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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Verdade

A Empatia da Ficção

O livro Um Milhão de Pedacinhos foi um dos maiores fenômenos editorais dos últimos anos. A história da degradação e posterior redenção de um viciado em drogas inspirou milhões de pessoas por todo o mundo.

Algum tempo depois do lançamento, entretanto, o autor foi desmascarado como um grande mentiroso. Aparentemente, quase nada na história era verdade. Tudo foi distorcido ou exagerado. Sua agente literária o abandonou, sua editora cancelou seu contrato, sua maior fã, uma apresentadora de televisão, o renegou no ar, ao vivo. As mesmas milhões de pessoas por todo o mundo se sentiram traídas.

Eu não li Um Milhão de Pedacinhos. Não sei se é bom ou não. Mas, para as pessoas que leram e gostaram, para as pessoas que se sentiram tocadas pela mensagem, para as pessoas que aprenderam alguma coisa com o livro, que diferença faz tudo ter sido inventado ou não?

Minha irmã, por exemplo, não consegue ler ficção. Por que eu iria me interessar em saber como nunca se desenrolou uma situação que nunca aconteceu entre pessoas que nunca existiram? Ficção não lhe desperta nenhuma empatia.

Mas será que a mensagem de Dom Quixote ou de Édipo Rei deixa de ser verdadeira somente porque os personagens nunca existiram?

A Verdade É um Câncer

Acho tão pitorescos os leitores que ficam questionando a veracidade de tudo que eu digo.

Não, minto, não acho pitoresco não, acho simplório e primitivo, mas não queria ser deselegante. Pronto, falei.

São como aquelas pessoas que lêem Dom Casmurro e ficam se preocupando se Capitu traiu mesmo Bentinho ou não. Não vêem a floresta porque estão preocupados contando as folhas.

Não entendo como funciona a cabeça dessas pessoas. Que diferença faz a veracidade das afirmações de um completo estranho, que não conhecem, e de quem não dependem pra nada? E se a história de Cláudia, contada no capítulo anterior, for completamente inventada? E daí? Muda alguma coisa? Alguém vai perder dinheiro por causa disso?

A verdade talvez seja a maior de todas as prisões. Além de insidiosa e invisível, ela nos é vendida como se fosse virtude.

A verdade é um câncer que nos devora por dentro, amortece nossas sensações, nos envelhece precocemente e destrói nossa capacidade de nos maravilhar.

A História do Homem que Cortou o Próprio Pau Achando que Era um Pescoço de Galinha

Faz pouco tempo, a Reuters noticiou a história de um romeno de 67 anos chamado Constantin Mocanu. Uma galinha em seu quintal não o deixava dormir. Irritado e insone, ele pegou uma faca, correu pro jardim e cortou fora o pescoço do animal.

Infelizmente, no escuro, na pressa, na confusão, o senhor Mocanu acabou cortando fora o próprio pau.

A história fica pior, pois o cachorro do senhor Mocanu, atraído pelo barulho e pelo cheiro de sangue, pegou o pau, comeu e saiu correndo.

O senhor Mocanu foi levado para uma emergência e passa bem.

Entre Duvidar e Acreditar

Mostrei essa história para dezenas de pessoas. Para minha grande decepção, a maioria demonstrou algum tipo de ceticismo.

Porra!, e daí se o fato aconteceu mesmo? A história deixa de ser sensacional por causa disso? Vai fazer alguma diferença prática pra algum de nós se a história for inventada ou não? Alguém vai caçar o seu Mocanu, em Bucareste, pra fazer ele abaixar as calças e mostrar o cotoquinho?

Só mesmo uma pessoa prosaica e mesquinha, de cérebro amortecido pela faina da vida cotidiana, pra ser capaz de questionar essa história detalhe a detalhe. Com esse tipo de faca, ele jamais conseguiria decepar o pau de uma vez só. Essa raça de cachorro é conhecida por não gostar de carne. Um ferimento dessa natureza sangraria rápido demais, ele não teria sido salvo a tempo. Etc etc. Blá blá blá.

Eu não sei nem por onde começar a articular meu horror.

Um comportamento que me parece totalmente absurdo foi comum na maioria das pessoas. Por outro lado, esse texto que vocês estão lendo agora, que me parece um amontoado de truísmos e obviedades que mal merecem ser escritos, foi recebido pela maioria dos leitores como herético, revolucionário, provocador, louco.

