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Kami-sama no Kiseki ~ owari no hajimari Exibir próxima mensagem
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Cla Minamino
Colaborador


Mensagens: 1321
Localização: St.Louis do Maranhão

MensagemEnviada: Sex Dez 07, 2007 9:46 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Pronto. Está aqui o capítulo inicial da versão revisada de Kami-sama no Kiseki.
Logo nota-se as diferenças já pelo título, que é diferente do original (aaah, o '-sama' conta!). Na verdade, minha correria para estabelecer um tópico aqui é por que gostaria de avisá-los que a nova versão é bem diferente da anterior em vários aspectos. Além disso, queria dar um recado para a Gabi: Siiiiiim, sim senhora,vou publicar KnK direitinho! XD
Sem mais delongas.

---xx---

Kami-sama no Kiseki


Fase 1: Owari no Hajimari ~ The Life After Death
Ato I – Prologue: Shattered Dreams

A noite cai. Leon Cambriage está apagando as últimas luzes deixadas acesas pelos discípulos que teimavam em permanecer acordados – provavelmente Ayumi. Sua missão originalmente importante como rei do Reino de Áries havia provavelmente reduzido-se a cuidar das almas que chegavam a Olímpia – não que ele reclamasse. Sua tranqüila vida como mentor destes aprendizes era suficientemente prazerosa para compensar todos os males de sua antiga vida na Terra. Desta, ele dispensava lembranças.

- ‘Creio que não há necessidade de lembrar da velha Austrália...’ – ele pensou – ‘... se ela esqueceu de mim há tempos.’


“Kanashimi wa mou nai...”

* Sadness isn’t here anymore...


Leon caminhava lentamente por entre o tortuoso caminho que levava até a habitação sagrada do grande mentor espiritual de Olímpia: Mei, o sábio. Nada se sabia sobre ele além de que ele havia criado este planeta, mas provavelmente qualquer outra coisa fosse desnecessária: apenas isso já era motivo o suficiente para admirá-lo. Não era preciso de mais nada.
O Rei de Áries desconhecia o motivo pelo qual fora chamado até as dependências do sábio, mas provavelmente deveria ser para discutir juntamente com todos os outros soberanos reais do planeta sobre seu futuro, pois Olímpia estava ameaçada.
Uma ameaça que apenas Mei tinha conhecimento.

- “Pensando na filha, Leon?” – uma sonora voz pôde ser ouvida por Leon e por pelo menos metade do pequeno planeta.

Certamente não era do feitio de Lisiandro – Rei de Sagitário – ser discreto. Muito menos quando ele desejava se divertir com a estranha afeição paternal que Leon sentia pela sua mais nova princesa real, Ayumi. Arrepiando as pontas se seus cabelos louros quase castanhos, ele se aproximou do rei de Áries.

- “Na verdade, meu bom amigo, eu pensava em nós.” – foi a calma reposta de Leon.
- “Iiiih... não é por nada não, mas sou hétero amigo. Quem sabe em outra vida?” – brincou o rei do Reino do Verão, que era o mais jovem dentre todos eles, com pouco mais de dois milênios de vida – “Principalmente se você nascer com o corpo da Pamela Anderson.”
- “Sinto muito, mas desconheço tal moça. E não me referia a isso, engraçadinho.” – Leon acrescentou, rindo – “Me referia a Olímpia.”

Lisiandro ia responder algo a respeito da tal Pamela Anderson, mas calou-se ao perceber a seriedade do assunto. Optou então por mudar de assunto:

- “Você sempre faz esse caminho andando, apesar de morar num reino periférico, mesmo dispondo de teleporte em seu Castello.” – ele falou, mais para confirmar do que para perguntar.
- “Ah, imaginei que você fosse comentar isso.” – e acrescentou – “Unber sempre comenta.”

Infelizmente, Leon só percebeu que havia tocado no nome do desafeto de Lisiandro pouco depois de fazê-lo, punindo-se mentalmente por isso.

- “Unber é daqueles homens práticos em tudo. Provavelmente casou num casamento arranjado pela mãe, se é que chegou a casar.” – respondeu automaticamente Lisiandro, revirando os olhos castanhos.

Leon conteve o riso, sentindo a aproximação de um terceiro rei. Felizmente não era Unber, mas Althero, rei de Escorpião. Era mais velho que Leon, porém bem mais irresponsável que o jovem Lisiandro.

- “Nosso bom Unber não gostaria de ouvir isso, acredito eu.” – Althero disse, com um sorriso que indicava que ele próprio já havia proferido estas palavras várias vezes – “O velho Rei de Gêmeos tem muito que fazer puxando o saco do sábio...”

Isto já passava dos limites considerados aceitáveis, acreditava Leon. Mas aparentemente, naquela ante-sala, esta era uma opinião exclusiva dele.

- “Assim como sua princesa real, né Althero?” – foi a réplica de Lisiandro, que elevou sua voz para que a outra metade de Olímpia que ainda não o escutava a conversa pudesse ouvir também – “A jovem e, diga-se de passagem, belíssima Essiralc não sai de perto de Mei. Lembra-me muito nosso conhecido Unber, apesar dele ser bem mais na dele.”

Antes que Leon impedisse uma disputa em outros níveis – mais baixos – uma quarta voz pôde ser ouvida claramente por todos:

- “Calem. A. BOCA! Vocês irritam!!!”

O grito da rainha de Leão passou a mensagem satisfatoriamente. Nenhum dos três reis que discutiam, e nenhum dos outros seis reis que estavam caminhando até o lugar falou uma única sílaba. Percebendo que seu grito havia escapado de suas pregas vocais, as feições da rainha alteraram-se imediatamente.

- “Ah não... desculpem-me, é reflexo...” – disse, batendo sua mão na testa como que se punindo, ato que ela fazia repetidamente.

Apesar de assustado, Leon agradeceu à rainha mentalmente: jamais seguraria os ânimos de Lisiandro e Althero a tempo de não levarem uma bronca do sábio.

- “Creio que já tenhamos começado a manhã animados, não?”

Uma voz calma e melodiosa ecoou. Todos os dez reis que se encontravam na ante-sala foram imediatamente paralisados por tão imponente presença. De fato, Mei era facilmente destacável: cabelos cinzentos e olhos violeta, completamente impossíveis em humanos comuns, eram uns entre seus caracteres mais relevantes. A face jovem contradizia os vários milhares de anos que ele provavelmente já vivera.

- “Espero que a animação seja bem empregada.” – ele emendou, uma calma agora substituída por uma ironia quase imperceptível.

Atrás do sábio vinha Unber, que já os esperava na sala de reuniões. Este olhava para Lisiandro e Althero com um ressentimento ferino, o que indicava que ele escutara a discussão por completo, não reagindo apenas pela presença de Mei.

- “Sinto muito Lisiandro...” – Leon cochichou com o amigo, que ainda estava branco – “... mas você está morto. Ninguém insulta Unber na frente dele e sai inteiro.”

E a fina voz feminina, proveniente da Rainha de Câncer, fez coro com Leon:

- “Hoje vamos ter luzinhas verdes saídas do oitavo e do nono reinos... Escreva o que eu digo, Leonin!”
- “AAAAH!” – o grito de Lisiandro foi lentamente desaparecendo.




Finalmente terminara de apagar quase todas as luzes, faltando somente a do escritório. Seus pensamentos voavam longe, perto do dia seguinte, quando ele finalmente revelasse a Mei que não tinha mais arrependimentos de nada, que poderia voltar para a Terra. Agora que encontrara uma discípula capaz de sucedê-lo, não desperdiçaria a chance de ver seu cargo em melhores mãos. Mãos mais jovens.
De repente, Leon notou de relance a presença de alguém. Virando-se para melhor ver quem o procurava, seu choque foi descrito em suas feições, que apenas seu ilustre visitante pôde contemplar.



- “Sinto se os fiz esperar,” – Mei falou calmamente a todos os já reunidos doze reis e rainhas – “Mas o assunto a ser discutido é bastante sério.”

Os reis se contiveram em perguntar o assunto a ser debatido e o porquê de sua seriedade: Mei logo explicaria tudo. Todos permaneceram calados.

- “Olímpia corre riscos.” – Mei continuou, para o espanto de alguns presentes – “Nosso planeta está ameaçado de explodir devido a um desequilíbrio de energia espiritual.”
- “Como!?” – Lisiandro não pôde mais conter-se – “Está dizendo que vamos desaparecer?”

Mais suspense. Leon já imaginava que o planeta corria risco, mas não esperava que Mei fosse reuni-los tão cedo. Um sinal de perigo iminente.

- “Acalme-se Lisiandro.” – Mei pediu, sua entonação sugerindo que aquilo poderia ser uma ordem – “Não são riscos imediatos. Como todos sabem, eu fundei este planeta em certo período de tempo, uma era distante. Mas os tempos mudam...”

A rainha de Leão, Chigusa, não se contém:

- “Mas Mei... o que você quer dizer com isso?”
- “Ora Chigusa, deixe-o falar!” – um irritado Unber replica antes que Mei pudesse abrir a boca para responder – “Ah, desculpe-me senhor! Não foi minha intenção intervir em sua fala!”

Apesar de compreenderem a seriedade da situação, os outros soberanos de Olímpia não contiveram sua vontade de rir, tendo de esconder com as mãos seus lapsos faciais. Mei sorri bondosamente para Unber, e, como se nunca tivesse sido interrompido, responde serenamente a pergunta de Chigusa.

- “Olímpia fica numa dimensão alternativa à Terra, de onde todos viemos. Para se atravessar uma dimensão, é necessária muita experiência a uma alma. De fato, não posso lhes dizer como eu próprio vim parar aqui, tendo sido o primeiro.” – e faz uma pausa, olhando nos olhos de cada um de seus doze reis – “Mas cheguei. Provavelmente, como não tenho lembranças de minha vida na Terra, eu devo ter sido um agregado de várias almas animais que se formou de algum desastre.”

Outra pausa. Todos já haviam escutado esta história, mas nunca proferida do próprio sábio. Mesmo Lisiandro escutava a tudo com uma devoção nunca antes vista por seus companheiros reis mais experientes.

- “A sucessão de acontecimentos deve ser mais ou menos lógica: nesta dimensão alternativa, minhas lembranças devem ter formado com o volume espiritual que eu tinha um planeta mais ou menos semelhante ao de origem. Assim nasce Olímpia,” – ele fala, dando uma pausa – “e a vida humana como a conhecemos.”

Todos agora relembravam a história que lhes foi contada pelos reis de sua época: Mei não era originado de uma alma humana como todos eles – daí as características físicas um pouco diferenciadas – mas ele havia de certa forma gerado o modelo de um humano.

- “O que importa é que, ultimamente, a Terra tem mandado cada vez mais almas capazes de cruzar dimensões. E, mesmo que o planeta envie almas de volta, não estamos conseguindo suprir a demanda de espaço aqui, o que nos levaria a ter que matar almas...” – e todos o miram assustados – “...o que nós obviamente nunca iremos fazer.”

Os reis se olham, num misto de alívio e espanto. Neste breve espaço de tempo, Leon não pôde deixar de estranhar a atípica expressão no rosto de Chigusa.

