Carlos Figueiredo foi um dos grandes trunfos da Ediouro na literatura juvenil nos anos 70-80, sua série Dico e Alice, assídua freqüentadora das mochilas dos estudantes e bibliotecas escolares da época.
O primeiro livro da série finalmente voltou às livrarias pela editora
O que diferencia as Literaturas Juvenil e Adulta?
CF - O nível de percepção. A pessoa adulta foi jovem mas o jovem não foi uma pessoa adulta. No máximo, virá a sê-lo.
Qual é o maior desafio do escritor juvenil?
CF - A rigor, seria o mesmo desafio de um escritor para um leitor de qualquer idade. No entanto, o escritor para o leitor iniciante tem um compromisso, que deve ser assumido, semelhante aquele do traficante, ou seja,o de procurar viciar o seu freguês. Digo, para minhas filhas, que o pai é uma espécie de traficante, buscando viciá-las em livros.
Como surgiram Dico e Alice na sua história de vida?
CF - Pedrinho e Emília. Principalmente, Emília. Mas, de uma maneira fortíssima, a idéia de heróis que não fossem estereótipos do machismo nacional, uma das maiores razões do nosso atraso. Basta ver a quantidade de mulheres assassinadas por seus parentes, em Pernambuco. A idéia de uma garota que fosse, no fundo, o personagem principal.E que fossem gêmeos quase indistinguiveis, um do outro.Tudo neles é antimachista. Trata-se de uma criação política. Não simplória, naturalmente, tipo esquerda e direita.
Qual seu processo criativo, ou seja, o caminho do nascimento de uma história até o trabalho final?
CF - Varia muito. Mas o começo é sempre uma idéia ou uma lembrança. No caso, por exemplo, de "O Pajé Misterioso", foi a idéia de escrever um texto somente com diálogos. Em "Atacama, o deserto da morte", foi a lembrança de uma visita que fiz às cavernas perto de Antofagasta. Em "Uma aventura nas Bermudas", a leitura de um episódio semi-lendário, ocorrido com o imperador Carlos Magno. Às vezes, uma frase que soa bem. A partir dessa idéia inicial, seja ela qual for e de onde vier, tem início o processo de redação, que se assemelha muito a execução musical, em razão, principalmente, do ritmo. Um, dois, três, quatro... Aí, a narrativa vai encontrando seus caminhos próprios. Embora eu não siga regras definidas, um aspecto importante é a surpresa. Já mudei radicalmente algumas narrativas por causa disso. O leitor não pode antecipar o que vai ler. Para ele ficar interessado e prosseguir na leitura, é necessário deixá-lo intrigado, a cada linha. Outra coisa importante é a questão do tempo, da relação entre o desenrolar da história e a posição no texto. O sentido do tempo é que permite seguir um ritmo, e o ritmo é soberano. O Auden defendia as regras da composição poética porque muito poucos têm o ouvido. Escrevo falando o texto em voz alta, enquanto vou digitando. Tem de soar, como uma espécie de música, a partir do som de cada palavra encandeada com a outra, de cada frase, período, parágrafo, página, capítulo, até a história inteira, que tem de ser íntegra, sem que se possa tirar ou por mais nada.Ou então, pensado de outro jeito, talvez, no fundo, a escritura seja uma espécie de alquimia: solve et coagula.
Como foram as vendas, na época
CF - Não sei. Como eu vendia os direitos autorais, não tinha percentagens nas vendas, não fiquei sabendo. O fato de eles terem feito uma segunda edição da série, já com o meu nome e não com o pseudônimo que a Ediouro escolheu (José M. Lemos) para a primeira edição, indica que deve ter vendido bem. 5
Você tinha algum retorno, sabia quem eram seus leitores?
CF - Zero. Nada. Ou melhor, uma vez s ó. Eu estava na casa de uma pessoa conhecida, estávamos trabalhando na sala, era de noite, e a mulher dele chegou para as duas filhas que brincavam em um canto dizendo que estava na hora de dormir e, para minha total surpresa, prometeu ler uma história do Dico e Alice. Me levantei, fui até elas e fiquei conversando sobre os meus personagens, sem dizer que eu era o autor dos livros. Elas eram leitoras assíduas da série e ficaram impressionadas com os meus conhecimentos...
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