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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As Prisões: Respeito e Obediência

A Avó Vigilante

Aconteceu com o casal mais certinho que eu conheci. Claramente não eram certinhos o suficiente.

Luís e Dulce namoraram pudicamente por quatro anos. Deram uma festa para anunciar que ficariam noivos no ano seguinte. Esperaram um ano e então fizeram uma bem-comportada festa de noivado. O casamento foi marcado pra um ano e meio depois. Tudo bem devagarinho, como manda o figurino, dando bastante satisfações à família, aos amigos e à comunidade de modo geral.

(Eu nunca entendi essa coisa de dar uma festa pra anunciar a intenção de ficar noivos no ano seguinte. Se ficar noivo quer dizer anunciar a intenção de casar, então anunciar a intenção de ficar noivo é anunciar ter a intenção de ter a intenção de casar. Ora, intenção ou se tem ou não tem. E, se tem, é porque já são noivos na prática.)

Mesmo noiva de um homem que não poderia ser mais gentil, cavalheiro e respeitador, a donzela Dulce vivia sob intensa vigilância da avó, uma nona italiana da velha guarda. Mas eram bons meninos, totalmente inseridos nas expectativas da sociedade, e se submetiam a isso com tranquilidade. Achavam até muito natural. Passavam todos os fins de semana na casa da avó, faziam programas família, saíam pouco. Viajar ou passar a noite fora, nem pensar. Deviam transar, porque nem os santos são de ferro, mas sabe-se lá que horas.

Não consigo deixar de achar triste duas pessoas seriamente comprometidas uma com a outra, no auge da forma física e do vigor sexual, morando em uma grande e liberada cidade do ocidente, em pleno século XXI, ambos com vinte e tantos anos na cara, terem de se comportar como dois adúlteros para dar uma trepadinha. Mas, enfim, não liguem pra mim. Eu sou um degenerado. A história nem começou a ficar ruim ainda.

A seis meses do casório, a empresa do moço sofreu um piripaque e morreu. Sem saber o que fazer, ele recebeu uma proposta salvadora do tio de Dulce, empresário de cidade do interior, que precisava de um homem de confiança pra tocar seus negócios. Depois de uma breve visita a Juiz de Fora, ficou tudo acertado e Luis e Dulce começaram a fazer as malas para a mudança. Com um pequeno porém.

O quê?!, estranhou a avó. Minha neta donzela amancebada com um homem?! Onde já se viu?! O que minhas amigas vão dizer?!

Mas vovó! Não posso deixar ele ir sozinho. Vou ser mulher dele, tenho que ajudar na mudança, arrumar a casa, essas coisas. Nossa vida vai ser lá.

Os dois namoravam há cinco anos, estavam noivos, o casamento era dali a seis meses e eram doentiamente bem-comportados. Mas nada feito.

Depois de muita negociação, chegou-se a um meio termo. Dulce iria morar com Luis em Juiz de Fora mas dormiriam em quartos separados. A avó acompanhou toda a mudança, confirmou a existência do outro quarto e que as roupas da neta estavam mesmo lá, e voltou pro Rio felicíssima, se gabando pra todas as amigas da pureza e virtude da neta donzela, que, mesmo de casamento marcado, dormia em quarto separado do noivo.

Naturalmente, assim que a avó virou as costas, Dulce se mudou pro quarto principal, mas ninguém precisava saber disso.

Apesar da satisfação inicial, a coisa foi ficando progressivamente mais complicada. Em algumas semanas ficou claro que a avó tinha concordado apenas pra não parecer intransigente mas, convenhamos, era um absurdo a neta donzela dormindo sob o mesmo teto que um homem solteiro - mesmo que fosse o futuro marido, mesmo que em quartos diferentes. Aquilo era concubinato!

Antes que a vida familiar virasse um inferno, Luis e Dulce voltaram pro Rio muito a contragosto, adiantaram seus planos e casaram no civil só para conciliar a avó.

Pronto. Dessa vez, a nona fez um pouco de doce (afinal, casamento civil não é a mesma coisa perante deus) mas adorou. Até hoje se gaba para as amigas da virtude da neta e ainda joga na cara:

Nenhuma de vocês tem uma neta como a minha!

E não pense você, leitor cínico e endurecido pelo sistema capitalista, que havia interesses financeiros envolvidos. A avó não tinha grandes heranças pra deixar nem sustentava ninguém.

Luis e Dulce se viraram do avesso para satisfazer os preconceitos da avó - por puro respeito.

Cada Um Vê o que Quer

Adélia estudava Desenho Industrial no Rio de Janeiro, no século XXI. Seus pais moravam em Goiás, no século XVI.

A menina estudava de manhã (com bolsa de Iniciação Científica), trabalhava à tarde e pagava todas suas contas. Não dependia da família pra nada.

A mãe e o pai, em Goiás, achavam que ela estava hospedada em uma casa de família - o que não deixava de ser verdade. Ela estava sim hospedada na casa da família do namorado: morava no quarto dele e viviam como marido e mulher. Usavam até aliança.

Ninguém da família de Adélia jamais veio visitá-la no Rio. Sempre que ela voltava para Goiás, trazia o namorado a tira colo. Os dois não escondiam o relacionamento, nem as alianças, nem que era sério.

E, mesmo assim, a família acreditava piamente que a casta donzela morava em um quarto de hóspedes na casa do rapaz, esperando o dia do casamento para romper o tão sagrado cabaço.

Nessa vida, a gente vê o que quer, comentei.

Adélia ficou revoltada: eles acreditam porque confiam em mim, Alexandre!

E eu respondi: claramente, um mau negócio.

Respeito É Uma Rua de Mão-Dupla

Joaquim tinha 15 anos.

Todo fim de semana, querendo ou não, ele era obrigado a abandonar seus amigos, sua TV a cabo e sua banda-larga e ir se enfiar no bucólico sítio da família, em Lambari, duas léguas depois de onde Judas perdeu as botas. Mas era um menino obediente e respeitador, nunca reclamou, imagina!