- “Infelizmente,” – continuou Mei – “creio que eu não seja mais apto a resolver algo desta magnitude, pois meus poderes foram todos divididos no dia em que eu fundei os Reinos Solares. Eu os dividi entre doze reis anteriores, e vocês os herdaram ainda mais poderosos do que os anteriores. Unidos, talvez possamos fazer algo a respeito.”
- “‘Talvez’, mestre Mei?!” – a rainha do Reino de Peixes, Karinne Liachtw, não abafou seu descontentamento.

Mei a olhou pensativamente. Depois, num franco sorriso, respondeu:

- “Sim. Talvez.”




Ania levantou-se pela trigésima vez naquela noite. Olhando nervosamente para o lado, indagando a si mesma se havia acordado alguém, viu apenas a jovem aprendiz Ayumi Suzuhara babando em seu travesseiro.

- ‘Ah sim,’ – ela lembrou-se – ‘Ayumi não conseguiu dormir direito e pediu pra vir dormir aqui...’

Pensando se sentia raiva por ver a garota babando em seu travesseiro favorito ou um amor maternal pela figura adormecida, a australiana levantou-se para tomar um copo d’água. Leon provavelmente iria querer fazer um quadro com essa imagem se ele um dia visse Ayumi dormindo.

- ‘Do jeito que é babão...’

Seu irmão nunca mudava. E assim era melhor mesmo.
Terminada a sua água, ela caminhava de volta para seu quarto quando notou que a luz do escritório permanecia ligada. Estranhando o fato, caminhou lentamente pelo escuro para não bater em nada.

- ‘Provavelmente Leon quer terminar toda a papelada antes de ir dormir.’ – ela pensou – ‘SE ele dormir... Tantos problemas com a morte de seus companheiros...’



Alguns meses depois da reunião, Chigusa misteriosamente faleceu. Os discípulos do Reino de Leão ficaram extremamente desorientados, guiados apenas por um príncipe real de nome Jomo Habib. Este, percebendo que não havia muita opção, decidiu fazer a Seleção Real e passou com honrarias, sendo bem recebido por alguns dos antigos reis. Outros – Althero entre eles – temiam que o príncipe tivesse exterminado Chigusa para tornar-se Rei de Leão.

- “Sabe Leon,” – Lisiandro comentou com seu amigo – “Chigusa não andava muito bem mesmo... e ela já tinha alguns milênios, né?”
- “Lisiandro, não sei dizer. Talvez sim.” – o ariano preferiu não comentar sobre a estranheza no comportamento de Chigusa na última reunião.
- “Vocês sabem, acho que ela foi assassinada.” – o rei de Libra, Oswald, resolveu se intrometer na conversa – “Assassinada por aquele príncipe dela. Ele estava muito calmo na seleção real, nem parecia que a mentora dele por dois milênios tivesse morrido!”
- “Isso é uma acusação séria, Oswald.” – respondeu calmamente Leon – “Mas tem fundamentos. Só não saia espalhando isso para o seu reino.”
- “Ora Leon, e se você foi o próximo!?” – o Rei de Libra parecia enfurecido – “Estamos mantendo um assassino entre nós e ninguém se preocupa!”

Uma semana depois, Oswald inexplicavelmente veio a falecer também.




- “VOCÊ?!” – Leon exclamou, verdadeiramente surpreso – “O que você faz aqui!?”

Mas nenhuma resposta é ouvida. Alguns segundos depois, Leon vê algo em seu chão que quase faz com que ele perca a consciência.
Sangue.
É fato conhecido em Olímpia que reis não se ferem com facilidade. E, quando o fazem, nunca sangram a não ser quando estão com graves ferimentos ou...

- “...morrendo... eu estou mor... ren... do...” – a voz de Leon vai pouco a pouco enfraquecendo.
- “Sinto muito senhor Leon.” – a figura sombreada lhe responde antes de dar as costas para se retirar – “Mas era necessário.”

Silêncio. Leon teve a confirmação de seu óbito quando viu luzes verdes saindo de seu corpo subirem aos céus de Olímpia, voltando para casa. Voltando para a Terra.

- ‘Quantos mais...?’

Não teve forças nem mais para pensar. Num último momento de vida, fechou seus olhos, alheio os passos que se aproximavam no corredor, vindos da direção oposta pela qual a nublada figura de seu visitante havia entrado.

- “Leon? Hei maninho, responda algo! Estou te chamando há...”

Ania parou de respirar por alguns segundos. Seu espanto inicial foi seguido por um grito que, se não acordou todo o planeta, despertou todos os que habitavam o Aries Castello.


“Dareka wa koko ni iru
Tsuki no mukou e?
Sono inochi agari no inochi wa
Tsuki no mukou e...”


* Há alguém aqui
Além da Lua?
Esta vida após a vida está
Além da lua...



- “Okaa-san?”

Uma voz fraca, vinda de uma franzina garotinha que não aparentava seus quinze anos podia ser ouvida debaixo do kotatsu daquela habitação japonesa. Ayumi Suzuhara estava esperando sua mãe há pelo menos cinco horas. Ela nunca havia passado tanto tempo longe.

- “Okaa-san?! Obaa-san?!”

A menina estava desesperada. Sua mãe havia lhe ordenado a não sair dali, mas ela sentia fome e frio, mesmo sob o quente kotatsu. Pouco tempo depois, tudo desapareceu. Tudo parecia ser desintegrado nos olhos anormalmente vermelhos da japonesa.
Era a bomba atômica de Hiroshima, fazendo seu papel como um dos maiores desastres que a Terra já vivenciou.




- “Aaah!”

Ayumi se levanta da cama, ofegante. Nunca antes havia tido aquela reminiscência. De fato, pouco lembrava de seu passado além de seu nome, como se houvessem apagado todas as suas memórias. Mas, naquela noite, ela havia se lembrado de seu dia de morte.

- ‘Estranho...’ – ela pensou, desistindo depois de se aprofundar nisso – “Estou com fome...” – é seu comentário.

Olhando para o quarto no qual ela se encontrava. Não foi preciso muito tempo para se lembrar que havia ficando com medo de dormir sozinha, pedindo para Ania lhe fazer companhia. No final, a razão de seu medo acabou tendo alguma base...

- ‘Ah, babei todo o travesseiro dela...’ – prevendo a bronca que ia levar, a menina se levantou, imaginando pela luz vinda de fora que já era hora de treinamento.

Se Ania já não estava mais na cama, já deveria ter constatado toda a história da babação de travesseiro, ela imaginou enquanto prendia seus cabelos negros em duas tranças. Uma vez que a bronca era inevitável, Ayumi se levantou para trocar de roupa. Olhando pela janela, assustou-se ao constatar que a luz que a despertara era na verdade várias luzes verdes, como se vaga-lumes subissem aos céus.
Uma morte.
Em toda a sua estadia de 63 anos em Olímpia, Ayumi havia visto apenas treze mortes. Mas somente três almas entre todas elas haviam irradiado tanta energia para a Terra de uma vez só. E, infelizmente, elas eram todas almas reais.

- “Não!”

Temendo pelo pior, ela apressou-se pelos corredores a procurar por Leon. No caminho, viu Heru, que a parou. Analisando a compostura do sempre arrogante Heru Sierra, viu que a coisa era séria. E o que escutou foi a perfeita síntese de todos os seus medos naquele espaço de tempo.

- “A-Ayumi... a-aquelas lu-luzes eram... o-o se-senhor...” – ele parou.

Não pode continuar, pois a japonesa já havia despencado no chão, num choro convulso e súbito. Percebendo-se esgotado também, uniu-se a ela nas lamúrias em homenagem à alma de Leon, cujas últimas luzes já se viam fracas no céu Olimpiano.



- “Leon, me diga uma coisa...” – o rei de sagitário iniciou uma conversa com o seu amigo depois da saída de Oswald – “Você realmente acha que foi o jovem Jomo quem matou Chigusa?”

Leon, que se encontrava sentado no topo de uma colina do Reino de Sagitário, olhou para Lisiandro, que estava deitado ao seu lado. Parando um pouco para pensar, respondeu:

- “Não sei.” – ele optou pela neutralidade – “Ao mesmo tempo em que acho arriscado envolvê-lo neste problema, não acho que aquele jovem pudesse matar Chigusa. Porém, seguindo essa linha de raciocínio, os únicos que poderiam fazê-lo...”
- “... somos nós.” – Lisiandro emendou a fala de Leon – “Reis Olimpianos.”
- “Sim. Isso mesmo.”

Um estranho silêncio se sucedeu entre os amigos. Terminados cinco minutos, Lisiandro resolve quebrar o constrangimento:

- “Se o inimigo está entre nós, não podemos mais confiar nos reis?” – ele pergunta, hesitante.
- “Pelo contrário.” – Leon responde ciente do espanto que sua resposta causa em seu amigo – “Temos é que confiar em nós, mesmo que seja tarde demais.”




No Sagitta Castelo, sede do Reino de Sagitário, Lisiandro está ajudando um discípulo quando tem um mau pressentimento. Olhando para a janela, vê luzes verdes subindo acima das nuvens.

- “Senhor?” – seu príncipe invoca-o, tentando chamar sua atenção – “Senhor Lisiandro?”

Se o jovem príncipe já estava assustado, ficou totalmente desnorteado quando viu seu rei, quem ele considerava ser a alma mais experiente de todas, deixando escapar lágrimas àquela alma que se levantava aos céus. Tentou chamá-lo mais algumas vezes sem sucesso, retirando-se em seguida, ainda desorientado, acreditando que seu mestre preferia ficar sozinho.

- “Agora eu entendi, Leon.” – o homem de cabelos agora castanhos levanta-se, as lágrimas ainda molhando sua face – “É tarde demais.”


“Dareka wa koko ni iru
Tsuki no mukou e?
Dokoka de watashi no
Omoide wa...”

* Há alguém aqui
Além da Lua?
Algum lugar aonde
Minhas memórias estão...



{ Continua... }

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Editado pela última vez por Cla Minamino em Sáb Fev 02, 2008 8:06 pm, num total de 2 vezes
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Gabi Minamino
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MensagemEnviada: Qua Dez 19, 2007 2:10 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Caramba Cla, eu não lembrava de um primeiro capítulo tão triste assim... =/ Mesmo com a melancolia que ele transmite, está excelente! Conseguiu a proeza de ficar, inclusive, melhor que a primeira versão desse mesmo capítulo!

Narrar a mesma situação pela visão do próprio Rei Ariano foi uma ótima idéia, e você conseguiu aproveitá-la muito bem, Cla ^^ Adorei, excelente! O capítulo conseguiu até mesmo dar aos leitores novas perspectivas do grande mistério até o momento: quem, afinal, está matando os Reis de Olímpia.

Na primeira versão tínhamos nossos suspeitos, mas eram mais centrados nos novos Reis... agora nossas suspeitas abrangem não somente a nova geração real, como também a anterior!

Particularmente estranhei a mudança de Chigusa na reunião com Mei, e muito mais sua morte logo em seguida. Me faz questionar várias coisas, dentre elas:

- Porque exatamente ELA? Começar por ela?
- Será que morreu mesmo? Ou fez aquela cara porque Mei tinha, de alguma forma, descoberto algo que ia contra os princípios da até então Rainha de Leão?
- Será que a expressão era porque aos poucos assimiliava o que estava acontecendo, e o que iria acontecer? Morreu para não falar mais do que devia?
- Ou será que morreu antes dos outros meramente porque o assassino assim o quis...?

