A Empatia da Ficção
O livro Um Milhão de Pedacinhos foi um dos maiores fenômenos
editorais dos últimos anos. A história da degradação e
posterior redenção de um viciado em drogas inspirou milhões
de pessoas por todo o mundo.
Algum tempo depois do lançamento, entretanto, o autor foi
desmascarado como um grande mentiroso. Aparentemente, quase
nada na história era verdade. Tudo foi distorcido ou
exagerado. Sua agente literária o abandonou, sua editora
cancelou seu contrato, sua maior fã, uma apresentadora de
televisão, o renegou no ar, ao vivo. As mesmas milhões de
pessoas por todo o mundo se sentiram traídas.
Eu não li Um Milhão de Pedacinhos. Não sei se é bom ou não.
Mas, para as pessoas que leram e gostaram, para as pessoas
que se sentiram tocadas pela mensagem, para as pessoas que
aprenderam alguma coisa com o livro, que diferença faz tudo
ter sido inventado ou não?
Minha irmã, por exemplo, não consegue ler ficção. Por que eu
iria me interessar em saber como nunca se desenrolou uma
situação que nunca aconteceu entre pessoas que nunca
existiram? Ficção não lhe desperta nenhuma empatia.
Mas será que a mensagem de Dom Quixote ou de Édipo Rei deixa
de ser verdadeira somente porque os personagens nunca
existiram?
A Verdade É um Câncer
Acho tão pitorescos os leitores que ficam questionando a
veracidade de tudo que eu digo.
Não, minto, não acho pitoresco não, acho simplório e
primitivo, mas não queria ser deselegante. Pronto, falei.
São como aquelas pessoas que lêem Dom Casmurro e ficam se
preocupando se Capitu traiu mesmo Bentinho ou não. Não vêem
a floresta porque estão preocupados contando as folhas.
Não entendo como funciona a cabeça dessas pessoas. Que
diferença faz a veracidade das afirmações de um completo
estranho, que não conhecem, e de quem não dependem pra nada?
E se a história de Cláudia, contada no capítulo anterior,
for completamente inventada? E daí? Muda alguma coisa?
Alguém vai perder dinheiro por causa disso?
A verdade talvez seja a maior de todas as prisões. Além de
insidiosa e invisível, ela nos é vendida como se fosse
virtude.
A verdade é um câncer que nos devora por dentro, amortece
nossas sensações, nos envelhece precocemente e destrói nossa
capacidade de nos maravilhar.
A História do Homem que Cortou o
Próprio Pau Achando que Era um Pescoço de Galinha
Faz pouco tempo, a Reuters noticiou a história de um romeno
de 67 anos chamado Constantin Mocanu. Uma galinha em seu
quintal não o deixava dormir. Irritado e insone, ele pegou
uma faca, correu pro jardim e cortou fora o pescoço do
animal.
Infelizmente, no escuro, na pressa, na confusão, o senhor
Mocanu acabou cortando fora o próprio pau.
A história fica pior, pois o cachorro do senhor Mocanu,
atraído pelo barulho e pelo cheiro de sangue, pegou o pau,
comeu e saiu correndo.
O senhor Mocanu foi levado para uma emergência e passa bem.
Entre Duvidar e Acreditar
Mostrei essa história para dezenas de pessoas. Para minha
grande decepção, a maioria demonstrou algum tipo de
ceticismo.
Porra!, e daí se o fato aconteceu mesmo? A história deixa de
ser sensacional por causa disso? Vai fazer alguma diferença
prática pra algum de nós se a história for inventada ou não?
Alguém vai caçar o seu Mocanu, em Bucareste, pra fazer ele
abaixar as calças e mostrar o cotoquinho?
Só mesmo uma pessoa prosaica e mesquinha, de cérebro
amortecido pela faina da vida cotidiana, pra ser capaz de
questionar essa história detalhe a detalhe. Com esse tipo de
faca, ele jamais conseguiria decepar o pau de uma vez só.
Essa raça de cachorro é conhecida por não gostar de carne.
Um ferimento dessa natureza sangraria rápido demais, ele não
teria sido salvo a tempo. Etc etc. Blá blá blá.
Eu não sei nem por onde começar a articular meu horror.