Será que eu vejo mesmo o mundo de uma forma tão diferente assim?

Não foi à toa que nunca quis exercer as profissões de jornalista ou historiador. Sou um autor de ficção. Eu crio pessoas. Pra mim, a fronteira entre real e ficção sempre será, no mínimo, pouco importante.

De certo modo, a culpa é da própria língua. Quando ouvimos um causo, temos a opção de acreditar ou duvidar, mas não há qualquer palavra para a posição intermediária.

É normal me perguntarem: então, acreditou nessa história cabeluda do Felipe?

Não, eu respondo.

E meu interlocutor: ah tá, eu também duvido.

Espera, eu não disse que duvidava. Eu disse que não tinha acreditado.

Ué, e não é a mesma coisa?

Claro que não. Eu não acreditei mas também não duvidei. Nem enguli nem questionei.

Você o quê, então?, pergunta o outro, em tom de desafio.

Eu nada. Desde quando tenho a obrigação de me posicionar criticamente quanto à veracidade de tudo o que escuto?

A maioria das pessoas, entretanto, parece fazer isso automaticamente. Sem reflexão, sem tempo pra pensar. E, pior, sem nem mesmo conseguir conceber que existe gente que não o faz.

Será tão difícil assim de entender?

Verdade, Liberdade e Felicidade

A verdade só é importante enquanto meio de atingir a felicidade. Senão, de nada serve. E se a verdade leva à angústia e depressão, ela torna-se pior que inútil, e sim nociva.

Também lutamos pela liberdade por ela ser um meio de nos conduzir à felicidade. Como fim, entretanto, a liberdade também é inútil. Pra que serve a liberdade se você é infeliz?

Só a felicidade realmente importa. Deixar a verdade estragar isso é um crime.

A Felicidade Enquanto Vontade

Ser feliz é um processo puramente interno, completamente sob nosso controle. Um ato de vontade.

Alguns leitores ficaram revoltados com essa afirmação temerária. Não é bem assim, Alexandre. Tem a realidade. A realidade é dura. A realidade não nos deixa ser feliz.

E eu balanço a cabeça, quase não acredito no que estou ouvindo e realmente penso:será que sou eu o maluco?

Ora bolas. Quer dizer que a realidade não te deixa ser feliz? Então que se dane a realidade! Que obrigação você tem com a realidade? A realidade já fez alguma coisa por você? A realidade paga suas contas?

Sua obrigação é com você mesmo, com sua felicidade, com sua realização de ser humano. Se você não conseguir - ou puder - resolver os problemas reais que impedem sua felicidade, ignore-os. Fuja da realidade. Vire as costas à sociedade, feche-se no seu mundinho particular e seja feliz, do seu jeito, de acordo com as suas regras.

Quem disse que você tem obrigação de seguir as regras?

Viver Fora da Realidade

Fulano de tal vive fora da realidade.

Quantas vezes você já não ouviu algo parecido? Pois eu nunca consegui entender o que essa frase quer dizer.

Como assim? Que realidade é essa na qual as pessoas têm que entrar? É uma realidade só pra todos? Ou são várias, uma pra cada um? Como funciona? Quem decide?

Eu tinha um vizinho milionário.

Ele detestava dirigir e não queria se estressar com documentação, impostos, seguro, consertos. Então, contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a sua disposição, 24 horas por dia, na portaria do prédio. Pronto. Se um quebrasse, que mandassem outro. O homem só sabia uma coisa: tinha dinheiro que não acabava mais e não queria se aporrinhar.

A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?

Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?

Realidade é que nem cu, cada um tem o seu. O mendigo que passa fome nas ruas do centro está tão fora da realidade do meu vizinho quanto meu vizinho está fora da realidade do mendigo.

Por que ninguém acusa o mendigo de estar fora da realidade? De que modo a experiência de catar restos de comida em latas de lixo e dormir ao relento é mais real do que ir ao coquetel de um pintor famoso e depois pegar o concorde pra Paris? Pior, claro. Mais lamentável, com certeza. Mas mais real? Por quê? Como pode uma coisa ser mais real que outra?