Também fiquei encacutada com uma frase em específico de Mei:

"Nosso planeta está ameaçado de explodir devido a um desequilíbrio de energia espiritual."

Será que o algoz dos reis está, então, querendo equilibrar a energia espiritual? Exterminando onde ela é mais forte, o equilibrio deve ser mantido... e ela é, notavelmente, muito mais poderosa estando com os Reis e Rainhas.

Só não sei se de fato adianta, porque ao que um Rei/Rainha é morto, outro o substitui. Talvez resolva, pelo fato dos Reis/Rainhas serem relativamente novos em seus postos -- e consecutivamente com uma adoção de poderes "extravagantes" recente... mas talvez não resolva.

E ainda quero saber quem é o responsável por toda essa matança >.<

Bom, dúvidas, suposições e questionamentos não faltam, mas somente com os próximos capítulos é que poderei avançar nos mesmos -- ou então, quem sabe, tirar a dúvida com a própria leitura me informando (mas tenho a impressão que isso vai demoraaar u.u')

Portanto, trate de continuar escrevendo, Cla!! Tô adorando, e ver a fic reescrita apenas me faz adorar mais ainda! ^^ Continue continue, quero ler! Tá mais que excelente! *-*

Não me deixe muito mais tempo curiosa, continueee ^^ E mostre mais do Lisiandro, ele é tãoooo legalll *-*

Ps: cadê o Albeeert? T.T hahahaha XDD

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Cla Minamino
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MensagemEnviada: Qua Dez 19, 2007 2:37 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Gabi Minamino escreveu:
Caramba Cla, eu não lembrava de um primeiro capítulo tão triste assim... =/ Mesmo com a melancolia que ele transmite, está excelente! Conseguiu a proeza de ficar, inclusive, melhor que a primeira versão desse mesmo capítulo!

Narrar a mesma situação pela visão do próprio Rei Ariano foi uma ótima idéia, e você conseguiu aproveitá-la muito bem, Cla ^^ Adorei, excelente! O capítulo conseguiu até mesmo dar aos leitores novas perspectivas do grande mistério até o momento: quem, afinal, está matando os Reis de Olímpia.


Ah, o primeiro capítulo teve que ser triste. Notei que na versão anterior eu não mostrei nada sobre os antigos Reis, que eram personagens importantíssimos na história. Infelizmente, dar destaque a eles significava também escrever mais sobre a morte deles. Apesar de meio penoso, o início vai dar lugar a um pouco mais de esclarecimentos sobre quem pode ser o verdadeiro culpado.

Gabi Minamino escreveu:
Na primeira versão tínhamos nossos suspeitos, mas eram mais centrados nos novos Reis... agora nossas suspeitas abrangem não somente a nova geração real, como também a anterior!

Particularmente estranhei a mudança de Chigusa na reunião com Mei, e muito mais sua morte logo em seguida. Me faz questionar várias coisas, dentre elas:

- Porque exatamente ELA? Começar por ela?
- Será que morreu mesmo? Ou fez aquela cara porque Mei tinha, de alguma forma, descoberto algo que ia contra os princípios da até então Rainha de Leão?
- Será que a expressão era porque aos poucos assimiliava o que estava acontecendo, e o que iria acontecer? Morreu para não falar mais do que devia?
- Ou será que morreu antes dos outros meramente porque o assassino assim o quis...?


Mistérios, mistérios. Chigusa realmente abriu uma brecha.

Gabi Minamino escreveu:
Também fiquei encacutada com uma frase em específico de Mei:

"Nosso planeta está ameaçado de explodir devido a um desequilíbrio de energia espiritual."

Será que o algoz dos reis está, então, querendo equilibrar a energia espiritual? Exterminando onde ela é mais forte, o equilibrio deve ser mantido... e ela é, notavelmente, muito mais poderosa estando com os Reis e Rainhas.

Só não sei se de fato adianta, porque ao que um Rei/Rainha é morto, outro o substitui. Talvez resolva, pelo fato dos Reis/Rainhas serem relativamente novos em seus postos -- e consecutivamente com uma adoção de poderes "extravagantes" recente... mas talvez não resolva.

E ainda quero saber quem é o responsável por toda essa matança >.<


Matança, wow. O responsável aparecerá para vários, isso eu lhe garanto. Do jeito que você é esperta, vai adivinhar daqui a pouco. >P A respeito do que Mei falou, vai ser explicado mais pra frente, claro.

Gabi Minamino escreveu:
Bom, dúvidas, suposições e questionamentos não faltam, mas somente com os próximos capítulos é que poderei avançar nos mesmos -- ou então, quem sabe, tirar a dúvida com a própria leitura me informando (mas tenho a impressão que isso vai demoraaar u.u')

Portanto, trate de continuar escrevendo, Cla!! Tô adorando, e ver a fic reescrita apenas me faz adorar mais ainda! ^^ Continue continue, quero ler! Tá mais que excelente! *-*

Não me deixe muito mais tempo curiosa, continueee ^^ E mostre mais do Lisiandro, ele é tãoooo legalll *-*

Ps: cadê o Albeeert? T.T hahahaha XDD


Lisiandro é um daqueles que tira com a cara dos outros por trás. Albert vai pela frente mesmo, é mais descarado (nesse ponto, Lisiandro é mais normal). E teremos Albert já no próximo ato, assim como alguns personagens que ainda não tinham aparecido!

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MensagemEnviada: Seg Jan 07, 2008 4:46 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Olá, Cla!
Eu li o seu fic...
Segundo as suas especificações determinas nesta citação:

Cla Minamino escreveu:
off: quando vais dar um olá em Kami-sama? XD Não, eu não estou te exigindo nada não... u3u não muito...


Tantas lágrimas, este olhar pidão, esta caracterista feminina... Rolling Eyes
Acabei lendo.
Primeira impressão, é um texto metafísico, porém não místico.
Segunda impressão, é bom, mas eu tive dificuldade de compreensão.
Terceira impressão, a política & mistério, combinação perfeita.
Vamos as explicações:
Por que metafísico e não místico?
Quando você trata do tema da "vida após a morte", naturamente, nos leva ao misticismo, à filosofia e à religião. Entretanto, no seu texto a explicação que a "alma é mortal" já elimina, de uma forma brilhante, o misticismo e a religião. Obrigando a ver a história numa ótica filosófica. Enveredando no estranho mundo da Metafísica. Sobre a existência do Ser e suas derivações não-materiais.
Certamente, alguns religiosos dirão: "Como a alma pode morrer?"
Na Metafísica explica que: Não se trata de uma "alma", mas um corpo translúcido numa dimensão além da matéria. Na sua história explica esta observação.

Cla Minamino escreveu:
- “Olímpia fica numa dimensão alternativa à Terra, de onde todos viemos. Para se atravessar uma dimensão, é necessária muita experiência a uma alma. De fato, não posso lhes dizer como eu próprio vim parar aqui, tendo sido o primeiro.” – e faz uma pausa, olhando nos olhos de cada um de seus doze reis – “Mas cheguei. Provavelmente, como não tenho lembranças de minha vida na Terra, eu devo ter sido um agregado de várias almas animais que se formou de algum desastre.”
Outra pausa. Todos já haviam escutado esta história, mas nunca proferida do próprio sábio. Mesmo Lisiandro escutava a tudo com uma devoção nunca antes vista por seus companheiros reis mais experientes.
- “A sucessão de acontecimentos deve ser mais ou menos lógica: nesta dimensão alternativa, minhas lembranças devem ter formado com o volume espiritual que eu tinha um planeta mais ou menos semelhante ao de origem. Assim nasce Olímpia,” – ele fala, dando uma pausa – “e a vida humana como a conhecemos.”
(...)
- “O que importa é que, ultimamente, a Terra tem mandado cada vez mais almas capazes de cruzar dimensões. E, mesmo que o planeta envie almas de volta, não estamos conseguindo suprir a demanda de espaço aqui, o que nos levaria a ter que matar almas...” – e todos o miram assustados – “...o que nós obviamente nunca iremos fazer.”


A "morte", referida aqui, se propõe há uma "mudança de estado" de uma estrutura não-material, similar a matéria. Onde a consciência se torna fonte de animação de novo estado existencial. Nesta ótica, a Morte não é o fim, mas uma incógnita. O medo do desconhecido que impele os habitantes de Olímpia em seguir as suas normas éticas.
Fato que observamos mais tarde, não é respeitado.

Cla Minamino escreveu:
- “VOCÊ?!” – Leon exclamou, verdadeiramente surpreso – “O que você faz aqui!?”
Mas nenhuma resposta é ouvida. Alguns segundos depois, Leon vê algo em seu chão que quase faz com que ele perca a consciência.
Sangue.
É fato conhecido em Olímpia que reis não se ferem com facilidade. E, quando o fazem, nunca sangram a não ser quando estão com graves ferimentos ou...
- “...morrendo... eu estou mor... ren... do...” – a voz de Leon vai enfraquecendo rapidamente, como prova da misteriosa força de seu nêmesis.
- “Sinto muito senhor Leon.” – a figura sombreada lhe responde antes de dar as costas para se retirar – “Mas era necessário.”
Silêncio. Leon teve a confirmação de seu óbito quando viu luzes verdes saindo de seu corpo subirem aos céus de Olímpia, voltando para casa. Voltando para a Terra.


O Crime e seus antagonistas...

Agora sobre a segunda impressão, a difícil compreesão não é culpa sua, mas pelo próprio texto que tras algo filosófico. E nós sabemos que Filosofia não é fácil de se entender. Ainda mais conceitos novos. O texto é ótimo, mas para a maioria dos leitores não posso dizer o mesmo. Lógico que você pode discordar, não a culpo. É a minha opinião nada mais. Além do mais, posso estar errado... Rolling Eyes

Sobre a última impressão, muito criativa a sua idéia de estabelecer o conceito dos Zodíaco para uma organização política. Um sábio dividindo com doze "famílias" com caracteristas das personalidades dos mesmos o poder administrativo de Olímpia. Realmente força um equilíbrio entre eles.

No final, posso dizer que muito gostei da história. Só não me peça fazer isto mais vezes, pois não tenho um computador disponível para escrever tudo que penso e ainda criar os meus próprios textos. O tempo urge... ( Risos )
Obrigado e parabéns, Cla! Pelo excelente texto e narrativa. Afinal, sou um leitor que fica "mastigando" todo tipo de informação que tenho nas mãos.
Valeu! ^^b
Até! Cool

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Nada mais desesperador do que a Verdade. ^_^
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Cla Minamino
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MensagemEnviada: Seg Jan 07, 2008 8:03 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Dois de meus ficwriters mais admirados postando aqui? Posso morrer em paz agora... (Olímpia, aí vou eu)
Abraxas, você me emocionou muito com o seu comentário. O fato de alguém ter lido isto de verdade é muito bom, mas de que a pessoa fez um esforço para entender é melhor ainda. Muito obrigada mesmo.
E agora, o segundo ato. Todos vão ser meio grandinhos, então estava pensando se não é melhor publicá-los em partes... Hum, vou pensar.