Um belo dia, o pai anunciou que a família iria ficar no Rio por causa de um compromisso. Joaquim, empolgado, decidiu que tinha que aproveitar aquele fim de semana ao máximo: mobilizou seus amigos, marcou festas, combinou saídas, planejou complicadas logísticas de transporte. (Sair à noite, aos 15 anos, sempre requer complicadas logísticas de transporte.)

Eu era amigo da família e estava na casa quando o pai anunciou que seu compromisso tinha sido cancelado: iriam todos se esconder em Lambari como sempre.

Joaquim, coitado, ficou decepcionadíssimo. Ainda fez uma tentativa de choramingar, mas tão sem vigor que já começou derrotado:

Mas, pai, eu marquei com o Zé e com o Pedro e com a Teresa, eles agora precisam de mim, se eu não for, o Antonio fica sem carona, a Malu não vai poder ir e-

O patriarca não quis nem saber: vamos pra Lambari como todo fim de semana e pronto!

Joaquim, desgraçado, arrastou os pés até o telefone mais próximo para começar a triste tarefa de ligar pra todo mundo, desmarcar seus compromissos, perder o fim de semana com o qual tanto havia sonhado e ainda ser chamado de vacilão pela turma toda.

Como sempre, eu sabia que devia ter ficado calado, mas as palavras saíram da minha boca quase que sozinhas:

Ué, por que você não fica em casa?

Alexandre!, gritou o irmão de Joaquim, quase me dando um pescotapa, não ouviu o meu pai dizer que vamos pra Lambari e pronto?

Mas, se ele ficar assim mesmo, o seu pai vai fazer o quê?

Ele não é que nem você, Alexandre. O Joaquim respeita os mais velhos. Ele vai pra Lambari porque nosso pai mandou.

A questão é justamente essa, eu respondi. Respeito é uma rua de mão dupla. Seu pai sabia que o Joaquim fez uma série de preparativos para o fim de semana, preparativos que ele fez de boa-fé, achando que iria ficar no Rio. Agora, ele empenhou sua palavra com várias pessoas que estão dependendo dele para uma série de coisas. Se ele der pra trás, vai ferrar o fim de semana de muita gente. O seu pai não respeitou nada disso. Ele está tratando o Joaquim como se ele fosse uma criança cuja palavra e compromissos não significam nada. Se ele não respeita o Joaquim, não vejo por que o Joaquim teria obrigação de respeitá-lo.

Alexandre!, gritou o irmão de novo. Você enlouqueceu?! Veio pra minha casa pra dizer pro meu irmãozinho desobedecer nosso pai?! Como é que ele vai ficar em casa sozinho com quinze anos?!

Quinze anos é bastante coisa. Qual é o pior que pode acontecer? A casa pegar fogo e ele não encontrar a saída?

Toda essa conversa é acadêmica, carimbou meu amigo. Meu pai não vai deixar ele ficar mesmo.

Seu pai não tem como não deixar ele ficar. Se ele bater o pé e disser que fica, o seu pai vai fazer o quê? Arrastá-lo até o carro?

Meu amigo estava quase histérico: Alexandre! Você perdeu totalmente a noção das coisas?! Tem idéia do que está falando?!

Claro. A não ser em casos bem limitados, ninguém tem como obrigar ninguém a fazer nada. Em geral, o máximo que podem fazer é impor sanções para quem não fizer o que mandam, desde cortar mesada até dar uma injeção letal.

É, mas o Joaquim não vai querer ficar sem mesada, disse o irmão.

Enquanto isso, o próprio interessado ainda não tinha aberto a boca, mas acompanhava tudo atentamente.

Bem, continuei, tudo depende do que o Joaquim quer menos: perder os compromissos que ele estabeleceu (e ficar com reputação de vacilão sem palavra) ou sofrer as sanções que seu pai pode impor.

Óbvio que ele vai escolher respeitar nosso pai, concluiu o irmão.

E estava certo. Joaquim colocou o rabo entre as pernas e acompanhou a família até Lambari. Eu, por outro lado, nunca mais fui convidado nem pra um cafezinho.

Joaquim escolheu respeitar o pai, o caminho mais fácil e mais tranqüilo a curto prazo.

Respeitar a si mesmo, entretanto, é um investimento que se paga a vida inteira.

A maioria dos pais tem grande dificuldade em admitir que seus filhos cresceram, que são seres humanos plenos, que precisam ser respeitados em sua individualidade.

Cabe aos filhos, então, através de um ato de rebeldia controlada, com calma e responsabilidade, consolidar seu próprio espaço e colocar os pais no seu devido lugar: olha, eu respeito muito sua autoridade de mãe, mas isso não lhe dá jurisdição sobre esse assunto. Existem questões pessoais minhas que não são da sua alçada. Com licença.

De um modo ou de outro, todo mundo passa por esse momento. A primeira vez em que uma pessoa estabelece sua identidade em oposição aos seus pais. A primeira vez em que os pais têm de encarar a dura verdade de que sua vida e a vida de seus filhos não são uma coisa só.

Raramente é um momento tranqüilo. Se for mal-conduzido, pais e filhos podem ficar estranhados a vida toda.

Por outro lado, se os filhos agirem com serenidade e deixarem claro que não estão desrespeitando os pais, somente tentando definir os limites de sua esfera de atuação, a história pode (e deve) ter um final feliz. Os pais vão perceber, finalmente, que seus filhos cresceram e se tornaram seres humanos plenos e maduros.

Nem sempre, entretanto.

Mesmo que os filhos tenham de engolir algumas sanções, cortes de mesada, levar uns safanões, ficar sem TV, no fim das contas, no longo prazo, vale a pena.

Porque nenhuma das coisas que os pais podem tirar de um filho é mais importante do que sua maturidade, sua individualidade, seu espaço.

Mesmo que percam alguns bens materiais e alguns confortos, ganham algo precioso, que a maioria das pessoas não têm nem depois de velhas: respeito próprio.

Vale a pena o sacrifício.

Mentir por Respeito

Eu estava na casa de Adélia um dia em que ela recebeu um telefonema de sua mãe. Quando desligou, eu não pude deixar de comentar:

Você mentiu mais pra sua mãe nessa conversa de cinco minutos do que eu menti pros meus dois pais em trinta anos. Acho que é um recorde mundial. Quer que eu ligue pro Guiness?

