| | ENTREVISTA |  |  |
| Paffomiloff entrevista Antônia Levi | 
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A doutora Antonia Levi é professora na Portland State University, autora do livro Samurais from Outher Space, leitura obrigatória para compreensão dos Animes . Ela está fazendo uma pesquisa na Web sobre animação japonesa.
Leia Outra entrevista com ela. Antônia num evento de Anime.
| Normalmente, Otakus tem opiniões sobre tudo. Os desenhos animados japoneses estimulam os jovens a pensar sobre tecnologia e relações humanas mais profundamente do que os desenhos animados ocidentais? | Provavelmente mais do que os desenhos animados ocidentais, cuja maioria é voltada para crianças, e apresentam um retrato muito simples das relações humanas e da tecnologia. Eu acho realmente que, mesmo os desenhos animados, como Pokemon, ou Captor Sakura, apresentam um desenvolvimento mais complexo dos personagens e dos relacionamentos, se comparados com os desenhos ocidentais. Não tenho certeza sobre tecnologia. É diferente, mas não necessariamente mais complexo, ou mais cuidadosamente explicado, ou associado à ciência real. Entretanto, acho que a tendência dos fãs de qualquer show de pensarem mais profundamente sobre os relacionamentos, sobre a tecnologia, e (eu acrescentaria) sobre as questões morais apresentadas, é verdadeira para qualquer show que apresente complexidade suficiente para permitir isso. Por exemplo, os fãs de Star Trek (Jornada nas Estrelas) são famosos por esse tipo de discussão. A verdadeira diferença a esse respeito não está a mídia, mas na Internet, que permite às pessoas que não participam de "cons" (não sei o que possa ser essa palavra, Paffo, talvez um encontro, congresso, do pessoal), nem de grupos de aficcionados, possam participar dessas discussões. A maior diferença é a Internet, mais do que a chegada dos desenhos animados japoneses (anime). Otaku sempre fez isso com os desenhos animados. A diferença é que agora, as pessoas que assistem apenas a um ou dois desenhos na TV à noite, também podem estar fazendo isso. Outra diferença é que os jovens estão fazendo isso: garotos e garotas, cujos pais provavelmente não os deixariam ir a um "con" sozinhos. Acho que isso é saudável. Faz com que os jovens acostumem-se a se expressar por escrito sobre alguma coisa, e também lhes apresenta as coisas básicas do pensamento crítico, para irem além da diversão passiva, para pensarem no que estão vendo, e aprender como compartilhar suas opiniões com outros que possam ter pontos de vista diferentes. Isso os apresenta ao valor da discussão, e também lhes mostra que uma discussão não é um debate, nem uma argumentação, mas uma conversa, onde todos aprendem com todos... exceto, claro, quando houver alguma briga sem sentido.
| Séries, como Tenchi Muyo e Chobbits, mostram a sexualidade e os comportamentos de formas muito diferentes daquelas sonhadas pelas lideranças da sociedade Cristã. Como o governo dos EUA (como o ACT) e os pais encaram essa dissonância? Fale-nos sobre a censura em Macross e Pokémon. | Você está falando de algo como o modo bobo de agir dos personagens depois de beberem tanto "chá" no TM? Ou de como Zoicite transformou-se numa garota para ocultar o fato de que ele e Malachite eram amantes homossexuais? Não me mantenho atualizada sobre as mais recentes idiotices da censura, portanto não posso lhe dar muitos exemplos. É uma coisa ridícula, e apenas destaca os pontos que esses grupos querem censurar. Novamente, a Internet é que tem o principal papel. Os jovens ficam on-line e tomam contato com as mudanças que ocorreram. Saber o que foi censurado, ou o que mudou, acaba dando muito prestígio. Como resultado, os jovens que não estão particularmente interessados na sexualidade, ou seja lá no que for, acabam ficando mais interessados. Minha própria experiência mostrou que as crianças que ainda não atingiram a puberdade não têm nenhum interesse em sexualidade. Elas apenas ignoram as cenas de sexo que acontecem nos desenhos que vêem. Quando se trata apenas de uma insinuação ou alusão ao sexo, isso passa direto pelas suas cabecinhas. O filho (8 anos) e a filha (9 anos) de um amigo meu adoram Cutey Honey, por exemplo, e seus pais são sensíveis o suficiente para deixá-los assistir, apesar das constantes alusões a velhos sujos, fetiches bizarros, e outros temas sexuais. Eles compreendem que seus filhos não percebem nada disso. Eles gostam das roupas selvagens e da forma com que Cutey Honey se transforma. É o mesmo caso dos shows como TM e Chobbits... a não ser, é claro, que algum grupo saia por aí dizendo a essas crianças que aquilo que estão vendo é nocivo ou sujo. Dessa forma, claro, as crianças vão prestar atenção nisso. Pais que se preocupam com essas coisas deveriam pedir aos filhos que lhes contassem a história da forma com que as entendem. Quase que com certeza eles vão ficar surpresos ao saber que seus filhos não viram o mesmo programa que eles viram (sexualmente explícito).