--xx--

Kami-sama no Kiseki


Fase 1: Owari no Hajimari ~ The Life After Death
Ato II – When Alive

Por muito tempo, o Reino de Áries viu-se desorientado sem a presença de seu rei. Os habitantes, discípulos e mesmo os príncipes e princesas não conseguiram recuperar-se cedo do choque provocado pela perca de Leon. Os poucos que ainda tentavam cuidar dos afazeres do Aries Castello não sabiam se deveriam pedir a ajuda de Ania, a mais antiga princesa real do reino, pois a mesma definitivamente havia sido quem mais ficara arrasada pela perca de seu rei e irmão.
Exceto por uma garota.
Ayumi Suzuhara estava sentada numa pequena parte de um campo na qual floresciam rosas amarelas. Passou por sua cabeça a lembrança de ela um dia ter dito que não gostava de rosas, pois elas eram exageradas e cafonas. Estranhamente, seu cheiro nauseante já não lhe perturbava mais. Na verdade, poucas coisas realmente lhe fizeram sentir algo neste último mês.

- “Ayumi.” – uma voz calma se manifestou subitamente. Antigamente isso a teria feito levar um susto e sair correndo chutar a bunda de quem a assustara, mas agora já não surtia efeito nenhum.
Ela não sentia nada. De novo.

- “Ayumi.” – o dono da voz insistiu – “Reino errado.”

Resolveu olhar para quem a chamava. Quando seus olhos vermelhos fitaram os azuis de seu emissor, ela finalmente lembrou-se de que o pequeno anexo de rosas amarelas situava-se um pouco além do Reino de Áries. Mais exatamente, no reino ao lado, Touro.
Não manifestou surpresa. Daniel havia feito de rotina levá-la novamente ao Aries Castello à noite, quando ela já tivesse observado bastante o terreno ao ponto de ser capaz de descrever o movimento de cada rosa do lugar. Isso por que ela dizia odiar rosas.

- ‘Pensando bem, acho que estou começando a gostar delas...’ – ela pensou – ‘...mesmo que elas não falem nada. Assim é melhor.’
- “Ayumi, não vou perder minha voz aqui.” – Daniel finalmente declarou – “Vá logo para seu Castello, ou vai estar frio demais quando você se aproximar de lá.”

O sol já estava começando a se pôr, o que infelizmente significava que o príncipe de Touro estava certo mais uma vez. Áries era um reino naturalmente frio, mas à noite chegava a ser insuportável mesmo para os ursos polares como Ayumi. Finalmente ela fez sinal de que ia falar, dez minutos após o início do monólogo de Daniel.

- “Acho que você deveria ir pra casa, Daniel.” – e ela acrescentou depois, amargamente – “Vá proteger seu rei enquanto você ainda pode.”

ISSO era completamente não-Ayumi. E Daniel sentiu vontade de gritar isso, como havia feito no dia passado. Mas, exatamente por ter visto que o incidente não havia sido realmente de alguma valia para ambos, ficou calado dessa vez. Por enquanto.

- “Não vou deixá-la assim no estado em que você está. Se a senhora Ania encontrá-la desse jeito, vai morrer de infarto. Pessoalmente, até mesmo eu estou me controlando para não sair daqui, chorando de medo.”

Normalmente Daniel era calmo e educado com qualquer um, até mesmo Ayumi – quem fazia um bando de brutamontes parecerem mocinhas colegiais. Mas agora ele não estava normal: estava com raiva de Ayumi, e da sua estranha dependência de Leon. Conhecera o senhor Leon, até por mais tempo que Ayumi, e realmente o respeitara no mesmo nível que respeitava seu rei.
Por isso, o inglês sentiu-se mal quando se pegou pensando em como matar o senhor Leon novamente por ter feito aquilo com sua amiga. Não era culpa dele afinal se Ayumi resolvera dar uma de idiota.

- “Daniel, pare.” – a menina pediu, olhando finalmente para ele sem desviar o olhar – “Está ficando ridículo você se preocupar tanto com alguém que nem é do seu reino.”

O inglês não conseguiu imaginar nenhuma resposta. De fato, sua raiva de Ayumi não tinha nenhuma explicação; era completamente normal ela sofrer pela morte de seu amado rei. Era completamente aceitável que ela se sentisse desorientada com a falta daquele que a guiara desde sua chegada a Olímpia.
O que não era normal era esta reação melodramática do príncipe taurino. Isso sim, era inadmissível. E Daniel sabia disso.

- “Você está certa Ayumi.” – ele falou, forçando-se a se acalmar pela primeira vez em vários dias – “Agora se levante, vamos voltar para Áries.”




- “Pode deixar as pastas aí, senhorita Georgiana. Sim, aí mesmo, obrigado. Agradeça a senhora Eleanor por mim, ela me poupou muito trabalho, de verdade. Não, não quero um chá não, obrigado. Ah, a senhorita Ana Manuela fez? Não, pode deixar aí. Aí mesmo. Obrigado senhorita Georgiana, pode voltar para o Virgo Castello agora.”

A jovem princesa de Virgem se retirou, após Jomo ter certificado que ela não queria mais alguma coisa. A voz do relativamente novo rei olimpiano era mais reforçadora do que autoritária, então não ficou aparente que ele já estava cansado da menina zanzando por ali. De fato, por sua calma, paciência e bondade naturais, Jomo poderia considerar a si mesmo como o mais apto de todos os reis a cumprir suas obrigações reais.
Jomo Habib bem que queria acreditar nisso.
Sabia que os outros reis olimpianos desconfiavam que ele houvesse matado a senhora Chigusa. E, para piorar, mesmo ele estando horrorizado com a hipótese ter sequer sido levantada, ele precisava admitir que fazia sentido: Se ele matasse a rainha de Leão, adquiriria os poderes que antes eram dela – sendo ela uma rainha, isso não equivalia a nenhuma mixaria.
Não era ajuda também o fato de ele ter passado tranquilamente pela Seleção Real: a partir do dia em que Jomo se sagrara rei, ele fora também alvo de críticas ferinas de outros reis mais conservadores, como Oswald e Althero. E alguns meses depois, ambos os reis tiveram trágicos destinos.

- “Muito bem.” – Jomo falou, mais para as flores colocadas em um vaso na lateral do que para si mesmo – “Algumas vezes o Destino é um puto.”

E, infelizmente, era mesmo. Foi tarde demais quando Jomo notou que era vítima da Lei de Murphy, pois a pessoa que ele menos queria que ouvisse sua silenciosa declaração já se postava à porta, um sorriso no rosto. Um sorriso realmente sacana no rosto.

- “Minha mamãezinha que estais na Terra, Jomozinhoo chamou um palavrão!!?”
- ‘Pensando melhor,’ – o Rei de Leão pensou – ‘Murphy também foi um grande filho da puta.’

Jomo se levantou para ir pegar um chá que havia deixado esquentando. Não que quisesse realmente receber o atual Rei de Libra em seu Castello quando ainda tinha trabalho a concluir, mas, ele percebia, não era como se ele tivesse alguma escolha. Albert iria infernizá-lo de qualquer jeito, com ou sem chá. A melhor coisa se fazer era tornar a situação em algo diferente da tortura diária que realmente era.
Apesar de que, verdade seja dita, Jomo não se importava muito com as visitas de Albert. Seu amigo era um dos poucos reis que ainda confiava nele, ao lado de Essiralc, a nova Rainha de Escorpião.

- “O que o traz aqui Albert,” – ele começou a conversa, antes que o Rei de Libra fugisse do assunto e acabasse se esquecendo do que ia falar – “além de fugir do seu trabalho e filar chá de graça?”
- “Senti vontade de te ver não é desculpa?” – Albert perguntou, num falso tom de ofensa.
- “É uma desculpa sim, mesmo que ruim o bastante para perder das que meus príncipes dão quando não querem limpar o Reino.” – e voltou a questionar enquanto punha chá nas xícaras – “O que você veio fazer aqui, Albert?”

O libriano não parecia ter pressa de resolver seus afazeres, pois simplesmente ajeitou seus cabelos loiros e lisos com a mão, consciente de que assim também estava assanhando os fios da frente. Olhando para Jomo, respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo:

- “Óbvio que vim falar da Seleção Real. Aliás, quer mais chá, Jomo?”

O Rei de Leão estava meio atordoado. O que havia sobre a Seleção que já não fora discutido nos Templos Centrais? Um pouco confuso, mas ainda mantendo sua postura calma – ou fria, como dizia Albert – ele optou pela resposta mais neutra.

- “Quero sim. E quem fez o chá foi a senhorita Ana Manuela, Albert. Não ofereça o que nem é seu.”




Ayumi descansava um pouco em algum sofá aleatório situado em algum ponto qualquer no Aries Castello. Daniel havia trazido-a para lá afinal, após suas estranhas ações. Ele fingiu estar mais calmo depois de uma pequena discussão entre os dois, mas, mesmo sendo completamente desprovida de sensibilidade, Ayumi podia dizer que ele continuava chateado com alguma coisa.
Merda. Não bastasse os príncipes, servos e afins de Áries estarem a chamando toda hora para perguntar algo relacionado a Leon ou a algum treinamento, Daniel tinha que ter uma crise de TPM justo nessa hora. Além do mais, ela se vira anormalmente solitária sem a presença constante do príncipe real taurino ou de Ania, que não sorria desde a morte do senhor Leon.
Desse jeito ficava parecendo que ela precisava de ajuda.

- “Talvez eu precise é de um psiquiatra.” – ela resmungou para si mesma, inconscientemente – “Em que universo paralelo Daniel seria de alguma ajuda? Não em Olímpia, com certeza.”

Com um esforço físico que deveria ser mínimo, mas havia parecido para Ayumi como o esforço de correr todos os doze reinos de Olímpia mais Pantalassa[1] em algumas horas, a japonesa se levantou do sofá. Olhando em volta – agora sua visão já estava menos embaçada – ela notou que este era o quarto de Ania. O porquê de ela estar ali era um mistério, mas ao menos já não se sentia uma Alice encurralada.

- “Ah, você acordou.” – a voz que vinha detrás dela era fúnebre e cansada.

Ayumi nem precisou olhar para trás para confirmar quem era. Conhecia bem demais aquela voz, após quase um século de vida em Olímpia.

- “Ania?” – mas não olhou para trás – “Há quanto tempo eu...”
- “O senhor Daniel lhe trouxe há umas cinco horas.” – Ania respondeu rapidamente – “Você dormiu o tempo todo desde que chegou.”
- “EEEH!? Tudo isso!?” – ela estava espantada. Parecia ter se passado no máximo uma hora.

Olhou para Ania. Ela ainda parecia muito cansada.

- ‘Mas,’ – Ayumi pensou – ‘ao menos ela está falando algo.’
- “Ayumi...” – e Ania se aproximou da Princesa Real ariana – “Por favor... Volte a sorrir. Leon não queria ver você assim, acredite.”

De repente, tudo o que estava dentro dela acumulado parecia querer sair. Só então Ayumi percebera o quanto estava prendendo seus sentimentos desde a morte de Leon, pois sua primeira reação fora certamente calma. Ela abaixou a cabeça como quem ia chorar, exasperando Ania, que não sabia como consolá-la.

A primeira reação, então, fora a calmaria. A segunda, infelizmente, a tempestade.

- “E COMO É QUE EU VOU SABER O QUE AQUELE CARA QUERIA?!” – foi a súbita resposta de Ayumi – “ELE MORREU, NOS DEIXOU! PROVAVELMENTE O VAGABUNDO ESTÁ NA TERRA, FELIZ DA VIDA!”