Você não entende, Alexandre, porque você não respeita seus pais.

(Aparentemente, há uma unanimidade entre meus amigos de que eu não respeito meus pais. Na verdade, essa impressão é parte do problema. A maioria das pessoas simplesmente equaciona respeito com obediência. Se for assim, realmente, eu não respeito ninguém.)

Eu me recostei na cadeira e perguntei: me explica então como é que pode você mentir pra sua mãe do começo ao fim e eu é que não respeito meus pais.

Veja bem, eu não preciso dos meus pais pra nada. Tenho minha vida, meu emprego, minha bolsa. Se eu revelasse que estou morando com o Eduardo, não haveria nada que eles pudessem fazer a respeito, não iriam vir até aqui e puxar minha orelha até Goiás, nada disso.

Pois bem, respondi. Mais um motivo pra você contar a verdade.

Você não entende mesmo, não é, Alexandre? Se eu minto para os meus pais, não é pra poder viver minha vida como eu bem entendo. Isso eu já vou fazer de qualquer jeito, eles não têm mais como impedir.

Então mente pelo prazer de mentir? Pra não perder o hábito?

Não, minto por amor e por respeito. Se minha mãe soubesse que moro com meu namorado, que divido a cama com ele, que não sou mais - cruz credo! - virgem, ela ficaria destruída. Choraria dia e noite, se confessaria vinte vezes, viveria numa constante mortificação: o que fiz de errado pra minha filha ir pra cidade grande e virar puta?

Contar toda a verdade não mudaria minha vida em nada, mas condenaria minha mãe a muito sofrimento. Por que eu faria uma coisa dessas? Eu quero que ela seja muito feliz achando que sua filhinha é exatamente tudo o que sempre ela sonhou que eu seria.

O autor da Prisão Verdade não poderia mesmo discutir com isso.

Respeito Anacrônico

Estava conversando com Dulce, a noiva de Juiz de Fora, e ela também estava tentando me explicar por que virou sua vida ao avesso e sofreu todo tipo de inconveniente para satisfazer os preconceitos da avó.

Você não entende, Alexandre. A vovó é de outra época.

As pessoas acham que eu nunca entendo nada. Estão certas. Eu não entendo, por exemplo, esse negócio de ser de outra época. Já ouvi pessoas de 28 anos rememorando como eram as coisas na sua época. 28 anos!

Quer dizer, se a época dele não é a época em que está, teoricamente, no auge do seu vigor físico e mental, na época em que é um cidadão participante de sua comunidade, eleitor e contribuinte, bem, então a época dele é pra ter sido quando? Aos seus 12 anos, quando não mandava nada, tinha a cara cheia de espinha e mal era gente?

De certo modo, acho que usar essa expressão tão idiota é um pouco como desistir da vida ou, no mínimo, colocar o corpo fora. "Olha, eu não tenho mais nada a ver com isso mas, na MINHA época, as coisas não eram assim, não..."

Pois eu, enquanto estiver vivo e consciente, falante e atuante, votando e pagando imposto, escrevendo pra jornal e fazendo minha voz ser ouvida, essa será a minha época e não vou me furtar dela.

Então, como assim, "na época da avó"? A época da avó é hoje. Ela não lê jornal, não vê novela, os avanços sociais não estão por todos os lados? Ou será que ela acha que só a neta dela é a donzela exceção? Ou que toda a sociedade está virando uma gomorra despudorada - menos a santa netinha?

Ou então digamos que exista esse negócio de época e que a época da vovó foi lá quando os computadores ainda eram à lenha. De qualquer modo, a época da neta é hoje. Por que ela, na época dela, em que as coisas são feitas do jeito dela, vai fazer as coisas de acordo com os padrões da época da avó, já morta e moribunda e enterrada no passado longínquo?

Você não entende mesmo, Alexandre! Eu faço isso por respeito, por amor. Ela é velhinha, não está mais em idade de aprender novos truques. Quem tem que se adaptar a ela sou eu.

Ou seja, por causa de um respeito fora de hora, as pessoas deixam de viver sua vidas como gostariam de viver, como ela é vivida por seus contemporâneos, para viver de acordo com padrões anacrônicos, ultrapassados e dos quais inclusive discordam. Por respeito ao outros, desrespeitam a si mesmos e se anulam.

Se isso não é uma prisão, eu não sei mais o que é.

Viver na Mentira

Eu não sei se conseguiria viver mentindo.

A mãe de Adélia não faz a menor idéia de quem ela é. Sua filha é uma mulher bonita, liberada, inteligente, e casada. Entretanto, pra ela, Adélia ainda é uma menina-donzela estudando pra ser professora e morando de favor na casa de uma família gentil que lhe hospedou.

Apesar de todo o amor, a conversa entre as duas está ficando cada vez mais vazia. A maioria das coisas que acontece na vida de Adélia ela já não pode mencionar. Então, de um lado, a mãe conta as últimas notícias da vila e, do outro, Adélia inventa histórias censura-livre.

Eu sei que essa não é a relação que Adélia gostaria de ter com a própria mãe.

De certo modo, Adélia e Dulce estão sendo injustas com suas famílias. Não lhes deram o voto de confiança. Não lhes deram a opção de amá-las como elas são.

As pessoas às vezes nos surpreendem. A melhor coisa de se revelar, como falei na Prisão Conformismo, é forçar as outras pessoas a se posicionarem em relação a nós.

Sim, algumas não vão nos aceitar - mas essas não nos farão falta. Muitas vão nos amar como sempre amaram. E outras, talvez as mais importantes, vão nos amar apesar de seus preconceitos, apesar de vivermos nossas vidas em desacordo com seus padrões morais. Mas isso não importa, porque elas nos amam de verdade, e amor, antes de tudo, é tolerância.

Não sei como as famílias de Dulce e Adélia reagiriam. Talvez as cobrissem de porrada e as apedrejassem em praça pública. Talvez as amassem como sempre amaram.

Por pura falta de confiança, jamais saberemos.

Moralismo Anacrônico

Boa parte das pessoas que conheço, de empregadas domésticas a alunos de pós-graduação, sofre de moralismo anacrônico agudo.

