, esse já está
explicado e entendido.
Não tenho saco pra pessoas assim. Não consigo nem conversar.
Estudei primeiro em escola católica, e conheço bem os
cristãos. Depois, estudei humanas em universidade pública
brasileira, e conheço bem os marxistas.
Não quero nada com nenhum dos dois.
Teologia da Libertação: O Auge
da Imbecilidade
O
Marxismo e o Cristianismo são duas das piores, mais nocivas
e mais assassinas idéias da História. Felizmente, ambas
raramente andam juntas: quem sofre de uma, não sofre de
outra.
As antas da Teologia da Libertação merecem um prêmio
especial de escória da humanidade por ter conseguido, a
custa de muito esforço, conciliar duas teorias idiotas e, a
princípio, irreconciliáveis, em uma teoria que é, talvez, a
MAIS idiota de todos os tempos. Em uma espécie idiota como a
humana, esse é um feito e tanto.
Um dos livros mais engraçados que tenho aqui em casa é a
Bíblia Pastoral, editada por estudiosos ligados à
Teologia da Libertação. Em função de sua ideologia, eles
distorceram tudo o que poderia ser humanamente distorcido -
especialmente as introduções, notas e subtítulos dos livros.
Exemplos de subtítulos do Eclesiastes, na tradução da
Bíblia Pastoral:
- A competição é desumana
- A felidade é usufruir o
fruto do próprio trabalho

- O acúmulo traz desgraça
Desnecessário acrescentar que
nenhuma dessas expressões ocorre no próprio texto, mas são
apenas tentativas desastradas guiar e influenciar
ideologicamente a leitura dos mais incautos.
Eu confesso que dou boas gargalhadas com minha
Pastoral. Sempre que leio um livro da Bíblia, eu vou na
Pastoral conferir como os Freis Bettos a distorceram.
Nunca falha em me divertir.
Quando sair de casa pra realizar lavagem cerebral em pobres
camponeses ignorantes, não esqueça de levar sua
Bíblia Pastoral.
Quantos Deístas Dançam
na Ponta de Um Alfinete
Nada mais chato (e mais
ilógico!) do que um ateu militante.
Os cristãos e os marxistas, pelo menos, tentam convencer os
pobres-coitados à sua volta a adotar um dogma fechadinho e
abrangente, uma visão de mundo que explica tudo e oferece
algum conforto às mentes imaturas e confusas.
Já os ateus, o que oferecem? Uma negativa. Se é impossível
provar uma negativa, quem dirá converter alguém a uma
negativa.
Além dos mais, os não-religiosos ou anti-religiosos acabam
se dividindo em tribos fluidas, de difícil definição.
Dependendo do seu estado de espírito (ou falta dele, claro),
você pode ser ateu na segunda, deísta na quarta e agnóstico
na sexta. E daí? Na prática, a diferença entre eles é
insignificante.
Pra quem bebe, a diferença entre vodca e uísque é
gigantesca. Pra um abstêmio, é tudo igual.
Eu já vi, em uma mesa de bar, um ateu pegando um deísta pelo
colarinho e dizendo que "deísta era tudo covarde". Um deísta
nada mais é do que um ateu que tem vergonha de dar o passo
seguinte, disse ele. E levou um soco.
Essas são as mesmas pessoas que criticam os religiosos por
travar guerras por questões como a santidade da mãe de deus
ou quantos anjos dançam na cabeça de um alfinete.
Fundamentalismo Laico
Não me incomodo de viver em um
mundo de religiosos, contanto que não me atrapalhem em nada.
Se acharem que vou pro inferno por defender a libertinagem,
mas que posso defendê-la, por ser meu direito
constitucional, seremos amigos e aliados políticos para
sempre.
Concordo com a separação Igreja/Estado. O crucifixo na
parede do Congresso Nacional me causa algum incômodo, mas
sei que a influência dele é nula. Por outro lado, acho
preocupante cairmos em um fundamentalismo laico,
representado pelo episódio do véu nas escolas da França.
Sim, as religiões devem ser retiradas da escola - mas só
quando estão em posição de poder.