Será que existe uma escala de realidade e ninguém me avisou? Qual é a medida? Sacos de pitombas? A realidade do meu vizinho atingiu 3 graus na escala saco de pitombas; a do mendigo do centro, 8 graus. Logo, a realidade do mendigo é mais real que a do meu vizinho. É isso?

Qual das duas realidades ganha? Existe uma que é certa? Por que ninguém nunca fala que alguém está dentro da realidade? Isso quer dizer alguma coisa?

Em geral, quem fala besteiras do tipo "Você vive fora da realidade!!" são ou os malas da direita, reacionários e moralistas, defendendo os valores da tradicional família cristã brasileira, ou então os malas da esquerda, ainda mais moralistas, achando que todo mundo tem que se engajar em tudo e que alienação dos problemas que eles julgam vitais é algum tipo de crime de lesa-Marx.

Um conselho: se alguém, algum dia, acusá-lo de viver fora da realidade, em geral é porque você está se divertindo demais. Mande-os todos à merda e continue a fazer o que estava fazendo.

As realidades são muitas, todas igualmente válidas. Cada um vive a realidade que pode. Meu vizinho tem lá seus muitos defeitos, mas está vivendo a realidade dele, a realidade em que nasceu, uma realidade que é tão válida quanto qualquer outra. Dizer que ele vive fora da realidade é dizer que a vida dele não é válida. Quem tem moral de dizer uma coisa dessas?

Mas era pra ele fazer o quê? Doar tudo pra caridade e entrar pra um mosteiro? Ou então qual é o problema? É que ele está gastando muito? Era pra ele gastar quanto? Quem é que determina esse limite? Se ele gastar até vinte mil por mês (do próprio dinheiro, claro), então ele vive na realidade, se gastar mais que isso, ele vive fora da realidade? Como funciona essa regra? Será que tem uma escala também (sacos de pitombas? narjaras-turetas?) e esqueceram de me avisar?

Juro que não entendo.

Escolhendo a Pílula Azul

Não defendo uma fuga da realidade.

O mundo é tudo o que temos e, em geral, vale a pena ser vivido. Mas defendo sempre a busca pela felicidade. Assim como acho que não podemos permitir que a verdade estrague nossa felicidade, também não devemos deixar que a realidade faça isso. Entre a realidade e a felicidade, eu escolho sempre a segunda.

A realidade nada mais é do que o modo como nosso cérebro filtra as informações obtidas pelos nossos sentidos. Quer dizer, a dura realidade se impõe aos nossos sentidos, mas é nosso cérebro que domina e transcodifica os sentidos.

No primeiro Matrix, um dos humanos se cansa daquela realidade desesperadora e trai o grupo para poder voltar para a Matrix. E a heroína retruca: mas nada daquilo é real!

Olha, não sei não. Afinal, o que é realidade? Não quero ser chato, mas se o bife se parece com um bife, tem gosto de bife, tem cheiro de bife e tem textura de bife, bem, então não tem como um bife ser mais bife do que esse bife. Se o bife é tudo isso porque ele é um bife mesmo ou porque ele é um complexo programa que simula um bife, isso é um mero detalhe. É uma consideração tão inútil quanto ficar tentando imaginar que aquele boi era macho ou fêmea. Se o bife é bom, a procedência é irrelevante.

E aí me dizem: aquele mundo não é real! É um mundo criado por computadores.

Ué, mas o nosso não é um mundo criado por (sic) deus? Qual é a diferença entre viver em um mundo criado por um deus ou pelos supercomputadores do futuro? Qual a diferença entre uma realidade manipulada pelo Mr.Smith, para melhor controlar os humanos, e uma realidade manipulada por um ser que destrói cidades e mata pessoas ao seu bel-prazer, transforma mulheres em estátuas de sal e faz chover maná, morde e assopra, para manter seus seguidores sempre em estado de submissão, terror e expectativa?

Só muda a assinatura do projeto. Um é tão real, tão válido, tão concreto quanto o outro. Seria muito arbitrário dizermos que deus pode criar realidades, mas o pobre Mr. Smith não.

Se o nosso mundo foi criado aleatoriamente em um big bang, ou se é a sexta versão de uma matrix criada por um computador ou se é a segunda versão (parece que a primeira ele não gostou e afogou todo mundo) de um mundo criado por deus... De um modo ou de outro, o nosso mundo é o nosso mundo é o nosso mundo.