| | Desde o Production Code de 1934, os desenhos animados norteamericanos sofreram violentas restrições e foram orientados às crianças. O Código condenou desenhos como os de Betty Boop, reprimiram relacionamentos interraciais, etc. Você acha que isso funcionou contra o desenvolvimento da Animação no Ocidente como uma forma de arte completa, em oposição ao Anime? | Ah, sim. E não apenas as questões raciais ou o Código de 1934. A censura posterior das revistas em quadrinhos e dos desenhos que apareceram na década de 50, depois que Wertheim publicou "Seduction of Innocence", realmente destruiu uma forma de arte americana que, na minha opinião, teria o potencial de ser tão vital e criativa como o manga e o anime japoneses. Atualmente. já há alguma recuperação, mas levará um bom tempo até que chegue àquele ponto... se é que chegará algum dia. Eu estive no Comic Con de San Diego muitas vezes. Sempre achei que era um tanto triste. Há tantos jovens artistas realmente talentosos, sem que nenhuma indústria lhes dê apoio, e nenhum público leitor que possa apreciá-los, mesmo que houvesse uma indústria mais saudável. Para a maioria dos americanos, revistas em quadrinhos e desenhos animados ainda são descartados (normalmente não vistoss e não lidos) como coisas superficiais, triviais, que servem apenas para crianças e idiotas. É uma profecia que se auto-realiza.
| Na sua opinião, quais são os temas mais importantes do Anime?
| 1. Relações humanas e decisões éticas. 2. Tecnologia e Ambiente. 3. Tecnologia e o seu significado para os humanos... coisas de cyborg. 4. A face do futuro e a questão de termos ou não termos um futuro.
| Grandes civilizações, com as do Egito e da Mesopotâmia, emergiram da confluência de culturas diferentes. A interação produz o novo - como diz Massamune Shirow. Quais estão sendo as conseqüências da interação entre Anime e a indústria de entretenimento americana?
| Acho que ainda é cedo para dizer alguma coisa. Até agora, o principal efeito foi um aprimoramento pronunciado da animação americana, em parte devido à concorrência, em parte aos novos artistas que aprenderam com anime. Felizmente, os manga-ka japoneses têm sido cuidadosos e criteriosos com o que tiram dos exemplos americanos; eles não absorvem muito, o que é bom, pois são muito mais avançados nesse campo... exceto pelo lado tecnológico da produção.
| O que você considera como sendo a contribuição mais importante do Anime?Seria o lado luminoso da globalização?
| Sim, é. Mas, de novo, acho que é muito cedo para dizer qual foi a contribuição mais importante. Eu tenho muita esperança no anime para crianças. Em todo o mundo, as crianças estão compartilhando alguma coisa da mesma infância. Acho, e espero, que isso faça com que seja mais fácil para elas entenderem umas às outras no futuro.
| A Filmation (Lou Scheimer e Norm Prescott) tentou desenvolver um herói 100% negro - o Blackstar - mas foi forçada a mudá-lo. Nadia, do Secret of Blue Water, não teve esse tipo de problema. Tomoio realmente ama Sakura. Touya e Yukito insinuam um relacionamento homossexual. Você acha que Anime atua contra a segregação?
| Ele pode. E o fez certamente quando Robotech (o Macross original) apareceu pela primeira vez nos EUA. Apresentava uma mulher negra (Claudia) apaixonada por um homem branco (Ray, ou Roy?) numa época em que isso não era visto na TV americana. Imagine como os americanos ficaram chocados com aquilo, da mesma forma como ficaram chocados com a morte de Roy... a morte dos mocinhos era outra coisa que não acontecia na TV americana... Claudia foi devastada.