Um comportamento que me parece totalmente absurdo foi comum
na maioria das pessoas. Por outro lado, esse texto que vocês
estão lendo agora, que me parece um amontoado de truísmos e
obviedades que mal merecem ser escritos, foi recebido pela
maioria dos leitores como herético, revolucionário,
provocador, louco.
Será que eu vejo mesmo o mundo de uma forma tão diferente
assim?
Não foi à toa que nunca quis exercer as profissões de
jornalista ou historiador. Sou um autor de ficção. Eu crio
pessoas. Pra mim, a fronteira entre real e ficção sempre
será, no mínimo, pouco importante.
De certo modo, a culpa é da própria língua. Quando ouvimos
um causo, temos a opção de acreditar ou duvidar, mas não há
qualquer palavra para a posição intermediária.
É normal me perguntarem: então, acreditou nessa história
cabeluda do Felipe?
Não, eu respondo.
E meu interlocutor: ah tá, eu também duvido.
Espera, eu não disse que duvidava. Eu disse que não tinha
acreditado.
Ué, e não é a mesma coisa?
Claro que não. Eu não acreditei mas também não duvidei. Nem
enguli nem questionei.
Você o quê, então?, pergunta o outro, em tom de desafio.
Eu nada. Desde quando tenho a obrigação de me posicionar
criticamente quanto à veracidade de tudo o que escuto?
A maioria das pessoas, entretanto, parece fazer isso
automaticamente. Sem reflexão, sem tempo pra pensar. E,
pior, sem nem mesmo conseguir conceber que existe gente que
não o faz.
Será tão difícil assim de entender?
Verdade, Liberdade e Felicidade
A verdade só é importante enquanto meio de atingir a
felicidade. Senão, de nada serve. E se a verdade leva à
angústia e depressão, ela torna-se pior que inútil, e sim
nociva.
Também lutamos pela liberdade por ela ser um meio de nos
conduzir à felicidade. Como fim, entretanto, a liberdade
também é inútil. Pra que serve a liberdade se você é
infeliz?
Só a felicidade realmente importa. Deixar a verdade estragar
isso é um crime.
A Felicidade Enquanto Vontade
Ser feliz é um processo puramente interno, completamente sob
nosso controle. Um ato de vontade.
Alguns leitores ficaram revoltados com essa afirmação
temerária. Não é bem assim, Alexandre. Tem a realidade. A
realidade é dura. A realidade não nos deixa ser feliz.
E eu balanço a cabeça, quase não acredito no que estou
ouvindo e realmente penso:será que sou eu o maluco?
Ora bolas. Quer dizer que a realidade não te deixa ser
feliz? Então que se dane a realidade! Que obrigação você tem
com a realidade? A realidade já fez alguma coisa por você? A
realidade paga suas contas?
Sua obrigação é com você mesmo, com sua felicidade, com sua
realização de ser humano. Se você não conseguir - ou puder -
resolver os problemas reais que impedem sua felicidade,
ignore-os. Fuja da realidade. Vire as costas à sociedade,
feche-se no seu mundinho particular e seja feliz, do seu
jeito, de acordo com as suas regras.
Quem disse que você tem obrigação de seguir as regras?
Viver Fora da Realidade
Fulano de tal vive fora da realidade.
Quantas vezes você já não ouviu algo parecido? Pois eu nunca
consegui entender o que essa frase quer dizer.
Como assim? Que realidade é essa na qual as pessoas têm que
entrar? É uma realidade só pra todos? Ou são várias, uma pra
cada um? Como funciona? Quem decide?
Eu tinha um vizinho milionário.
Ele detestava dirigir e não queria se estressar com
documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou
uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a
sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio.
Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só
sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não
queria se aporrinhar.
A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma
realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras
tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a
certa e qual são as erradas?
Realidade é que nem cu, cada um tem o seu. O mendigo que
passa fome nas ruas do centro está tão fora da realidade do
meu vizinho quanto meu vizinho está fora da realidade do
mendigo.
Por que ninguém acusa o mendigo de estar fora da realidade?
De que modo a experiência de catar restos de comida em latas
de lixo e dormir ao relento é mais real do que ir ao
coquetel de um pintor famoso e depois pegar o concorde pra
Paris? Pior, claro. Mais lamentável, com certeza. Mas mais
real? Por quê? Como pode uma coisa ser mais real que outra?
Será que existe uma escala de realidade e ninguém me avisou?
