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O Controle de Si
Nunca deixa de me espantar
como a maioria das pessoas facilmente delega à outras o
controle sobre sua vida. Não temos controle sobre como a
vida nos afeta mas podemos controlar sim nossa reação à
esses estímulos.
Vejo amigos que se magoam com ofensas, imaginárias ou
não, e depois curtem carregar esse peso por toda a vida,
mascam rancores como outros mascavam tabaco, mas não
cospem no chão.
Fazer isso é delegar um poder que só deve pertencer a si
próprios. Deixar que terceiros influenciem seus nervos
ou ditem suas emoções é uma das piores - e mais comuns -
formas de abdicar de sua liberdade.
O Mendigo Bêbado
A Internet é uma grande
terra de ninguém. Fala-se o que quer, ouve-se o que não
quer. Muitos blogueiros, para evitar a segunda parte,
fazem blogs sem comentários. Outros vivem uma relação de
amor e ódio com seus comentários, tiram, recolocam,
apagam, editam.
Por quê? Será que realmente se incomodam com críticas
idiotas vindas de completos estranhos?
Imagine que você vai andando pela rua e um mendigo
bêbado grita "Lá vai o corno!". Você:
a) Pára, se apalpa, procura um espelho, fica preocupado:
"Meu deus, corno, eu? O que será que esse mendigo viu em
mim pra dizer isso? O que será que ele sabe? Onde andará
a patroa a essa hora?"
b) Caga solenemente e continua andando.
Para eu me irritar ou me decepcionar com algo que alguém
fala eu preciso antes conhecer e respeitar minimamente
aquela pessoa, preciso ter algum tipo de expectativa em
relação a ela. Senão, vai entrar por aqui e sair por
ali.
Muita gente vem falar comigo cheia de dedos, com
críticas sobre minha filosofia, sobre meu livro, sobre o
modo como levo minha vida. E só a boa educação me impede
de tranqüilizá-las com as seguintes palavras: pode falar
o que quiser, meu filho, não vai fazer nenhuma
diferença, eu não te conheço, não me importo com o que
pensa. Você simplesmente não tem como me ofender, magoar
ou chatear.
Alguns leitores, entretanto, tomam isso como sua missão
na vida. Não sei bem o que se passa na cabeça deles.
Devem me achar um provocador. Devem achar que um
provocador merece ser provocado. Quando não respondo,
eles me mandam emails vitoriosos, exultantes,
orgiásticos: "Consegui te irritar, não? Fugiu da raia!"
Acho que pensam que me irritaram porque sabe que o mesmo
procedimento irritaria outros, esses tantos blogueiros
que acabam extinguindo ou fechando seus comentários por
falta de saco com os malas. Mas como fazê-los entender
que, pra mim, são menos que o mendigo bêbado da rua? Que
quando vêm falar comigo, eu não considero racionalmente
o mérito do que estã falando, nem me irrito ou me
ofendo, mas digo pra mim mesmo "Mais um chato", fecho a
janela entediado e vou embora?
Naturalmente, não respondi o email de provocação.
Letrinhas Só Machucam os
Amadores
Eu levo uma vida aberta e
acabo dando muita liberdade às pessoas de se meterem em
meus assuntos. Regularmente, senta alguém comigo, em
público ou em privado, e se arroga o direito de dizer
como eu devo levar minha vida. Algumas vezes, estão
cobertos de razão, em outras, descobertos de tão
errados. Eu escuto, placidamente, e até agradeço a
preocupação.
Depois, invariavelmente, senta um outro amigo no lugar
do primeiro e diz (sem perceber estar fazendo a mesma
coisa!): mas como é que você deixa alguém interferir
assim na sua vida?
No começo, eu nem entendia a pergunta: como assim? Quem
interferiu na minha vida?
E o amigo: ué, o fulano não acabou de ficar aqui duas
horas cagando regra, dizendo o que você deve e não deve
fazer, criticando todos os seus hábitos, metendo o pau
nas escolhas que você fez, etc?
Eu rio. Acho que as pessoas dão muito valor à palavra.
Sou escritor, redator, jornalista, humorista, tradutor,
revisor. Trabalho com as palavras todo dia. Sei
exatamente o valor que elas têm: zero.
Se não for calúnia, difamação ou injúria, qualquer um
pode falar o que quiser de mim. Não me importo. Sempre
fui pessoa pública, desde os tempos de escola. Daqui a
pouco vou publicar um romance, e depois, outro. Podem
falar à vontade: é divulgação.