Por tudo o que sabemos, todo nosso universo pode existir dentro do núcleo de uma célula de uma bactéria no estômago de alguém.

E daí? Por isso, não é real? Por isso, Medéia deixa de ser uma obra de arte de sublime perfeição? Por isso, nossas vidas deixam de ter sentido?

A maioria da humanidade só consegue fazer sentido de suas existências acreditando em ilusões. Seja a ilusão de um deus que veio pra nos salvar, ou a ilusão de uma mão invisível que cuidará de tudo, ou a ilusão de que o povo inevitavelmente ganhará a luta de classes.

Há também as pequenas ilusões. Nosso casamento vai melhorar, vou encontrar o homem perfeito, meu marido vai parar de me dar porrada, essa má fase vai passar, aquela promoção vai sair, vou me aposentar ganhando bem e que nunca mais terei que me preocupar com trabalho ou dinheiro, meu segundo casamento vai ser muito melhor do que o primeiro, ele vai largar a esposa, as pessoas vão ler esse livro e suas vidas serão transformadas.

Nada pior do que a sensação de impotência em meio a uma crise. Quando uma pessoa que eu amo está lutando por sua vida em um quarto de hospital, não há literalmente nada que eu possa fazer.

Já os religiosos têm uma deliciosa ilusão em que se agarrar. Não estão impotentes. Não, senhor. Se rezarem bem, se rezarem muito, se rezarem direitinho, pode ser até que deus ache que vale a pena salvar aquela vida. Assim, pelo menos, realizando esse lobby divino, ocupam suas mentes minúsculas e afastam o desespero. Já a mim só resta andar em círculos pelos corredores do hospital. É enloquecedor.

Acreditamos nessas ilusões contra todas as evidências, contra toda nossa experiência. Quase sempre estamos nos enganando. As chances de um livro como esse realmente causar impacto são mínimas. Ele nunca vai largar a esposa, minha filha. Mas, sem essas ilusões, a vida seria simplesmente insuportável.

Proponho tomarmos as rédeas da situação. Chega de nos iludirmos inconscientemente. Nossos cérebros são armas poderosas. A realidade criada por nós pode ser tão poderosa quanto a realidade que nos foi imposta através dos sentidos.

Cabe a nós escolher onde queremos viver.

Depois que o Neo pulou fora da Matrix, parece que virou moda viver a realidade nua e crua, morar em naves infectas, ser perseguido por robôs, comer gosma branca. Nada disso.

Por que não nadar contra a corrente? Em um mundo em que Neo é o padrão de comportamento, a atitude realmente alternativa e rebelde é tomar a pílula azul e não olhar pra trás. Deixa os robôs dominarem o mundo.

O que lhe importa?

O Valor Intrínseco da Verdade

A verdade é inimiga do homem.

A verdade não vale uma gota de porra. Pela verdade já se matou e morreu, e pra quê? A verdade sem felicidade vale alguma coisa?

A verdade torna-se útil somente enquanto instrumento para atingir a liberdade e a felicidade. Boa por si só, intrinsecamente valiosa, isso ela nunca é.

Querem nos vender que a verdade é sua própria justificativa e seu próprio fim, que a verdade é boa, independente das conseqüências, mas a verdade leva apenas, na melhor das hipóteses, a mais e mais verdade. E daí? Pra que serve isso?

A verdade é uma armadilha.

Quando parei de me preocupar com a verdade, senti os grilhões se quebrarem. Só quando parei de me perguntar: ela está falando a verdade? será que ele mentiu?, será que isso aconteceu mesmo?, consegui realmente me abrir para o mundo. E daí que mintam pra mim? A outra grande libertação foi me libertar de me importar. Eu não ligo. Podem mentir. Podem inventar. O que me importa?

A verdade não vale nada.

A Verdade É o Presente

O momento importa.

