“Esse é meu primeiro trabalho solo, em que misturo sons de guitarras agressivas e pesadas, violões new age ao meu gosto e influência de world music, fusion e música erudita contemporânea.”
Márcio Okayama
Se voce gosta de musiquinhas alegres e inocentes, que tocam no rádio e na televisão, com refrãos grudentos para ficar assobiando e estalando os dedos, não compre este CD.
A impressão mais forte que tive foi que este disco não foi gravado visando apenas o sucesso. Tudo o que ouví me pareceu um grande desabafo musical, sufocado por tanto tempo e que agora, teve a oportunidade de revelar sua inquietude.
O disco é quase como um diário de sentimentos e cada música, uma sensação distinta, um sentimento a respeito de algo que Márcio julga importante comentar. É quase possível sentir o cheiro das idéias fervilhando em sua cabeça.
Em meio a um emaranhado de estilos musicais (de baladinhas até samplers de cantos africanos), recursos sonoros (chaves balançando e bater de portas) e muita liberdade musical, fica a satisfação de estar diante de uma enciclopédia para a minha inspiração e uma obra prima da música, sem rótulos que aprisionem este belo trabalho.
O guitarrista:
Nascido no ano de 1971 na cidade de São Paulo, Márcio teve contato com a música ainda na infância.
Depois de ter bebido de várias fontes diferentes, optou pela guitarra virtuose e o metal pesado.
Influenciado por Randy Rhoads, formou-se bacharel em violão erudito e especializou-se em arranjo, o que lhe abriu os horizontes para outros tipos de música.
Na sua bagagem, constam transcrições para a Cover Guitarra, transcrições e colunas para a Guitar Player, corpo docente e coordenação didática na EM&T, fora produções musicais, trabalhos de sideman com artistas, workshops e atividades didáticas.
Márcio é desses caras em que o conhecimento parece não ter fim. Sua familiaridade com a música, no sentido mais amplo, espanta e toma total atenção do espectador.
Sua linguagem musical e suas idéias de composição são sofisticadas, mesmo quando utiliza elementos básicos para se expressar. Poucos têm o dom encontrar uma utilização sábia para coisas que parecem corriqueiras. Bruce Lee transformava absolutamente qualquer coisa que tivesse nas mãos em uma arma mortal. Márcio transforma uma simples sequência de notas em uma obra de arte.
A guitarra:
Com fortes influências do blues, fusion e world music, Márcio trabalha com muitos elementos para ornamentar sua música: frases blueseiras, bends simultâneos em 2 cordas, repetições de frases (na mesma oitava e em oitavas diferentes) e ligados curtos e diretos.
Essa forma direta de solar já me é familiar graças ao B.B.King, que também não desenvolve frases quilométricas para chegar onde quer.
Seria inocência minha enfatizar sua habilidade em determinadas escalas, já que este disco nos leva a momentos que beiram a atonalidade.
Impossível também seria determinar sua especialidade, já que as execuções tanto na guitarra quanto no violão são perfeitas, com muito sentimento e bom gosto.
“Sou fã dos Marshalls. A maior parte das guitarras foi gravada com eles, principalmente um Plexi de 100 watts, roxo (originalmente do André Christovam), meu xodó.
Usei, em algumas bases, um Mesa Boogie Mark IV que o Sergio Buss e o Edu (Ardanuy) também utilizaram, e um pré da Ada (MP1), que tenho há anos, usado em alguns solos; além de um Phelpa de 30 watts dos anos 60.
Ligo os pedais diretamente ao input, sem dividir o sinal, para dar uma sujeira similar à que o Eric Gales usa (escola Hendrix e Randy Rhoads).
As guitarras usadas foram, na maioria, uma Music Man VH, uma Steinberger GM, uma Tele "mutante" e minha Fender reedição japonesa ( ela já foi muito chutada e batida no chão, mas continua funcionando muito bem).
Em relação aos efeitos, usei um Wha da Morley, um Turbo Overdrive da Boss, um Digital Delay e um Dimension, da mesma marca.
Fechei uma parceria de endorsement com uma companhia chamada ESI. Eles desenvolveram um pedal signature chamado "M.Okayama Dual Overdrive", cuja principal característica é alcançar muitas variações de dinâmica.