Falar é fácil. Palavras não custam nada. Letrinhas só
machucam os amadores, e eu já sou calejado.
Interferir na minha vida é FAZER alguma coisa.
Só Defendo Minhas Idéias
de Quem Quiser Me Impedir de Praticá-las
Minhas idéias ditas
polêmicas não estão aqui para chocar os pudicos ou para
ser discutidas pelos empolgados. Elas são o meu projeto
de vida, minha jornada interior de desbravamento, uma
aventura absolutamente pessoal, em busca de maior
felicidade e liberdade, em busca do melhor modo possível
de viver minha própria vida.
Minha postura engana. As pessoas me vêem defendendo
idéias polêmicas e acham que sou um debatedor nato.
Querem discutir, convencer, argumentar. Mas o próprio
verbo que usam é falacioso: não estou defendendo idéias,
estou afirmando idéias. Meus posts já esgotam tudo o que
tenho a dizer. Não faço réplicas ou tréplicas. Não
debato, nunca.
Defendo minha filosofia só de quem quiser me impedir de
praticá-la.
História de um Verme
Eu e minha primeira-esposa
vivemos um casamento aberto durante três anos. Mais ou menos
no meio do caminho, ela conheceu um cara que, por motivos
inexplicáveis, a deixou balançada. Eles ataram e desataram
uma ligação amorosa várias vezes e, por fim, a relação deles
acabou sendo foi um dos muitos fatores que levou o meu
casamento ao fim.
Tenho cá, no meu computador, algumas fotos altamente
comprometedoras do dito cujo. Muitas vezes, durante a etapa
final do meu casamento e logo após a separação, considerei
seriamente mandar as fotos para seus amigos, parentes e para
os diretores da caretíssima multinacional onde trabalha.
Teria sido bonito.
Mas coitado. O homem é um verme. Mesmo depois de velho e
ganhando bem, continua morando na casa dos pais, uma
tradicional família judaica, e é obrigado a namorar meninas
gentias (como minha esposa) em segredo, ou senão seus pais
cortariam sua boa-vida. Ele gostaria de encerrar essa
relação de dependência mas, como todos os vermes que conheci
na vida, simplesmente não tem forças. E eu penso: esse
invertebrado não precisa de mim pra fuder sua vida.
Alguns amigos julgaram que, realmente, enviar as fotos teria
sido golpe baixo mas que eu deveria, pelo menos, tê-lo
ameaçado com isso, para fazê-lo se afastar da minha mulher.
Do jeito que ele é fraco e covarde, com certeza teria
abdicado de qualquer coisa pra que papá e mamã não
descobrissem as coisas horríveis que andava fazendo.
Não entenderam a essência de um casamento aberto. Minha
esposa tinha o direito de fazer o que bem entendesse. Essa
era a premissa do nosso casamento. Não quero uma mulher que
fique comigo forçada, ou porque chantageei seu molusco.
Naturalmente, eu também tenho o direito de não querer mais
estar com ela, por quaisquer outras razões que não vêm ao
caso aqui.
(Uma nota importante: calhou de o besouro ser judeu mas,
antes que me acusem de anti-semita, gostaria de deixar claro
que isso é um mero detalhe. O povo judeu me proporcionou o
meu livro preferido, alguns dos meus melhores amigos e
muitos dos maiores gênios da humanidade. O fato do
estrupício ser judeu é apenas uma fatalidade demográfica.)
Se eu enviasse as fotos, seria por vingança, um dos
sentimento mais aprisionantes que posso imaginar.
Realisticamente, eu até sou capaz de tomar medidas extremas,
seja para me defender de um perigo, para prevenir que algum
inimigo me ameace no futuro ou até mesmo, egoisticamente,
para remover alguém que esteja no meu caminho. Já fiz
algumas coisas de que não me orgulho. Mas sempre fui
pragmático.
Analisada de perto, a vingança não tem serventia alguma.
De que me adiantaria fuder com a vida do paramécio? Me faria
sentir melhor? Faria o meu casamento voltar ao que era?
Colocaria algum dinheiro no meu bolso? Nada.
Pior: a vingança sempre pode gerar um círculo infinito de
vingança. Até porquinhos-da-índia ficam perigosos quando
acuados.
Através de sua longa relação com minha primeira-esposa, ele
também deve ter lá o seu estoque de informações
comprometedoras sobre mim. Nada que me importe. Sou artista,
estou cultivando cuidadosamente minha fama de excêntrico,
qualquer escândalo me traria apenas publicidade gratuita.
