O álbum representa a excelência na música brasileira. Michel toca guitarra, violão e viola de dez cordas – Alex, além da bateria e da percussão, atua no piano na faixa “Trocando Idéias” – Thiago Alves no baixo e Raphael Ferreira no sax e flauta completam o grupo, traduzindo em composições diretas, a criatividade e o prazer de tocar. 'Trocando Idéias' é um disco que relaxa os ouvidos e abre a mente, com músicas de boa qualidade, bem executadas e sem barreiras de rótulos ou estilos." - Site 'Canal Pop', do Território da Música
Terceiro trabalho de Michel Leme (os dois primeiros são "UmDoisTrio" e "Michel Leme Quarteto"), este disco me impressiona pela quantidade de informação que é revelada ao ouvinte a cada música executada. E apesar disso, é um disco agradável e que representa, de forma digna, a música brasileira.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi a liberdade e a descontração dos músicos. De uma forma geral, este disco se desconecta de qualquer denominação ou rótulo. Também não existem clichês, o que elimina toda a previsibilidade das músicas. Michel não é um guitarrista óbvio e suas músicas, seus solos e suas harmonias sempre surpreendem, revelando detalhes interessantes (e bonitos) a cada audição.
O disco foi gravado em dois dias, totalmente ao vivo e sem overdubs, exceto as camadas de percussão na faixa "Samba pro Sr. Messias".
Alex (bateria, percussão e piano) mostra completo domínio musical. Soa grande, abrangente, vários em um. Muito bom!
Raphael (sax e flauta) se mostrou muito coeso com o grupo. Sua linguagem musical parece ter entrado em perfeita sintonia com a de Michel, o que resultou num "jogo de sonoridades" muito bonito.
Thiago completa o time com um baixo competente e discreto, perfeito para a proposta do trabalho.
O guitarrista:
Michel Leme, guitarrista e compositor, nasceu em São Paulo em 1971, toca desde os oito anos de idade e atua profissionalmente desde 1990.
Ensina música na guitarra desde 1990 e atualmente é professor do Conservatório Souza Lima (desde 1995) e da Escola de Música e Tecnologia "EM&T" (desde 2001), ambas em São Paulo.
Michel já tocou/gravou com artistas como Tomati, Léo Gandelman, Mozart Mello, Wynton Marsalis, Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal, Fábio Júnior, Toninho Horta, entre muitos outros.
No meu modo de ver, Michel é um guitarrista que está num estágio superior, anoz luz além da maioria dos guitarristas que conheço. É inevitável reparar na sua intimidade com a guitarra.
Qualquer música, desde o heavy metal até o chorinho, se torna um prato suculento pronto para ser devorado. Com muita competência, diga-se de passagem.
Pessoalmente, eu acho que Michel é um músico que atinge a perfeição em suas apresentações ao vivo. Sua energia e sinceridade com o instrumento e com a música chegam a ser comoventes.
Para os meus ouvidos, os arpejos já se tornaram característica marcante nos seus solos. A alta velocidade não agride os ouvidos e a sonoridade é natural e crua, ao contrário dos arpejos esterilizados e sem sabor, executados na velocidade da luz por homens-máquinas, com perfeição computadorizada (leia-se "editada no Pro Tools").
Mas o playground sonoro está nas harmonias e no acompanhamento. É ali que Michel brinca e dá vida à música. É muito interessante reparar como ele cria texturas sonoras lindíssimas e preenche os espaços vazios com muita sabedoria, sem empapuçar o ouvinte e sem colocar a guitarra num plano incorreto.
A guitarra:
Michel utiliza uma guitarra semi-acústica (em respeito ao guitarrista, não vou mencionar a marca. Para maiores informações, acesse o site www.michelleme.com) com encordoamento D'Addario Chromes 0.012 flatwound (encapadas e lisas).
Para a gravação do CD, a guitarra foi plugada em dois amplificadores Meteoro: Jaguar Stereo Chorus 200 (transistorizado) e Classic Deluxe V8 (valvulado), com apenas um reverb digital da Onerr no meio do caminho.
As faixas:
1- Libra
Michel executa o tema principal desta música tocando "chord melodys" num duo com o sax.
Durante o solo do sax, a guitarra dá uma aula de acompanhamento com ótimas texturas harmônicas e rítmo, sem roubar a cena.