Qual é a medida? Sacos de pitombas? A realidade do meu
vizinho atingiu 3 graus na escala saco de pitombas; a do
mendigo do centro, 8 graus. Logo, a realidade do mendigo é
mais real que a do meu vizinho. É isso?
Qual das duas realidades ganha? Existe uma que é certa? Por
que ninguém nunca fala que alguém está dentro da realidade?
Isso quer dizer alguma coisa?
Em geral, quem fala besteiras do tipo "Você vive fora da
realidade!!" são ou os malas da direita, reacionários e
moralistas, defendendo os valores da tradicional família
cristã brasileira, ou então os malas da esquerda, ainda mais
moralistas, achando que todo mundo tem que se engajar em
tudo e que alienação dos problemas que eles julgam vitais é
algum tipo de crime de lesa-Marx.
Um conselho: se alguém, algum dia, acusá-lo de viver fora da
realidade, em geral é porque você está se divertindo demais.
Mande-os todos à merda e continue a fazer o que estava
fazendo.
As realidades são muitas, todas igualmente válidas. Cada um
vive a realidade que pode. Meu vizinho tem lá seus muitos
defeitos, mas está vivendo a realidade dele, a realidade em
que nasceu, uma realidade que é tão válida quanto qualquer
outra. Dizer que ele vive fora da realidade é dizer que a
vida dele não é válida. Quem tem moral de dizer uma coisa
dessas?
Mas era pra ele fazer o quê? Doar tudo pra caridade e entrar
pra um mosteiro? Ou então qual é o problema? É que ele está
gastando muito? Era pra ele gastar quanto? Quem é que
determina esse limite? Se ele gastar até vinte mil por mês
(do próprio dinheiro, claro), então ele vive na realidade,
se gastar mais que isso, ele vive fora da realidade? Como
funciona essa regra? Será que tem uma escala também (sacos
de pitombas? narjaras-turetas?) e esqueceram de me avisar?
Juro que não entendo.
Escolhendo a Pílula Azul
Não defendo uma fuga da realidade.
O mundo é tudo o que temos e, em geral, vale a pena ser
vivido. Mas defendo sempre a busca pela felicidade. Assim
como acho que não podemos permitir que a verdade estrague
nossa felicidade, também não devemos deixar que a realidade
faça isso. Entre a realidade e a felicidade, eu escolho
sempre a segunda.
A realidade nada mais é do que o modo como nosso cérebro
filtra as informações obtidas pelos nossos sentidos. Quer
dizer, a dura realidade se impõe aos nossos sentidos, mas é
nosso cérebro que domina e transcodifica os sentidos.
No primeiro Matrix, um dos humanos se cansa daquela
realidade desesperadora e trai o grupo para poder voltar
para a Matrix. E a heroína retruca: mas nada daquilo é real!
Olha, não sei não. Afinal, o que é realidade? Não quero ser
chato, mas se o bife se parece com um bife, tem gosto de
bife, tem cheiro de bife e tem textura de bife, bem, então
não tem como um bife ser mais bife do que esse bife. Se o
bife é tudo isso porque ele é um bife mesmo ou porque ele é
um complexo programa que simula um bife, isso é um mero
detalhe. É uma consideração tão inútil quanto ficar tentando
imaginar que aquele boi era macho ou fêmea. Se o bife é bom,
a procedência é irrelevante.
E aí me dizem: aquele mundo não é real! É um mundo criado
por computadores.
Ué, mas o nosso não é um mundo criado por (sic) deus? Qual é
a diferença entre viver em um mundo criado por um deus ou
pelos supercomputadores do futuro? Qual a diferença entre
uma realidade manipulada pelo Mr.Smith, para melhor
controlar os humanos, e uma realidade manipulada por um ser
que destrói cidades e mata pessoas ao seu bel-prazer,
transforma mulheres em estátuas de sal e faz chover maná,
morde e assopra, para manter seus seguidores sempre em
estado de submissão, terror e expectativa?
Só muda a assinatura do projeto. Um é tão real, tão válido,
tão concreto quanto o outro. Seria muito arbitrário dizermos
que deus pode criar realidades, mas o pobre Mr. Smith não.
