Vergonha de Pedir
Duas perguntas que me fazem
com freqüência:
- Como você consegue que
seus leitores te mandem tantos livros?
- Como você consegue que
as mulheres te mandem fotos dos pés / deixem você tirar
essas fotos delas / etc?
Acho que essas pessoas esperam
algum tipo de pedra filosofal das respostas. Mas o segredo é
simples:
Eu peço.
Vergonha do Ridículo e do Patético
Eu sou muito pidão. Aprendi,
faz tempo, que no Brasil vale o ditado: "Aos amigos, tudo;
aos inimigos, a lei." Naturalmente, a lei está sempre contra
você. Kafka, se fosse brasileiro, teria escrito livros muito
mais surreais.
Estudei na UFRJ. A burocracia nunca funcionou. Nunca houve
um semestre sem algum tipo de problema burocrático sério - e
que nunca seria sanado dentro do sistema. Você tinha que
chorar, ficar amigo das moças da secretaria, contar uma
história triste. Era preciso não ter vergonha. Era preciso
ser visto como um amigo - como alguém por quem o outro faria
uma forcinha.
Eu sempre consegui coisas que ninguém acreditava. Uma das
frases que mais escuto, estupefata e com pequenas variações,
é: "Como que você conseguiu que fizessem isso por você?"
Minha resposta: "Simples. Eu não tive vergonha de ir lá e
pedir."
As pessoas à minha volta morrem de vergonha de tudo. Talvez
seja vergonha do ridículo e do patético que é pedir. Talvez
seja medo de levar um não.
Sim, de certo modo, pedir é ridículo e patético, sim. Mas
não me importo de ser ridículo e patético pra conseguir o
que eu quero. Sou um moço pragmático. Aliás, muitas vezes,
as pessoas atendem seus pedidos justamente por causa do
ridículo ao que você se expôs para pedir, seja por pena ou
mesmo como m tipo de recompensa pelo incômodo. O que importa
é o resultado.
E nada mais realmente patético do que se privar de uma boa
chance de conseguir o que você quer por medo de levar um
não. Medo de levar um não talvez seja uma das maiores
prisões da humanidade.
A raiz do problema talvez seja uma percepção errônea das
probabilidades. O cara vai fazer um pedido que ele acha que
tem poucas chances de ser acatado e pensa: vou me expor ao
ridículo de pedir e, pior, quase certamente vou me expor ao
ridículo de levar um não.
Nesse ponto, se enganam. O ridículo de pedir, de certo modo,
é inevitável mas, a partir do momento que você pede, as
chances do pedido ser acatado são enormes.
As pessoas são boas. Se puderem, via de regra, vão tentar
ajudar os outros. Basta pedir.
Vergonha do Fetiche
Os fetichistas de armário são
uns complexados. Vêm me procurar como se eu fosse psicóloga
sentimental.
Tenho o maior tesão por pés, mas ninguém sabe, tenho
vergonha. Morro de vontade de beijar os pés da minha
namorada, mas tenho vergonha de ela achar que sou
pervertido. Blá blá. E depois perguntam: como você consegue
tirar fotos assim dos pés das mulheres, como consegue
convencê-las a massagear e beijar seus pés?
Ué, simples: não sendo um verme medroso e envergonhado como
vocês.
Não consigo ter vergonha de quem eu sou. Eu sou assim. O
mundo que se adapte. Tanta gente por aí morre de tesão pelo
buraco por onde se caga, outros milhões só pensam nas tetas
por onde se mama, por que cargas d'água eu deveria ter
vergonha de sentir tesão pelos pés que pisam? Ora, só me
faltava essa agora.
E não pensem que gosto só de pés. Um dia, eu estava na casa
de uma moça com quem vinha saindo e me ofereci para lhe
fazer uma massagem nos pés. E ela disse: melhor não,
massagens nos pés levam a outras coisas.