Ania pulou para trás, completamente espantada, como se Mei houvesse aparecido junto de Albert dançando um réquiem da amizade. Do estado emo-depressivo que a japonesa estava para ir subitamente ao franco-atirador de agora, não havia se passado nem mesmo dez segundos.
A velha Ayumi estava de volta.

- “POIS QUE ELE FIQUE SABENDO,” – ela continuava a gritar – “QUE EU NÃO VOU MAIS FICAR SOFRENDO POR AÍ!! ELE QUE ENCHA A CARA O QUANTO QUISER, VOU SUPERAR AQUELE VAGABUNDO! ISSO AÍ E...” – e, de repente, ela se lembrou de olhar para Ania – “E DO QUE VOCÊ ESTÁ RINDO!?”

Ania se pegou rindo – não, gargalhando – como não fazia há séculos.




- “Espere um pouco, Albert. Você está me dizendo que... não é possível.”
- “Claro que é! Você lembra que você passou na Seleção sem problemas, né?” – Albert lhe olhou com uma cara séria que ele nunca ostentava com ninguém além de Jomo e Essiralc.
- “Mas se a senhora Chigusa soubesse que ia morrer, ela teria me dito!” – ele já estava ficando irritado, outra anormalidade no comportamento dos reis naquele momento – “Ela não me deixaria ignorante em relação a um assunto tão importante como esse!”

Apesar de estar realmente lívido, Jomo procurou se acalmar. Albert com certeza tinha razões para lhe dizer aquilo, por mais improvável que fosse. Os Reis de Libra não eram chamados de ‘Sábios’ à toa. Librianos eram treinados para terem calma em toda e qualquer situação, apesar de sua personalidade deturpada.
Ou pelo menos, esse era o caso de Albert Goodwaves. E ele era o atual rei.
Albert o olhou seriamente, depois abaixou os olhos azuis e concentrou-se em terminar o que restava do chá de Ana Manuela. Se ele estava sério, então queria dizer que não era mais uma das incontáveis peças que Albert vinha lhe pregando desde que o libriano havia chegado a Olímpia. Decidiu prosseguir a conversa.

- “Mesmo se sua teoria estiver correta,” – Jomo não precisou ver o rosto de Albert para perceber que este deveria estar dando um sorriso vitorioso – “onde está o problema? Há algo a ver com o fato de eu ter passado pela Seleção sem complicações?”
- “A-hã, grande Jomo!” – e ele deu um sorriso idiota de ‘esse é o meu garoto’; Jomo considerou mais uma vez se não era melhor o mandar embora logo – “Na verdade, tem tuuudo a ver!”

Resignado, Jomo decidiu ouvir o que Albert tinha pra falar antes de enxotá-lo porta afora com uma vassoura que se postava defronte a porta (exatamente para estes casos). Ele tinha paciência.

- “Jomo,” – o libriano começou, mais seriamente agora – “a senhora Chigusa não lhe chamou para ter nenhuma conversa antes... daquele dia?”
- “Conversa?” – já fazia três anos desde a súbita morte de sua rainha. Porém, em Olímpia, poderia se considerar que fazia apenas três anos que Chigusa havia morrido – “A senhora Chigusa sempre conversava sobre tudo comigo. Mas não lembro de nada muito especial antes da morte dela, exceto que ela parecia querer me evitar mais que o normal.”
- “Hmm... entendo...” – foi a resposta lacônica de Albert.

Passaram-se cerca de dez minutos até que a paciência de Jomo se esgotasse. Em toda a Olímpia, somente Albert era capaz de tal façanha...

- “Mas diga, Albert, você acha que há chances de a senhora Chigusa ter transferido a energia dela para mim, de verdade?” – Jomo parecia incrédulo – “Nunca nos foi informado que isto era de fato possível, afinal, a energia protônica[2] é o que compõe...”
- “... a nossa alma. Eu sei, meu caro Jomo.” – e Albert se inclinou um pouco mais para perto dele, como se temendo que as paredes tivessem ouvidos – “Mas você não acha que nós temos quantidade o suficiente de prótons compactados agora? Quantidade o bastante para transferirmos a carga para alguém e continuarmos vivendo, como se nada tivesse acontecido.”

O atual Rei de Leão mirou com atenção seu colega: de fato, a teoria de Albert fazia sentido. Mas, ao mesmo tempo, não explicava nada do por que a senhora Chigusa teria fornecido sua energia para um príncipe.

- “E porque ela faria isso?” – a pergunta foi seguida de suspense.
- “Obviamente...” – Albert ensaiou uma resposta, antes de cair no sofá do leonino com um sorriso idiota – “Eu não sei. Há, confesse, você ficou realmente perturbado! Queria que alguém inventasse uma máquina de tirar retratos aqui em Olímpia, só para gravar o momento em que o todo-poderoso-e-sisudão-mór Jomo ficou assustado!”

Jomo, que já não sabia mais o que era paciência, pegou-se pensando momentaneamente em outras utilidades que a vassoura poderia ter para atacar Albert. Optou por manter – com custo – o rosto neutro.

- “Se não sabe, não fique criando teorias de conspirações por aí. Você já não é muito bem vindo pelos outros reis por causa da morte estranha de Oswald. Não ajuda muito se você me parece incapaz de manter a compostura nas ocasiões mais sérias e...”
- “Cortando o blábláblá,” – Albert cortou Jomo, que estava começando a se empenhar em criticar sua postura inconveniente perante... todo mundo. Infelizmente para o Rei de Libra, o leonino sabia fazer isso muito bem – “estou aqui com a lista de Príncipes Reais de Áries. Essa papelada sempre vai parar em Libra.” – ele completou, com uma cara forçada de tédio.

Jomo sabia que o libriano adorava o fato de todos os papéis e anotações da Terra ou de Olímpia sempre terem uma cópia na Grande Biblioteca de Libra. Se havia algo que Albert gostava, era de sempre estar informado sobre algo.

- “É?” – Jomo pareceu interessado. Os discípulos de Áries normalmente geravam reis impulsivos, segundo a senhora Chigusa, mas Leon era distante de toda a imagem que um ariano tinha. O leonino queria saber se seus sucessores seriam assim também.
Aparentemente, Albert também estava pensando a mesma coisa.

- “Ainda não li as fichas deles, a maioria é beeem nova.” – ele falou, folheando as fichas – “Leon surpreendeu todo mundo quando virou um Shield[3]. Talvez esses discípulos sejam mais defensivos.”
- “Heru Sierra, espanhol, morto em 1685.” – Jomo lia o primeiro – “Aqui diz que ele se destaca mais com espada. Habilidade em defesa... quase nula. Nenhuma mira. Gênio forte.” – e olhou confuso para Albert – “Certeza de que foi treinado pelo senhor Leon?”
- “Bem, ele é um pouco mais velho que Leon, nem foi príncipe dele mesmo. O mestre de Leon era mais ofensiva, lembra?”

Jomo lembrava muito bem. Albert nem havia vivido esta época, mas já lera muitos arquivos, então provavelmente sabia tanto quanto o leonino.

- “Ronald Spencer, inglês, morto em 1856.” – Albert continuou – “Melhor na espada também. Na verdade, a observação diz ‘menos pior’. Vamos pular esse.”
- “Ania Cambriage... é a irmã dele. Australiana, morreu em 1770, como ele.” – Jomo olhou de relance para ela, enquanto Albert olhou uma observação na ficha
– “Mas ela não vai ser Rainha. Não ela.” – e pularam para a próxima.
- “Ayumi Suzuhara, japonesa, morreu em 1945.” – Jomo prosseguiu – “Oh, é Ayumi. Não vou nem ler a ficha, ela é totalmente o avesso do senhor Leon.”

Albert porém, olhou com mais atenção a ficha de Ayumi. Logo Jomo entendeu o porquê.




- “‘Filha’? O que quis dizer com isso, senhora Chigusa?”

A Rainha olhou seu príncipe nos olhos, e depois deu uma pequena risadinha. Estava de bom humor hoje, Jomo constatou.

- “Siim, filha. Leon trata aquela bonequinha japonesa como se fosse uma filha.”
- “Mas, senhora Chigusa... Isso não ético para com os outros príncipes. O melhor é não haver diferença de tratamento, não é?”

A Rainha de Leão olhou a enorme figura de seu discípulo, para depois virar as costas e dizer, num tom de finalização:

- “Na verdade Jomo,” – e concluiu ao fechar a porta – “são poucos os que conseguem ser imparciais.”





Daniel encarou com pura incredulidade a cena que presenciou no dia seguinte: Ayumi estava no campo de rosas amarelas novamente. Mas, desta vez, com um pequeno diferencial...

- “Mais uma! Toma essa!”

Ela estava cortando com uma espada os roseirais que haviam começado a crescer no mês em que ela estava deprimida.

- “E lá vou eu de novo! Toma! E... Hei, Daniel, vem me ajudar a capinar!”

Por alguns instantes, o inglês podia jurar que havia deslocado o queixo, pois este havia caído alguns vários centímetros. Juntando o que restava de compostura, ele correu atrás da japonesa, desajeitado.

- “MALDIÇÃO AYUMI! ESSAS ROSAS HAVIAM ACABADO DE CRESCER!”
- “Eu sei!” – ela gritou, correndo sem muita dificuldade de Daniel – “Melhor cortar o mal pela raiz! Rosas me dão náuseas!”
- “NÃO É O QUE PARECE QUANDO A SENHORITA ANA MANUELA VEM TE TRAZÊ-LAS TODO MÊS!” – ele precisou gritar mais alto, visto que a distância entre os dois estava aumentando cada vez mais – “ALIÁS, É VOCÊ QUEM SEMPRE ME EMPURRA ESSAS PLANTAS!”
- “Não consigo dizer ‘não’! Ela tem cara de quem sairia chorando se eu negasse!” – e resolveu parar de correr, para que Daniel a escutasse melhor – “Além do mais ela nem pergunta, já vai enfiando as plantas na cara e...”
- “Nossa, que grosseiro.”

Ayumi ficou paralisada. Essa voz feminina e com um estranho sotaque de português não pertencia a Daniel. Olhando discretamente para trás, viu o rosto de uma familiar Princesa Real de Virgem sorrir para ela. A japonesa tentou forçar um sorriso, mas sua boca não mexia. Atrás de Ana Manuela, Daniel ria silenciosamente da desgraça de Ayumi, o que a japonesa jurou que iria retribuir com juros mais tarde em forma de porrada.

- “Quer dizer, quem faz esse tipo de grosseria, senhorita Ayumi? Posso lhe certificar que não é do Virgo Castello. Nós temos uma educação decente lá. Mas eu entenderia perfeitamente se fosse alguém do Leo Castello ou do Libra Castello por que...” – enquanto a virginiana prosseguia seu monólogo, seus ouvintes constataram que sua voz não carregava um único pingo de ironia.

Ayumi estava salva. A Princesa Real havia aparentemente acabado de chegar.

- “Na verdade, senhorita Ana Manuela,” – Daniel resolveu intervir a favor de Ayumi, para tentar se safar de uma futura surra. E também por que a japonesa não sabia pensar sob pressão, já que ela raramente estava disposta a pensar, em primeiro lugar – “já tivemos uma conversa séria com a jovem e ela prometeu que não faria mais isso. Não é Ayumi?” – e ele sorriu, intimidador.
- “Ah, sim, sim.” – ela assentiu, apenas concordando.

