| | ENTREVISTA |  |  |
| Paffomiloff entrevista José Roberto Whitaker Penteado | 
| José Roberto Whitaker Penteado é um dos grandes nomes do marketing no Brasil, haveria muito que falar sobre ele, mas o que nos interessa em particular é que sua tese de doutorado gerou o livro Os Filhos de Lobato. Sua obra se volta para o leitor de Lobato, oferecendo uma visão científica que escapa da exegese tradicional, mostrando que o efeito da obra também deve ser estudado, já que as letras só ganham vida quando são lidas, como adorava dizer Jorge Luis Borges.
| | Seu foco foi menos a obra e mais seu efeito nos leitores. Acha que o trabalho de Lobato gera múltiplas leituras? | JRWP - Indiscutivelmente. Na sua correspondência a respeito de literatura infantil - principalmente com Godofredo Rangel - Lobato faz diversas menções a ter lido em algum lugar sobre as criancas "morarem" nos livros. Os leitores de Lobato moraram nos seus livros. Alguns ainda moram, ou passam lá temporadas. Os livros de ML eram livros de capa dura e ficavam em trapos porque os seus proprietários - leitores mirins - não se cansavam de ler e reler as aventuras do pessoal Sítio do Picapau Amarelo. | | Você entrevistou diversas pessoas para coletar dados, inclusive dos mais altos cargos. Quais delas pareciam ter maior intimidade com a obra de Lobato? | JRWP - Nenhuma delas deixava de ter uma ENORME intimidade com a obra, a não ser os que não leram em crianca - so adultos. O que eu percebia e que a intimidade era extremamente individual, cada um a seu jeito. Como se fossem amigos da casa, uns lidavam melhor com Tia Nastácia ou Dona Benta, outros com o Visconde, Narizinho ou a Emília, mas sempre relacionavam o que liam com a vida real de cada um, muitas vezes compensando na fantasia o que lhes faltava na realidade. | | Acha que os leitores de Lobato não permitiram que a palavra lida alterasse sua forma de decidir sobre o mundo? | JRWP - Essa é uma pergunta chave e que eu escrevo, no livro, que não ficou respondida pela minha tese, nem nunca sera. Não entrevistei FHC - tentei mas não consegui - não sei se leu Lobato. Mas, na vida adulta, nenhum de nós praticou Lobato - isso ate porque o ideologo Lobato era cheio de contradições, como a natureza humana. Acho que a leitura de Lobato teve, principalmete, influencia nas atitudes e nas crenças das pessoas, não nas coisas que fizeram ou tiveram de fazer. Lembro, por exemplo, de um grande amigo (que não sei se leu Lobato, porque estava muito doente quando fiz minha pesquisa), o Carlito Maia, que dizia: "Posso fazer até o que não gosto, mas não faco o que não quero" e que todo fim de ano, durante a ditadura militar, mandava um cartão pros amigos escrito "Resisto". Isso é lobatiano pra burro. | | Monteiro Lobato está ultrapassado? | JRWP - Só quando a humanidade ficar ultrapassada. E, assim mesmo, pode ser que não. | | Qual a grande contribuição desse escritor para a literatura brasileira? | JRWP - Na literatura convencional ele mostrou aos modernistas como era ser moderno, ou como devia ser. Alguns perceberam. Na literatura infantil, Lobato e o maior gênio dessa literatura, universalmente - e olha que eu tive de pesquisar MUITO o que os outros escreveram. Alguns são muito bons. Mas Lobato é único.
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