Mas por quê arriscar arroubos de violência? Sabe-se lá até
onde iriam os efeitos catastróficos das fotos. Dado o que
conheço da empresa e dos seus pais, era bem capaz do
insetinho ser demitido e expulso de casa. Sem nada mais para
fazer, quem se tornaria o algo de suas atenções? Eu. Seja
pra vir aqui em casa me dar um tiro, ou simplesmente ficar
rogando pragas silenciosas, não vale a pena criar um inimigo
eterno em trocar de uma satisfação efêmera.
Além do mais, é forçoso admitir. Apesar de ter a fibra de um
espumoni, o animal nunca fez nada de errado ou desonesto
comigo. Pelo contrário, ele jogou o jogo de acordo com as
regras que eu estabeleci. E nunca nem se ofereceu para morar
ou casar com a primeira-esposa - justamente porque seus pais
jamais teriam permitido e ele não tinha a menor capacidade
de dizer nem "oy, oy" na frente deles, ou mesmo de imaginar
uma vida sem a mesada do pai e as camisas passadas pela mãe.
Se meu casamento acabou, não foi pela primeira-esposa ter
desenvolvido uma inexplicável afeição pelo quadrúpede. Tanto
ela quanto eu desenvolvemos afeições por terceiros e quartos
ao longo do nosso casamento aberto. O casamento acabou
porque nosso amor um pelo outro minguou - um processo
impossível de, com consciência limpa, atribuir à terceiros.
Tenho as fotos aqui. São um teste moral pra mim. De vez em
quando, olho pra elas. Imagino um sisudo escritório na
Europa e todos os funcionários recebendo cópias das fotos
simultaneamente e rindo, até um deles lembrar: esse não é
aquele cara da filial do Brasil?
Mas sou melhor que isso. Confirmo minha superioridade moral
e guardo o CD de novo em lugar secreto.
Deixa o verme viver e ser feliz.
A Importância da Falta de
Memória
As pessoas me elogiam por
muitas coisas, mas nunca ninguém me elogiou pelo que talvez
seja minha melhor qualidade: eu tenho péssima memória.
Como deve ser pesada a vida das pessoas que lembram tudo.
Ninguém está a altura de alguém que lembra em tudo. Em algum
momento, você deve ter pisado na bola, falado uma palavra
atravessada... e a pessoa lembra. Não importa se existem dez
anos de memórias boas para contrabalançar: aquela pequena
vacilada flutua acima de todas as outras.
Muitas mulheres são assim. Como suportam suas vidas? Não é à
toa que, a partir de uma certa idade, a maioria das mulheres
torna-se muito mais amarga e ressentida do que os homens.
Sábias aquelas mulheres que sabem relevar o negativo.
Quando morre alguém que amamos, a dor parece não ter fim. E
pensamos: fulano morreu hoje. Amanhã, terá morrido ontem.
Ano que vem, no ano anterior. A cada dia que passa, sua vida
e sua experiência, nossas memórias e nosso amor, tudo ficará
mais distante e mais embaçado. Um dia, eu vou perceber que
não penso nele há uma semana. Outro dia, ele já terá sido
esquecido. E a vida prosseguirá, como se nunca houvesse
existido. Essa dura constatação só faz piorar a sensação de
perda.
Por outro lado, se continuássemos sentindo indefinidamente
aquela dor que sentimos na hora da morte, a vida tornaria-se
inviável. Pais que perdem filhos às vezes caem em traumas
assim. A memória domina o presente e devora-o.
Borges conta a história de Funes, o Memorioso, um homem cuja
memória era tão prodigiosa que ele mal funcionava como ser
humano.
Pra começar, Funes não conseguia apreender os nomes dos
objetos. Ele via dois cachorros diferentes e, como lembrava
de cada detalhe de cada animal, era incapaz de enquadrar
dois objetos tão diferentes debaixo de uma só nomenclatura.
Na verdade, para ele, até mesmo o cachorro das 15:03hs,
voltado levemente para a esquerda, era tão diferente do
cachorro das 15:04hs, voltado para frente, que não poderiam
ser o mesmo objeto.
Funes conseguia lembrar de um dia inteiro do passado,
qualquer dia que ele quisesse, em todos os seus mínimos
detalhes. Mas, para isso, ele precisava de outro dia
inteiro.
Não há melhor metáfora do alto preço que a memória nos
cobra. Puxar um dia do passado nos custa um dia no presente.