Talvez considerasse diminuir o castigo de Daniel. Mas só talvez,

- “Bem...” – a jovem abaixou seus olhos verdes para as plantas do lugar, aparentemente já concentrada em alguma outra coisa – “Se o caso já está resolvido, então não há problemas. Aliás, senhorita Ayumi,” – ela falou, abrindo um sorriso horrorosamente familiar para a japonesa – “deixei seu habitual ramalhete de rosas com a senhora Ania, tudo bem? Boa tarde.”

Dizendo isso, Ana Manuela correu de volta para o Virgo Castelo, deixando para trás um Daniel à beira de um ataque de risos e uma Ayumi à beira de outro ataque... de raiva.

- “AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!”




- “Está falando sério, Heru?” – Ania olhou assustada para o Príncipe Real com o qual ela havia convivido por mais tempo.
- “Sim, senhora Ania. Amanhã de manhã, eu vou prestar Seleção Real. Já convoquei os Reis, só vim lhe avisar para que o meu pedido seja ratificado.” – a tez do rapaz se encontrava relaxada, mas Ania sabia que Heru estava extremamente nervoso.

Inadequado para uma Seleção Real. Muitos arianos já haviam prestado o terrível teste na época em que Leon se sagrara Rei, e vários, quando não morriam, voltavam às portas da insanidade.

- “Não é meu lugar discutir isto com você,” – e levantou seus olhos castanho-escuro para os cor de mel do espanhol – “mas você está mesmo pronto?”
- “Sim senhora.” – ele respondeu, meio hesitante.

Não estava.

- “Isso é tudo. Pode se retirar.”

Exatamente quando a porta se fechou, o que indicava que Heru Sierra já não iria mais parar, Ayumi entrou.

- “Espero que tenha queimado as malditas rosas. Não quero ter enjôos à noite.” – ela já vinha mandando, sem parar para dizer uma única saudação ou cumprimento, exatamente como...
- “Ayumi.” – Ania começou, num tom sério ao ponto de fazer a japonesa se calar – “Você estaria pronta para fazer a Seleção Real?”

Os olhos anormalmente vermelhos de Ayumi olharam Ania como se ela tivesse acabado de dizer que iria trocar de sexo.

- “Que pergunta mais idiota, Ania.” – e olhou para ela novamente – “É claro que sim.”

{ Continua... }


[1] Fictício. Pantalassa é o oceano único que rodeia o Supercontinente de Olímpia, Gaya, onde estão os Doze Reinos mais o Templo Central de Mei. Também é o nome do primeiro oceano da Terra, quando ainda havia Pangéia.
[2] Energia Protônica é uma das quatro formas de energia da Física, e consiste na retirada de elétrons do núcleo para o exterior.
[3] Expressão fictícia. Shield quer dizer, literalmente, Escudo.

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MensagemEnviada: Qua Jan 09, 2008 7:48 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Aee Cla, so pra dizer que assim que der vou ler seu conto. Sei que vc escreve muito bem, então vou finalmente criar vergonha e ler. T+++ Cool

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MensagemEnviada: Qua Jan 16, 2008 4:11 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Ola, Cla ^^

Hum seu conto é muito bonito e cheio de fantasia!!! Eu gosto muito desse tipo de história! Notei sobre os reinados de sígnos! Sua idéia é brilhante!!!!
Quanto aos personagens: Ayumi é bem legal!!! Sua conversa com o principe de touro foi muito interessante... Parabéns e continue logo!!!

Abraço!

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MensagemEnviada: Sáb Fev 02, 2008 8:03 pm Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Muito tempo passado desde o segundo ato. Bem, sei que devo desculpas a quem quer que leia isso, mas viajei duas vezes durante esse período (senão já estava no ato 5). Prefiro não me prolongar muito e postar logo todo o terceiro ato de uma vez só. (essa página vai ficar lenta)

---x-x---

Kami-sama no Kiseki


Fase 1: Owari no Hajimari ~ The Life After Death
Ato III – The Royal Election

Essiralc caminhava silenciosamente por entre os mais restritos corredores do Scorpio Castello, os quais ela conhecia muito bem. Quase dois milênios de idas e vindas por este mesmo caminho teriam de servir para alguma coisa, e, no caso de Essiralc Thea Philopator, foram o bastante para que ela pudesse andar sem problemas pela total escuridão na qual ela se encontrava sem sequer encostar em nada. O que era muito bom, visto que o que ela menos precisava agora era fazer algum barulho.

- ‘Só mais um pouquinho...’ – ela pensava, já próxima de seu aposento real – ’33 metros... 32 metros...’
- “Senhora Essiralc?”
- “AAH!”

Após o susto que tomara, olhou para trás em pânico. Mesmo sabendo que a fuga não era realmente uma opção, ela havia alimentado uma pequena faísca de esperança de que seu mais rigoroso príncipe real, Carlos Fianuretti, não estivesse a esperando quando ela chegasse.

- ‘Os tolos sempre sonham alto...’ – foi seu último pensamente antes de ela recuperar sua orgulhosa compostura. Graças a deus estava escuro e Carlos não a vira se assustar: isso seria demais para o orgulho de Essiralc.
- “Senhora Essiralc, a senhora está aí, não é?”

A Rainha se resignou a suspirar antes de responder. Era muito óbvio que ele já havia a reconhecido: não muitas pessoas tinham o direito de caminhar pelos corredores do sétimo andar do Scorpio Castello, e ninguém nesse seleto grupo disputava com a rainha em termos de presença.

- “Estou, garoto.” – e ela pôde sentir a testa franzida de Carlos, que odiava ser chamado assim por ela – “O que lhe traz aqui a essas horas da madrugada, poderia eu saber?”

Ela tinha perfeito conhecimento de que também deveria ser improvável o fato de a própria ainda estar acordada a tais horas, mas sabia que Carlos não poderia retrucar-lhe isso: ele não tinha autoridade para tal. Mesmo um príncipe real não poderia questionar sua rainha, por mais impertinente que ele fosse.

- “Vim ver se estava tudo em ordem com a senhora, minha rainha...” – ele falou, num tom de finalização. Mas antes que Essiralc abrisse a boca para dispensá-lo, concluiu a frase – “...pois notei que a senhora se encontrava ausente no horário em que normalmente dorme. Aonde a senhora poderia ter ido tão tarde?” – e acrescentou, num tom de sarcasmo – “Libra?”

Ouviu-se o som de algo espancando algum objeto sólido, que Carlos reconheceu levemente como o barulho de um punho socando uma parede. No segundo seguinte, a voz de Essiralc indicava que isto seria o que ia acontecer com ele caso não se calasse.

- “Isso. Não. É. Da. Sua. Conta.” – e ela dirigiu os olhos verde esmeralda, visíveis até no breu que estava aquele corredor para o agora assustado homem de branco – “Pode se retirar agora, Carlos.”
- “Sim, minha senhora. A senhora precisa de...” – mas foi interrompido.
- “AGORA!”

Até mesmo o normalmente impassível Carlos estremecera ao ouvir o tom mortífero de sua rainha. Sem pensar duas vezes, ele deu as costas para Essiralc e começou a caminhar rapidamente para o seu quarto, o último daquele longo corredor. Dando as costas também, Essiralc retomou seu já interrompido caminho em direção a seu aposento, sem a preocupação anterior de não fazer barulho com seus sapatos.
Seu dia já havia sido estragado.




Ania terminou de preencher a papelada que lhe fora entregue por um servo ariano. Infelizmente ela só conseguira obter a autorização de todos os reis para uma Seleção Real a estas horas da madrugada, mas era o mínimo que ela podia fazer por Leon, Ayumi e, principalmente, Heru. Após terminar de escrever o nome da candidata – Suzuhara era com ‘z’, certo? – ela abaixou os papéis e se levantou para uma tarefa ainda mais árdua.
Acordar a tal candidata.

- “Ayumi?” – e ela sacudia bem levemente a princesa com os dedos. A japonesa sabia ser bem violenta se acordada de mal jeito, isso ela aprendera.
- “Mmhphm...” – foi a mal-humorada resposta – “Nanda yo? (O que é?)”
- ‘Iih, está falando em japonês... ainda está sonolenta’ “Ayumi, você tem que acordar agora.” – ela falou, tentando o máximo não ser alvo de mais uma explosão de cólera. Não era nada fácil desviar dos chutes certeiros da menina.
- “Ahn... Ah, Ania.” – finalmente, ela abrira seus olhos vermelhos.

E de repente, toda a informação daquela noite caíra para Ayumi de uma vez só.




- “Claro que sim.” – ela havia respondido.

Ania não ouviu um único pingo de dúvidas, e sabia que isso se devia a dois fatores. Ayumi não costumava pensar antes de responder a qualquer pergunta, e ela nunca se sentia despreparada para nada. Dessa vez, Ania resolveu confiar na Princesa, assim como Leon havia demonstrado confiar.

- “Então sugiro que descanse. Quando eu lhe acordar, será para realizar a Seleção Real.” – pensou em concluir aí, mas decidiu ser honesta com a menina – “Ayumi, gostaria que soubesse antes o porquê de eu ter lhe chamado justamente agora.”

A jovem, que já até havia desamarrado seus cabelos negros dos bolinhos que gostava de fazer para treinar, virou-se para Ania com um olhar indagador. Pela primeira vez em anos, ela demonstrou estar apenas ouvindo ao calar-se.

- “Heru veio ainda agora falar comigo.” – ela notou que sua ouvinte ia dizer algo como ‘Eu vi ele’, mas ficou impressionada ao constatar que Ayumi esforçou-se para ouvir apenas – “Ele já solicitou uma Seleção Real para amanhã à tarde. Sua solicitação já foi confirmada, e ele está autorizado a realizá-la.”

Ayumi não pareceu impressionada. De fato, ela suspeitava que seu colega iria fazer isso o mais rápido o possível, mesmo que não tão cedo. Mas, pelo olhar de Ania, ela sentiu que havia algo errado.

- “A questão é: ele não está pronto para isso.” – e abaixou sua voz – “Posso sentir que Heru não amadureceu o bastante para ser apto a realizar o desafio, mas, como Princesa Real e igual a ele em status, não posso fazer a nada que não assentir com tudo.”

Mais silêncio. Finalmente entendera: Ania queria salvar Heru, fazendo-a prestar a Seleção Real antes dele. Mas...

- “Isso significa que eu estou pronta?” – ela perguntava, incerta. Ania parecia ser bem mais experiente em comparação a ela, mais apta a tornar-se Rainha.
- “Isso Ayumi, eu não tenho certeza. Quando eu conduzi Leon, eu também não estava certa, mas veja que Rei formidável ele tornou-se... Realmente formidável e...”
- “Espera. Você disse que ‘conduziu’?” – ela parecia espantada. Então... – “Então você é a...”

A reação de Ania foi bater sua mão na própria testa. Francamente, só alguém que não pensasse muito para não ter percebido quem ela era.

- “Ayumi, está claro que eu sou a Guia de Áries. Mesmo Ronald já teria percebido isso, francamente.”

A Guia. Ela era aquela escolhida pelo Rei para guardar o segredo da Arena Secreta aonde era realizada a Seleção Real. Era ela quem acompanhava desde o início o desenvolvimento de cada discípulo do Reino. E ela era Ania.
Pensando bem, estava na cara mesmo.

