O disco:
O disco contou com 15 participações de músicos amigos. Costumo dizer que o pior
músico do disco sou eu...
Todo mundo emprestando sua arte pra essa criança que nasceu.
Desde as prés até a chegada das cópias, foram 3 anos.
Dizem que nossos trabalhos, a gente não acaba. Desiste...
Não foi bem o caso, mas não é exagero nenhum dizer isso.
Vale lembrar que o disco foi todo produzido e gravado em meu Home Studio.
Devido à ausência de salas acusticamente tratadas e carência de variedade de equipamentos, tive que improvisar alguns procedimentos, usando alguma criatividade e
muito experimentalismo: portas de armários abertas, várias tentativas de microfonação e timbragem, muito suor e tempo dedicado ao disco.
O conhecimento das ferramentas, dos procedimentos, o estudo e a prática adquiridos no decorrer do processo de produção (3 anos no total) acabaram por me dar coragem de elaborar e assumir o curso de Produção em Home Studio da Rio Música, uma ótima escola de música
aqui no Rio.
Hoje tento passar um pouco dessa viagem prazerosa para meus alunos.” Daniel Drummnond.
Um trabalho inteligente e de muito bom gosto.
Daniel mostra neste primeiro trabalho solo um ecletismo que, mesmo sendo muito abrangente, não ofusca sua identidade musical, que está enraizada na música brasileira. E isto vem a ser muito enriquecedor, pois adiciona “sabores brazucas” em outros estilos de música.
Este CD é um verdadeiro cartão de visitas, pois caminha livremente entre o funk, o pop, o instrumental brasileiro, o metal e ainda esbarra em música orquestrada.
Na intenção de comprovar sua versatilidade em vários terrenos musicais, Daniel mostra competência como músico, compositor e arranjador, independente do estilo musical.
Todos os instrumentos foram muito bem captados, os volumes estão perfeitos e os timbres de guitarra são um capítulo à parte. Além de conseguir sonoridades impecáveis para seus instrumentos, Daniel demonstrou ter muito bom gosto ao escolher a característica de cada instrumento para cada faixa.
Na minha opinião, essa trip foi vitoriosa!
O guitarrista:
Daniel Drummond, músico, guitarrista, violonista, baixista, professor, produtor musical, arranjador e Bacharel em Música pela UFERJ (UniRio).
Ganhador do 2° Lugar no Festival Rio das Ostras de Música 2007 e 1° e 2° Lugares no Festival Rio das Ostras de Música 2008 na categoria música instrumental.
Atualmente morando no Rio de Janeiro, o músico mineiro trabalha, também, como side-man e já se apresentou em diversas casas como Canecão, Mistura Fina, Teatro Rival, Teatro Antônio Fagundes e Ribalta.
Lançado em agosto de 2008, o disco conta com Dudu Lima (baixista com trabalho próprio, além de acompanhar o guitarrista americano Stanley Jordan), Emerson Mardhine (baixista da banda carioca Celebrare), Walmer Carvalho (saxofonista da banda Biquíni Cavadão), Roberto Lazzarini (maestro e diretor musical que trabalhou com nomes como Sá e Guarabira, Fábio Júnior e Bibi Ferreira), entre outros.
Além da guitarra, Daniel é um grande compositor e arranjador. Todas as músicas desde disco são de sua autoria. Os arranjos adicionam um outro universo dentro das canções, não soando artificiais ou amadoras.
A guitarra:
Daniel não parece o tipo de guitarrista conformado, que compõe algo que será reproduzido à risca incansavelmente.
A impressão que fica é a de um músico com a mão inquieta, sempre pronto para acrescentar uma ghost note, um ligado passageiro, algo que não estava alí mas agora, tem que estar.
Com uma linguagem própria, o guitarrista deixa evidente sua “queda” por double stops, pentatônicas e o fraseado blueseiro.
A preocupação com a interpretação traz profissionalismo ao seu trabalho, com execuções simples, agradáveis e maduras, tornando desnecessária a utilização de técnicas cansativas, que “esfriam” as músicas e desanimam o ouvinte.
Possuidor de um instinto requintado, ele exagera no drive das músicas pesadas, acelera nas “fritações” e ainda assim, consegue fazer algo poético por trás de tudo isso.
Isto sim é ser verdadeiramente artístico.
As guitarras foram:
Uma Gibson Les Paul Studio, ano 1996. Quando não era o timbre principal da faixa, foi usada como dobra em alguma base ou em algum solo.
Uma Fender Stratocaster japonesa 1986, com 3 single coils originais.
Uma Jackson Ultra Plus japonesa, década de 90, com DiMarzio PAF Pro na ponte (lembra
muito Satriani, uma de minhas influencias básicas), um DiMarzio Air Norton no braço e o single do meio original.
