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Alex Castro
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Blogs de Pessoas Mortas
As pessoas morrem, masseus blogs continuam.

Alessandre Américo Teixeira, 31
anos, tambémconhecido na Internetcomo Alex Doidoou Alex Teixeira, criou o blog Outros Caminhos em junho de 2003: "Aqui é um lugar que criei para escrever, sobretudo para me divertir e divertir os amigos, nem sempre com idéias comuns... Estou cansado de não falar, não escrever, não expor meus pensamentos..."

Alex trabalhava como auxiliar em um escritório de comércio exterior de Santo André, no ABC Paulista, mas queria voar mais alto. Em agosto, ele decidiu "prestar vestibular no final do ano. Como cansei da minha profissão e quero mudar de ares, vou fazer Direito, (...) continuar em negócios internacionais, mas pelo lado legal."

Ao mesmo tempo, Alex tinha outros projetos. Um dos personagens constantes de seu blog é o livro que estava escrevendo. Já em julho, ele anuncia: "Estou radicalmente a fim de dar continuidade ao meu livro-mor."

Algumas vezes, Alex fala do livro com enfado:

"Eu ainda no marasmo que antecede boas coisas, tenho certeza disso. Nada de novidades, nada de nada... (...) O livro?!? Que livro?!? Não estou com paciência para livro, apenas coisas práticas estão me impregnando nesses dias. Acho que estou velho, mas não quero ser um velho chato, do tipo que incomoda todo mundo. Mas ainda tenho 31, e só fico velho daqui 1000 anos...tenho muito de juventude, só a cabeça está meio cansada...mas isso passa..."

Outras, com entusiasmo:

"Estou positivamente decidido a trabalhar com mais afinco. Walt Witman ficaria com inveja da minha disposição. Cansei de perambular pela net e no fim do dia não ter nada para mostrar para a Bia."

A esposa, Bia, administradora de um restaurante industrial, e os três filhos, Vitória, 11, Caio, 8 e Letícia, 6 anos, também são presenças constantes no blog do Alex:

"Como não tive pai fico me baseando naquilo que eu gostaria de ter como pai, assim posso ser para meus filhos aquilo que alguém poderia ter sido para mim. (...) Fazemos filhos para serem a continuidade de nosso DNA pelos séculos vindouros. Para serem a parte que falta em nossas conquistas."

Alex comenta que só de madrugada sente a tranqüilidade necessária para criar, mas que tem "um entrave chamado esposa... Ela não dorme se eu não estiver com ela, e acabo por deixar de lado o momento da criação e vou, placidamente, dormir com minha pequena."

Também não faltam as elucubrações filosóficas sobre a vida e a morte:

"Qual é a idade certa para se morrer?!? O que determina que uma pessoa viveu o suficiente?!? (...) Aproveitar a vida não está intrinsecamente ligado aos anos que se viveu. Não se determina uma boa vida pelos anos de passagem terrena. (...) Uma vida medíocre só é assim aos olhos dos outros, nunca aos olhos de quem está vivendo a mediocridade, que é um ponto de equilíbrio entre o banal e o perfeito. Quem sabe se viva melhor assim?!"

Aos poucos, Alex deixa transparecer problemas. Aumentos súbitos de pressão arterial, dores de cabeça muito fortes. Ele chega a ser internado brevemente "por algo que está acontecendo com minha pressão arterial...sinto que minha cabeça vai explodir, e não é nada agradável..."

Em agosto, vem um diagnóstico tranqüilizador: "Ontem o mistério foi desvendado, e minha doença é meramente cefaléia motivada por um stress imbecil...portanto, amigos que se preocupam, fiquem um pouco mais calmos...ainda estou mal, mas isso vai passar."

Infelizmente, não é só isso. Em 3 de setembro, a bomba: "Essa semana foi diagnosticado um tumor em meu cérebro, em uma região delicada. Não sabem ainda o que está alimentando esse tumor, nem se é benigno. (...) Tenho terror em pensar em ficar internado."

Depois disso, os posts começam a se espaçar mas a determinação de Alex em vencer o tumor e manter o blog é inabalável:

"Estou bem e tenho certeza de que assim permanecerei. Minha vontade de viver é maior que meu medo, e minha fé cresce a cada minuto. Não estou mais tendo tempo para postar (...) e isso me incomoda, não gosto de deixar as coisas pela metade, mas (...) estou deixando o pc cada vez mais de lado para estar com minha família. (...) Não irei detonar esse blog, mas vamos deixar as coisas assim, e eu vou escrevendo eventualmente..."