Se o nosso mundo foi criado aleatoriamente em um big bang,
ou se é a sexta versão de uma matrix criada por um
computador ou se é a segunda versão (parece que a primeira
ele não gostou e afogou todo mundo) de um mundo criado por
deus... De um modo ou de outro, o nosso mundo é o nosso
mundo é o nosso mundo.
Por tudo o que sabemos, todo nosso universo pode existir
dentro do núcleo de uma célula de uma bactéria no estômago
de alguém.
E daí? Por isso, não é real? Por isso, Medéia deixa de ser
uma obra de arte de sublime perfeição? Por isso, nossas
vidas deixam de ter sentido?
A maioria da humanidade só consegue fazer sentido de suas
existências acreditando em ilusões. Seja a ilusão de um deus
que veio pra nos salvar, ou a ilusão de uma mão invisível
que cuidará de tudo, ou a ilusão de que o povo
inevitavelmente ganhará a luta de classes.
Há também as pequenas ilusões. Nosso casamento vai melhorar,
vou encontrar o homem perfeito, meu marido vai parar de me
dar porrada, essa má fase vai passar, aquela promoção vai
sair, vou me aposentar ganhando bem e que nunca mais terei
que me preocupar com trabalho ou dinheiro, meu segundo
casamento vai ser muito melhor do que o primeiro, ele vai
largar a esposa, as pessoas vão ler esse livro e suas vidas
serão transformadas.
Nada pior do que a sensação de impotência em meio a uma
crise. Quando uma pessoa que eu amo está lutando por sua
vida em um quarto de hospital, não há literalmente nada que
eu possa fazer.
Já os religiosos têm uma deliciosa ilusão em que se agarrar.
Não estão impotentes. Não, senhor. Se rezarem bem, se
rezarem muito, se rezarem direitinho, pode ser até que deus
ache que vale a pena salvar aquela vida. Assim, pelo menos,
realizando esse lobby divino, ocupam suas mentes minúsculas
e afastam o desespero. Já a mim só resta andar em círculos
pelos corredores do hospital. É enloquecedor.
Acreditamos nessas ilusões contra todas as evidências,
contra toda nossa experiência. Quase sempre estamos nos
enganando. As chances de um livro como esse realmente causar
impacto são mínimas. Ele nunca vai largar a esposa, minha
filha. Mas, sem essas ilusões, a vida seria simplesmente
insuportável.
Proponho tomarmos as rédeas da situação. Chega de nos
iludirmos inconscientemente. Nossos cérebros são armas
poderosas. A realidade criada por nós pode ser tão poderosa
quanto a realidade que nos foi imposta através dos sentidos.
Cabe a nós escolher onde queremos viver.
Depois que o Neo pulou fora da Matrix, parece que virou moda
viver a realidade nua e crua, morar em naves infectas, ser
perseguido por robôs, comer gosma branca. Nada disso.
Por que não nadar contra a corrente? Em um mundo em que Neo
é o padrão de comportamento, a atitude realmente alternativa
e rebelde é tomar a pílula azul e não olhar pra trás. Deixa
os robôs dominarem o mundo.
O que lhe importa?
O Valor Intrínseco da Verdade
A verdade é inimiga do homem.
A verdade não vale uma gota de porra. Pela verdade já se
matou e morreu, e pra quê? A verdade sem felicidade vale
alguma coisa?
A verdade torna-se útil somente enquanto instrumento para
atingir a liberdade e a felicidade. Boa por si só,
intrinsecamente valiosa, isso ela nunca é.
Querem nos vender que a verdade é sua própria justificativa
e seu próprio fim, que a verdade é boa, independente das
conseqüências, mas a verdade leva apenas, na melhor das
hipóteses, a mais e mais verdade. E daí? Pra que serve isso?
A verdade é uma armadilha.
Quando parei de me preocupar com a verdade, senti os
grilhões se quebrarem. Só quando parei de me perguntar: ela
está falando a verdade? será que ele mentiu?, será que isso
aconteceu mesmo?, consegui realmente me abrir para o mundo.
E daí que mintam pra mim? A outra grande libertação foi me
libertar de me importar. Eu não ligo. Podem mentir. Podem
inventar. O que me importa?
A verdade não vale nada.
A Verdade É o Presente
O momento importa.