Um violão Yamaha APX9-NA, de náilon, usado para os solos. Braço de guitarra e cordas super macias.
Um violão Yamaha APX9, de aço, usado nas faixas Continente e Eclipse, para fazer
a dobra com o de náilon. Usei-o também nas faixas Como Era Antes, Ap 317 e Leopolda Funky Blues, que contou com um slide. Este instrumento vem com um microfone condensador embutido em sua caixa de ressonância. Usei este microfone, ao invés de microfonação externa, na faixa Como Era Antes.
Os amplificadores foram:
Um Marshall Valvestate 8080 com um falante de 12'' e pré valvulado.
Tem um som bem característico e agradável, com a típica distorção Marshall.
Usei a distorção dele em praticamente todas as bases distorcidas do disco. Curioso é que, apesar de ser um amp bem rockeiro, preferí usá-lo também para gravar as guitarras com timbres mais leves do CD, como a bossa-nova Rio Distante.
Um Fender Princeton 65, também com um falante de 12'', usado para sonoridades mais blues e menos rock, como por exemplo, algumas guitarras de Sete Mundos e de Leopolda Funky Blues.
Os microfones:
Um Shure SM-57 e dois condensadores Superlux ECO-H6A.
Basicamente, usei o SM-57 na boca do alto-falante, geralmente na extremidade, inclinado
para o centro do cone. Usei um condensador na parte traseira do amp, para pegar um
pouco de ressonância de graves.
Gravei alguns violões com um microfone perto da boca e outros com dois
microfones: um perto da casa 12 e outro perto do cavalete.” Daniel Drummond.
As faixas:
1- Vida boa
A música começa com uma forte intenção funk, mas logo sem mostra um fusion leve e descompromissado.
Em 00:44, ocorre um riff simples e muito interessante, caracterizado por uma dobra com um intervalo de quinta acima.
A guitarra base, discreta e “swingada” é de muito bom gosto.
O solo é executado com muita melodia e personalidade. Repare durante todo o disco as poucas ocorrências de escalas e patterns. Os tempos não são óbvios e o sustain é bastante explorado.
Destaque para o timbre macio e agradável da guitarra.
2- Como era antes
O acorde com graus conjuntos utilizado na introdução gera um efeito de tensão que gosto muito.
Em 00:54, a música entra num momento bonito, com notas longas e bem exploradas, lembrando algumas coisas de Andy Timmons.
Em 02:16, a bateria dobra o andamento para a entrada de um solo de guitarra musical e bem distribuído. A repetição de motivos em intervalos de quintas e oitavas intercalada por alguns doubles-stops blueseiros caiu como uma luva para o clima da música.
Em 03:02, no auge da adrenalina, Daniel dispara uma sequência cíclica de hammers-on e pull-off muito rápidos nos próximos 4 compassos. Voltando ao andamento e tema iniciais, a finalização traz uma nova mudança que não altera o contexto do trabalho e acontece de uma forma muito natural.
A música toda transmite uma certa melancolia e, nessa finalização, Daniel deixa isso muito evidente.
3- Na espera
A raíz na música brasileira vem à tona nesse tema agradável, com momentos que lembram desde Ivan Lins até Tunay.
O timbre de guitarra está majestoso para o clima criado e o baixo fretless é uma atração à parte.
Na minha opinião, o solo de violão é uma aula de versatilidade.
As frases típicas, sem o vício dos clichês, destacam a diferença entre um solo de guitarra e um de violão. Cada um tem sua linguagem particular e aqui, Daniel não engana e mostra que sabe se posicionar corretamente com cada instrumento.
4- Serra de Petrópolis
Se eu tivesse que escolher uma música neste CD, seria esta.
O tema executado no violão é lindo porque carrega muitos pormenores que valorizam a composição.
Apesar de ser estruturalmente simples, foram os arranjos que o transformaram em algo grandioso e bucólico, ao mesmo tempo.
Nesta música, Daniel se supera, pois flerta fortemente com orquestração.
Provavelmente, o tema composto inicialmente em violão foi ampliado, extendido e distribuído em vários instrumentos de orquestra.
A dificuldade aparece na necessidade da criação de vários contrapontos, fazendo muitos instrumentos serpentearem em melodias paralelas, sem perder a característica inicial da composição.
A dinâmica da canção é conseguida através do destaque de alguns instrumentos sobre outros, intensificando ou suavizando a execução, criando a história bonita que esta música é.
5- Eh Phunk
Eh Phunk me fez pensar em Stevie Ray Vaughan e James Brown tocando juntos.
O fraseado blueseiro com double stops fica perfeito no funk.
A guitarra base percussiva, apesar de muito discreta, faz toda a diferença para a vibe da música.
O solo, cheio de pentas e motivos blues, com notas longas e vibratos intensos, nos leva a uma longa viagem.
