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MAIDEN VOYAGE


A trajetória da cantora Leny Andrade é o retrato claro de como o Brasil reverência sua música e seus intérpretes. Considerada uma das melhores vozes em todo mundo, Leny apareceu no fim dos anos 50 se apresentando no famoso Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, ao lado do trio de Sérgio Mendes. Em seguida trabalhou como crooner da orquestra de Dick Farney.

Ao logo de meio século de carreira, a cantora fez discos sublimes ao lado de feras como César Camargo Mariano, Romero Lubambo, Cristóvão Bastos e dividiu o palco com nomes do quilate de Luiz Eça, Wagner Tiso, Eumir Deodato, Francis Hime, Gilson Peranzzetta e João Donato. Apesar da qualidade vocal indiscutível, Leny nunca conseguiu o espaço e o reconhecimento que merecia no Brasil. Diante disto, Leny “aceitou” o conselho do ex-presidente da Fiesp, Mário Amato - que disse que a melhor saída para o Brasil era o aeroporto - e foi fazer carreira fora do país.

Durante seu longo exílio, a cantora se apresentou nas principais casas de show da Europa, Japão e Estados Unidos. Nos anos 90, sua carreira internacional ganhou um registro ao lado do pianista norte-americano Fred Hersch, no disco Maiden Voyage. Com participação do baixista David Dunaway e do baterista brasileiro Hélio Schiavo, Lenny e Hersch criaram um dos melhores trabalhos da discografia da cantora.

O disco abre com a obra-prima de Rodgers e Hart, “This Can’t Be Love”, com um arranjo à bossa nova e scat de primeira de Leny. Tom Jobim está representado pela singela “Dindi”, interpretada em inglês e apenas com o acompanhamento de Hersch, e “Wave”. Outros momentos de voz e piano acontecem em “My Funny Valentine”, no clássico de Luiz Bonfá, “Manhã de Carnaval” e “Cantor da Noite”, composta por Ivan Lins e Vitor Martins. A dupla Lins e Martins também aparece em “Velas Içadas”, sem dúvida, a melhor canção do álbum.

O clima mais jazzista pode ser escutado em “Lover”, de Hart e Rodgers, e na interpretação irrepreensível de “Maiden Voyage”, clássico de Herbie Hancock, com destaque para o solo de Hersch. O álbum fecha com a onipresente “I’ve Got Under My Skin”, “Ribbon In The Sky”, de Stevie Wonder, “Tardes”, de Milton Nascimento, e o samba “Weekend”, composto por Luiz Eça.

Felizmente, nos últimos anos, a música brasileira tem conseguido mais espaço entre nós. Ainda não é o ideal, mas é um começo. Um dia, quem sabe, o Brasil descubra quem é Leny Andrade. Só espero que não se repita o que aconteceu com Tom Jobim, Raphael Rabello, Noel Rosa, Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Victor Assis Brasil, Baden Powell e tantos outros, que precisaram desaparecer para serem reconhecidos.



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