Dois sentimentos opostos – alegria e tristeza - vêm a minha cabeça quando escrevo ou escuto algo sobre o pianista Kenny Kirkland. A alegria acontece toda vez que ouço seus solos ao lado de feras como Elvin Jones, Sting e os irmãos Wynton e Branford Marsalis. Logo em seguida, uma tristeza paira pelo ar e um sentimento de pesar me consome por alguns segundos.
A morte prematura do pianista, em 1998, com apenas 43 anos de idade, ainda não foi bem digerida. É claro que Kirkland não foi o único que morreu jovem. O mundo do jazz está cheio de exemplos, é só lembrar de Charlie Parker, Clifford Brown, Lee Morgan, Dinah Washington e Raphael Rabello. Apesar do ditado “para morrer basta estar vivo”, é sempre um baque quando um jovem talento desaparece de uma hora para outra.
Influenciado por Herbie Hancock, a carreira de Kirkland foi recheada de parcerias e apresentações irrepreensíveis. No início dos anos 80, o pianista trabalhou com o trompetista Wynton Marsalis. Em seguida, ao lado do saxofonista Branford Marsalis, participou das gravações e da turnê dos discos Nothing Like The Sun e do clássico álbum Bring On The Night, ambos do cantor Sting. A parceria com Branford continuou no início dos anos 90, quando lançou seu primeiro e único CD solo, Kenny Kirkland.
Neste disco solo é possível sentir toda a vitalidade do toque de Kirkland. Acompanhado de Branford, Jeff “Train” Watts (bateria) e Charnett Moffett (baixo), o ouvinte tem como cartão de visita o tema “MR. J.C.”, uma piração de oito minutos de duração de tirar o fôlego. O mesmo acontece com a versão “When Will The Blues Leave”, de Ornette Coleman, com destaque para o sax alto de Roderick Ward, pseudômino criado pelo saxofonista Kenny Garrett, e o baixo de Moffett.
Em “Chance”, com a formação clássica de trio – piano, baixo e bateria – Kirkland diminui o ritmo sem deixar de lado sua destreza e criatividade características. O clima tranqüilo também rege “Revelations” e “Steepian Faith”, com Branford atacando seu sax soprano, e em “Ana Maria”, de Wayne Shorter. Kirkland mostra sua influência latina em temas como “Criss Cross”, composta por Thelonious Monk, “Celia”, de Bud Powell.
Apesar da sensação de alegria e tristeza citada no início do texto, sempre o sentimento de alegria acaba imperando. A experiência é similar ao ouvir mestres como Miles, Monk, Gillespie e Ellington, ou seja, uma profunda nostalgia e uma prolongada sensação de prazer e recompensa. O disco está fora de catálogo, mas vale a pena garimpar por aí para encontrar um exemplar.
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