Dizer que um disco de jazz ao vivo normalmente é melhor que um em estúdio é “chover no molhado”, mas a discografia jazzística tem comprovado esta afirmação e imortalizado encontros inesquecíveis. Basta lembrar de dois CDs históricos lançados em 2005 - Thelonious Monk & John Coltrane, no Carnegie Hall, e Dizzy Gillespie & Charlie Parker, no Town Hall, ambos em Nova York. Estas duas gravações captaram quatro gênios em momentos de pura liberdade e espontaneidade, características básicas de apresentações ao vivo.
Felizmente, momentos como estes têm acontecido com freqüência nos dias de hoje e continuam sendo registrados. Exemplo disto é o CD New York Cool: Live At the Blue Note, que traz o trio formado pelo saxofonista Donald Harrison, pelo baterista Billy Cobham e o veterano baixista Ron Carter em um show no clube nova-iorquino.
A ficha corrida dos três músicos é um bom sinal. Vejamos. Harrison é saxofonista alto, nascido em Nova Orleans, ex-parceiro de Terence Blanchard e um dos pupilos de Art Blakey. Cobham trabalhou com Horace Silver e George Benson, antes de se juntar a Miles Davis, e em seguida assumiu as baquetas da Mahavishnu Orchestra. Já no caso de Ron Carter, não é necessário falar do mais importante baixista de todos os tempos ainda em atividade. Outro detalhe, os três já se encontraram outras vezes e até gravaram um CD, Heroes, de 2004.
Sobre o show, o trio não se arriscou e preferiu um repertório mais conhecido. Eles abrem com o clássico “Body and Soul”, que aqui recebe uma versão de quase 11 minutos e tem um solo marcante de Carter. Em seguida, o grupo ataca com “Harrisburg Address”, composição de Harrison, que deixa evidente a influência de Nova Orleans no trabalho do saxofonista, e “Easy Living”, momento cool do espetáculo. Com “I’ll Remember April”, o ouvinte é arrebatado de vez e agradece por estar presente em um momento tão sublime.
O trio ainda reserva outros dois momentos autorais. A preciosa “Third Plane”, composição dos tempos em que Carter tocava no quinteto V.S.O.P., e a sensual “Blues For Happy People”, na qual Harrison deságua toda a sua técnica e improvisação. Só há uma observação negativa sobre o CD: é claro que não foi editado no Brasil, isto seria pedir de mais.
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