Já não era sem tempo.
Depois de meses de erros técnicos, lentidão nos servidores e problemas generalizados, o Fotolog finalmente parece que vai entrar nos eixos. A partir de ontem, o sistema não está mais aceitando novos usuários gratuitos e vai passar a dar maior prioridade aos assinantes pagos. Além disso, acabou de receber um importante aporte financeiro.
Finalmente, reconhecendo que os brasileiros já são mais da metade dos usuários, fizeram esses comunicados em português.
O Que É Um Fotolog?
Fotologs são blogs de fotos, ou seja, sites que permitem que você coloque fotos na Internet com facilidade e rapidez.
Fotógrafos amadores andam pela cidade com suas câmeras, fotografando o mar, o pôr-do-sol, placas engraçadas, as pernas das mulheres. Mães tiram fotos de seus filhos, donas-de-casa, de seus bolos, artistas plásticos, de suas obras, adolescentes, de seus amigos e noitadas. E postam na Internet.
Estava conversando sobre o assunto com o meu pai e ele perguntou: “Mas o que essas pessoas ganham isso?” Depende. O que você ganha caminhando pela praia ou jogando bocha?
Flogar, hoje, já virou hobby.
Tipos de Fotologs
A maioria dos flogs é individual.
Um dos mais populares é o da Sinistra, cuja fotonovela, Mansão Maliciosa, ela espera depois publicar em forma de livro.
A artista plástica Loba Má está desenvolvendo uma série de colagens belas e perturbadores sobre “espaços do tédio”, como call-centers e salas de espera.
Adam Seifer, ou Cypher, o criador do Fotolog, fotografa tudo o que come: é o Foodlog.
Em um fotolog normal, só o dono pode postar fotos. Já um fotolog coletivo, por definição, está aberto a todos. E são os mais interessantes.
Há flogs de adesivos de pára-choque e de placas de modo geral, de água e de nuvens, de cães e bebês, de pés e de mãos.
Para os cariocas doentes, não faltam flogs do Rio, nem atual e nem antigo. O Fotolog no Brasil
Hoje, 6 de fevereiro, existem cerca de 300 mil fotologs, dos quais 170 mil brasileiros, cerca de 56% do total . Em comparação, os fotologs americanos são apenas 20 mil, meros 6%.
Ninguém consegue explicar porque há tantos flogs brasileiros, nem os próprios criadores do Fotolog. Há teorias, nenhuma satisfatória. Tudo bem, brasileiros estão sempre ansiosos para consumir novas tecnologias, mas a ponto de desbancar os americanos? E de tão longe? É incrível.
A língua oficial do Fotolog é inglês, mas só pra inglês ver. Andando por lá, o que mais se vê é o bom e velho português, salpicado por hilários trechos em inglês macarrônico. Uma flogueira, de fotos provocantes, diz em seu título: “Look me... and feel!” Tentei explicar pra ela que essa expressão “look me” não quer dizer nada em inglês, mas ela não quis nem saber.
A invasão brasileira causa uma série de problemas logísticos.
Um desses problemas é que os brasileiros simplesmente não entendem que são um problema, e ainda se ofendem: “Como assim? O que tem de errado com os brasileiros?”
Nada, mas imaginem se vocês criam um serviço on-line brasileiro, como o Fulano ou o Ivox e, um belo dia, você descobre que 56% dos usuários são paquistaneses, que não falam português, se comunicam entre si na língua deles (que você não entende) e, pior, não pagam.
A Hora do Bolso
O brasileiro, tradicionalmente, não gosta de pagar. Até aí, tudo bem. Ninguém gosta. Mas o brasileiro sinceramente acha que tem direito de usufruir do trabalho dos outros de graça. Esse é o problema.
O Fotolog não tem publicidade. Ele se mantém, mal e mal, vendendo assinaturas, que eles chamam de Gold Camera. Quem se dispõe a investir cinco dólares por mês, pode postar até seis fotos por dia com direito a cem 100 comentários, além de outras regalias, enquanto que, no serviço gratuito, é só uma foto e dez comentários por dia.
Os fundadores ainda mantêm seus empregos, cuidam do Fotolog nas horas vagas e reaplicam todo o dinheiro arrecadado em tecnologia e banda.
Sem o mecenato dos 1% de santos que assinam a Gold Camera, a brincadeira já teria acabado.
Nossos patrícios, entretanto, não vêem a coisa desse jeito. Quando os criadores do Fotolog criaram a Gold Camera para tentar viabilizar o serviço, os usuários brasileiros, com seu inglês de jogador de futebol no exterior, quase quebraram tudo, incitaram revoltas, escreveram manifestos e, claro, não pagaram.
Coitados dos americanos. Criados em uma cultura que valoriza o empreendimento, não entenderam porque tanto barulho. Acharam, sinceramente, que a questão era financeira, que R$15 por mês era demais para a realidade brasileira.
Alguém precisa explicar pra eles que, para 80% dos flogueiros tupiniquins, isso é mixaria.
A Nova Fase do Fotolog
Usar o Fotolog nos últimos meses tem sido um martírio. A lentidão é extrema, os erros se sucedem, as fotos não conseguem ser enviadas, fotologs somem sem explicação, assinantes do serviço pago se vêem no plano gratuito.
Por causa disso, começou a crescer um movimento de assinantes exigindo, entre outras coisas, prioridade no atendimento e bloqueio de novos fotologs gratuitos até que o sistema se estabilize.
Ontem, as coisas começaram a mudar.
A equipe do Fotolog não apenas cedeu aos pedidos como ainda anunciou o primeiro aporte de capital da empresa. Os fundadores vão poder, finalmente, sair de seus empregos, contratar uma equipe e melhorar o serviço.
Interessante mesmo foi o modo como fizeram o comunicado: em inglês... e português.
Depois, navegando pelo site, deu pra ver muito do conteúdo importante também estava em nossa língua.
E, quando tentei postar uma foto e não consegui, o sistema teve a gentileza de me avisar, em português, que a capacidade do sistema estava comprometida, que só assinantes pagos estavam podendo postar e para eu tentar de novo entre 2 e 11 da manhã... horário de Brasília .
Quem diria ver um site americano dando as horas em horário de Brasília.
Uma das tarefas prioritárias do primeiro (e por enquanto único) funcionário da empresa é tentar buscar uma parceria com alguma empresa nacional que, nas palavras de Seifer, “entenda como monetizar os internautas brasileiros melhor do que nós.”
Como usuário do Fotolog e ex-empresário falido de empresa de Internet, eu só posso desejar boa sorte.
Publicado na Tribuna da Imprensa, em Fev.06, 2004
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