Ela conhecia bem o meu truque. Nunca mais nos vimos.
Um Fenômeno Economicamente
Impossível
A nova perplexidade dos meus
leitores é a minha
lista de presentes. Alguns amigos off-line com quem
comento a idéia simplesmente duvidam que eu tenha
cara-de-pau de fazer isso. Outros, duvidam que alguém me
mande livros.
Um doutorando em economia me disse que, economicamente
falando, isso não fazia sentido. Eu respondi que,
economicamente falando, já estava acontecendo. Cabia a ele,
quando muito, me dar uma explicação econômica, nunca negar o
fenômeno. Senão, daqui a pouco, eu levo o esqueleto de um
macaco que respira embaixo d'água pra um biólogo e ele, ao
invés de tentar entender o fenômeno, vai retrucar que macaco
não respira embaixo d'água e vai jogar fora o espécime.
Em 2004, meus leitores me enviaram 26 livros, que já estão
separados em uma estante especial aqui em casa, livros que
significam muito mesmo pra mim e dos quais não me separarei.
Qual é o segredo? Nenhum. Não tem mágica.
Eu não tive vergonha de pedir.
(e tenho os leitores mais
maravilhosos do mundo, claro!)
Ninguém Parece Ter Vergonha de
Criticar os Outros
Muitos leitores, que não têm
vergonha de se manifestar nos comentários, acham que sou
ridículo e patético, que sou muito direto e pidão.
E daí? Dá quem quer. Não estou forçando nada a ninguém. Nem
mesmo moralmente. Os
Termos de Uso do meu romance pedem enfaticamente que o
leitor só me presenteie se não for lhe fazer falta - se não
tem dinheiro para comprar livros, é meu prazer deixá-lo ler
gratuitamente o meu romance.
Na verdade, fico tão estressado de saber que minha atitude
não foi aprovada por esses estranhos que acho que vou ler um
dos 26 livros que ganhei de presente pra relaxar.
A Lista de Henry Miller
Na verdade, quem inventou isso
de
lista de presentes foi
Henry Miller, outro autor pobre e sem vergonha.
Mesmo quando já era conhecido e lido no mundo inteiro, ele
continuava miserável, pois seus livros estavam proibidos e
eram vendidos em edições clandestinas que não lhe rendiam
nada. Um pouco como eu e os 15 mil downloads dos meus dois
livros. Em Paris, ele filava almoço e jantar na casa de
todos os conhecidos e, em troca, se comportava como
"escritor" para entreter as visitas.
(Nota: se o cardápio for bom e o cachê simpático, eu também
me presto a esse papel. Faço figuração em lançamentos de
livros, vernissages e festas de debutantes, garanto um papo
intelectualóide básico e prometo me comportar diante dos
convidados.)
Mais importante, em uma época em que livros eram muito mais
difíceis de achar,
Henry Miller anexava aos seus livros e à sua
correspondência as obras que estava buscando. Assim, amigos
e leitores podiam enviar esses livros a ele e retribuir, em
algum grau, o prazer que ele lhes proporcionara. Um dos
apêndices de
The Books in My Life é a lista de todos os leitores e
amigos que lhe enviaram livros ao longo dos anos.
Por que não eu?, pensei. Afinal, como disse a
Isabel, é até
romântico: não estou pedindo emprego, dinheiro ou favores
sexuais (ok, favores sexuais também), mas livros. Livros
para eu ler mais e escrever melhor.
Se eu tivesse um emprego fixo, com carteira assinada e
décimo-terceiro, se eu tivesse pelo menos um plano de
aposentadoria privada, óbvio que eu não estaria aqui
mendigando livros. Por outro lado, se eu tivesse esse
emprego aí em cima não teria condições de ler e escrever o
dia inteiro como faço hoje, nem de fazer seis longos,
articulados e interessantes posts por dia. O que vocês
preferem?