Me importa sentar ao lado de Rosane e me deliciar com suas aventuras sexuais da noite anterior, todos os detalhes sórdidos, o sexo, seu sorriso sem-vergonha, seu olhar atiçador, e gosto que ela veja meu pau duro, e gosto de ver que ela está gostando de me ver de pau duro e, por isso, vai acrescentando cada vez mais detalhes, e ela conhece minhas taras, sabe apertar os botões certos, e Rosane conta como seu parceiro tinha lambido seus pés e que não há nada melhor do que um homem que sabe lamber os pés da gente, e, cretina, ela sabe que eu sonho em lamber e beijar seus pés, estava há dois meses tentando levá-la pra cama, e por isso mesmo ela me provoca, mais e mais, e eu me perco no momento, nado em seu olhar de malícia cruel, me espreguiço na pulsação da minha ereção e me escavo pra dentro daquela noite, me imagino no lugar do outro homem, transando com uma mulher tão sexy, e me imagino na cabeça de minha amiga, se deliciando em me atiçar, e vou assim pulando de personagem em personagem, uma hora sou ela na cama com outro homem, saboreando tê-lo aos seus pés, outra hora sou ele, na cama com ela, excitado por estar finalmente a sós com a mulher que (disse ela) ele cortejava há quinze anos, outra hora sou Rosane, ao meu lado, que me conhece tão bem, contando apenas os detalhes que sabe que mais me excitam, esticando-os, tirando seu leite, me olhando com olhos perversos, me excitando para o que sabe que nunca me dará, ou então me preparando para o que está ávida para me dar, ainda não sei, vivo no presente, e logo volto a mim, e sou de novo o Alexandre, que ouve a história com excitação e sem critério, que se perde no momento intenso.

E, depois disso, Ana, sentada ao meu lado, uma amiga que também queria me levar pra cama, uma amiga que tinha acompanhado enciumada e atiçada toda aquela cena (que foi bem mais discreta do que fiz parecer, mas mulher repara, óbvio, mulher repara tudo), e Ana disse, quase sem abrir a boca, que era óbvio que aquela história era toda inventada.

Alexandre, ela chiou, essa vadia da Rosane só está querendo te atiçar!

Esse comentário já é tão alienígena pra mim que sinto dificuldade até de compreendê-lo. Me libertei da prisão verdade há tanto tempo que me espanto de ver quanta gente continua acorrentada ao chão.

E para as pessoas normais, respestáveis membros da manada, eu também pareço um alienígena, claro, e elas não entendem quando eu digo que nem mesmo me interessei em saber se era verdade ou não, não cheguei nem perto de pensar isso, nunca considerei essa possibilidade, nem jamais considerarei, porque ela é totalmente irrelevante, completamente mesquinha, absolutamente simplória.

E os humanos, coitados, pensam que eu sim é que sou um simplório, um otário que acredita em qualquer coisa, e balançam a cabeça em falsa compreensão e respondem, bem, se você diz, Alexandre...

Não entendem, não conseguem entender!, que eu não ter me questionado se a história era verdade não quer dizer que engoli a história, pois isso também teria sido simplório.

O ato de contar-a-história é o fato concreto, o único fato que importa. Importa minha ereção, importam as palavras de Rosane, importam seus olhos entreabertos saboreando minha excitação, importa seu cruzar e descruzar de pernas, importa o giro de seu tornozelo, chamando minha atenção para suas botas. O contar-a-história foi um momento real, vivido no meu presente e que vai se estender do passado até os confins da minha memória. O resto é abstrato.

O que me importa se, abstratamente falando, Rosane transou mesmo com o cara daquele jeito, ou se transou de outro jeito, ou se nem transou, ou, quem sabe, até inventou aquele amigo, vinte anos mais velho, que sempre a vigiou com desejo, e ela, desde pequena, sabia provocá-lo e desdenhá-lo, mas, naquela semana, ele tinha subitamente ligado e ela, como estava livre (estava e não estava, estava era ativamente flertando comigo, a safada, mas tudo bem), decidiu que finalmente daria pra ele o que ele sempre quis, e agora me contava aquela história tão comum e sórdida, e ao mesmo tempo tão deliciosa.

A solidez do presente é tão intensa, tão iminente, que a possível veracidade do passado some totalmente na comparação. Questionar a veracidade da história nunca me passou pela cabeça, foi uma não-questão, uma não-tentação.

O futuro sim, esse tem alguma importância. Afinal, será que Rosane contou essa história para me atiçar, como seu outro amigo por quinze longos anos, ou querendo me esquentar para sexo iminente?