Me importa sentar ao lado de Rosane e me deliciar com suas
aventuras sexuais da noite anterior, todos os detalhes
sórdidos, o sexo, seu sorriso sem-vergonha, seu olhar
atiçador, e gosto que ela veja meu pau duro, e gosto de ver
que ela está gostando de me ver de pau duro e, por isso, vai
acrescentando cada vez mais detalhes, e ela conhece minhas
taras, sabe apertar os botões certos, e Rosane conta como
seu parceiro tinha lambido seus pés e que não há nada melhor
do que um homem que sabe lamber os pés da gente, e, cretina,
ela sabe que eu sonho em lamber e beijar seus pés, estava há
dois meses tentando levá-la pra cama, e por isso mesmo ela
me provoca, mais e mais, e eu me perco no momento, nado em
seu olhar de malícia cruel, me espreguiço na pulsação da
minha ereção e me escavo pra dentro daquela noite, me
imagino no lugar do outro homem, transando com uma mulher
tão sexy, e me imagino na cabeça de minha amiga, se
deliciando em me atiçar, e vou assim pulando de personagem
em personagem, uma hora sou ela na cama com outro homem,
saboreando tê-lo aos seus pés, outra hora sou ele, na cama
com ela, excitado por estar finalmente a sós com a mulher
que (disse ela) ele cortejava há quinze anos, outra hora sou
Rosane, ao meu lado, que me conhece tão bem, contando apenas
os detalhes que sabe que mais me excitam, esticando-os,
tirando seu leite, me olhando com olhos perversos, me
excitando para o que sabe que nunca me dará, ou então me
preparando para o que está ávida para me dar, ainda não sei,
vivo no presente, e logo volto a mim, e sou de novo o
Alexandre, que ouve a história com excitação e sem critério,
que se perde no momento intenso.
E, depois disso, Ana, sentada ao meu lado, uma amiga que
também queria me levar pra cama, uma amiga que tinha
acompanhado enciumada e atiçada toda aquela cena (que foi
bem mais discreta do que fiz parecer, mas mulher repara,
óbvio, mulher repara tudo), e Ana disse, quase sem abrir a
boca, que era óbvio que aquela história era toda inventada.
Alexandre, ela chiou, essa vadia da Rosane só está querendo
te atiçar!
Esse comentário já é tão alienígena pra mim que sinto
dificuldade até de compreendê-lo. Me libertei da prisão
verdade há tanto tempo que me espanto de ver quanta gente
continua acorrentada ao chão.
E para as pessoas normais, respestáveis membros da manada,
eu também pareço um alienígena, claro, e elas não entendem
quando eu digo que nem mesmo me interessei em saber se era
verdade ou não, não cheguei nem perto de pensar isso, nunca
considerei essa possibilidade, nem jamais considerarei,
porque ela é totalmente irrelevante, completamente
mesquinha, absolutamente simplória.
E os humanos, coitados, pensam que eu sim é que sou um
simplório, um otário que acredita em qualquer coisa, e
balançam a cabeça em falsa compreensão e respondem, bem, se
você diz, Alexandre...
Não entendem, não conseguem entender!, que eu não ter me
questionado se a história era verdade não quer dizer que
engoli a história, pois isso também teria sido simplório.
O ato de contar-a-história é o fato concreto, o único fato
que importa. Importa minha ereção, importam as palavras de
Rosane, importam seus olhos entreabertos saboreando minha
excitação, importa seu cruzar e descruzar de pernas, importa
o giro de seu tornozelo, chamando minha atenção para suas
botas. O contar-a-história foi um momento real, vivido no
meu presente e que vai se estender do passado até os confins
da minha memória. O resto é abstrato.
O que me importa se, abstratamente falando, Rosane transou
mesmo com o cara daquele jeito, ou se transou de outro
jeito, ou se nem transou, ou, quem sabe, até inventou aquele
amigo, vinte anos mais velho, que sempre a vigiou com
desejo, e ela, desde pequena, sabia provocá-lo e
desdenhá-lo, mas, naquela semana, ele tinha subitamente
ligado e ela, como estava livre (estava e não estava, estava
era ativamente flertando comigo, a safada, mas tudo bem),
decidiu que finalmente daria pra ele o que ele sempre quis,
e agora me contava aquela história tão comum e sórdida, e ao
mesmo tempo tão deliciosa.
A solidez do presente é tão intensa, tão iminente, que a
possível veracidade do passado some totalmente na
comparação. Questionar a veracidade da história nunca me
passou pela cabeça, foi uma não-questão, uma não-tentação.