A Garrafa do McDonald's
Eu, em geral, não tenho
vergonha de nada. Mas, fazendo uma retrospectiva da minha
vida, algumas das pouquíssimas vezes que senti vergonha na
vida foram em academias de musculação.
Em 2003, voltei a malhar e
minha única sport bottle era uma que a primeira-esposa tinha
ganho em uma daquelas promoções do McDonald's em que o
pedido demorou mais de um minuto pra chegar.
Nos primeiros dias, hesitei em levar minha garrafinha. Todo
mundo com sport bottle da Diet Coke, Gatorade, e só o gordo
chegando com a garrafinha do McDonald's.
Mas eu estava sem grana nenhuma. Dez reais que eu gastasse
em uma nova garrafa iriam fazer falta no leite das criancas.
E eu tinha uma garrafa. Patético comprar outra só por
causa do que outros possam pensar.
Resultado: malhei com minha garrafinha do escocês, sim
senhor, e todo mundo deve ter pensado: gordo é foda, até a
sport bottle é do McDonald's! Deve sair daqui e ir direto
comer um Big Mac! Um, não, três!
Desencanei.
A Bíblia na Bicicleta
Em
1999, decidi ler a Biblia de cabo a rabo. Demorei dois
meses, já li ela outra vez de lá pra cá e se tornou, com
certeza, o meu livro favorito.
Quem lê muito, aprende a ler no ônibus, na fila do banco, na
privada, onde der pra roubar uns cinco minutinhos da vida.
E, principalmente, na bicicleta ergométrica.
E cadê coragem pra ler a Bíblia na academia?
Logo eu que já andei a cidade toda lendo Sade no ônibus, que
já li Os 120 Dias de Sodoma em plena sala de aula, e nunca
liguei para a opinião dos outros! A graça, naturalmente, é
que quem nunca leu Sade, mesmo que tenha ouvido muito falar,
mesmo que tenha lido sobre ele, não consegue realmente nem
começar a conceber o conteúdo cataclísmico de um livro como
Os 120 Dias de Sodoma. E eu não tinha vergonha. Fazia quase
como um gesto de rebeldia. Ênfase no quase: na
prática, eu fazia mesmo era pra poder ler o livro.
Mas ler a Bíblia? E se as pessoas achassem que eu era
cristão? Poucas coisas me deixariam mais envergonhado do que
isso, chegava a ter calafrios.
Durante alguns dias, eu lia a Bíblia em casa e levava algum
outro livro pra ler na bicicleta. Mas, depois de algum
tempo, não deu mais. Eu não queria ler o outro livro, queria
ler a Biblia. Ler um livro em casa e, depois, outro na
bicicleta matava totalmente o ritmo da leitura. Quando você
está em pleno Samuel, Davi se engraçando pro lado de Jônatas
e sendo perseguido por Saul, bem, a última coisa que passa
pela sua cabeça é ler outro livro.
Finalmente, mandei tudo as favas. E daí os outros? Dane-se
que achem que sou cristão. Tudo bem que pra mim isso é
terrível e um insulto mas, para a maioria das pessoas, não é
algo normal e até desejável? Então, foda-se. Quem sabe
melhora até a minha reputação.
E fiquei, durante dois meses e meio, uma hora por dia, lendo
a Biblia na bicicleta ergométrica.
O mais engraçado eram as conversas. As pessoas vinham puxar
conversa comigo, me perguntavam de que denominação eu era,
se estava estudando teologia e onde. Apesar de eu estar
lendo a Bíblia de Jerusalém, que é católica (mas quem sabe
disso?), todos sempre presumiam que eu era evangélico.
Aparentemente, católicos não lêem a Bíblia em público. Ponto
pra eles.
Eu respondia, o mais delicadamente possível, que não tinha
sido aceito na faculdade de teologia por ser ateu - o que,
aliás, é verdade. Um dos requisitos de admissão é a
profissão de fé, e isso eu não podia fazer. Não é patético
ter que ser religioso pra poder estudar a Bíblia?