Essa pergunta-futuro eu quase me faço. Mas não faço. Dessa etapa, também evoluí. Julgar um momento-presente e concreto com base no que pode ou não acontecer em um futuro abstrato também é uma das piores formas de prisão. Como podemos aproveitar o presente se o critério para saber se ele vale ou não a pena ainda não aconteceu?

O presente existe por si só. O futuro é o presente do amanhã, nada mais.

Aviso: Esse É um Livro de Ficção

Esse é um livro de ficção, sobre a viagem de auto-descobrimento de um narrador completamente ficcional. Toda e qualquer história que você leia aqui foi inventada por mim e não tem qualquer relação com a realidade. Quanto mais verdadeiras parecerem, mais mentirosas serão. A verdade raramente é verossímil.

Eu nunca vivi um casamento aberto. Nunca fui dono de empresa. Não conheço nenhuma Cláudia. Na verdade, meu nome é Olavo, sou negro, magro e trabalho em um escritório de contabilidade em Barueri. Escrevi essas prisões no pouco tempo vago que tenho, entre cuidar de uma esposa doente, criar dois filhos pequenos e dar aulas de tênis no clube local.

Ou não.

A verdade é uma prisão. Não é verdade que todas as histórias desse livro são apócrifas. Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é verdadeira.

Um estatístico me ensinou que os números, devidamente torturados, revelam qualquer coisa. Sempre que os fatos não batiam com minha mensagem, eles foram devidamente torturados e distorcidos, até aprenderem quem é que manda por aqui.

Esse é um livro de histórias reais ficcionalizadas. Ou, quem sabe, de histórias ficcionais filosofadas. Contos? Crônicas? Autobiografia? Tico-tico no fubá?

Na dúvida, não acreditem em nada do que lerem. Todos os fatos são meros acessórios. Concentrem-se na mensagem.

A mensagem é mais importante do que o mensageiro.

Se gostam do que escrevo, se isso lhes ensina alguma coisa, se tem algum valor, então, isso é que é a verdade. E continuará sendo verdade se eu for um gordinho sincero do Rio, uma velhinha safada de Santa Rosa ou duas adolescentes de Altamira escrevendo à quatro mãos. Não faz diferença.

Vários leitores ficaram revoltados com essa ambiguidade: será que o fato de você ser na verdade uma velhinha não muda nada mesmo? Ou duas adolescentes? Pode ser que pra nós, que não podemos saber a verdade, isso não importe, mas e suas intenções? E seus propósitos? Isso não muda também? Não dá outro significado, mesmo que oculto, mesmo que seja só para você mesmo? Ou os meios não importam, só o resultado justifica?

E eu respondo: quando o texto é bom, o autor torna-se irrelevante. Ele pode ter escrito o texto zoando. Pode ter escrito o oposto do que pensava. Não interessa. O que ele escreveu como mentira vai ver é a minha verdade. A ironia de um é o dogma do outro.

O destinatário é muito mais importante do que o remetente. É ele que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. Muitas vezes, o leitor entende algo radicalmente diferente do que o autor quis dizer. E daí? Cada um tira de um texto o que pode. O que ele entendeu é o que ele precisava entender. Tanto faz se o autor queria dizer outra coisa.

Tem gente que adora ficar se perguntando quem é o autor, qual era seu contexto socioeconômico, com quem se casou, quais eram seus objetivos políticos, teve experiências homossexuais?, malufou?

Pra mim, essas pessoas não são nem um pouco diferentes de duas babás que se encontram na pracinha, cada uma com uma revista de fofoca embaixo do braço, e ficam tricotando sobre o último namorada da mocinha da novela ou a reforma do banheiro do apresentador do jornal. Mesquinharia pura.

O que me importa é que existe o texto, ele está falando comigo, e eu quero ouvi-lo.

Postada no blog em Março 2006

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Leia agora o que os meus leitores têm a dizer sobre isso.

As Outras Prisões

Introdução às Prisões

Monogamia Heterossexualidade
Verdade Segurança
Aceitação Medo
Ressentimento Preconceito
Patriotismo Ambição
Conformismo Religião
Respeito e Obediência Vergonha
Expectativas dos Outros Felicidade
 




 

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É possível homem e mulher serem apenas amigos? Carla, recém-casada com Murilo, precisa lidar com a incômoda proximidade de Júlia, melhor amiga de seu marido desde a infância.
 

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