Sou totalmente contra preces em escolas, por exemplo. As
preces sempre partem da escola, ou seja, vêm de quem está na
posição de poder, e sempre representam a religião dominante
do Estado, uma posição de mais poder ainda.
Somente uma criança de muita fibra (e são poucas, ainda mais
nessa idade) para ser capaz de ir contra essas duas forças
quase irresistíveis e exercer o seu direito de não rezar.
Por outro lado, nada contra que cada aluno, ou cada pessoa,
ou cada deputado, traga em seu corpo os símbolos de sua fé.
Se um aluno petista pode ir à aula com um broche do PT (hoje
em dia, não há maior ato de fé do que ainda ser petista e,
pior, usar adereços que comprovem isso!), se um aluno punk
pode ir com o cabelo roxo, por que uma aluna muçulmana não
poderia ir de véu?
Testemunho de Não-Fé
O Estado do Rio de Janeiro tem
uma governadora que apóia o ensino do Criacionismo nas
escolas e escreve livros sobre as virtudes submissas da
mulher ideal. Nessa conjuntura, é interessante lembrar que o
Imperador Juliano, por volta do ano 350, o último grande
imperador pagão e um dos meus heróis, proibiu os cristãos de
lecionarem lógica ou retórica.
Afinal, pessoas que defendem uma fé implícita e
inquestionável em algo ilógico e impossível de ser provado
não estão aptas para ensinar ou usufruir dos benefícios da
ciência, da lógica e da razão.
Imaginem se um dos critérios de admissão na Nasa fosse um
"testemunho de não-fé".
Prisão Religião ou
Prisão Cristianismo?
Alguns leitores estão
reclamando que não estou falando de religião, estou falando
de cristianismo. Ora bolas, caro leitor, para um brasileiro,
cristianismo e religião são sinônimos. Perguntam: e o
judaísmo, e o islamismo, e o hinduísmo?
Quanto ao judaísmo, quase tudo o que diz do cristianismo
também vale pra ele. O cristianismo, afinal, nada mais é do
que uma dissidência do judaísmo.
Quanto aos outros, sinceramente, não sei.
Lembrem-se de que esse blog trata da
minha jornada
interior de descobrimento. Se servir também para ajudá-los
nas jornadas de vocês, melhor ainda, mas só posso falar da
minha experiência.
Não tenho como saber como os hindus encaram sua religião,
que amarras prendem um muçulmano ao islamismo, ou algo
assim. Seria leviano querer estender minhas observações de
como os cristãos lidam com o cristianismo a todos os
religiosos.
Longe de mim responder dogma com dogma.
Lugares Comuns
Até aqui, a Prisão Religião
foi só lugar-comum, confesso. Quando eu disse que não valia
a pena escrever sobre a Prisão Religião, não era jogo de
cena. Se tudo o que eu tivesse a dizer fossem essas três
primeiras partes, coisas que já foram faladas e refaladas
por gente muito mais inteligente, eu teria ficado calado.
Mas escrevi por achar que tinha algumas contribuições algo
originais a fazer. Pode ser que eu esteja enganado, vocês
que me digam. As três primeiras partes foram só pra
esquentar. Amanhã, começa, de fato, a Prisão Religião.
A Aposta de Pascal
O
Veríssimo disse uma vez que tem inveja de religiosos e
de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, pois
elas vivem em um mundo muito mais interessante e colorido
que ele.
A
gente não acredita no que quer, mas no que pode. Em sua
famosa aposta,
Pascal diz que, mesmo sem acreditar, vale a pena apostar
que deus existe. Afinal, se ele não existir, não estaremos
cometendo heresia contra o universo aleatório. E, se
existir, podemos ganhar a felicidade eterna.
Faz sentido, mas não dá. Sério, não dá.
A
Experiência da Água Fervida
A empregada queria ferver uma
xícara d'água. Enquanto ela ia catar o bule no armário, eu
falei: por que não ferve no microondas?
Ela resmungou alguma resposta, que microondas era mais lento
ou algo assim, mas a verdade é que, senhora mais idosa do
interior, ela não tinha era confiança naquelas engenhocas
tecnológicas. Puro preconceito.
Eu respondi que apostava com ela que no microondas era mais
rápido. Ela aceitou a aposta.