E as pessoas me olhavam estarrecidas, como se isso fosse o
maior paradoxo do mundo, e balançavam as cabecinhas,
incrédulas, e eu quase podia ouvir a mobília se mexendo lá
dentro.
Mas como assim?, perguntavam, nos mais variados tons de
indignação, incredulidade e surpresa: Está lendo a Bíblia e
não acredita em deus?! Como pode? Não faz sentido!
Amigo, eu leio Dom Casmurro e não acredito em Capitu, eu
leio Senhor dos Anéis e não acredito em Frodo, por que teria
que acreditar em deus para ler a Bíblia?
E o assunto tendia a acabar por aí.
O Gordo da Pipoca
Outra vergonha. A
primeira-esposa adora comer aqueles pipocas grotescamente
grandes e entupidas de manteiga do cinema. Já eu tenho nojo
dessas coisas, não gosto de coisas amanteigadas ou
gordurosas, não gosto nem de comer carne.
Mas, invariavelmente, como se fosse só pra me sacanear, ela
pedia pra eu ir comprar pipoca pra ela. E eu implorava:
pelamordedeus, não faça isso, é patético. Vou subir pelo
meio do cinema com aqueles 10kg de pipoca oleosa na mão e
todo mundo, inevitavelmente, vai pensar: putaqueopariu,
gordo é foda, não pára de comer nem no cinema, é por isso
que tá gordo assim, caralho, etc etc.
E ela nunca cedeu: usava de todas as chantagens sentimentais
possíveis e imaginárias e sempre conseguia que eu passasse
mais essa vergonha em público.
Um dia, comentei isso com um amigo e ele disse: cara, não
tem jeito, desencana. Se ela fosse comprar a pipoca ela
mesma, seria pior ainda. Ué, como assim?, perguntei.
Pensa bem, todo mundo iria ver aquela menina magrinha,
bonitinha, andando com quase metade do seu peso em pipoca e
iriam pensar: essa menina não come isso tudo!, e quando
vissem ela sentando ao lado do gordo, invariavelmente
diriam: putaqueopariu, gordo é foda, não levanta nem pra
comprar a própria pipoca, é por isso que tá gordo assim,
caralho, etc etc.
Controlando sua Imagem
Em minha época de escola, eu
era um dos alunos mais ocupados e de maior visibilidade da
escola. Fazia de tudo, era engajado, presidente do grêmio,
editor do jornal, gerente da lanchonete e outras dezenas de
coisas. Nunca tinha tempo pra nada, muito menos pra comer.
Várias vezes desmaiei na enfermaria por pressão baixa e
falta de comida.
Mas não tinha jeito. Nas duas, três vezes por mês em que eu
tinha tempo de parar na lanchonete e comer alguma coisa,
tinha sempre alguém que dizia: esse gordo não pára de comer,
por isso é que está gordo assim, sempre comendo hein
Alexandre?
Adolescente fala tudo. Gosto disso. Hoje em dia, rodeado por
adultos hipócritas, tenho que constantemente me lembrar de
que não estão falando as coisas que sei que estão pensando.
Eu tinha dois colegas de classe gordos. Um era um rapaz
brilhante, mas letárgico. Se movia pouco e estava sempre com
um olhar bovino. Outro era um gordo gótico, de longos
cabelos despenteados e oleosos, roupas pretas e unhas pretas
- em cima e em baixo. Eram meus espelhos: os dois gordos
proverbiais - o inteligente mas devagar quase parando e o
sujo-largadão. Decidi que eu nunca seria nenhum daqueles
dois. Talvez criasse até um terceiro estereótipo pra mim,
mas aqueles não.
Sempre tive o cuidado de controlar a imagem que transmito.