Recentemente, por exemplo, no centenário da morte de Oscar Wilde, vários autores e jornalistas comentaram sobre sua prisão por homossexualismo. Hipocrisia, bradaram, ele foi condenado por suas tiradas irônicas! Injustiça!

Mas vamos lá: homossexualismo era crime e Wilder era homossexual assumido e escancarado. Sua prisão não poderia ter sido mais justa.

Errado era o homossexualismo ser crime, mas isso é outra história.

Imaginem se, daqui a cem anos, ter empregadas domésticas for considerado uma ignomínia tão grande quanto possuir escravos. Vocês achariam justo seus bisnetos falarem: "Bem, nunca conheci o bisavô, mas se ele teve empregada doméstica boa pessoa não era, aquele empregadocrata anti-ético!"

Se o homossexualismo era ilegal naquela época, nada mais justo do que um homossexual assumido ser preso por isso.

Felizmente, na minha época, o homossexualismo não é mais ilegal e, se fosse, eu lutaria para que deixasse de ser.

Mas o pessoal do século XIX não tem nada a ver com isso.

Os homens do passado estão mortos e já não podem se defender. Nada mais fácil do que impor nossa moral sobre eles e tachá-los de monstros, facínoras, homófobos, escravocratas. E nada mais covarde também.

Um homem tem que ser medido pela sua inserção na moralidade e na ética de seu tempo, não de acordo com valores surgidos às vezes séculos depois.

Se não, ainda mais observados da perspectiva do nosso politicamente correto, todos os seres humanos que já existiram terão sido calhordas irrecorríveis.

Respeito e Obediência

Às vezes, eu acho que faço mesmo tudo ao contrário.

As mesmas pessoas que impõem aos personagens do passado o seu código de ética do presente não hesitam em virar suas vidas ao avesso para aplicar ao presente os códigos de conduta ultrapassados de seus pais e avós.

Será que estou condenado a ser sempre o oposto de todo mundo?

Alexandre, eu não te entendo mesmo, diz Dulce, em tom de recriminação. Você é tão tolerante com os escravocratas, mas não consegue entender que a vovó é de outra época, cresceu em outro mundo, tem outros valores, coitadinha.

Ora bolas, claro que entendo. Entendo os valores da vovó tanto quanto entendo os valores dos senhores de engenho coloniais. A diferença é que não admito que nenhum deles dite como vou viver minha vida hoje.

Posso até me dar ao luxo de ser tolerante com a escravidão do século XIX, pois ela já não me incomoda em nada. De um modo bem real, uma única vovó linha-dura hoje é muito mais perigosa que todos os sádicos feitores de escravos do Brasil Colônia.

As pessoas parecem pensar que respeitar o vovô é viver a vida conforme o vovô. Se for assim, então desrespeito a humanidade toda. Todinha. Sem exceção.

Respeito não quer dizer subserviência. É possível respeitar alguém e discordar dele em tudo. É possível respeitar alguém sem se submeter a ela.

Respeito não é eu fingir que acredito em deus e fazer primeira comunhão só pra agradar minha avó beata. Muito menos é esfregar meu ateísmo na cara dela e dizer que somos todos animais sem alma.

Respeito significa, ao mesmo tempo, ser um indíviduo pleno que não se anula pelas crenças dos outros e também não criar conflitos desnecessários com a avozinha.

Nunca entro no assunto religião. Quando ela entra, saio graciosamente. Se ela força a barra, tento mostrar que respeito é uma via de mão-dupla: vovó, você sabe que não acredito em deus, por favor, pare de insistir para eu batizar o meu filho, você não está respeitando minhas crenças.

Finalmente, se mesmo depois disso, ela engrossar, bem, aí fica claro quem é que não respeita quem.

Entretanto, parece que sou o único que acha que respeito não é obediência.

A maioria das pessoas equaciona esses dois conceitos - mesmo quando isso vai contra seus próprios interesses. E, quando estão em posição superior, inevitavelmente exigem de seus subordinados o mesmo respeito-obediência ao qual se submeteram antes.

Quem nunca foi oprimido pelo respeito dificilmente vai usá-lo para oprimir.

Respeito aos Idosos

Todos merecem respeito. Pessoas, animais e plantas. Vivos e mortos. Nossa família e nosso chefe.

Só não entendo porque os idosos deveriam merecer mais respeito que os capricornianos ou os canhotos.

Uma coisa é respeito físico. Nada mais natural que ceder meu lugar no ônibus a alguém cujas pernas já andaram 40 anos a mais que eu. Tudo bem.

Mas que sabedoria é essa dos idosos que eu nunca vi?

Tenho 31 anos. Todas as pessoas que conheço desde a primeira infância já estão casando, tendo filhos, se estabilizando em suas carreiras. E elas me ensinaram uma coisa: quem era sensato aos 7, continua. Quem era irresponsável aos 11, continua. Quem era inteligente aos 15, continua. Quem era tapado aos 18, continua.

A gente gosta de acreditar que as pessoas melhoram mas, infelizmente, eu só as vejo piorar. Alguns dos jovens mais promissores que conheci foram derrubados pela sorte, traídos pelos seus próprios defeitos e agora se arrastam pela vida. Melhorar? Quase nenhum.

Não pensem que odeio velhinhos. Adoro me deixar alugar horas por relatos sobre como era a vida na década de 30. Sou contador de histórias, vivo para esse tipo de coisa.

Por isso mesmo, posso testemunhar: nenhum idiota fica sábio depois de velho.

Os idiotas de 20 só não serão os idiotas de 80 se morrerem primeiro.

Instinto de Obediência

Eu sou socorrista. Já tive oportunidade de salvar a vida de dois acidentados. Por coincidência, ambos atropelados bem na minha frente.

A primeira tarefa do socorrista é tomar o controle da situação e não deixar os bem-intencionados populares terminarem de matar a vítima. Em um dos atropelamentos, se chego dez segundos atrasado, dois bons samaritanos já teriam levantado o menino do asfalto e acabado de quebrar sua coluna.