A xícara d'água, no fogão, ferveu em pouco menos de três
minutos. No microondas, demorou três minutos e uns
quebrados. Quebrada, também, ficou a minha cara.
Eu ainda contra-argumentei que a grande vantagem do
microondas era a praticidade. Você só precisava sujar o
recipiente que fosse usar, a xícara, ao invés de sujar a
xícara e o bule. (Quando eu descobri que poderia fazer
mingau de aveia no microondas, no próprio prato, sem
precisar esfregar panela depois, foi um dos dias mais
felizes da minha vida.)
Mas a verdade é que ela estava certa e eu errado.
Cada Um Aferrado aos seus
Preconceitos
O episódio da água fervida
deveria ter sido esquecido mas, estranhamente, ele continuou
a me voltar à mente, como se ainda houvesse uma lição a ser
tirada. E havia.
Não há nada pior do que os preconceitos de quem acha que não
tem preconceito.
Minha empregada era uma senhora simples. Ela conhecia os
seus preconceitos. Ela sabia que não gostava dessas
rebimbocas modernosas, que esse negócio de homem com homem
era coisa do diabo e, tem mais, lugar de mulher era em casa,
criando os filhos. Nunca mentiu para si mesma, ou se
enganou.
Já eu, homem culto, cosmopolita e sem preconceitos, estava
totalmente cego pelos meus.
Assim como ela não tinha motivo lógico algum para preferir
ferver água no fogo, a não ser seu preconceito inato contra
tecnologia, eu também, por outro lado, não tinha motivo
lógico algum para preferir ferver água no microondas, a não
ser minha tecnofilia inata de
brasileiro-jovem-urbano-elitizado.
Assim como ela estava presa à sua criação, que enfatizava
desconfiança à tecnologia, eu estava preso à minha, que
enfatiza um abraçar acrítico e entusiasmado de novas
tecnologias. Nenhum de nós pensou clara ou logicamente.
E a única evidência empírica da história toda é que usar o
fogão é mais rapido, mas usar o microondas faz menos
sujeira.
Wishful Thinking dos
Religiosos
Os descrentes (ateus,
agnósticos, deístas e similares) gostam de se imaginar
lógicos e racionais, pessoas que consideram as evidências
empíricas disponíveis e tomam as únicas decisões
cientificamente possíveis.
Já a maioria dos religiosos admite não apenas acreditar em
deus, mas precisar dele. Não conseguem imaginar um universo
sem um deus zelando por suas almas. Viver seria insuportável
sem esse conforto.
Dizem: não consigo acreditar que nossa existência seja só
isso, algo tão carnal, tão bestial. Tem que haver algo mais.
Traduzindo: não acredito que um ser tão incrível e complexo
como eu esteja destinado à mesma morte e esquecimento que os
peixes, as mariposas e os mamutes!
O nome disso é wishful
thinking.
Quem Disse que o Universo É
Justo?
Um adesivo de pára-choque
popular entre kardecistas é o inefável "Reencarnação:
Uma Questão de Justiça".
Naturalmente, não faz nenhum sentido. Ninguém, em momento
algum, disse que o mundo, a natureza, o universo são justos.
Quando muito, são conseqüentes, o que não deixa de ser uma
forma rudimentar de justiça.
Há poucos dias,
um ativista contra a obrigatoriedade do uso do cinto de
segurança morreu em um acidente de trânsito. Foi um
acidente bobo. Todos os outros passageiros, de cinto,
sofreram apenas ferimentos leves. Ele, por estar sem cinto,
foi atirado para fora do veículo e morreu. Injustiça?
O fumante inveterado de vinte anos não pode clamar
"injustiça" quando descobre que tem um câncer de pulmão
inoperável. Acho que ele tem todo o direito de ficar triste,
deprimido, revoltado (afinal, só temos uma vida, não é
mesmo?), mas seu câncer de pulmão não foi injusto. E nem
justo, aliás. Foi uma conseqüência das escolhas que fez
durante a vida.
Esse wishful thinking dos religiosos é ilógico e incoerente,
mas muito compreensível. Nada mais humano do que querer que
o universo seja como nós quisermos. Nada mais humano do que
querer, desejar, ter fé de que o universo será carinhoso
conosco.