Tento nunca ser visto comendo em público. Jamais digo que
estou com fome, sob hipótese alguma. Me mantenho sempre em
constante movimento e nunca sento quando posso ficar de pé -
até que porque a maioria das minhas roupas fica ótima quando
estou em pé e toda amarfanhada quando sento. Aliás, já tive
problemas com isso
em uma festinha de subúrbio.
Às vezes até fico com a barba por fazer, mas meu cabelo está
sempre muito curto (passo máquina três) e seco. Sou obcecado
com a brancura das minhas golas e sempre uso uma camiseta
por debaixo da camisa - além de absorver o suor e impedir o
surgimento daquelas nefandas manchas, também preserva a
roupa que está por cima.
Nunca fui de ter vergonha de nada. Vergonha de ser cristão
não conta, pois não sou mesmo. Mas, realmente, tenho que
admitir: ao escrever isso, me dei conta de que tenho
vergonha de ser gordo.
Não acho que seja uma prisão. É instinto de sobrevivência.
Ser gordo é uma das doenças que mais mata no planeta - e,
com certeza, é a que mais mata no meu grupo demográfico. A
não ser que eu seja pego por um caminhão, ou desenvolva
alguma doença exótica esdrúxula, as chances são
monstruosamente grandes de que morrerei devido a fatores
relacionados à minha obesidade, seja problemas
circulatórios, cardíacos ou até mesmo um diabetes.
Então, realmente, não acho que eu deva "conviver bem" com os
meus 100kg, assim como não acho que um soropositivo tenha
que conviver bem com a AIDS: temos é que lutar até o fim.
Vergonha e Medo
Alguns leitores vieram dizer
que vergonha é uma outra palavra para o medo. Sim e não. Eu
sou notoriamente um homem sem medo. Não acho isso bom. Na
prática, quer dizer que sou um homem inconseqüente. Outro
dia, falando sobre as expectativas dos outros, um velho
amigo que me ama aconselhou:
"a vida não é só
composta das coisas que gostamos de fazer sabe. (...) A vida
é cruel sim mas temos que pensar muito bem no dia de amanhã.
Fazer o que gostamos mas não pagar a vida que queremos, não
sei não."
Mas o problema é justamente
esse. Eu só faço o que quero e não penso no dia de amanhã.
Tenho fé ilimitada (e totalmente não comprovada pela
evidência empírica disponível) de que sou capaz de resolver
qualquer problema.
Eu sou sempre cara-de-pau. Eu peço as coisas que outros não
tem coragem de pedir. Eu abordo as pessoas que outros não
têm coragem de abordar. E, via de regra, minha postura paga
dividendos. Já me dei mal por falar demais, mas nunca por
não ter vergonha.
Nenhuma das minhas vergonhas acima é fruto de medo. Se
algumas vezes modifico o meu comportamento em função dos
outros, coisa rara, não é por medo do que possam pensar, ou
na ânsia de ser aceito em algum grupo, mas é uma
conseqüência natural da minha filosofia de vida: não quero
que as pessoas me vejam como elas querem, quero que elas me
vejam como EU quero, faço questão de controlar a
imagem que emito e construir, eu mesmo, sempre, o Alexandre
que quero ser.
Mas podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a vergonha
está sempre ligada à nossa imagem perante os outros. A
vergonha, muitas vezes, é uma importante ferramenta de
auto-preservação. Entretanto, o desejo de controlar o modo
como somos vistos pelas pessoas a nossa volta pode
facilmente se tornar num medo paralisante que nos impede de
sermos nós mesmos e de tomarmos atitude individuais que
destoem das atitudes do grupo.
Eu gosto de me aproveitar disso. Deixar explícito que você
não teria vergonha de fazer um escândalo muitas vezes pode
decidir a questão em seu favor - sem necessidade de
escândalo. Falo disso em mais detalhes em
A Auto-Confiança dos Ricos.
Uma Piada sobre a Vergonha
Sala de espera. O homem puxa
um cigarro e, antes de acender, pergunta à recepcionista:
"Posso fumar aqui?"