Como um general no campo de batalha, eu tomo controle da minha tropa e delego tarefas aos meus subordinados: você, de vermelho, liga pra polícia, 190; você, de verde, liga pros bombeiros, 193; você, de rabo de cavalo, consola a motorista e diz que não foi culpa dela; você, com a pasta, pega o triângulo no meu porta-malas pra desviar o trânsito, etc.

Ao contrário do que diz o senso comum, o pior lugar para se ter um ataque cardíaco fulminante é no meio de uma multidão. A responsabilidade se difunde e as pessoas nem se sentem culpadas por não lhe ajudar: pensam que os outros também poderiam ter ajudado. Aliás, se ninguém ajudou, vai ver nem era tão sério assim. Melhor continuar andando, não se meter. À noite, todos os santos que passaram por cima de você enquanto estrebuchava até a morte vão botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos.

Se puder escolher, tenha seu ataque cardíaco diante de uma única pessoa. Ela vai ter sobre si todo o peso da responsabilidade. Sabe que, se não lhe ajudar, você vai fatalmente morrer. Não há mais ninguém para repartir esse fardo.

O melhor modo de quebrar a difusão de responsabilidade é delegando tarefas. Ao invés de gritar um socorro genérico, experimente dizer: você aí, de bigode loiro, vem aqui me ajudar agora!

Para o homem do bigode loiro, já não existe mais o conforto da difusão de responsabilidade. Ele foi especificamente convocado. Se não atender, aquilo pesará em sua consciência pra sempre.

No raro caso de ele não lhe ajudar, você também terá mobilizado a multidão, que ficará revoltada com a covardia do homem do bigode loiro, que absurdo!, e vão fazer algo para corrigir esse abandono.

Eu já sei até o que você vai dizer, ingênuo leitor: quanto cinismo, Alexandre! As pessoas obedecem porque querem ajudar.

Sim e não. Elas obedecem porque foram treinadas desde cedo pra isso. Ajudar é só uma feliz conseqüência. Para a maioria das pessoas que conheço, obedecer é um ato muito mais instintivo do que ajudar.

Obedecer, afinal, significa evitar o conflito, agradar, pertencer. Quer coisa melhor que isso?

Revolta só em último caso, só quando colocados contra a parede, só quando a opção é o impensável.

Meu único receio, enquanto controlo a cena do acidente, é que minha interpretação de "o homem que sabe o que está fazendo" seja tão boa que desestimule alguém que realmente saberia o que fazer de se apresentar. Por isso, eu sempre pergunto se há algum médico presente.

Talvez seja esse o segredo da obediência.

As pessoas nunca sabem nada de nada, mas têm uma fé profunda e inabalável que alguém, em algum lugar, sabe. A chave pra controlar qualquer multidão é convencê-los de que você é esse alguém.

* * *

Leia mais sobre difusão de responsabilidade e bystander apathy.

Esses conceitos têm uma aplicação muito ampla. Encontrei um artigo da Harvard Business School explicando porque é mais eficiente mandar um único email individualizado para uma única pessoa pedindo ajuda do que fazer o mesmo pedido genérico para 500 pessoas.

Eu particularmente adoro o modo como os economistas pensam o mundo. Eles chamam esse conceito de Volunteer Dilemma e tecem umas considerações muito interessantes. Segundo o game theorist Rapoport, os nativos da Terra do Fogo possuem uma palavra que quer dizer "looking at each other hoping that either will offer to do something that both parties desire but are unwilling to do."

A Impotência do Poder

Henry David ThoreauEm 1846, Thoreau foi preso por não pagar impostos. O dinheiro seria usado para financiar a Guerra Mexicano-Americana, uma das mais criminosas de todos os tempos.

Eu me recuso a jurar lealdade ao Estado, ele escreveu. Custa menos pra mim suportar a punição do que obedecer. Eu valeria menos se obedecesse.

Na cadeia, Thoreau percebeu a total impotência do Estado contra ele:

Então, é só isso que podem fazer contra mim por quebrar suas leis? Eles me trancam aqui dentro mas meu pensamento, que é o verdadeiro perigo, continua livre. Como estou fora do seu alcance, decidiram punir meu corpo, como se fossem meninos que não podendo atacar um desafeto chutam seu cachorro.

A maioria das pessoas não se dá conta que, assim como Joaquim e seu pai, ninguém tem o poder de nos obrigar a nada. O Estado pode nos punir, mas não nos obrigar a ir contra nós mesmos. Desobediência Civil - HENRY DAVID THOREAU

Quem abdica de seus princípios o faz por conta própria, por calcular que o castigo seria pior do que a auto traição. E provam, ao fazer isso, o verdadeiro valor dos seus princípios.

O Estado (e todas suas encarnações humanas, pais, professores, chefes) é totalmente impotente diante de um único ser humano determinado. Pode matá-lo, mas jamais vencê-lo.

Poder e Obediência

Um dobermann pode fazer qualquer pessoa em pedaços. Adestração canina consiste em convencê-lo de que seu treinador é a exceção. O cachorro não pode jamais se dar conta de que o mais forte é ele.

As pessoas não são tão burras quanto um dobberman, mas caem no mesmo truque. Pais, professores e chefes fazem de tudo para que esqueçamos que os mais fortes somos nós.

Um professor em sala de aula enfrenta não apenas um, mas dezenas de dobbermans. Assim como no adestramento, há um reconhecimento tácito de que o professor detém o poder, mas os alunos - assim como os dobbermans - rotineiramente testarão os limites desse poder.

Experimente mandar seu cachorro não entrar em casa. De tempos em tempos, ele tentará - e na sua frente. Se você não expulsá-lo imediatamente, em breve, ele estará lhe derrubando no chão e não vai haver nada que você possa fazer.

Rico é quem não sabe quanto dinheiro tem. Do mesmo jeito, poderoso é quem não sabe quanto poder tem. Nunca precisou usá-lo.

Já no primeiro dia de aula, os alunos são confrontados com um indivíduo a quem devem obediência, alguém que tem poder de mandá-los calar a boca, expulsá-los de sala ou reprová-los, dentre outras coisas. A tendência dos alunos é aceitar o status quo e nunca questionar a autoridade. As pessoas gostam de obedecer.