- “M-mas...” – ela parecia ainda estar confusa. Era muita informação.
- “Então Ayumi, não pense mais.” – Ania queria que a garota descansasse – “Vou enviar as solicitações, e tenho certeza que conseguiremos a sua Seleção Real para esta noite, no máximo até a madrugada.” – e acrescentou, rindo um pouco por dentro – “Os Reis não dormem cedo mesmo...”




- “AH! A Seleção Real! E eu vou tentar agora! E você é a Guia de Áries! E nunca nos disse! E... hihihi, vou superar o Heru mais uma vez! E...” – ela declamava tudo enquanto andava pelo quarto, expressando diferentes emoções em reduzidos espaços de tempo.

Ania já estava ficando com dor de cabeça de tanto acompanhar estas estranhas multi-polaridades. De fato, era Ayumi a mais energética entre todos os príncipes e princesas reais, Leon sempre dissera isso.

- “Ayumi, poderia se acalmar?” – a Guia de Áries sabia que, por dentro, ela se divertia com estas estranhas reações – “Está marcada para as oito da manhã. Se quiser dormir um pouco mais, eu lhe acons...”
- “DORMIR!? Sabendo que vai ter algum teste me esperando daqui a pouco!?” – eram aproximadamente quatro da madrugada, o que queria dizer que havia só mais quatro horas para treinar – “Ania, me chame quando for a hora. Agora eu vou treinar.”
- “Mas Ayumi!” – não foi ouvida. A japonesa já saía a todo vapor em direção ao familiar campo de Rosas que ela dizia detestar. – “Aquele teste não é físico, menina! Você precisará é de concentração...”

O que parecia inútil de se dizer às paredes. Realmente, Ayumi nunca escutava a ninguém que não fosse Leon.

- ‘O que você diria a ela agora, meu irmão?’




- “Então Ania era a Guia de Áries?”
- “Sim, era.”
- “E você vai prestar a Seleção Real?”
- “Daqui a três horas.”
- “E, mesmo assim, você está treinando como se nada tivesse acontecido?”
- “Não era para estar?”

Silêncio. Ayumi, prevendo o pior, desiste de continuar atacando seu adversário e se prepara para fugir.

- “É CLARO QUE NÃO!” – Daniel nem a persegue. Ele parece incrédulo demais para isso – “O que aconteceu com todo aquele suspense de ‘Ah, meu deus, eu posso morrer!!!’ ou ‘Nossa, dizem que esse teste é difícil!!’?” – e Daniel fez algumas poses femininas de medo que, sem dúvida alguma, não tinham nada a ver com Ayumi – “Ao menos uma vez na vida, aja como uma menina normal de quinze anos, sim!?”

Ayumi pensou em dizer que tinha 77 anos, na verdade. Pensou em gritar para que Daniel nunca mais repetisse aquelas poses ou ela o chamaria de gay eternamente. Pensou até mesmo em recomeçar o treino mirando desta vez no aparentemente delicado rosto do jovem inglês.

- “Hei Daniel,” – ela começou, mais calma do que ele esperava. E, depois, sorriu sarcasticamente – “valeu pela preocupação. Mas eu vou voltar viva, sim.”
- “Claro que vai!” – ele respondeu, virando o rosto nervoso pela primeira vez desde que eles se conheceram. Certamente andava estranho ultimamente.

Ayumi apenas assentiu, e, naturalmente, voltou a treinar, desta vez atingindo as rosas que haviam sobrado de seu último ataque. Ao invés de censurá-la, Daniel olhou para o chão em busca de compostura, e, pegando o escudo que jazia esquecido ao seu lado, se levantou para ajudá-la a treinar.
Era o treino físico a verdadeira fonte de concentração de Ayumi. E isso apenas ele sabia.




- “Oooh, mas que surpresa!” – a brincalhona voz de Albert se fez ouvida, cortando o leve ar que permeava o interior do Libra Castello – “Olhe só quem veio pegar carona comigo!”

Essiralc parecia realmente contrariada, mas não se manifestou quanto a isso. Albert não precisava ser gênio para saber que ela havia preferido evitar o próprio Castello naquela manhã em especial. E o Rei de Libra era capaz de apostar toda a sua biblioteca que isso se devia a alguma briga entre ela e seu eterno Ovelha Negra.

- “Não se preocupe, querida. Há lugar para dois nesse barco.” – Albert falou piscando para sua bela acompanhante.

Essiralc, mais experiente em relação a Albert, observou-o, desconfiada.

- “Em troca de quê, minha doce cópia de Tom Cruise?” – o tom, não tão doce quando a voz da interlocutora, indicava que ela desejava a finalização desta conversa o quanto antes.
- “Ah, isso é o mais fácil!” – e, ao piscar novamente com seus olhos azuis, o libriano concluiu a barganha – “Um relato de aonde você estava nesta madrugada cairia como uma luva.”

Ele a tinha, sabia disso. Segurando o braço dela com uma de suas mãos, aproximou seu rosto levemente oval do redondo dela.
Apertando seus lábios vermelhos, Essiralc viu que não havia nenhuma escapatória. Séculos de convivência com o jovem libriano lhe ensinaram a apenas dizer logo o que ele queria, visto que Albert sabia exatamente como e onde conseguir qualquer informação que quisesse. Mesmo que ela voltasse para o Scorpio Castello e fizesse seu teleporte para a Seleção Real sozinha, ele, mais tarde, saberia o que havia acontecido.

- “No Templo Central.” – ela começou, e, ao observar a fria face de seu ouvinte, teve certeza de que a notícia desagradara imensamente os ouvidos de Albert. Soltando seu braço das mãos dele, forçou-se a olhar para o lado – “Satisfeito agora?”

O silêncio significativo que seguiu a pergunta da grega indicava que seu ouvinte estava tudo, menos satisfeito.

- “Aah, e você?” – apesar de Albert não ter feito nenhum ato de violência, Essiralc sentia-se intimidada apenas por seu tom levemente rancoroso – “Deve estar bastante satisfeita consigo mesma, hã?! Mas não se preocupe...” – e, sem olhar nos olhos dela novamente, ele abriu a portinhola do projétil transportador de partículas – “Eu também posso me satisfazer.”
- “Albert...” – ela começou, ciente que pisava em um teto de vidro – “O senhor Mei não demonstra desprezo por você. Talvez vocês ainda possam se entender.”

Ele continuava olhando os botões laterais do singular compartimento que destoava toda a aparentemente antiga sala do Libra Castello. Olhava para baixo, para os lados, e, finalmente, virou-se para Essiralc.

- “Vamos logo, Essiralc!” – ele se forçou a sorrir entusiasmado, convencendo qualquer um menos ela – “Você não vai acreditar em quem é que vai fazer essa Seleção Real!” – falou casualmente enquanto fechava a portinhola e conduzia ambos para um lugar qualquer dentro do Aries Castello.





Ania, segurando uma lamparina, conduzia Ayumi pelos corredores mais inóspitos do Aries Castello. E a japonesa, que sempre fora bastante metida a curiosa (chegando a comparar-se várias vezes com heroínas de filme de terror americano), viu-se pela primeira vez em um lugar no Reino de Áries que ela desconhecia completamente. Ania, por outro lado, andava rapidamente como se tivesse feito de hobby caminhar estes sombrios corredores todos os dias de manhã.
Daniel quisera vir, mas Ania informou-os de que não era possível um Príncipe Real de outro Reino conseguir entrar no Aries Castello. Além do mais, pouco antes de o treino dos dois acabar, um servo de Touro havia informado Daniel de que seu rei desejava muito falar com ele imediatamente.
Não que ele fizesse diferença, claro.

- “Quanto tempo mais, Ania?” – ela perguntou, resolvendo quebrar o estranho silêncio que se formara desde que a Princesa Real mais velha havia iniciado o trajeto. Desde então, meia hora havia se passado.
- “Estamos quase lá.” – ela falava, rapidamente se virando para continuar o caminho.

Cheio de corredores e bifurcações, aquele estranho subsolo parecia um Labirinto de Creta[1] para Ayumi, que era capaz de se perder em uma reta. Mesmo Ania, que no começo estava se guiando como se houvesse morado toda sua vida ali, concentrava-se bastante em aonde seguir.

- “Pelo visto chegamos.” – Ania falou de repente, confundindo Ayumi.
- “Chegamos aon...” – e olhou para sua frente mais cuidadosamente – “...de...?”

Da escuridão que assolava o lugar havia aparecido de forma súbita um enorme portão bordô que não aparentava ser muito resistente de primeira vista, como se houvesse sido construído com Terracota[2].
Como que prevendo a direção de seus pensamentos, Ania foi certeira ao fazer seu comentário:

- “Não tão frágil quando parece. Há uma concentração maior de elétrons na superfície desse portão.”

Mesmo Ayumi, normalmente ignorante em relação a certos aspectos químicos de sua nova vida em Olímpia, entendeu o que isso significava: como seu corpo era feito superficialmente de elétrons, o portão a repelia com maior força.

- “E essa porcaria não tem, você sabe, uma porta?” – ela falou, como se pensando seriamente em destruir o portão para passar de uma vez – “Normalmente as pessoas entram por portas, mas talvez vocês tenham outros costumes aqui. Mas, sinto muito, eu tenho um teste a fazer e...”
- “Ayumi, poderia me escutar?” – Ania falou de um jeito que deu a entender que havia tentado explicar algo muito fácil desde o início. Quando notou que a japonesa aceitara relutantemente permanecer em silêncio, prosseguiu – “Daqui eu não poderei passar, mas você sim. De fato, não há portas: você terá de passar pelo portão.” – e não pôde concluir.
- “Mas é disso que eu estava falando DESDE O INÍCIO! O negócio é derrubar esse troço mesmo!” – como se entusiasmada pela idéia de presenciar a destruição de algo, a princesa real de Áries se postou à frente do portão avermelhado, já posicionada.

Mesmo exasperada, Ania se controlou. Como uma pessoa podia ser tão preguiçosa para se considerar incapaz de parar e pensar um único momento de sua vida? Será que a menina era mesmo lenta de raciocínio ou apenas muito sonsa?

- “Ayumi...” – ela começou, hesitante – “você se lembra de alguma aula que Leon tenha lhe dado a respeito de algo chamado química? Prótons? Elétrons?”
- “Claro que sim!” – ela falou, animadamente – “Foram as que eu dormi!”

Tanto ânimo por motivos tão pouco nobres. Leon fora um homem forte, mas um professor extremamente esdrúxulo.

- “Eu não consigo dominar esta arte com precisão, a de transferir os prótons do núcleo para o exterior. Mas se você conseguir realizar isso,” – e então ela se virou ao silente expectador da conversa – “provavelmente chegará ao outro lado.”
- “Você diz, me fundir com o portão!?” – ela falou, como se a possibilidade fosse completamente absurda. E de certa forma era.
- “Sim. Como suas memórias irão continuar guardando a imagem de seu corpo, você será capaz de voltar à forma original quando tiver terminado de atravessar o portão e...”
- “Era só isso?” – ela falou, como se não acreditasse que a resposta para todo o dilema podia ser tão óbvia.
- “Perdão?” – Ania se surpreendera de verdade.
- “Ania, o que você achou que eu ia fazer?” – ela falou, virando-se para o portão automaticamente.