"Não", ela responde, prontamente.
Ele está guardando o maço quando percebe todas aquelas
guimbas a sua volta, fumadas até o fim. E questiona:
"E essas guimbas? De quem são?"
E a recepcionista, imperturbável:
"Ah, sim, são das pessoas que não perguntaram."
Para Não Esquecer
É mais fácil pedir perdão do
que permissão
Depoimentos dos Leitores
Pedi para que meus queridos
leitores me dessem exemplo de vergonhas que empataram suas
vidas. Aqui vão alguns:
"há uma vergonha que me
atrapalha muito: não consigo largar Direito (do qual eu
gosto, mas não a ponto de passar a vida trabalhando com
ele), porque tenho vergonha de deixar a posição privilegiada
de queridinho da família e futuro bem-sucedido, e virar um
pária por ter largado uma mina de ouro pra se arriscar em
coisas incertas.O fato de eu não saber o que fazer no lugar
dele também pesa mais, mas essa vergonha estúpida exerce o
seu peso, e me envergonho dessa vergonha influir dessa forma
na minha vida."
"Acho que as vezes é bom ter vergonha, ela nos impede de
sermos inadequados, chatos, inconvenientes, ou coisas do
tipo em muitos momentos. Acho que as vezes a vergonha é uma
resposta a uma situação de inadequação, querer falar ou
fazer algo que não vem ao caso, se vc nem cogita a
possibilidade de contar pro seu chefe careta que esta com
uma puta ressaca pq encheu a cara na noite passada, não
sente vergonha disso, agora se quer contar, lá vem a
vergonha e as vezes te impede de fazer besteira."
"A vergonha é uma das faces do medo. Neste caso específico é
o medo da inadequação aos olhos do outro. É sim um
instrumento do instinto de auto-preservação, só que, muitas
vezes, o risco que estaríamos correndo é simplesmente
ilusório."
"Vergonha deve ter a ver com um ato de auto-preservação
perante o coletivo. Uma pessoa tem vergonha de dizer suas
crenças quando acha que elas não são aprovadas pelo grupo
que vai ouvir. Ou tem vergonha de mijar em um banheiro
público pois acha que o pênis é menor do que deveria. Tem
vergonha de ficar nu ou com pouca roupa em público pois não
acha seu corpo atrativo ou aprovável (sic) pelo grupo.
Talvez a vergonha seja maior para aqueles que tem maior
dependência de aprovação pelo grupo."
"a tese de que a mãe de todas as vergonhas é a inibição dos
impulsos sexuais, que deriva do medo da castração. Este medo
está presente em todos nós (homens e mulheres) desde que, na
infância, vivemos o desejo incestuoso para com a mãe ou pai
(menino e menina, respectivamente), recalcado imediatamente.
Freud chamou isso de Complexo de Édipo [não foi invenção
dele, que se utilizou do grego Sófocles e sua maravilhosa
peça Édipo-Rei). O tema é recorrente mas indispensável. Há
várias manifestações normais e necessárias da vergonha,
porém creio que apenas será uma PRISÃO quando tiver
intensidade neurótica. A Psiquiatria tem um nome prá
vergonha patológica: Fobia Social."
Auto-crítica
Na verdade, tenho vergonha
desse artigo. Tenho mesmo. Ele está escrito desde outubro de
2003 e eu não publico. Acho que ficou desencontrado e
desconexo, sem conclusão definida. Mas estou decidido a
terminar logo o livro sobre as Prisões. Vou desovar aqui no
blog todas as que tenho planejadas, pra ver como ficam, e
depois boto no livro só as melhores.
O artigo
A Auto-Confiança dos Ricos, de certo modo, desenvolve
esse mesmo tema com mais elegância.
Postada no blog entre
Janeiro 3 e 5, 2005
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As Outras Prisões
Introdução às Prisões
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