| Qual é o melhor Anime para você? | Eu adoro ficção científica e todos os tipos de fantasia, portanto esses são os tipos de Anime de que eu gosto. Gosto de Animes que misturam comédia com dramas sérios, e idéias sérias com diversão simples. Também gosto de coisas experimentais; recentemente, andei vendo Boggie Pop Phantom com histórias sobrepostas para criar uma história complexa, mais ou menos como Memento fez, apenas com mais de um personagem principal... não é um êxito total, mas é fascinante. Também gosto de qualquer coisa que venha do Studio Ghibli.
| Laputa é a cidade imaginária das viagens de Gulliver. Lupin era um ladrão elegante de Leblanc; Hendi era um livro de Johanna Spiri e Coeur da Amicis. Agora, Miyazak está fazendo Moving Castle, de Howl, da Diana Wynne Jones. Como é o relacionamento entre a literatura juvenil ocidental e a animação japonesa?
| Na melhor das hipóteses, a ligação de Laputa com as viagens de Gulliver é marginal. Miyazaki teve a idéia da cidade voadora, mas não se assemelha em nada com a aparência e com o objetivo da Laputa de Swift. De fato, isso criou algumas dificuldades quando Laputa foi traduzida. Muitos americanos falam espanhol o suficiente para entender que La Puta que dizer "a puta (prostituta)". Claro, essa foi a intenção de Swift ao dar esse nome à cidade, mas Miyazaki não entendeu aquilo. Ele achou que fosse apenas um nome bonito para uma cidade voadora. Não há nada nesse filme que justificasse aquele nome. Disney mexeu com essa questão ao utilizar a semelhança R/L em japonês e tornou-se Raputa. Lupin III nem é criação de Miyazaki. Lupin III já era um personagem estabelecido no manga, e tinha pouca ligação com Leblanc, além do nome, quando Miyazaki fez a franquia e produziu Castle of Caliostro... de longe o melhor Lupin III que já existiu. Este foi o filme que transformou Miyazaki num astro, BTW. Embora na época em que ele concordou em fazê-lo, ele não tinha muito apoio, e ficou feliz por ter feito um bom trabalho. Heidi ficou mais ou menos parecida com o original, mas isso aconteceu ainda antes. No início, Miyazaki também fez Sherlock Hound, e muitos outros desenhos animados sem inspiração, enquanto aprendia seu ofício. Não sei nada sobre o último projeto de Miyazaki. Nem mesmo li o Moving Castle de Howl, embora esteja na minha lista de coisas a fazer. Mas aposto que o produto final não se parece em nada com o livro de Jones.
| Você não acha que Atlantis é uma versão molhada da Laputa de Miyazaki?
| Eu não vi Atlantis. As pessoas me disseram que é baseado na Nadia do Blue Water, mas não posso dizer, porque não vi Atlantis. Com certeza deve se parecer bastante com o mundo de Nadia.
| Você acha que o Buenavista está fazendo um bom trabalho com os filmes de Miyazaki?
| Está OK. Houve alguns problemas com o que eles fizeram em O Serviço de Entregas de Kiki, mas de qualquer forma, nunca foi o meu filme preferido de Miyazaki. Achei que eles fizeram com que Kiki parecesse muito infantil e Jiji cínica demais. Também nunca entendi porque não há legendas para a música Princess Mononoke; aquela letra é importante. Acho que A Viagem de Chihiro é de longe a melhor. Basicamente, acho que se atrapalharam na distribuição. O marketing de Kiki foi muito pobre. Fizeram um esforço maior com Princess Mononoke; a contratação de muitos figurões (Gaiman, assim como os atores das vozes)foi provavelmente uma boa estratégia publicitária, mas depois eles exibiram o resultado em poucos cinemas. Só depois que ficou claro que Mononoke estava se tornando popular, apesar da falta de qualquer publicidade, ou amplitude maior de distribuição, eles fizeram uma divulgação melhor. Com A Viagem de Chihiro, eles não usaram nenhum grande nome, e a publicidade foi ainda menor, depois relançaram e ganharam um Oscar. Não acompanhei o que eles fizeram com Castle in the Sky, mas eu nunca vi em nenhum cinema. Eu desconfio que, aqueles que trabalham diretamente com o material, sabem o que têm em mãos, mas os que estão mais acima não sabem. E não, não tenho informações privilegiadas sobre isso. É apenas um palpite. |
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