Na microfonação uso sempre um SM 57 na boca do falante, onde o sinal apresentar mais ruído. Nas bases, esse sinal é somado a um Neuman, usado como ambiência no canto da sala.
Sempre toco com cordas 0.010 ou 0.011, isso mantém a pegada mais agressiva e ajuda a "empurrar" o drive.” Márcio Okayama.
As faixas:
1- Inconcrete
O clima de suspense com muitas dissonâncias que, intencionalmente ou não, tem mesmo cara de introdução, já nos dá uma prévia do disco. Entre os muitos elementos que transitam nesta faixa, pode-se perceber guitarras blueseiras abrindo passagem para um clima com um “que” de baião.
2- Exobiologia
Som progressivo que lembra uma mistura de Rush e Hermeto Pascoal.
Com muitos climas e momentos distintos, essa música parece contar uma história, com um começo intrigante, muitos interlúdios caóticos e um final triste e melancólico.
Destaque para os timbres matadores de guitarra: os riffs feitos com uma Fender Strato, os solos ferozes com uma Music Man EVH e o último solo com uma telecaster batizada de “Frankenstein”.
3- Angel (Morning Star)
Belo tema, leve e melancólico, que termina num hard-baião, com acordes de Fender Strato e solo furioso da Music Man EVH.
No início deste tema, Márcio usa um elemento que gosto muito, que é a repetição de uma sequência de notas uma oitava acima.
Destaque para Zuzo Moussawer no baixo fretless e na suigueira do baião.
4- Suyas Song (Soconti Missu)
Nesta faixa, vemos o ecletismo musical e instrumental de Márcio.
Um improviso sobre alguns temas, feitos num violão com sotaque de viola.
Belas progressões, hammers on e pulls off, baixos pedal e harmônicos bem colocados fazem desta música uma de minhas preferidas no disco.
Destaque para o violão, com sonoridade natural e imperfeita. Com som de violão. Com o som que todo violão deveria invejar!
5- Zen Turtle
Introdução tensa e inquieta, que remete à sonoridades tribais misturadas às lembranças orientais das mil e uma noites.
Na sequência, um tema cálido e envolvente. A tonalidade menor dá o clima de saudosismo e a deixa para um solo furioso e sujo, bem ao estilo de Márcio.
6- Fuga para o Frank
A música mais insana do disco (e uma das mais insanas que já ouví).
Um clima futurista, inconstante e pasteurizado despejado num contraponto cíclico e hipnótico entre várias vozes de instrumentos sintetizados.
7- Laya
Incrível como Márcio consegue mesclar a inocência de uma canção com timbres poderosos de guitarra
Esta balada fusion é leve, agradável e descompromissada.
O belo tema e bom gosto nos teclados e no baixo são o pano de fundo para a coleção de timbres de guitarra que Márcio faz desfilar nessa música.
8- Cry
Homenagem a Jason Becker, esta música apresenta muitas dissonâncias, contraponto entre shamisen, baixo, guitarra, piano e claro, frases na velocidade da luz.
Os sons de cravo misturados aos timbres distorcidos de guitarra dão um ar barroco modernizado que antecedem o final da peça, com os gritos agonizantes da Fender Strato.
9- Embu
Não sei se é influência psicológica do nome, mas esta canção tem mesmo cara de música regional.
A bela execução do tema no violão, bom gosto em harmônicos e baixos pedal dão a personalidade e o charme para esta canção.
10– Jabuti
Esta música tem uma “vibe” muito grande, devido à enorme quantidade de elementos sonoros que ouvimos ao longo de sua execução.
Com o sotaque indianordestino dando o pano de fundo para o improviso livre no violão, os vários sons aleatórios que são percebidos, as camadas de texturas feitas no teclado e a sonoridade pedal ao fundo fornecem uma grande riqueza harmônica à esta canção.
11– Réquiem
De um tema, Márcio expandiu as possibilidades, criando vários climas para esta música.
A introdução New Age começa melancólica e, durante um interlúdio de suspense, dá espaço para um baião-metal, com solos de guitarra com timbres vigorosos, wah wah estridentes, frases blueseiras e trinados cortantes.
Mais informações em: www.mokayama.com
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