Duas falhas graves, entretanto, podem fazer os alunos se rebelarem:

Fraqueza, quando consideram o professor incapaz de usar, não merecedor ou, pior, não possuidor do seu pretenso poder.

E tirania, quando julgam que ele ultrapassou os limites do que eles mesmos - ainda que inconscientemente - haviam estabelecido para sua ação.

O primeiro questionamento é o da vítima que exige ver a arma que o ladrão pretensamente leva no bolso. A rebelião ostensiva ao professor sempre traz implícito o desafio: obedecíamos porque achávamos que você tinha poder sobre nós e agora achamos que você não tem.

Ao professor, resta demonstrar que dispõe do poder que alega possuir, mas sem cair no extremo da tirania. Caso não seja bem-sucedido, ele perde a moral e o respeito - em suma, seu poder - para sempre. Moral perdida jamais se recupera. Acho que todo mundo já deve ter tido um professor assim, especialmente nas matérias menos importantes. Totalmente sem controle sobre a turma, o infeliz mal consegue completar uma só frase.

Na base na relação de poder aluno-professor - e de todas as outras relações de poder - está uma simplícissima verdade: os alunos não calam a boca porque o professor manda; eles calam a boca porque decidem que o professor, por deter o poder, tem o direito de mandá-los calar a boca e eles, por serem alunos, têm o dever de obedecer.

Mas essa obediência voluntária é muito frágil: se os alunos decidem que o professor não tem nem o direito e nem o poder de lhes mandar calar a boca, o máximo que ele poderá fazer é impor sanções: expulsar de sala, reprovar, etc, mas não terá como fisicamente obrigá-los a calar a boca.  Espírito das Leis, O  MONTESQUIEU

Essas sanções, entretanto, devem ser aplicadas com muito cuidado, ou o professor fraco corre o risco de se tornar um professor tirano. A tirania, já dizia Montesquieu, é o mais violento e menos poderoso sistema de governo.

Um bom modo de entender o poder é compará-lo a um revólver. Em primeiro lugar, é uma arma que o professor tem e os alunos não. Além disso, há mais alunos que balas.

Um professor nunca poderá, por exemplo, expulsar a sala inteira de aula. Poderá, no máximo, dizimá-la.

A palavra dizimar vem de Roma antiga e era aplicada a exércitos romanos que se rebelavam contra o Estado. Na impossibilidade de punir a todos os culpados, por serem milhares, eles eram dizimados, ou seja, um décimo dos rebeldes era aleatoriamente executados.

Dizimar uma sala de vinte alunos, ou seja, expulsar dois encrenqueiros, pode até parecer atraente à primeira vista, mas é uma admissão de derrota.

Um professor que, ao ser desafiado, aciona seu poder exclusivo de professor e dispara seu revólver está sendo covarde aos olhos dos alunos. Afinal, só ele possui essa arma. Por causa disso, o próximo desafio será ainda mais sério e o professor novamente se verá obrigado a disparar seu revólver.

Quanto mais se usa o poder, menos poder se tem. Cada tiro significa menos uma bala no tambor. Um dia, ele apontará sua arma para os alunos e ouvirá apenas o click do tambor vazio. Neste momento, o poder do professor tirânico acabará tão absolutamente quanto o do professor fraco.

Como em uma briga de bar, não é vantagem alguma um homem armado atirar em um desarmado. É fácil, desonroso e covarde: não demonstra poder algum. Qualquer homem com uma arma pode atirar em um homem desarmado, e ambos sabem disso. A honra consiste em o mais poderoso ou descer ao nível do menos - não usando a arma e lutando com os punhos - ou fazendo-o subir ao seu - atirando ao desarmado uma arma igual a sua.

Como o professor não pode delegar o seu poder aos alunos, a única solução é não usá-lo. Nunca disparar seu revólver. Já basta a intimidação de todos saberem que só ele pode dispará-lo, quando bem entender.

Se queremos comparar o poder com uma arma, uma metáfora mais feliz seria com uma bomba atômica.

Ninguém quer usar bombas atômicas. Uma bomba atômica, assim como o verdadeiro poder, só funciona enquanto não é utilizada. Se um país se vê em uma crise tamanha que é obrigado a fazer uso de armas atômicas, então é porque não é tão poderoso assim, pois senão jamais teria permitido que a crise chegasse a tal ponto.

Na prática, o único objetivo de uma bomba atômica é impedir que o país enfrente uma crise na qual tenha que usar bombas atômicas. Assim como o verdadeiramente rico, o verdadeiramente poderoso é aquele que não sabe quanto poder tem, já que nunca foi forçado pelas circunstâncias a usá-lo.

Professor poderoso é aquele que controla sua turma conversando de igual pra igual. Quando desafiado, ele resiste à tentação de usar seu poder e não levanta a voz, não expulsa de sala, não ameaça com teste-surpresa. Descendo ao nível dos alunos, ele desarma seus desafiantes da mesma maneira como são vencidas as disputas entre eles: através da palavra. Usando de sua superioridade em termos de conhecimento, experiência e até mesmo equilíbrio emocional, ele conquista os alunos pela amizade e pelo respeito mútuo.

O revólver, enquanto isso e às vistas de todos, continua sempre no coldre.
 Pensamento de Mao Tse-Tung, O MAO TSETUNG
Eu trabalhei por cinco anos como professor substituto no ensino médio e três como professor de inglês para adolescentes em cursos particulares. Em ambos os casos, eu era talvez o professor menos importante que meus alunos tinham. Ninguém melhor para extravasar sua raiva com o professor de matemática do que aquele gordinho que só está ali cobrindo a doença da Tia Valéria. Encarei várias rebeliões. Fui desafiado de todos os jeitos. E nunca disparei um tiro.

Conheço professores que dizem que tem aluno com quem não dá pra conversar. E eu respondo: se você não consegue conquistar seus alunos na conversa, então, meu amigo, tenho certeza que você deve ter muitos outros talentos, mas está na profissão errada. Quem não consegue traçar uma linha reta, não pode viver de ser desenhista.

