“Relançamento do CD gravado em trio (guitarra, baixo e bateria), que foi um dos últimos trabalhos gravados pelo baixista virtuose Nico Assumpção. Nico faleceu prematuramente em janeiro de 2001, um mês depois do lançamento deste trabalho.”
O bacana neste disco é a distribuição homogênea dos instrumentos.
A bateria nega a limitação rítmica e assume um papel tão participativo nas músicas quanto o baixo ou a guitarra.
Nico Assumpçao, impressionante!!! Ele eleva o conceito de contrabaixo muito além do que conhecemos, abandonando as simples linhas melódicas de acompanhamento da percussão para fazer uma "cama harmônica" completa e coesa, ocupando vários espaços na banda, deixando Nelson totalmente à vontade para desenvolver os temas ou os solos.
O guitarrista:
Nelson Faria nasceu em Belo Horisonte, MG, e foi criado em Brasília, DF.
Estudou no G.I.T e foi aluno de Joe Pass, Scott Henderson, Ted Greene, entre outros.
Já tocou e/ou gravou com artistas como João Bosco, Ivan Lins, Milton Nascimento, Edú Lobo, Cássia Eller, Toninho Horta, Tim Maia, Nico Assumpção, Wagner Tiso, entre outros.
lecionou por 12 anos na Universidade Estácio de Sá e deu workshops e clinicas em várias instituições educadoras no Brasil, EUA e Suécia.
A guitarra:
Os solos são constituídos, de uma forma geral, por frases curtas e diretas (característica forte do blues).
As frases mais longas são caminhos e preparações para a resolução, sempre com notas perfeitas.
Vamos encontrar pelo disco todo, elementos como pentas “blueseiras”, bends carregados, vocabulário de jazz e fusion, double-stops e interpretações com muito feeling.
As bases são sutís e delicadas. Acordes dissonantes e “redondinhos” são usados com sabedoria e sem excessos.
Nelson toca com palheta e com os dedos, fornecendo a personalidade certa para momentos específicos das músicas.
O timbre da guitarra está matador, no disco todo.
Segundo informações cedidas gentilmente pelo próprio Nelson:
"Fico feliz em saber do site e honrado em inaugurar a coluna.
Gravei o CD "Três/Three" com a minha Telecaster (Fender) ano 1971 ligada direto em linha, sem usar nenhum efeito. Na mixagem, foi adicionado um pouco de reverb. O efeito de chorus e delay que se ouve são resultantes de um dobramento da pista (canal) da guitarra, com defasagem das duas pistas resultantes em poucos milesegundos. Fiz este procedimento em todas as faixas, algumas com a defasagem maior e outras menor, usando meu ouvido como juiz."
As faixas:
1- Eu sei que vou te amar:
Começa despretensiosa, com o famoso tema de Tom Jobim tocado com notas oitavadas.
No momento 4:47", um riff alternando um intervalo de quarta a cada 4 compassos serve de pano de fundo para o improviso do Nelson.
O solo começa com uma frase tipicamente bluseira, com bends e pentatônicas. A riqueza de vocabulário musical é impressionante e fica evidente na utilização de elementos do blues em conjunto com a linguagem fusion, double-stops, sextinas e arpejos.
2- Paca tatu, cotia não:
O tema da música, bem construído, acontece com uma dobra de guitarra e baixo.
O grupo brinca com a dinâmica da música, onde os momentos menos intensos geram o suspense e a expectativa pelo crescente da música e o improviso inevitável.
Não se prenda ao primeiro plano. Perceba a riqueza dos acompanhamentos.
3- Ce sa ce sons pas savas
A música começa misteriosa e não nos dá uma idéia do que irá acontecer.
A surpresa é um trabalho com personalidade explícitamente brasileira.
A condução da bateria é feita com muito bom gosto.
4- Cor de rosa
Uma balada com um tema calmo e agradável.
O timbre do contrabaixo é grandioso.
No solo de Nelson, outro presente aos nosso ouvidos, com elementos marcantes do blues.
Nico Assumpçao é assustador! Seu improviso é salpicado de pequenos temas e frases rápidas.
5- Los Turcos
Apesar do nome, tem forte sonoridade de música brasileira regional.
O delay curtíssimo da guitarra resulta numa ambiência diferente e bonita.
O tema exige dos músicos uma precisão quase cirúrgica, para alcançarem o efeito desejado.
6- Sacopã
Na introdução, Nelson executa um intervalo de 4ª aumentada (um trítono), uma dissonância bem colocada onde percebemos até o batimento de ondas das notas.
O tema desta música dá abertura para que o guitarrista abuse de intrepretação e Nelson deixa isso escancarado neste tema muito bonito, mostrando muito dinamismo e utilizando a intensidade certa nos momentos certos.
Destaque para a bateria, que teve seu arranjo muito bem elaborado e, certamente garante a beleza dessa música.
O timbre do baixo, mais uma vez, deixa qualquer um boquiaberto. Nico usa as notas graves com sabedoria, criando um sólido fundo harmonico para a guitarra solo de Nelson.
7- Juliana
Surgiu uma grande sensação de nostalgia ao ouvir essa música, pois ela me veio aos ouvidos com uma “pitada” de seresta, diluída pelo (muito bonito) tema.
O solo dessa música é baseado em pequenos motivos, que dão o pano de fundo para Nelson desenvolver belas sequências melódicas.
8- Vera Cruz
Espetacular! É o primeiro adjetivo que me surge ao tentar definir o arranjo feito para essa música. Sempre que a ouço, tenho a impressão de estar descobrindo a música mais bonita do mundo!
Apesar da grande variedade de informação musical, não é uma música simplesmente técnica e uma passagem de bateria ou um lick no baixo abre oportunidades para vários momentos distintos com muita riqueza e dinâmica.
Na introdução, o two-hands de Nico, presente em vários momentos, gera o ambiente harmônico para Nelson executar, com muita delicadeza, o tema com notas oitavadas, lembrando a maneira como Wes Montgomery tocava.
Em 2:13, o andamento despenca e a calmaria sugere a preparação para o solo. E surpreendentemente, Nico dá a deixa para um reagge! Através de um sutil anacruse, Nelson entra disparando uma sequência de semicolcheias, quebrada por um double-stop, num solo salpicado de “sabores” blueseiros.
O solo de baixo começa tímido e bem motívico. Aos poucos, as notas são acrescentadas e, quando a música ganha uma nova dinâmica, Nico solta os dedos num improviso perfeito, utilizando com sabedoria a velocidade e o swing.
Novamente, destaco a condução da bateria como grande responsável pela beleza dessa música.
Então, em 6:57, começa uma revelação! É como se a banda preparasse o ouvinte durante todo o CD para esse momento. E o motivo de toda essa preparação é mostrado agora!
O baixo e a guitarra estacionam num riff cíclico e hipnótico, interpretado de uma maneira provocante e que chama para tocar. Esse riff, tocado com firmeza e precisão, deixa o terreno livre para o improviso.
Nesse cenário, o baterista Lincoln Cheib entra em ação. Ele não faz um solo propriamente dito, e sim ornamentos durante as passagens. Ornamentos esses extremamente bem colocados numa bateria muito bem afinada e gravada.
Brincando com o tempo e com a dinâminca do instrumento, Lincoln dá uma nova personalidade para a música e um espetáculo para o ouvinte.
Após atingir o clímax, a dinâmica vai caindo, os instrumentos vão se retirando aos poucos e a música desfalece.
Mais informações sobre Nelson Faria: www.nelsonfaria.com/music/ e www.nossamusica.com/ |