O paradoxo da vida, disse um dinamarquês maluco, é que ela
só pode ser entendida pra trás, mas só pode ser vivida pra
frente. É uma questão de definir nossas prioridades.
Eu lembro de muito pouca coisa da minha vida. Minha infância
é uma tábula rasa. Da adolescência, não resta quase nada.
Freqüentemente, eu me maravilho com coisas que já deveria
estar cansado de conhecer. Não troco minha capacidade de
maravilhar por todas as memórias do mundo.
E só lembro de coisas boas. Traumas, insultos, medos, ódios,
eu os não os tive ou não os lembro - o que, afinal, dá no
mesmo.
Nem sempre esse dom é benéfico.
A Cruel Capacidade de Lembrar
Tudo
Poucos meses após minha
separação, já haviam desaparecido da minha consciência todos
os maus momentos que destruíram meu casamento.
Racionalmente, eu entendia que a opção pela separação tinha
sido acertada. Mas, emocionalmente falando, os maus momentos
não estavam mais lá. Eu já não conseguia acessar a tristeza
e a frustração que senti ao vivê-los. Sabia que tinham
ocorrido e só. À seco.
Os grandes momentos, entretanto, continuavam vivos pra mim,
pulsantes de luz e felicidade.
Minhas emoções jogaram baixo, tentaram me derrubar.
Esfregavam um dia perfeito na minha cara e diziam: tem
certeza que quer se separar da mulher com quem viveu isso, e
isso, e mais isso? Olha lá, hein?
E eu rebatia: e os maus momentos? E aquilo e mais aquilo que
aconteceu?
Ah, isso eu não lembro não, respondia meu coração.
Era um diálogo difícil.
Foi a única vez na minha vida que desejei ter essa
capacidade cruel de lembrar e catalogar todos os meus ódios,
raivas, tristezas e frustrações. Mas não consigo: eles todos
escoam pelo ralo da memória, sem critério, sem choro.
Depois, passou.
Fantasmas de Felicidades
Passadas
A felicidade passada também
pode ser um fantasma atormentador. Leia mais sobre isso, em
um ensaio que será posteriormente acrescentado à Prisão
Felicidade, a última da série.
A Função do Perdão
Todos os nossos instintos
animais nos ensinam a proteger os nossos (nossa família,
nossa tribo) e a temer tudo o que nos é estranho.
Quando eu vi uma pessoa negra pela primeira vez, ainda
criança de colo, eu gritei, apavorado. Nada mais natural do
que uma criança branca, que nasceu e cresceu entre brancos,
ainda puro instinto, tenha medo de um ser todo preto.
Inaceitável seria que eu ainda estivesse assim 30 anos
depois.
A maioria dos meus leitores (ou assim espero) consideraria
preconceito e arrogância se julgar superior aos angolanos
somente porque eles vivem em um país mais fraco, mais pobre
e sem destaque algum no cenário mundial.
Mas esses mesmos leitores vivem acorrentados em uma prisão
de ódio, ressentimento e inveja contra os americanos.
Desprezar o mais fraco por ser mais fraco é a mesma prisão
que odiar o mais forte por ser mais forte.
Naturalmente, não estou falando só de patriotismo. A maioria
de nós vive acorrentado em uma prisão de ódios,
ressentimentos, invejas e desprezos pelas pessoas que nos
cercam.
Dizia um moço bigodudo, que falava com cavalos, que você
olha no abismo e o abismo olha em você. Acabamos nos
tornando o que odiamos. Por causa disso, um outro moço, esse
barbudo, recomendava dar a outra face e perdoar quem lhe
ofendesse. Aproveitem bem esse parágrafo, pois ambos
raramente são citados juntos. Aliás, eu às vezes acho que
dou mais valor aos ensinamentos do barbudo do que muita
gente que come seu corpo e bebe seu sangue.
Devemos perdoar quem nos ofendeu não pra ser bonzinhos, ou
para ir pro céu, mas para nos libertar da ofensa. A ofensa
não perdoada é cancerígena. Ela fica purgando dentro de nós,
até se tornar fatal. A injúria passada, o xingamento
engolido acaba nos definindo: nós nos tornamos o insulto
recebido.
O objetivo do perdão não é premiar o perdoado, mas libertar
o perdoador.
Dêem a César o que é de César e não olhem pra trás. Ofereçam
a outra face e não se fala mais nisso. Estejam acima das
pequenas coisas da vida.
Sejam grandes!
Postada no blog entre
Janeiro 16 e 20, 2005
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