 Sobre a Violência HANNAH ARENDTA essência do poder consiste em não utilizá-lo. Atirar em um homem desarmado não é vantagem alguma. Sim, o poder emana do cano de uma arma, como disse o camarada Mao, o problema é que a munição sempre acaba.

Poder e violência são opostos, escreveu Hannah Arendt. Um reina no vácuo do outro. A violência surge quando o poder está em perigo mas seu uso termina por corroer o próprio poder. E ela conclui: a violência é incapaz de criar poder, pode apenas destruí-lo.

Em última análise, o poder verdadeiro está sempre nas mãos de quem está por baixo.

Leia Reflections on Violence, maravilhoso ensaio de Hannah Arendt.

É Mais Fácil Pedir Perdão Do Que Permissão

Piada-parábola:

Sala de espera. O homem puxa um cigarro e, antes de acender, pergunta à recepcionista:

"Posso fumar aqui?"

"Não", ela responde, prontamente.

Ele está guardando o maço quando percebe todas aquelas guimbas a sua volta, fumadas até o fim. E questiona:

"E essas guimbas? De quem são?"

E a recepcionista, imperturbável:

"Ah, sim, são das pessoas que não perguntaram."

Votos que se Anulam   Pelado DAVID SEDARIS

David Sedaris é um dos escritores mais engraçados do mundo atualmente. O trecho abaixo é da sua crônica Diary of a Smoker:
I rode my bike to the boat pond in Central Park, where I bought myself a cup of coffee and sat down on a bench to read. I lit a cigarette and was enjoying myself when the woman seated twelve feet away, on the other end of the bench, began waving her arms in front of her face. I thought she was fighting off a bee. She called out, "Excuse me, do you mind if we make this a non-smoking bench?"

I don't know where to begin with a question like that. Do I mind if we make this a non-smoking bench? There is no we. Our votes automatically cancel each other out. What she meant was, "Do you mind if I make this a non-smoking bench?"

I could understand if we were on an elevator or locked together in the trunk of a car, but this was outdoors. Who did she think she was? Things irritate me all the time, but I accept this as a fact of life. I would never go up to someone and say, "Excuse me, do you mind if we make this a non-radio-playing block?"
Se gostou, compre seu livro de crônicas Pelado.

Sem Medo de Escândalo

Eu não recomendo que ninguém siga meus passos. A conseqüência desses processos mentais é que acabei me tornando ainda mais abusado do que já era. Um dia vou levar um tiro. Até lá, me divirto como posso.

A grande maioria das pessoas está sempre tentando evitar escandânlo e fugir do confronto. Portanto, se você não perde a calma, mas deixa claro que vai fazer um escândalo, as chances são grandes de você conseguir tudo o que quiser.

Outro dia, eu estava em uma das salas de computador de uma universidade. Na frente, um professor dava aula de contabilidade enquanto eu, no fundo, acessava a internet. Dali a pouco, veio o professor perguntar se eu estava matriculado naquela disciplina. Eu respondi que não e ele, educamente, pediu para eu me retirar pois aquela sala era só para alunos daquela matéria. Um pedido perfeitamente razoável. Posso imaginar poucas pessoas que não atenderiam.

Mas a sala estava vazia. Havia cerca de trinta lugares e só uns dez ocupados, os alunos amontoados em volta dele na frente e eu sozinho, dez fileiras atrás. Além disso, eu sabia que todas as outras salas de computador estavam fechadas. Entrei lá porque era a única.

Ele pediu educamente pra eu sair e eu disse, educadamente: "Não."

Todo mundo devia tentar isso pelo menos uma vez na vida. Mesmo as pessoas que têm menos autoridade esperam sempre ser obedecidas em suas ordens disfarçadas de pedido. Dizer um simples não, e observar a reação, é um prazer raro.

Como assim não?, ele disse. E começou a falar que aquela sala era só pra alunos, que havia uma placa na porta dizendo isso e etc. Eu interrompi delicadamente e dei para ele as seguintes opções.

Eu estou aqui usando a Internet sem incomodar ninguém, seus alunos não estão nem me vendo, tem lugar sobrando na sala. Se você deixar eu ficar aqui sozinho, não vou te atrapalhar em nada. Aliás, essa conversa já demorou muito, daqui a pouco eles vão começar a viajar e vão perder a concentração. Agora, se quiser me fazer sair, eu vou dar um escândalo, não vou sair por bem, vou dizer que sou um aluno pagante e não admito isso, o segurança vai ter que vir me arrastar, eu vou dizer pra ele que se ele encostar em mim, eu vou contar pro meu avô, o Juiz, que vai tirar até as calças dessa universidade. Enfim, eu vou até acabar saindo, imagino, mas sua aula vai por água abaixo. E como essa é uma universidade mercenária, eu nem mesmo vou ser expulso ou penalizado, pois eles querem meu dinheiro mais do que qualquer coisa.

Ele bufou, suspirou, rolou os olhos. Esticou o braço até o meu pulso, pensou seriamente em me agarrar fisicamente, depois desistiu, deu de costas e continuou a aula.

Não é à toa que minha ex-mulher morria de vergonha de andar comigo, mas a gente sempre conseguia o que queria.

Quebrando o Ciclo da Obediência

Eu quebrei o ciclo da obediência quando me dei conta de que, realmente, só precisava obedecer a dois tipos de pessoa: as que eu decidia obedecer e as que eu não podia me dar ao luxo de não obedecer.

Quando um PM me manda parar e levantar as mãos, especialmente no Brasil, eu paro e levanto as mãos não porque reconheço no guarda um representante da autoridade legalmente constituída (ha, ha), mas porque sei que é bem capaz do neanderthal apertar o gatilho se não for com a minha cara.

Quando um professor me manda sair de sala, eu só saio realmente se quiser. Se não, ele vai fazer o quê? Me arrastar pra fora fisicamente? Tomara. Com tantas testemunhas, eu processo a universidade e ganho uma fortuna.

Quando seu pai lhe proíbe de namorar o Paulão dos Nove Piercings, você pode decidir obedecer a ordem em respeito a ele - afinal, ele lhe transmitiu dois quartos dos cromossomas e paga quatro quartos das suas contas.