O último post é de 2 de outubro de 2003: "Resolvi mesmo ficar bem, sair já dessa situação besta e voltar a carga com minha vida, da maneira como tem que ser, com trabalho, vida, saúde, fé, esperança e paz."

Conversei com Bia, a esposa do Alex, e ela supriu as lacunas. Dois dias depois, com dores intensas e gastrite nervosa, ele foi internado pela primeira vez. Passou só uma noite no hospital, mas sua situação piorava bastante. Tentou passar o máximo de tempo com os filhos. Bia continua:

"No dia 12/10, domingo, ele até estava bem ficou o dia quase sem dores, se alimentou um pouco, mas no dia seguinte, quando cheguei do trabalho, ele estava com retenção urinária e tive que levá-lo até o hospital pra passar uma sonda de alívio, foi desde aí que ele não voltou mais pra casa, porque depois da sonda ser passada, quando voltamos até o consultório médico, ele teve uma crise convulsiva e a médica internou-o imediatamente. Então, ele foi internado no dia 13/10 por volta das 22hs e faleceu no dia 20/10, às 22:35hs. Foi uma semana certinho. e o que ele queria era ficar mais com a família..."

Hoje, o blog
Outros Caminhos continua vivo, mantido pela Bia, honrando um dos últimos desejos de Alex:

"Assim, um dia, ele, o Ale, passou pela minha vida e eu aqui estou pra continuar aquilo que ele mais gostava, fazer amigos e escrever pra todos que aqui vem ler... Continuarei por aqui (...), tentando dar continuidade neste blog, que peço ajuda de todos aqueles que gostavam dele."

Eles iriam se casar no papel em 17 de janeiro desse ano, no aniversário de 10 anos de seu primeiro encontro. Foi em um ônibus, de madrugada, voltando do Hollywood Rock. Dois estranhos que sentaram juntos.

Alex completaria 32 anos em abril.

* * *

Ainda bem que a língua permite referência a autores falecidos no presente. Foi um grande consolo não ter precisado escrever esse texto inteiro no pretérito.

* * *

O caso de Alex está longe de ser único. Hoje em dia, a população blogueira ainda é majoritariamente jovem, então as mortes ainda são esporádicas e acidentais. A medida que a Internet se popularizar e envelhecer, blogs, sites e flogs de pessoas mortas serão tão comuns quanto, digamos, livros de pessoas mortas.

* * *

No dia 31 de maio de 2003, três adolescentes foram pisoteados e mortos durante o show de rock Unidos pela Paz, no Jockey Club de Curitiba. Larissa Cervi Seletti, uma das vítimas, tinha um blog.

Na segunda, 19 de maio, menos de duas semanas antes de morrer, Larissa conseguiu criar o seu novo blog:

"AAAAAHHHHHH GRAÇAS A DEUUSS FINALMENTE CONSEGUI FAZE ESSE TRECO DI NOVUUU TO FELIIIIZ... bem como vcs perceberam eu fikei um bom tempo sem blog... pq esse blig eh uma kenga.. mais tudu bem... fiz otro... igual dããã... (...) comentem pq eu to de kra com vcs q ngm mais lembra di mim...."

Larissa parece ser a típica blogueira de 15 anos de idade, com seu dialeto incompreensível, fotinhas de todos os amigos e dezenas de botões piscantes. Algumas das fotos, inclusive, são de Larissa e seus amigos em um show do Dead Fish (confesso nunca ter ouvido falar) realizado poucas semanas antes no mesmo Jockey Club onde Larissa morreria.

Como nenhum blog é uma ilha, e sim um arquipélago, a morte de Larissa repercutiu em outros blogs de seus amigos e conhecidos.

Uma blogueira, que diz ter estado no show, escreveu:

"Neste domingo três pessoas morreram em Curitiba num show que deveria ser "unidos pela paz". Duas delas, Mariá de Andrade Souza e Larissa Seletti, eram amigas da minha irmã e ex alunas da minha mãe. Eu estava no show e vi o corpo da Larissa estendido, coberto por um casaco e sem bolsa, tênis, celular, nada, pq além de matarem ainda roubaram. Só me resta esperar justiça."

No mesmo blog, outra menina, Beatrice, respondeu:

"É muitu tristi mesmu, a Larissa e a Mariah eram do meu colegio, Colegio Marista Santa Maria, e sow em pensa, q ninguem tevi coragem de ajuda elas, elas tavam taum felizes, pois tinham recuperadu 1 indicador ondi ainda estavam pendentis no colegio."