O futuro sim, esse tem alguma importância. Afinal, será que
Rosane contou essa história para me atiçar, como seu outro
amigo por quinze longos anos, ou querendo me esquentar para
sexo iminente?
Essa pergunta-futuro eu quase me faço. Mas não faço. Dessa
etapa, também evoluí. Julgar um momento-presente e concreto
com base no que pode ou não acontecer em um futuro abstrato
também é uma das piores formas de prisão. Como podemos
aproveitar o presente se o critério para saber se ele vale
ou não a pena ainda não aconteceu?
O presente existe por si só. O futuro é o presente do
amanhã, nada mais.
Aviso: Esse É um Livro de Ficção
Esse é um livro de ficção, sobre a viagem de
auto-descobrimento de um narrador completamente ficcional.
Toda e qualquer história que você leia aqui foi inventada
por mim e não tem qualquer relação com a realidade. Quanto
mais verdadeiras parecerem, mais mentirosas serão. A verdade
raramente é verossímil.
Eu nunca vivi um casamento aberto. Nunca fui dono de
empresa. Não conheço nenhuma Cláudia. Na verdade, meu nome é
Olavo, sou negro, magro e trabalho em um escritório de
contabilidade em Barueri. Escrevi essas prisões no pouco
tempo vago que tenho, entre cuidar de uma esposa doente,
criar dois filhos pequenos e dar aulas de tênis no clube
local.
Ou não.
A verdade é uma prisão. Não é verdade que todas as histórias
desse livro são apócrifas. Na verdade, quase todas são
reais, mas nenhuma é verdadeira.
Um estatístico me ensinou que os números, devidamente
torturados, revelam qualquer coisa. Sempre que os fatos não
batiam com minha mensagem, eles foram devidamente torturados
e distorcidos, até aprenderem quem é que manda por aqui.
Esse é um livro de histórias reais ficcionalizadas. Ou, quem
sabe, de histórias ficcionais filosofadas. Contos? Crônicas?
Autobiografia? Tico-tico no fubá?
Na dúvida, não acreditem em nada do que lerem. Todos os
fatos são meros acessórios. Concentrem-se na mensagem.
A mensagem é mais importante do que o mensageiro.
Se gostam do que escrevo, se isso lhes ensina alguma coisa,
se tem algum valor, então, isso é que é a verdade. E
continuará sendo verdade se eu for um gordinho sincero do
Rio, uma velhinha safada de Santa Rosa ou duas adolescentes
de Altamira escrevendo à quatro mãos. Não faz diferença.
Vários leitores ficaram revoltados com essa ambiguidade:
será que o fato de você ser na verdade uma velhinha não muda
nada mesmo? Ou duas adolescentes? Pode ser que pra nós, que
não podemos saber a verdade, isso não importe, mas e suas
intenções? E seus propósitos? Isso não muda também? Não dá
outro significado, mesmo que oculto, mesmo que seja só para
você mesmo? Ou os meios não importam, só o resultado
justifica?
E eu respondo: quando o texto é bom, o autor torna-se
irrelevante. Ele pode ter escrito o texto zoando. Pode ter
escrito o oposto do que pensava. Não interessa. O que ele
escreveu como mentira vai ver é a minha verdade. A ironia de
um é o dogma do outro.
O destinatário é muito mais importante do que o remetente. É
ele que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem.
Muitas vezes, o leitor entende algo radicalmente diferente
do que o autor quis dizer. E daí? Cada um tira de um texto o
que pode. O que ele entendeu é o que ele precisava entender.
Tanto faz se o autor queria dizer outra coisa.
Tem gente que adora ficar se perguntando quem é o autor,
qual era seu contexto socioeconômico, com quem se casou,
quais eram seus objetivos políticos, teve experiências
homossexuais?, malufou?
Pra mim, essas pessoas não são nem um pouco diferentes de
duas babás que se encontram na pracinha, cada uma com uma
revista de fofoca embaixo do braço, e ficam tricotando sobre
o último namorada da mocinha da novela ou a reforma do
banheiro do apresentador do jornal. Mesquinharia pura.
O que me importa é que existe o texto, ele está falando
comigo, e eu quero ouvi-lo.
Postada no blog em Março
2006
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As Outras Prisões
Introdução às Prisões
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