Você também pode responder, com respeito e educação, que acha que sua vida amorosa não está dentro de sua jurisdição de pai.

Depois, seja forte e agüente. Se ele cortar sua mesada ou lhe expulsar de casa, paciência. Lembre-se que está lutando não pelo Paulão (que realmente não vale nada, confie em mim) mas por você mesma. A escolha é sua. Vai querer que seus namorados sejam aprovados por comitê?

Sempre que alguém me manda fazer alguma coisa, minha primeira consideração é: o que essa pessoa pode fazer contra mim se não obedecer?

Pode ser um chefe que vai me despedir, um pai que vai me cortar a mesada, um professor que vai me reprovar, uma esposa que vai me deixar ou um policial que vai me balear.

Na verdade, tirando esses exemplos mais óbvios acima, a grande conseqüência dessa pergunta foi eu me dar conta de que praticamente ninguém poderia fazer nada contra mim. Poucas revelações são mais libertadoras do que essa.

A segunda pergunta que me faço é: que direito essa pessoa tem de me mandar fazer isso?

Aqui entramos em um território movediço. A resposta da primeira pergunta é objetiva; da segunda, extremamente subjetiva.

Quase sempre, a outra pessoa não só não tem direito algum como ainda não pode fazer nada se eu não obedecer.

Mesmo assim, na maioria das vezes, em nome da boa convivência, eu cedo. Mas de olhos abertos.

Pois a principal conseqüência desse pequeno exercício é perceber quantas ordens insensatas recebemos todos os dias - e obedecemos sem nem pensar.

Estávamos só cumprindo ordens, diz o lema do século XX, mas cumprir ordens é sempre (ou deveria ser) uma decisão consciente.

E Se Todo Mundo Fizesse Como Você?!

Nesse ponto, sempre aparece algum imbecil pra dizer: "E se todo mundo fizesse como você?!"

Geralmente, quem diz isso levanta o queixo e faz uma carinha de superior, como se tivesse acabado de encurralar o outro em uma posição indefensável, e nem se dão conta de que acabaram de fazer a objeção mais idiota que se pode fazer a qualquer argumento ou idéia.

É como se um engenheiro estivesse projetando um edifício, calculando todas as variáveis possíveis e imaginárias, força do vento, erosão do solo, caixinha da prefeitura, e um idiota viesse dizer: e se cair um cometa no prédio?

Ora porras, responderia o engenheiro, a possibilidade de isso acontecer é tão pequena que não precisa ser levada em conta.

E eu digo mais: a possibilidade de um cometa cair em um prédio é infinitamente superior à de todas as pessoas adotarem meu estilo de vida. Até que porque a primeira é improvável, mas a segunda é impossível.

Em um mundo menos estúpido, eu não precisaria nem mencionar algo tão óbvio.

Eu Não Assinei Nenhum Contrato Social

Ao começar a me questionar sobre o pretenso direito que teriam as pessoas de me dar ordens, eu percebi que esse é um direito dado facilmente demais.

Vejo gente mudando sua vida por causa da opinião da vizinha da casa ao lado. Namoradas obedecem ordens idiotas de uns machinhos que deveria lamber os beiços de estar com elas.

Mas o que mais me impressiona é como os cidadãos conferem autoridade moral ao aparelho do Estado. Sim, eu admito que o Estado é mais forte que eu. E nada além disso.

De um modo ou outro, conhecendo ou não o termo, a maioria das pessoas acredita em certo contrato social. Teoricamente, abdicam de vários direitos em troca do privilégio de viver em civilização e dispor da proteção do Estado.

Civilização? Proteção do Estado? Você não deve ser do Rio, né?

Conversando com um religioso, ele me perguntou: já que você é ateu, o que lhe impede de matar seu vizinho?

Eu coloquei a mão no ombro dele e respondi: olha, se a única coisa que lhe impede de matar o seu vizinho é sua fé em deus, por favor, nunca mude!

Apesar da minha resposta engraçadinha, a pergunta continua válida - eu só não iria discuti-la com um idiota como ele. Por que eu não mato o meu vizinho?

Dói-me confessar que o motivo mais forte é que, sinceramente, eu não tenho nada a ganhar com isso. Se tivesse, eu consideraria seriamente a possibilidade.

Mas conseguiria escapar à punição? Mesmo em um lugar sem lei como o Rio de Janeiro, a polícia ainda leva a sério alguns tipos de assassinatos - quando a vítima é branca, mora na zona sul, é de classe média. Tenho certeza que eu conseguiria cometer um crime que nossa pobre Polícia Civil nunca solucionaria, mas daria algum trabalho.

Por fim, a consideração primordial: será certo matar o vizinho? Mesmo eu não acreditando em deus, mesmo eu tendo certeza que escaparia à punição do Estado, mesmo eu não me sentindo obrigado pelas leis vigentes, ainda assim cada célula do meu corpo parece gritar que matar o vizinho é algo errado, erradíssimo, errado fora de qualquer escala.

Não crescemos em sociedade à toa. Querendo ou não, sofremos uma verdadeira lavagem cerebral. Os valores de nossas comunidade são enterrados fundos dentro de nós.

Nada mais válido do que obedecermos aos nossos princípios - independente de onde tenham vindo. Eu sou um bom ateu, mas reconheço que a maioria dos meus valores são cristãos. Afinal, nasci em um país cristão, cresci em uma família cristã, estudei em um colégio cristão. Nem eu conseguiria ser tão do contra assim.

Mas não entendo pessoas que delegam ao Estado um poder que só pertence a suas consciências. Eu posso até deixar de fazer alguma coisa porque acho errado ou porque não quero ser punido, mas por ser contra a lei?

O congresso é como uma fábrica de salsichas: depois de visitá-los, você nunca mais vai nem respeitar a lei nem comer cachorro quente.

Eu não sei vocês, mas eu não assinei contrato social algum. Ninguém pediu minha opinião. Eu não abdiquei de nenhum direito.

Eu me considero no direito de fazer o que eu bem entender.
 


Postada no blog entre Novembro 22 e Dezembro 8, 2005

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Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
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Expectativas dos Outros Felicidade
 

 

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