Os religiosos abraçam essa contradição sem medo e devem ser
respeitados por isso.
A Falsa Lógica dos Ateus
Os descrentes, por outro lado,
gostam de gabar de sua lógica e empiricismo. Não estão
presos à fé emocional e ilógica dos religiosos. Para eles, a
questão é puramente científica. Não há provas diretas e
observáveis da existência de deus, logo não podemos afirmar
que deus exista. Simples assim. Lógico. Racional. Não somos
o máximo?
A questão do wishful thinking não entra na equação. Não
estamos falando do que desejamos ou não. Simplesmente não há
provas. Ponto.
Mas, graças ao episódio da água fervendo, eu passei a ver a
coisa por outro ângulo.
A não-existência de deus não foi uma conclusão lógica e
científica a que cheguei com base nas evidências empíricas
disponíveis.
Pra mim, ser ateu era uma necessidade existencial tão básica
e profunda como a crença em reencarnação para os
kardecistas. Uma questão de justiça.
Hoje em dia, a pergunta que faço aos ateus é: ok, você não
acredita que deus exista, mas você preferiria que ele
existisse? Se você pudesse escolher, preferiria viver em um
universo regido pelo acaso e pela entropia, ou em um
universo criado e mantido por deus?
Com certeza, alguns leitores espírito-de-porco vão ser do
contra, mas serão a exceção que prova a regra.
Todos os ateus com quem já conversei sobre isso, se forem
sinceros, se olharem profundamente dentro de si mesmos,
acabam admitindo que, de fato, prefeririam que deus não
existisse.
Não chegaram a dar o salto lógico de concluir que não crêem
em deus PORQUE preferem que deus não exista, mas pelo menos
admitiram o seu wishful thinking.
Os Critérios
Inescrutáveis de deus
Uma das melhores crônicas
do
Veríssimo, ateu confesso, narra a chegada de um homem no
purgatório. Começa seu julgamento, para decidir se irá ao
céu ou ao inferno. Primeiro, o promotor acusa: no semana
tal, ele usou a mesma cueca por três dias consecutivos.
Ahhhh, faz o júri. Em outra ocasião, ele ligou a água do
chuveiro, para enganar a mãe, mas não tomou banho. Ooohhh,
faz o júri. Ao longo da vida, ele urinou 5.456 vezes sem
lavar as mãos logo depois. Uhhhh, diz o júri.
Por fim, o homem não se
contém e começa a listar todas as coisas boas que fez, foi
um bom pai, doou para a caridade, etc, e no meio desse
discurso, ele enxerga Hitler, angelical, caminhando plácido
entre os habitantes do céu, e aponta, indignado: e ele? Ele
causou guerras, matou, criou campos de concentração!
Sim, admite o promotor,
mas tinha uma higiene pessoal inatacável!
Sou Ateu Porque Preciso
Confesso: eu acredito viver no melhor
universo possível.
Não suportaria existir em
um universo regido por uma força divina misteriosa e
caprichosa.
Não suportaria saber que
minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou
sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses
poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.
Não suportaria saber que
vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente,
mas sem lembrar de nada!
Se existe deus, então a
vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o
nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas
cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters
naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros
propósitos. Ao seu bel-prazer, somos mortos, escravizados,
santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o
experimento.
Se existe deus, então
todos os esforços da humanidade para se entender e se
auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada
valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade:
somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.
Se existe deus e temos o
livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é
uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e
pode ser tirada tão facilmente quanto.
Já disseram que, se deus
não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por
outro lado, então não vale a pena fazer nada, pois nada faz
sentido.
Um leitor questiona:
"Para mim, a grande questão
não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma
maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que
vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar.
Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é
que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não
há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na
cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?"
Eu não dou um tiro na
cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o
fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu
quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu
quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o
que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever
no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc
etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se
enfiar uma bala na cabeça?
Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa
possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente
marionetes em seu projeto cósmico.
Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da
liberdade do que nada.
Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das
evidências empíricas, que não existe base factual para
sustentar a existência de deus.
Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser
humano em um universo sem deus.
Sou ateu porque preciso.
Postada no blog entre
Janeiro 10 e 15, 2005
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