Estava blefando, mas sua colega preferiu omitir isto.

- “Então que não me enrolasse.” – falou, fingindo-se realmente ofendida – “Ande logo, moleca. Os Reis não vão esperar uma vida por você.”
- “Tudo bem. Adeus então, me espere com um chá. E, por tudo o que é sagrado, tire aqueças malditas flores de lá até eu voltar.”

Nenhum tom de despedida, como era natural vindo de Ayumi. Ania também não se sentiu propensa a se lembrar de que havia a probabilidade de as duas não se verem mais: tal pensamento parecia tão distante quanto a Terra agora.
E, se a australiana jurava que não havia deixado mais lágrimas após a partida de seu irmão, teve de se repreender ao perceber-se lagrimando quando viu as pequenas costas de Ayumi atravessarem o portão, deixando a normalidade para trás.




A menina continuava a desenhar a mesma cena de semanas atrás: várias crianças, todas com olhos vermelhos, brincando juntas, e, atrás da cena, um estranho buraco negro. Sua mãe havia ordenado que ela parasse de pintar coisas como essa, mas sempre que se sentava para desenhar esta imagem lhe vinha à cabeça.
Pela terceira vez naquele dia, ela amassou seu desenho e o atirou na lata de lixo. Pelo lado positivo, sua mira estava ficando cada vez melhor: desta vez a bolinha amassada caíra a meros 30cm da lata.

- “Ayumi!” – uma voz forte se fez ouvida por pelo menos metade de casa. Para a menina, que mal vira dez pessoas na vida, não havia ninguém mais marcante que sua geniosa mãe.
- “Sim, okaa-san[3]?!” – ela gritou, um pouco fraca por causa de sua gripe recém-adquirida. Já prevendo que teria de se dirigir até sua mãe, ela se levantou da mesa em que estava desenhando para ir até o quarto de sua mãe.
- “Ayumi, quantos anos você tem mesmo?” – sua mãe perguntou, como quem havia realmente esquecido o fato.

A menina acreditava que era apenas uma brincadeira: não havia como uma mãe esquecer a idade da própria filha.

- “Faço 15 anos hoje, mãe!” – ela comentou, orgulhosa, seus olhos anormalmente vermelhos brilhando.
- “Ah, sim.” – e ela se virou novamente para a TV, procurando um programa mais interessante – “Há 15 anos ele não me paga nada para justificar que você esteja aqui.”

Tentando não decepcionar sua mãe ao choramingar após tamanha frieza, Ayumi não se controlou para perguntar:

- “Ele quem, okaa-san?”
- “Como assim, ‘ele quem’?” – e ela olhou com desprezo sua filha – “Seu pai.”




Já haviam se passado alguns minutos, e Ayumi estava ainda aturdida pela lembrança. Sim, ela estava certa de que aquele estranho pensamento era na verdade alguma lembrança de sua vida terrestre, ela só não sabia o porquê de estar tendo eles enquanto atravessava o caminho de Terracota (desta vez ela estava certa de que era isso) para o Aries Arena.

- ‘Aparentemente não fui muito amada em vida.’ – ela pensou, mais para demonstrar o que já era óbvio – ‘Minha sorte...’

Afugentando pensamentos de sua cabeça – e ela era boa nisso – Ayumi voltou a correr com todas as suas forças. Na sua vida passada ela não havia tido nem liberdade nem conhecimento para fazer muitas coisas que não fossem desenhar o que lhe era permitido.
Talvez por isso ela não gostasse de desenhar. Sua vida anterior havia sido aprisionada pelos costumes, pelas normas. E ela agora podia escolher a liberdade.



Albert sorriu para Jomo quando este saiu do compartimento de teleporte do Leo Castello que havia dentro da grande Arena, fazendo o Rei de Leão se preocupar com alguma confusão causada pelo libriano que ele teria de acobertar. Porém bastou um único olhar para a contrariada rainha ao lado de Albert para que o árabe soubesse que o problema não estava exatamente em alguma confusão do Rei de Libra, mas sim em alguma briga que o casal não-proclamado deveria ter tido.
Jomo queria entender por que aqueles dois não se resolviam de uma vez ao invés de o escolherem para relatar todas as brigas que tinham por ciúmes.

- “Já vou avisando os dois que hoje não é o melhor dia para alguma crise de meia-idade na relação de vocês. De fato, hoje é o pior dia possível.” – sem muita paciência, resolveu reprimir qualquer ato inadequado para a situação (que tendiam a acontecer sempre que Albert e Essiralc brigavam).
- “Ora Jomo querido, você sabe que a juventude é uma fase incontrolável.” – a voz feminina da Rainha de Peixes surgiu por detrás da muralha que era o Rei de Leão – “Apesar de eu achar que a juventude deles é mais idosa do que Mei...”

Enquanto Albert apenas deu uma risadinha de lado e cumprimentou calmamente Karinne, Essiralc virou-se de costas e foi andando até o outro lado da arena, visivelmente irada. Não apenas Karinne Liachtw havia chamado o senhor Mei de ‘idoso’ – o que era uma falta de respeito sem limites – como havia dado claros sinais de ironia ao referir-se à idade da grega.

- ‘Apesar de eu não ter do que discordar. Eu já tenho quase dois milênios de vida em Olímpia, e continuo enfrentando os mesmos problemas de quando cheguei.’

Ignorou os olhares desconfiados de Eleanor, a rainha virginiana, e Unber, Rei de Gêmeos quando passou na frente deles. Cada vez mais as suspeitas acerca da morte misteriosa de quatro reis em menos de três anos caíam sobre ela, Albert e, mais raramente, Jomo. A Rainha de Câncer declarou misteriosamente que estaria ausente, assim como o Rei de Touro.

- “Parece que alguns reis se atreveram a faltar uma reunião importante como a Seleção Real. Esses vão ter uma bela dor de cabeça explicando para o senhor Mei o porquê da ausência depois que Unber dedurá-los.” – uma voz que um dia já fora muito jovial, manifestou-se, agora cansada.
- “Não consigo imaginar o porquê de eles faltarem uma Seleção Real,” – antes de completar, olhou um pouco nos olhos também verdes de seu ouvinte – “senhor Lisiandro.”

O Rei de Sagitário olhou de soslaio para o rei que havia acabado de chegar: Francis Wainright, o rei de Aquário. Com a chegada deste, ficavam faltando apenas quatro outros soberanos olimpianos no recinto.

- “Gostaria de saber o porquê do atraso da Rainha de Capricórnio.” – Jomo se juntou a dupla que estava discutindo exatamente isto – “Apesar de que ela não é mesmo de chegar cedo.”
- “Bem...” – declarou logo em seguida Albert, também entrando na conversa – “Mais atrasada que Ayumi ela não chega, então até aqui, tudo bem.”

Como se o destino tivesse a intenção de discordar, o grande portão vermelho abriu-se, revelando a pequena figura de uma japonesa indecorosamente adentrando o Aries Arena sem olha para sua frente.

- “Ou não.” – Jomo falou para Albert, contrariando-o.
- “Ah... dessa vez tinha porta.” – foi tudo o que Ayumi conseguiu dizer antes de ficar ciente de que tinha pelo menos nove pares de olhos observando-a.

Enquanto que alguns reis deram algumas risadas, outros se preocuparam de imediato com o futuro trágico que poderia aguardar uma candidata despreparada. Assumindo a liderança de um grupo claramente estratificado, alguém se aproximou de Ayumi por trás da menina.

- “Se sentir vontade de desistir, faça-o agora.” – a voz falou calmamente, alta o suficiente para apenas ela escutar – “Eles não se importarão se você sentir medo ou algo similar.”

Todos se surpreenderam ao ver Narissa, Rainha de Capricórnio, aparecer por trás da candidata. Enquanto alguns queriam muito gritar perguntando aonde diabos ela tinha ido para chegar depois da Princesa Real, sentiram-se obrigados a segurarem suas demandas, já que a cerimônia estava oficializada. Não era nada próprio de um rei gritar na presença de um candidato.

- “Fale logo qual é o teste.” – a japonesa sequer hesitou em sua resposta, o que fez Melissa surpreender-se internamente – “Não penso sob pressão. Mesmo que eu queira, não vai sair nada da cabeça diferente do que eu decidi antes.”
- “Com certeza?” – mas a capricorniana sentia algo a menos nela, algo que estava faltando – ‘Há algo estranho aqui.’
- “Vamos logo! Nem você muito menos eu queremos ficar aqui o resto do dia!” – e se dirigiu apressada até o centro da Arena, sem razões aparentes para tanta pressa.

Enquanto os reis mais antigos sentiram-se escandalizados por terem seu posto tratado com tanta leviandade, Essiralc, Albert e – mesmo que somente por dentro – Jomo sorriam, já conhecendo um pouco o jeito de Ayumi. Eles só não achavam que algum outro rei fosse concordar com eles.
Portanto Albert ficou realmente surpreso ao ver Lisiandro exibir seu primeiro sorriso em meses.

- “Desculpem-me a perda de compostura.” – ele se desculpava dos dois reis iniciantes, reconhecendo agora sua atitude anormal – “É que ela é parecida demais com Leon.”

Após receber o olhar de incredulidade de ambos, a autoridade máxima do Sagitta Castello teve de explicar-se.

- “Leon também era assim...” – ele falava, seus olhos ainda postos sobre a jovem de olhos vermelhos – “Extremamente impulsivo...”

Até aí, completamente Ayumi. Aproximando-se sorrateiramente do grupo, a Rainha do Capricornius Castello teve de acrescentar seu ponto de vista.

- “...e um completo Bunda-mole sob pressão.”




Uma mão se estendia para lhe bater. Ela podia sentir uma aura impiedosa circulando a silhueta inatingível de sua mãe.

- “Ayumi, você...”




- “Senhorita Ayumi, você está pronta?” - a voz da Rainha de Peixes (a loira que parecia ser deficiente mental era Karinne, certo?) ecoava em sua mente. Jomo estava ao lado dela, sugerindo que seria melhor ele guiá-la até o local do desafio.

Suas memórias estavam cada vez mais forte. Todas envolviam cenas extremamente tristes de sua vida passada. E, mais alarmante, aparentemente todas envolviam sua mãe terrestre.

- ‘Desse ponto em diante...’ – e seguiu Jomo até onde ela receberia as instruções para a Seleção Real – ‘...não há volta.’



{ Continua... }


[1] O famoso labirinto projetado por Dédalo na mitologia grega, que o então Rei Minos mandou construir para esconder de seu povo o seu filho, Minotauro.
[2] A terracota é um material constituído por argila cozida no forno, sem ser vidrada, e é utilizada em cerâmica e construção.
[3] Okaa-san é uma maneira educada de se tratar sua mãe em japonês.

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Paul Law



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MensagemEnviada: Qua Fev 06, 2008 5:39 am Responder com CitaçãoVoltar ao Topo

Cla ^^'

Como vc está? Puxa, e a fantasia continua firme e forte no seu conto! Este capítulo, em particular, nos mostra a rainha do castelo de escorpião, vagando pelos corredores até se deparar com Carlos! ^^' Ela parece ser uma personagem bem legal! Tem uma personalidade meio rude, cheia de si!
Continue logo, guria!!!! Parabéns por todo o capítulo!!!!

bjo

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