2- Frevo do Monte
Um frevo que é muitas músicas em uma e a bateria impecável de Alex: elementos para deixar qualquer ouvinte boquiaberto.
Atenção novamente para o acompanhamento da guitarra durante a execução do tema pelo sax. É interessante ver como Michel entra e sai da melodia do tema com total liberdade musical.
No solo, o suíngue das notas sincopadas e a rapidez com as notas certas.
3- Samba pro Sr. Messias
Chamo carinhosamente de "samba de teleco-teco" (por causa do tamborim no fundo) este samba com sotaque de choro.
Junto com o violão de náilon tocado por Michel, os instrumentos vão entrando aos poucos, dando corpo à música.
Grande parte do solo é feito com chord melodys e a transição entre estes e a melodia linear é feita com naturalidade e bom gosto.
Destaque para o som do violão, que não é processado nem sobrenatural. Este violão tem som de violão, orgânico, imperfeito e maravilhoso!
4- Sete Letras
Michel toca uma viola 10 cordas com afinação E, B, G, D, A.
Sendo um músico não convencional, ele coloca um instrumento não convencional para este tipo de música e toca de uma maneira não convencional para o instrumento.
Durante o solo, principalmente, a viola ganha vida nova quando tocada como um instrumento de 6 cordas.
A afinação diferente, o jeito de tocar e a própria música resultaram numa sonoridade diferente e, no mínimo, interessante.
Quer aprender sax? Ouça a performance de Raphael nesta música.
5- Um abraço
Todo o suíngue e a malícia de acompanhamento de Michel fazem o pano de fundo para o tema, executado pelo sax.
Nesta música, Thiago nos dá o ar da graça, com um solo bem colocado e com bom gosto.
Durante toda a música, Michel demostra grande controle de dinâmica do instrumento, "tirando a mão" quando necessário.
Destaque para a bela sequência de notas oitavadas durante o solo de guitarra.
6- Pretexto (pra tocar)
Um tema que sugere mesmo um grande pretexto pra tocar, com notas sincopadas e muito suíngue.
O solo da música é compartilhado entre guitarra e bateria, apenas. Os dois instrumentos tocam seus solos simultanêamente e, ao contrário do que se imagina, a sintonia é total, preenchendo os espaços sem exageros, sem a chatice dos experimentalismos mais ortodoxos.
7- Samba-Doce
Como diz o nome, é um samba doce mesmo.
O tema, levado pelo sax "malandro" tem as belas harmonias de guitarra no acompanhamento.
O timbre cru da guitarra parece estar mais evidente ainda nesta faixa. E esta simplicidade é uma das características que enobrecem este samba doce e leve.
8- Só Alegria
Este belo tema com um "que" de choro (talvez pela participação da flauta) mantém o suingue o tempo todo. A bateria, sempre na intensidade correta, está em perfeita sintonia com todos os instrumentos, assumindo um papel mais percussivo (no sentido mais amplo da palavra) do que simplesmente rítmico.
9- Trocando Idéias
Se eu pudesse eleger um carro-chefe, seria esta música.
Um misto de melancolia, romantismo e pura inspiração emergem deste tema que literalmente convoca um improviso.
O fato de ter apenas um piano e uma guitarra dão o ar intimista, que faz toda a diferença, ressaltando a beleza da composição e execução de Michel na guitarra e Alex no piano.
Os dois instrumentos são verdadeiros cúmplices, que ao mesmo tempo, cumprem seu papel individual e se completam.
Os timbres estão cristalinos, brilhantes e equilibrados, tornando a audição ainda mais agradável.
Aos 4:47, os dois instrumentos entram numa espécie de "fuga", onde tem-se a impressão de que se afastam um do outro e do tema, caminhando para suas divagações individuais.
Mas preste a atenção e verá que a conexão entre os dois está ali o tempo todo, disfarçada pela sutileza de cada músico.
Aos 5:12, Michel sugere uma harmonia e começa a preparação que culmina no retorno triunfante ao tema.
Essa faixa é um desfile de pura inspiração, sutileza, harmonia (entre os músicos), naturalidade e beleza.
Mais informações sobre o disco e sobre Michel Leme em: www.michelleme.com
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