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 Literatura Juvenil
Paulo Ferreira  "Paffomiloff"
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ENTREVISTA
Paffomiloff entrevista Ângela Carneiro

Ângela CarneiroRespeitada escritora carioca, vencedora de inúmeros prêmios e indicações da FNLIJ.

Will Eisner dizia que, antes de desenvolver um estilo próprio, deve-se aderir ao estilo de algum autor que admire. Quais são suas principais influências em termos de texto?

AC - Engraçado, ontem mesmo conversava com meu marido a este respeito. Muitas vezes, confundimos nossos autores prediletos com quem nos influenciou. Claro que li e reli Laura Ingalls, Monteiro Lobato até decorar! Mas, certamente, influência mesmo , foram as aulas de declamação que tive quando criancinha!

Ainda tenho o livro de poesias, creio que o nome da poetiza era Maria Sabino, mas não juro( o livro está sem capa)! Eu tinha uns 3 anos quando tudo isso aconteceu, depois, decorava os poemas (alguns sei, é claro até hoje!) . Sim, em termos de estilo foram os poemas infantis dela e de Luiz Peixoto. Reconheço alguns adjetivos, alguma música semelhante no meu texto.

Você também domina  inglês, alemão, italiano, pelo que sei. Acha que tal conhecimento a ajudou a ampliar a sua capacidade narrativa, como Marx afirmava?

AC - Eu acho que aí foi um complicador. (domino alemão não! só falo um pouco. Dá só pra consultas. Mas falo francês com relativa facilidade) Como fiz intercâmbio numa época complicada (1971) tive alguns grilos (como se dizia na época). Daí, o inglês entranhou um pouco na escrita.

Descobri isso mais tarde, um colega de trabalho ( secretaria de educação) me apontou a inversão dos adjetivos, coisas assim. Mas nada grave. É só ter um pouco de atenção. O bom de ler em outras línguas, aí sim, é o acesso a diversos originais. Eram poucos os livros para crianças na minha infância. Então, os estrangeiros eram bem-vindos!

Suas habilidades gráficas a ajudam a visualizar as histórias? 

AC - Sem dúvida! Mas prefiro que outros ilustradores me ilustrem. Uma grande emoção foi ver as ilustrações que Roger Mello fez para O Inventor de Palavras. Todo mundo esperando a casa na árvore, como Roger iria fazê-la. Aí,pimba! ele não fez! Preferiu o traço da emoção dos rostos! Grafite puro em papel ofício!!.

Como ilustradora, você coloca referências visuais que reportam a outros artistas. Quais seus artistas favoritos? 

AC -Sim! Faço isso! Usei Salvador Dali para ilustrar o livro do Assis Brasil, por exemplo. E, no final do Meu Olho é Um Planeta, usei todos e mais alguns! Acho que Salvador Dali. É. Obrigada por me perguntar! ajudou-me a perceber!

Quais prêmios você ganhou?

AC -Autor Revelação, Jabuti e Altamente Recomendável ( Caixa Postal)    Melhor livro do Ano da FNLIJ, Melhor Livro do Ano da SPCA , Melhor livro do ano da ABL - com a coleção 12 olhos e uma história.  

Ainda, alguns Altamente Recomendáveis, a coleção 7 pecados, creio.    Não me lembro se Caixa Surpresa ganhou, acho que sim. Mas não me lembro.    Mas, na realidade, vou te contar uma coisa linda: meu primeiro livro, escrito em parceria com Malu Alexim, chama-se Qual o Caminho do Sol? . Pois bem, fui no Sem Censura divulgar. Imagine, época de eleição, ninguém dando bola pra isso. Mas, havia um homem, coitado, cujo filho estava com leucemia, ele estava querendo ajuda financeira para transplante de medula. Dei um exemplar para o menino. O tempo passou. Recebo um telefonema, era o pai do menino.

A criança tinha falecido, e ele, pai, desesperado, quis saber em que o menino pensava antes de ir, pegou o meu livro, pois tinha sido o último livro que a criança tinha lido.

Abriu em qualquer página. Leu: Subindo crescendo voando , sou mais leve que uma pena, sou pássaro colorido, sou veloz como uma rena. Sou gaivota esfomeada, sou pipa no alto do morro, sou bandeira desfraldada. Sinto paz, sinto poder,é calafrio, é arrepio, é maravilhoso saber ser, sou ser veloz, super-herói ou balão a gás.

Não sei, só sei que sinto paz. O pai entendeu como um recado, então, pediu-me autorização para que o texto constasse no santinho do menino. CLARO! Aquilo me marcou. Entendi a responsabilidade, onde é que nós escritores chegamos sem pensar.  Esse foi um grande prêmio.

Fale sobre o projeto o Caixa Postal 1989

AC -Obrigada por perguntar! Morei em Minas.

Depois que voltei, uma amiga me disse: reli suas cartas! você escreve cartas ótimas! Decidi escrever um livro em cartas. Pedi para LOR ser meu parceiro. Ele disse que não tinha vontade. Pedi para o saudoso Ganimedes José. Mas ele estava doente. Nos correspondemos bastante. Excelente criatura! Então, resolvi escrever o duplo papel de Leo e Laura.

Mas, soube que Vivina de Assis estava lançando um diário. Achei que eu estava chovendo no molhado, telefonei para ela. ó! ela e Ronald Claver estavam lançando Pedro e Bia!! 

Exatamente o que eu tinha imaginado. Parei de escrever, esperei Vivina me mandar seu livro. Ela disse para eu escrever , que não importava haver outro semelhante, me deu muita força.  Li Pedro e Bia e vi que, apesar das semelhanças, eram intrenções diferentes. Eu queria discutir alguns temas que Pedro e Bia não abordavam. Então, escrevi.

No meio do texto, entrei em crise! Pedi socorro para a fabulosa Helena Rodarte. Fui até a casa dela: Helena, lê! é isso literatura? Helena estava lendo partituras...  Deixou as partituras de lado, leu meu texto e disse: continua! é isso!  José Olympio publicou, surpreendentemente resenhas surgiram, prêmios, cartas, muitas cartas de leitores!  Eles pediam mais. Então, anos depois, escrevi Eu te Procuro. Laura e Leo escreviam, agora, no computador, nada mais de correio.

Este ano, começo a receber mails de leitoras! Uma delas dizia que seu nick name era Angela Carneiro, que seu blog se chamava Caixa Postal 1989.

Uau! que homenagem linda! 

A leitora já tem 23 anos. Outra leitora, de 19, me escreve, e mais outra de 20.. é , as Laurinhas cresceram, queriam saber como é ser Laura aos 24 anos! Pediam continuação. Então, estou escrevendo o blog, Caixa Postal 2003, onde Laura, aos 30 anos, recorda seus 20 anos enquanto espera Leo voltar da Inglaterra para ser seu chefe na editora Lemos e Escrevemos

(O nome da editora é uma brincadeira, pois, agora, meu nome é Angela Lemos, deixei o Carneiro  como artístico).

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