Sem fazer injustiça ao solo do baixo, que foi executado com maestria, a harmonia da guitarra fazendo a “cama” acrescenta vários coloridos e valoriza tanto o baixista quanto os arranjos da bateria.
O curto solo de bateria evidencia a qualidade de equalização do disco.
Na finalização, o funk dá lugar a um tema com sabor de trilha sonora esportiva.
6- Sete mundos
Com forte influências progressivas, esta música começa com uma guitarra oitavada executando 3 compassos 7/4 intercalados por um 3/4, num estilo que lembra Kansas.
Na queda da adrenalina, uma ode ao Pink Floyd, desde o longo delay do pickup do braço da guitarra até o baixo pedal.
Uma “brincadeira” muito bem pensada e executada, explorando os tempos e as pausas com extrema sabedoria. A longa estrada onde essa música nos coloca é um dos grandes momentos do disco.
Repare na guitarra base stéreo.
Transpondo mais um estilo, a música entra num transe heavy metal e, claro, com direito a fritações na guitarra, com 4 compassos de sweep cíclico na velocidade da luz.
Ao voltar ao tema inicial, um pouco mais forte, um coral adicionado aos poucos cria um clima de final apoteótico.
7- Eclipse
Belos acordes de graus conjuntos executados com intervalos harmônicos nos tempos 1e e 2e abrem este fusion leve e descontraído.
Os instrumentos vão chegando aos poucos, mas a música sempre mantem um clima de que sempre cabe mais alguma coisa, dificilmente cansando o ouvinte.
No solo, a guitarra com um timbre ardido faz contraste com a leveza da música.
Um double stop bem roqueiro seguido de pentas encaixadas na linguagem musical simples e direta preenchem os espaços com muito bom gosto.
8- Ap 317
O tema lento dá uma certa suavidade para a vibe metal desta música.
O peso da guitarra base é mortal!
Um pequeno interlúdio faz a preparação para o wah-wah entrar rasgando no solo, que reafirma a idéia principal do disco: muita musicalidade, sem fritações excessivas e sem apelar para o óbvio.
9- Ibitipoca
Um tema muito calmo, que utiliza várias ferramentas violonísticas conhecidas, como a dinâmica de intensidade e de andamento.
Ao transitar para o piano, o tema é modificado, mas mantém o clima cálido.
Com instrumentos chegando aos poucos, o piano passa para a harmonia, deixando o tema para uma flauta, que entra acompanhada por uma textura delicada de cordas, fornecendo um clima orquestral para a canção.
10- Continente
O violão com cordas de aço introduz esta canção romântica e muito bonita.
A chegada de um acordeon e baixo fretless reforçam essa sensação de saudosismo.
É uma música curta, sem muitas variações, mas de grande impacto. Talvez até devido à beleza de sua simplicidade.
11- Hoje em dia
Uma música que tinha tudo para ser um prato cheio de fritações se torna um quadro repleto de intenções e sensações diferentes, com muitos detalhes e beleza, porém sem perder a adrenalina.
Pizzicatos de guitarra, vibratos longos e melódicos, fortes contrastes nos interlúdios e resoluções redondas são a receita para qualquer música perfeita.
Em 01:52, uma voz solfejada acompanhada por um grupo de cordas fornece um clima intimista onde foi impossível não lembrar de Milton Nascimento.
Em 03:25, uma sequência de notas pedal, onde Daniel brinca com a divisão das notas.
A alavanca é utilizada com moderação e honestidade, apenas para enriquecer a música.
12- Leopolda funk blues
Não tem nada mais agradável do que um groove blueseiro que flerta com B.B.King e Celso Blues Boy.
Se esse groove for bem tocado, então pare tudo o que está fazendo porque a viagem vale à pena.
O acompanhamento com wah no fundo, o timbrão de strato com um leve crunch executando belos double stops e bends e o slide no violão de aço assinam a autenticidade deste blues.
Mauro Hector costuma dizer que o blues é a música mais democrática do mundo, pois aceita tantos instrumentos com um coração extremamente materno, tendo lugar certo para tudo e para todos.
13- Rio Distante
O sabor de uma bossa num piano bar qualquer surge instantâneamente.
Uma voz solfejada faz o belo tema, ora sozinha ora acompanhada por uma guitarra oitavada.
Diferente de todo o resto do disco, esta música não evidencia a guitarra. O destaque fica para o tema na voz, com a guitarra em segundo plano e um belo violão ao fundo.
São 3 solos. O piano abre a sequência com o lindo timbre e grande delicadeza na execução das notas.
O solo de violão de náilon é agradável e utiliza a linguagem correta para o instrumento, com algumas repetições de motivos (algo que gosto muito) e muita dinâmica.
A guitarra fecha a música com notas conscientes e bem colocadas.
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