Alguns meses depois da tragédia, o blog de Larissa foi tirado do ar.

* * *

Os termos de uso do
Blig, onde ficava o blog da Larissa, dizem que o serviço se dá o direito de excluir qualquer blog ocioso por mais de 45 dias. Mais radical, o Blogger brasileiro apaga automaticamente qualquer blog parado por mais de dois meses.

Os americanos são mais tolerantes: o
Blogger e o LiveJournal deixam os blogs no ar indefinidamente a não ser que a família faça um pedido formal para que seja apagado.

Os velórios virtuais brasileiros precisam de movimento constante para não desaparecerem.

* * *

Blogueiro, em geral, é jovem. Jovem, quando morre, é morte súbita. Imprevisível.

Os amigos do morto vão ao blog e ainda não acreditam no que aconteceu. É como se esperassem um novo post a qualquer momento. Daqui a pouco, vocês vão ver, ele vai falar do Zeca Pagodinho ou do caso da Luma e do bombeiro.

Mas, dia após dia, nenhum post novo.

Finalmente, alguém faria o primeiro comentário. Talvez um aviso (olha só, gente, o fulano morreu anteontem) ou um desabafo (cara, não acredito que você morreu!), quem sabe até uma mensagem à família (meus pêsames nesse momento etc).

Uma vez feito o primeiro, o dique estaria aberto. Os amigos do morto iriam começar a conversar entre si através dos comentários, consolando um ao outro, trocando anedotas do falecido, postando fotos.

O e-mail avisando da missa de sétimo dia iria incluir um link para o blog. Os pais ou esposa postariam alguma mensagem.

Um verdadeiro velório virtual.

Com o passar dos anos, os amigos não apagariam o blog dos seus favoritos. Voltariam lá quando sentissem saudades do falecido. Releriam velhos posts, cheios de vida e alegria. Confeririam os novos comentários. E, nas datas comemorativas, aniversário de morte ou de nascimento, o blog seria o ponto de encontro de uma verdadeira romaria virtual de saudosos.

Nada disso é teoria. Já está acontecendo em centenas de blogs ao redor do mundo.

* * *

Desde que escrevi sobre o
blog do Alex Teixeira, vários leitores foram lá deixar comentários de pêsames e encorajamento para a Bia, sua viúva. Ela inclusive fez um novo post em agradecimento.

Rebecca Kris morreu em um acidente de carro em janeiro de 2002, mas
seu blog continua bem vivo para amigos e parentes, que já deixaram quase 200 mensagens de amor e saudades. Ironicamente, seu nick era "lucky me" ou, sortuda.

Brian Faughnan desapareceu durante uma caminhada nas montanhas em julho de 2002. Seu pai criou um
blog especialmente para agir como uma central de informações para amigos e parentes durante a busca. Brian ainda não foi encontrado.

Os amigos de Scott Vice, falecido em julho de 2002, converteram seu blog particular em
um blog público. Hoje, qualquer um pode fazer posts compartilhando histórias ou fotos do amigo. O resultado final é uma das mais belas homenagens que uma pessoa pode receber.

Nem todo blog de pessoa morta precisa ser triste.

O diário de Samuel Pepys (1633-1703) cobre uma das épocas mais tumultuadas da história britânica, incluindo a morte de Oliver Cromwell, o grande incêndio de Londres e o reestabelecimento da monarquia. Agora, o diário está sendo publicado em forma de
blog, uma entrada por dia. É quase como se Pepys estivesse blogando, ao vivo, direto do século XVII.

* * *

A Internet fez muitas promessas de mudança: mudar o modo como fazemos compras, procuramos empregos ou até mesmo lemos jornal.

Quem diria que uma das coisas que a Internet mudaria seria o modo como velamos nossos entes queridos, uma das mais consolidadas tradições humanas.

Em algum futuro dois de novembro, quem sabe, bastará uma peregrinação por meia dúzia de blogs para estarmos em dia com nossos mortos.

Links Relacionados:
Outros Caminhos - O blog de Alex Teixeira
O Blog da Menina Morta - Mais detalhes sobre o blog de Larissa Seletti
Bex - O Live Journal de Rebecca Kris
Brian Faughnan - A Missing Person - Blog sobre a busca à Brian Faughnan
Freudian Slop - Belíssima homenagem à Scott Vice
Pepy's Diary - O diário on-line de Samuel Pepys

Publicado na Tribuna da Imprensa, em Mar.12, 2004

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