Há cerca de doisanos, Howard Dean erasomente o desconhecido ex-governador de umpequenoestado da Nova Inglaterra. Hoje, depois de perder todas as primárias presidenciais que disputou, ele parece estar solidamente encaminhado de voltapara o mesmoanonimato de ondeveio.
Nesse meiotempo, entretanto, ele levantou 40 milhões de dólares, a maiorsomajamais levantada porum pré-candidato democrata, mobilizou todo o país e tornou-se o favoritoparaderrotar o presidente Bush.
Como Howard Dean conseguiu tanto, emtãopoucotempo? Simples. Ele foi o primeiropolítico a utilizartoda a força da Internetemseubenefício. E como Dean conseguiu cairtanto, e tãorápido? Bem, a resposta pode ser a mesma.
Ascensão e Queda de Howard Dean
O pai da ofensivaon-line de Dean é Joe Trippi, seu ex-coordenador de campanha. Ele organizou uma rede de sites e blogs parapromover Dean. Conseguiu arrecadardoações de mais de 280 milpessoas, boa parte disso pelaInternet. Promoveu meet-ups portodos os Estados Unidos, ondemais de 150 milamericanos se encontraram paraapoiar Dean. Criou atémesmo o Dean Defense Force, uma força-tarefacom o objetivo de mandar emails paraeditores pressionando-os a apoiar Dean e a corrigireventuaisdistorçõesouerros de cobertura.
Até as primárias começarem, Dean era o favorito. Aliás, duranteseis meses, foi o único pré-candidato assumido, aparecendo na mídia e fazendo campanha praticamente sozinho.
Enquantoisso, visionários pregavam que a Internetjá estava dominando a política. Acabou a Era da Televisão, diziam: a partir de agora, ganha o candidatoquecomandar o maiornúmero de blogs.
Poruminstante, me senti de volta à bolha, entre 1998 e 2000, quandosinceramente acreditávamos que a Internet resolveria tudo, mudaria o mundo e ainda encheria nossobolso de dinheiro. Essa novabolha estourou aindamaisrápido: já no primeiro soprinho, adeus Howard Dean.
Elenão ganhou nenhuma das quatorze primárias realizadas e, na maioria, perdeu de longe. Essa semana, mal participou de outras duas, alegando estar se preparando para a primária de Wisconsin, na terça-feira, 17 de fevereiro.
Dizem as más-línguas que se Dean nãoganharem Wisconsin, ele sairá da disputa. Mas as más-línguas estão sendo até generosas. Convenhamos: se Dean nãoganharnemem Wisconsin, é porqueele de fatonão está na disputa. E nemnunca esteve.
O Que Deu Errado?
Tudo aconteceu muitorápido.
Há apenasummês, o senador John Kerry tinha 9% das preferências e ninguém dava nadaporele. Hoje, ele tem 50% e, segundopesquisas, é o único democrata capaz de derrotar Baby Bush. Desde o começo de suaascensão, não houve nenhumtropeço, nenhuma parada. O homem parece imbatível.
Enquantoisso, o nome de Howard Dean já está sendo usado comosinônimo de darumtiro no própriopé. Kerry sónão ganhará a indicação, dizem analistaspolíticos, se ele der uma de Howard Dean ("if he pulls a Howard Dean") e se auto-implodir.
Porquê? Existem váriosmotivos, comcerteza, mas a Internetnão é de todoinocente.
Dean realmente conseguiu formarumgrupo coeso de internautaspara a apoiá-lo, através de uma redecomplexa de blogs, sites, meet-ups, listas de discussão e o quemais existisse. Em uma redecomo essa, qualquernotícia corre rápidocomofogo na palha. Especialmente más notícias.
A Internet magnificou tantoseussucessosquantoseusfracassos: as gafes e tropeços de Dean reverberaram entreseusprópriosseguidoresmuitomais do que deveriam. O Dean Defense Force foi uma ótimaidéia, mas o blog do grupo está mortodesde 5 de janeiro. Howard Dean poderia se perguntar: E agora? Quemme defende de meusdefensores?
Pesquisas realizadas nas primárias de Iowa e New Hampshire mostram que Kerry derrotou Dean mesmoentre os eleitoresque usam a Internetpara se informarsobre os candidatos. Ou seja, Dean usou a Internetparamobilizar os eleitoresparavotar, maseles votaram emoutro.
A sina dos pioneiros é mesmotriste e dura. As táticas de alavancagem on-lineque Dean desenvolveu comtantoafinco, tentativas e erros, ao longo de doisanos, foram adotadas rapidamente, e semcustoalgum, porseusadversários.
John Kerry hojetambém tem seu blog e, somentedesde as primárias de Iowa, em 19 de janeiro, já arrecadou mais de US$ 2 milhões.
Brinquedo Quebrado
A Internetjánão revolucionou o modocomo compramos utilidades domésticas. A Internetjánão gerou uma era de prosperidade econômicasem precedentes. E será quenemmesmodeterminar o curso da política a Internet consegue? Mãe, essebrinquedo está perdendo a graça! Elenão faz nada!
Tambémnão é pratanto.
Markos Zuniga, um dos consultores da campanha de Dean, defende a rede: "O elementoInternet fez o quetinhaquefazer: pegou umcandidatoqueeraapenasumasterisco e transformou-o no favorito, além de dar-lhe US$ 40 milhões e umexército de voluntários. O quemais a Internetpoderiafazer? Levar os eleitoresaté às cabines?"
E Trippi acrescenta: "Issonão foi como o estouro da bolhapontocom. A campanha de Howard Dean foi o milagre das pontocom."
Apesar de tudo, a pré-campanha 2003 de Howard Dean deixou algumas lições. Financeiramente falando, grandesinvestidoresnãosãomais a únicaopção. Viabilizar uma campanhaatravés de doaçõespequenasfeitasporcidadãoscomunsjá é possível.
Maisimportante, o potencial de mobilização da Internetmal começou a ser explorado. Emumpaísemque o votonão é obrigatório e poucas pessoas votam, a Internet pode, e deve, tornar-se uma ferramenta de maior democratização e popularização do processoeleitoral. Na maiorpotência do mundo, não é poucacoisa.
Enfim, uma vezmais, a Internet falhou emmudar as leis da física e virar o universo de cabeçaprabaixo. Naturalmente, issosó é umproblemaparaquem esperava tanto.
Links Úteis: Howard Dean Dean Defense Force John Kerry Publicado na Tribuna da Imprensa, em Fev.13, 2004
|